Como a URSS se tornou uma potência enquanto os EUA enfrentavam a fome

Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 13/11/2018)

INTRODUÇÃO

Após anos de imperialismo — ou neocolonialismo –destinado ao desenvolvimento econômico de nações capitalistas, as condições internacionais que propiciaram a Primeira Guerra Mundial foram criadas. E foi aproveitando o cenário de pós-guerra, com um resultado de eliminação de vidas humanas sem precedentes, que os Estados Unidos puderam ascender ao patamar de superpotência. O desgraçamento da Europa tornou-se meio de lucro dos EUA e o estilo de vida americano pôde entrar em voga. O capitalismo parecia que finalmente havia chegado à sua fase madura de prosperidade que duraria para sempre. Todavia, como esperado, tal fase não durou muito, certo que, em 1929, estourou a maior crise da história do capitalismo desde então. Tendo início nos EUA, a crise se alastrou pelo mundo, corroendo as entranhas do capitalismo global. Contudo, em meio aos escombros financeiros, o desenvolvimento soviético persistia, o que não só impressionou o mundo como atraiu uma forte massa migratória composta por trabalhadores insatisfeitos com seus respectivos países capitalistas.

DO IMPERIALISMO À PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: A ANIQUILAÇÃO DE VIDAS HUMANAS COMO COMBUSTÍVEL DO CAPITAL

O capitalismo histórico, desde os seus primórdios, sempre demonstrou ser um sistema de caráter dominador e exploratório. Mesmo antes de vir a ser o modo de produção dominante em nível mundial, a expansão ultramarina do período colonial já dava um prelúdio quanto à acumulação de riquezas em larguíssima escala que viria a ser uma característica do capitalismo em sua fase monopolista posteriormente. Alguns chamam de mito a afirmação de que a história se repete, mas é inegável que ela pelo menos rima. Certo que, no século XIX, deu-se início a um movimento de expansão ultramarina semelhante ao colonialismo de séculos antes. Chamado de imperialismo — ou neocolonialismo –, esse fenômeno caracterizava-se por novas dominações de centros metropolitanos, agora capitalistas, sobre outros territórios. Embora haja divergências sobre como o capitalismo em sua fase monopolista propiciou a emergência do imperialismo, há consenso quanto ao papel crucial da expansão econômica ultramarina para os países capitalistas. Como destaca Eric Hobsbawm em seu livro A Era dos Impérios:

“Não precisamos discutir aqui os mecanismos específicos através dos quais o “capitalismo monopolista” levou ao colonialismo — as opiniões divergem a esse respeito, mesmo entre os marxistas — ou a ampliação mais recente dessa análise numa “teoria da dependência” de alcance mais geral, no fim do século XX. De uma forma ou de outra, todas partem do princípio de que a expansão econômica ultramarina e a exploração do mundo ultramarino foram cruciais para os países capitalistas.” [1]

Isso significa que o imperialismo foi um fenômeno de fortalecimento do modo de produção capitalista e que, portanto, foi algo essencial para a história desse sistema. Ademais as “rivalidades entre as potências capitalistas que levaram a essa divisão também geraram a Primeira Guerra Mundial” [2]. Ou seja, o imperialismo não fortaleceu apenas as potências capitalista, mas também a rivalidade entre elas, sendo esta uma condição importante para que mais tarde eclodisse uma guerra entre vários países. Uma vez que, em meio a vários jogos de disputas expansionistas, surgiram aliados diplomáticos dispostos a se auxiliarem em um contexto de guerra. Era uma constante inflamação do ambiente internacional à espera de uma pequena faísca que causasse o incêndio. E essa faísca veio com o assassinato de Francisco Fernando, o herdeiro do trono austro-húngaro, morto por um nacionalista iugoslavo. O que fez com que a Áustria-Hungria decretasse guerra contra o reino da Sérvia e, consequentemente, com que as alianças diplomáticas se envolvessem no conflito. Dando início à Primeira Guerra Mundial, cuja fórmula de desencadeamento é resumida por Hobsbawm da seguinte maneira: “(…) o desenvolvimento do capitalismo empurrou o mundo inevitavelmente em direção a uma rivalidade entre os Estados, à expansão imperialista, ao conflito e à guerra.” [3]. Sendo assim, o capitalismo, de fato, gerou as condições que fariam a Guerra tomar forma.

Segundo o Centre européen Robert Schuman, o “número total de vítimas militares e civis na Primeira Guerra Mundial foi de cerca de 40 milhões. Foram 20 milhões de mortes e 21 milhões de feridos.” [4]. Vítimas estas que podem ser encaradas como consequência de um jogo de poder de motivação econômica da ordem capitalista global. Contudo, vale destacar que essa destruição não foi mero efeito de motivações capitalistas, mas também causa de outras motivações capitalistas, que ocasionaram, por sua vez, a ascensão americana ao patamar de superpotência durante o pós-guerra. Uma vez que os prejuízos da guerra fizeram as potência europeias voltarem-se aos EUA, que se tornaram “a principal fonte dos recursos necessários para colocar novamente em marcha a engrenagem do comércio internacional” [5]. E, assim, tornou-se a maior exportadora de capital do mundo. Como destaca Rogério Arthmar, em seu artigo “Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra”:

“Estimativas recentes da movimentação financeira internacional à época revelam que, do total de $7,4 bilhões emprestados às nações da Europa entre 1924 e 1930, sendo 60% desse valor provenientes dos Estados Unidos, $3,5 bilhões compreendiam ativos de curto-prazo, dos quais $2,4 bilhões estacionados na Alemanha (Feinstein, Temin e Toniolo, 1997:85-97).” [6]

Inegavelmente, o arruinamento da Europa contribuiu para pôr os Estados Unidos no topo da cadeia alimentar do ambiente econômico internacional. Os interesses econômicos de nações capitalistas primeiro criaram as condições para a Guerra surgir e, após essa mazela, o ambiente de desgraçamento do pós-guerra, cujo resultado foi dezenas de milhões de mortos e feridos, tornou-se o balcão de comércio da burguesia americana.

A CRISE DE 29: A QUEDA DOS ESTADOS UNIDOS E O DESENVOLVIMENTO IMPLACÁVEL DA URSS

Não se entrará aqui em grandes detalhes sobre as causas da Grande Depressão de 1929. Basta ter em mente que foi uma crise do capitalismo na totalidade de seu sistema historicamente contraditório. Afinal, há tanto evidências que apontam para esquemas da iniciativa privada [7] quanto para gerências mal-sucedidas da burocracia capitalista [8] como culpadas pela devastadora crise. Sendo notório que polos econômicos europeus da época também sofreram bastante com a crise financeira, tais como Alemanha, Itália, Reino Unido e França. E foi utilizando números não-oficiais, dado o descrédito aos oficiais atribuídos pelos autores, que Paul R. Gregory e Joel Sailors expuseram uma comparação entre esses países e a URSS no período da Grande Depressão. Como descreve os autores, sob o princípio de desenvolver uma economia autárquica que evitasse os distúrbios internacionais do capitalismo, a URSS buscou elevar sua taxa de poupança doméstica para financiar sua formação de capital sem depender do capital estrangeiro. Exportações eram vistas com maus olhos e eram toleradas apenas em casos estritamente necessários de contrapartidas por meio de importações. Ademais, dado o desinteresse do planejamento em relação a créditos, a economia soviética encontrou-se em um estado de desenvolvimento voltado estritamente para dentro, o que a tornou independente do mercado de capitais mundiais e de suas instabilidades [9]. Dessa forma, “a URSS experimentou uma rápida expansão da produção e do investimento entre 1928 e 1937, enquanto os principais países industrializados registravam produção e investimento real estagnados ou em declínio.” [10].

Como pode ser observado nos gráficos a seguir, em comparação às principais nações capitalistas da época, a URSS apresentou um despontamento singular no que tange o largo aumento do seu PIB e a acelerada evolução do seu índice de formação de capital [11].

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Índices do PIB: URSS e outro países , 1920-40 (1929 = 100)
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Índice de formação de capita: URSS e outros países, 1920-40 (1928 = 100)

O mundo via o capitalismo padecer enquanto a URSS mantinha-se firme entre as ruínas financeiras. O otimismo quanto ao modelo soviético era grande. O que fez que uma grande massa de migrantes legais e ilegais adentrasse no país em busca de oportunidades de emprego. Segundo números oficiais de setembro de 32, a URSS, que havia fechado contratos com vários empreendimentos ocidentais — americanos, alemães, franceses etc –, havia empregado 9190 especialistas e 10655 trabalhadores estrangeiros, acompanhados de suas respectivas famílias, contabilizando 17655 membros. Todavia, considerando imigrantes ilegais sub-notificados, presume-se que esse número é bem maior [12].

Diante disso, a propaganda anti-comunista alega que o grande desenvolvimento da URSS teve um alto custo humanitário, apontando para o que chamam de Holodomor, uma grande onda de fome que assolou a Ucrânia, esta que teve como consequência milhões de mortos. Primeiramente, é importante salientar que, ao contrário do que a propaganda anti-comunista veicula, o dito Holodomor não foi um genocídio, enquanto um extermínio deliberado com o objetivo estrito de eliminar um determinado grupo étnico, como foi o Holocausto. Como bem resgata Losurdo, quem criou essa versão foi Robert Conquest, um agente ligado ao serviço secreto britânico, cuja finalidade era influenciar “a radicalização dos ímpetos independentistas da Ucrânia” [13]. Tal onda de fome realmente ocorreu, contudo, não foi um ato deliberado do planejamento soviético com estrita intenção de eliminar o povo ucraniano. Como reconhece Stanislav Kulchytsky, historiador ucraniano e grande crítico do stalinismo que já usou o termo “genocídio” para se referir ao Holodomor, é confuso usar a palavra para se referir a esse episódio, certo que há uma imensa fragilidade na tentativa enquadrá-lo no sentido estritamente legal do conceito de genocídio. Agora, falando em números, em meio a imprecisões de cálculos, a estimativa mais precisa, do historiador Stephen Wheatcroft, baseada em arquivos soviéticos, estima um número entre 3 e 3.5 milhões de mortos na Ucrânia e algo entre 6 e 7 milhões em toda URSS [14]. O que demonstra que a ditadura do proletariado enfrentou sim problemas, isso é necessário reconhecer. Contudo, o grande ônus humanitário em meio ao rápido crescimento econômico não foi algo exclusivo da União Soviética. Pois os críticos parecem esquecer que o rápido desenvolvimento dos EUA durante o pós-guerra foi propiciado por um conflito bélico mundial, cujas condições de origem foram criadas por interesses econômicos de nações capitalistas, que gerou 40 milhões de vítimas, dentre essas 20 milhões de mortos, como já exposto anteriormente. Ademais, considerando o período da Grande Depressão, segundo estimativas do historiador russo Boris Borisov, a fome teria sido a causa da morte de 7 milhões de pessoas nos EUA entre 1932 e 1933, período este em que milhões de agricultores foram expulsos de suas terras por bancos por causa de dívidas [15]. Ainda durante esse período, eram comuns relatos postais sobre a fome enfrentada pela população. Pessoas implorando por comida e outras comendo pedras no café da manhã tornou-se realidade nesse episódio da história americana [16], que, tendo impactado de maneira tão traumática o País, modificou toda a sua cultura de controle de qualidade alimentícia posterior [17] . A experiência soviética não foi perfeita, mas seus críticos devem começar a apontar o dedo para si e reconhecer que a ordem espontânea do Capital também não é. Deveriam fazer como Stalin, que reconheceu que o período de transição do capitalismo para o comunismo não é apenas um período de avanços e vitórias, mas também de recuos e derrotas:

“Portanto, a ditadura do proletariado, a transição do capitalismo para o comunismo, não deve ser considerada como um período fugaz de atos e decretos “super-revolucionários”, mas como uma era histórica inteira, repleta de guerras civis e conflitos externos, com trabalho organizacional persistente e construção econômica, com avanços e recuos, vitórias e derrotas.” [18]

CONCLUSÃO

Diante disso, percebe-se que a URSS, embora tenha tido baixas, também teve conquistas importantes. Seu planejamento baseado nas previsões de Marx quanto à instabilidade do sistema capitalista lhe permitiu desenvolver uma economia independente que não estava suscetível às crises do Capital, tal como a Grande Depressão de 1929. O que, por sua vez, lhe permitiu ter um crescimento econômico incrível nessa mesma época, enquanto os polos capitalistas estagnaram. Isso demonstra como a experiência soviética teve conquistas que podem, com toda certeza, servir de inspiração, tal como os erros devem servir de aprendizado.

REFERÊNCIAS

[1] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 52 p.

[2] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 52 p

[3] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 250 p

[4] SCHUMAN, Centre Européen Robert. World War I casualties. Disponível em: <http://www.centre-robert-schuman.org/userfiles/files/REPERES%20–%20module%201-1-1%20-%20explanatory%20notes%20–%20World%20War%20I%20casualties%20–%20EN.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[5] ARTHMAR, Rogério. Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2156>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[6] ARTHMAR, Rogério. Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2156>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[7] Charles E. Persons. Credit Expansion, 1920 to 1929, and its Lessons. The Quarterly Journal of Economics Vol. 45, No. 1 (November 1930). 94-130 p

[8] OHANIAN, Lee E.. What – or Who – Started the Great Depression? Disponível em: <http://www.econ.ucla.edu/people/papers/Ohanian/Ohanian499.pdf?fbclid=IwAR26tUSsJIebLBIwIzTOhETqMNBkoNdyupn6IULZbTd-ZH64FnKR7TY5IWI>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[9] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 199-202 p

[10] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 193 p

[11] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 192-193 p

[12] KOSTIAINEN, Auvo. Illegal Emigration to the U.S.S.R. During the Great Depression. Disponível em: <https://www.genealogia.fi/emi/art/article237e.htm>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[13] LOSURDO, Domenico. Stalin: História crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010. 198-200 p

[14] KULCHYTSKY, Stanislav. Was the 1933 Holodomor an act of genocide? Disponível em: <https://day.kyiv.ua/en/article/history-and-i/was-1933-holodomor-act-genocide-0>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[15] FAMINE KILLED 7 MILLION PEOPLE IN USA. Rússia, 19 maio 2008. Disponível em: <http://www.pravdareport.com/world/105255-famine/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[16] UYS, Errol Lincoln. THE BOXCAR BOYS AND GIRLS. Disponível em: <http://erroluys.com/greatdepressionarchive3.html&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[17] HOW THE GREAT DEPRESSION STILL SHAPES THE WAY AMERICANS EAT. Estados Unidos, 22 dez. 2016. Disponível em: <https://www.theatlantic.com/business/archive/2016/12/great-depression-eat/511355/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[18] STALIN, Josef. THE DICTATORSHIP OF THE PROLETARIAT. Disponível em: <https://www2.stetson.edu/~psteeves/classes/stalindictatorship.html>. Acesso em: 13 nov. 2018.

Entenda como crises financeiras se formam e destroem sua vida

Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 25/10/2018)

Relações financeiras não são um fenômeno recente na história da humanidade. Contudo, a financeirização em larguíssima escala das relações econômicas ao redor do globo é um fenômeno bastante recente dentro da contemporânea ordem capitalista. Sendo denominado como capitalismo financeiro, portanto, tal fase atual do capitalismo. Certo que este modo de produção, em seu formato recente, apresenta uma dependência cada vez maior do sistema de crédito para financiar a valorização a valorização do Capital. Na fase financeira, o movimento convencional do lucro que exige a intermediação da mercadoria reproduzida pelo capital (D-M-D’), i.e. bem econômico necessário à produção de outros bens e serviços que serão ofertados no mercado, concorre com o movimento generalizado do lucro sem essa intermediação direta do um capital físico. No sistema financeiro, observa-se um movimento que parece mágico, o dinheiro apresenta a capacidade de se valorizar sem a necessidade de mercadoria (D-D’). Obviamente, tal valorização não se deve a um fenômeno de ordem metafísica. Mas sim devido ao preço atribuído ao tempo dentro da ordem capitalista, como atualmente já é consenso. Por exemplo, instituições financeiras lucram emprestando dinheiro cujo crédito a ser pago no futuro rende um excedente devido ao tempo que esse dinheiro ficou à disposição do credor dentro do prazo solicitado. Cotidianamente isso fica mais claro quando nos abstemos de pagar algo à vista no presente para poder pagar apenas no futuro através do cartão de crédito. O juro pago representa o preço do tempo que pudemos ter à nossa disposição para não pagar imediatamente o que compramos no presente. Estando embutida nessa taxa o lucro do fornecedor do crédito, afinal, nem o tempo é de graça. Agora representado por D-D’, o lucro se dá por meio do investimento em títulos, obrigações, certificados ou qualquer outro papel que represente um crédito que pode ser convertido em dinheiro.

Embora Marx não fizesse uso de noções mais sofisticadas de preferência temporal envolvendo o sistema de crédito, já que esse refinamento teórico foi desenvolvido apenas posteriormente, ele já tinha consciência de que tal sistema envolvia a comercialização do dinheiro como uma mercadoria a ser vendida no presente por um preço maior que será pago no futuro, cuja remuneração real, segundo ele, encontra sua gênese na mais-valia [1]. Contudo, sem entrar em mais detalhes envolvendo o debate sobre a natureza dos juros, é imprescindível ao atual contexto de financeirização do capitalismo e de suas sucessivas crises demonstrar o quão profético foi Marx. Sua atualidade em relação ao sistema financeiro é tão forte que Michael Perelman, economista e historiador americano, afirma que o comunista não só antecipou conceitos da teoria da instabilidade financeira do pós-keynesiano Hyman Mysnki como pode ter tido algumas de suas ideias usadas, sem a devida atribuição, por Friedrich Hayek, um dos desenvolvedores da teoria austríaca dos ciclos econômicos, cujo destaque em parte lhe rendeu o Nobel [2]. Em razão disso, mesmo diante de constantes proclamações da morte de Marx, este fantasma parece estar fazendo um excelente trabalho de sussurrador perante os ouvidos da humanidade, nos quais, após toda grande crise financeira, emerge o seu “eu te avisei!” fantasmagórico.

Embora os teóricos do Capital disputem sobre qual entidade econômica é a principal culpada pelas crises financeiras, Estado ou livre-mercado, essa polêmica não possui grande sentido dentro da teoria marxista. Certo que ambas as entidades são componentes de uma entidade maior que os comunistas estão constantemente a denunciar, o capitalismo. A elite burocrática é quem proporciona as condições legais para a elite mercadológica agir, enquanto esta é quem fornece grande parte do poderio econômico para o Estado se manter. No capitalismo, as elites públicas e privadas estão historicamente amalgamadas em uma relação de retro-alimentação mútua. Diante disso, é possível compreender o fenômeno, destacado por Marx, de “na maioria dos países os principais bancos que emitem cédulas bancárias são uma espécie de combinação peculiar de bancos públicos e privados” [3]. Ou seja, o sistema de crédito no capitalismo é constituído tanto pela gerência pública quanto privada. E suas crises possuem responsabilidade compartilhada entre esses dois setores, os quais, em conjunto, concentram o capital monetário apto a ser emprestado [4]:

“Desse ponto de vista, o negócio bancário consiste, em termos gerais, em concentrar nas próprias mãos, em grandes massas, o capital monetário emprestável, de modo que, em vez do prestamista individual, é o banqueiro que aparece como representante de todos os prestamistas de dinheiro diante do capitalista industrial e comercial. Eles se convertem nos administradores gerais do capital monetário.”

Sendo assim, o intervencionista é aquele que superestima a capacidade do poder estatal burguês de agir sem intensificar as contradições do capitalismo, já o livre-mercadista é aquele que superestima a capacidade das forças do mercado de agirem sempre com a responsabilidade que tanto idealizam. Mas, afinal, que movimentos econômicos causam crises financeiras? Para responder essa pergunta, é necessário primeiramente destacar a relevância que o sistema de crédito assume para o financiamento da expansão do Capital. Como expressa Marx, “o crédito acelera o desenvolvimento material das forças produtivas e a instauração do mercado mundial” [5]. Isto é, na fase financeira do capitalismo, as suas forças produtivas tornam-se cada vez mais dependentes do crédito advindo do sistema financeiro para se expandir. Por outro lado, o “crédito acelera ao mesmo tempo as erupções violentas dessa contradição, as crises (…)” [6]. Ou seja, se por um lado o sistema de crédito auxilia o Capital, por outro lado intensifica a rapidez com a qual as crises emergem. 

Como bem observou o comunista, existem momentos de grande prosperidade em que os agentes econômicos passam a confiar com grande segurança no fluxo de crédito na economia, dado que o fluxo real de dinheiro expressa uma quantidade que o fluxo de crédito é capaz de substituir [7]:

“Nesses períodos de prosperidade, o refluxo se dá facilmente, sem atritos. O varejista paga com segurança ao atacadista, que paga ao fabricante, que paga ao importador de matérias-primas etc. Mesmo quando essas condições deixam de existir, a aparência de refluxos rápidos e seguros continua mantendo -se por algum tempo, graças ao crédito posto em movimento, pelo fato de os refluxos baseados no crédito substituírem os refluxos reais.”

Contudo, como Marx chama a atenção: “Os bancos pressentem o perigo assim que os clientes começam a pagar mais com letras de câmbio do que com dinheiro.” [8]. Pois, “o crédito, ao permitir uma separação mais prolongada dos atos de compra e venda, serve de base para a especulação” [9]. Ou seja, a possibilidade de os agentes econômicos poderem arcar com despesas apenas no futuro pode proporcionar a proliferação de especulações de crédito cujos devedores não serão capazes de arcar com suas dívidas. Surgindo, a partir dessa fórmula genérica, as crises financeiras. Certo que o grande choque de confiança nos tempos de prosperidade tendem a levar a economia capitalista a um estado de especulação excessiva, onde o fluxo real de dinheiro, que representa o processo produtivo, não é capaz de acompanhar o comprometimento dos agentes econômicos com os contratos do sistema de crédito que deverão ser pagos no futuro. Ou, nas palavras de Marx, a especulação excede os limites capitalistas do processo de produção [10], estado este denominado de superespeculação [11], a partir do qual as crises financeiras emergem. 

Lyndon LaRouche, honrando suas raízes marxista, no século passado chamou atenção por conceber uma função típica do colapso, no qual ele representa os agregados financeiros, a quantidade de crédito, crescendo em um patamar maior do que os agregados monetários, a quantidade de dinheiro na economia [12]. Demonstrando, assim, a tendência à superespeculação dentro do capitalismo, o qual, historicamente, mostrou-se como factual em episódios como a Crise de 29 e a de 2008. Logo, o capitalismo histórico, longe do capitalismo dos evangelhos, já mostrou possuir essa contradição, concretizada pela ação conjunta das elites financeiras públicas e privadas. Enfrentando o mundo, atualmente, uma montanha de dívidas públicas e privadas jamais vista desde a Segunda Guerra Mundial. O total chega a uma fatura de 164 trilhões de dólares, o equivalente a 225% do PIB mundial. O que corrobora a tendência histórica do capitalismo quanto à acumulação desenfreada de dívidas que ultrapassam ferozmente o fluxo real da economia. Havendo inclusive o próprio FMI advertido que esses grandes níveis de dívida são preocupantes [13]. Uma bomba-relógio capaz de explodir a qualquer momento. Agora basta esperarmos a demanda pela leitura dO Capital voltar a aumentar quando a próxima crise financeira eclodir [14], para assim talvez descobrirem o que há de errado.

REFERÊNCIAS:

[1] O Capital III, Boitempo, p. 465

[2] https://michaelperelman.wordpress.com/2009/01/31/marx-before-minsky/

[3] O Capital III, Boitempo, p. 504

[4] O Capital III, Boitempo, p. 503

[5] O Capital III, Boitempo, p. 551

[6] O Capital III, Boitempo, p. 551

[7] O Capital III, Boitempo, p. 559

[8] O Capital III, Boitempo, p. 559

[9] O Capital III, Boitempo, p. 545

[10] O Capital III, Boitempo, p. 605

[11] O Capital III, Boitempo, p. 649

[12] https://archive.schillerinstitute.com/economy/phys_econ/worldeconomiccrisis.html

[13] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/08/economia/1528478931_493457.html

[14] https://www.dw.com/pt-br/crise-reaquece-interesse-por-obra-de-karl-marx/a-5195662

Tudo o que você precisa saber sobre a crise na Argentina

Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 19/10/2018)

Este texto tem como finalidade analisar relatório da CELAG — Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica – chamado “Argentina: destino incierto para una crisis económica no heredada”, o qual diagnostica a atual crise argentina [1]. Traçando um paralelo com a teoria do imperialismo de Lênin, será também demonstrado como as medidas neoliberais experimentadas na Argentina durante o governo do Macri foram subservientes aos interesses do mercado internacional e como isso foi de grande oneração à classe trabalhadora nacional. 

Antes de mais nada, faz-se necessário destacar como movimentos e portais brasileiros associados ao liberalismo apoiaram com otimismo a eleição do Macri, tais como o MBL e o Spotniks [2][3]. Não havendo em nenhum momento posterior à crise qualquer crítica ao governo neoliberal, apenas silêncio. Isso demonstra o nível de ideologização desses canais, os quais não perdem a oportunidade de apontar os “fracassos do socialismo”, não obstante, são incapazes de fazer uma autocrítica referente aos fracassos da aplicação de seus ideais. Portanto, resta o papel de crítico a nós, a esquerda anti-neoliberal.

Ainda há aqueles que buscam relativizar a responsabilidade do Macri afirmando que a crise foi herdada. De fato, Macri herdou do governo anterior condições indesejáveis de déficit fiscal e de endividamento externo, quadro este que o atual presidente havia prometido reverter com uma atuação de planos neoliberais. Entretanto, a prática de suas propostas, ao contrário do que fora prometido, aprofundou o endividamento argentino. 

Confiando demasiadamente na capacidade do mercado internacional de proporcionar crescimento econômico à Argentina, Macri tomou algumas medidas liberalizantes que abriram o País ao mundo, tais como: abolição de prazo para permanência do capital financeiro no país e liberalização de importações. Além de ter desmantelado o mecanismo de controle de preços do governo anterior, o que provocou aceleração da inflação e, posteriormente, rápida valorização do câmbio argentino, devido aos ajustes cambiais em relação às novas taxas inflacionárias. Diante disso, segundo a Celag:

“Desta forma, durante os primeiros dois anos do governo, uma taxa de câmbio relativamente apreciada foi combinada com o livre comércio, o que resultou em um esquema macroeconômico inconsistente em termos do setor externo.”

A inconsistência macroeconômica apontada pela Celag envolve justamente a ingenuidade do governo quanto à ferocidade do mercado internacional. Sem retenção mais rígida de remessas do capital financeiro, os investidores internacionais não possuíam interesse em manter seu dinheiro dentro do país por muito tempo, incentivando investimentos especulativos de curto prazo que provocaram mais saída a que receita. Com abertura comercial e câmbio apreciado, o emergente mercado argentino não foi páreo para a competição com o exterior. O câmbio valorizado tornou os produtos argentinos caros no mercado internacional e a derrubada de barreiras de importação tornou produtos estrangeiros baratos para o mercado nacional. Isso gerou um déficit na balança corrente do País que o tornou mais dependente da poupança externa para manter o equilíbrio de suas contas. Contudo, sem regras mais rígidas de retenção de capital financeiro no país, o grosso dos lucros dos investimentos internacionais deixaram o País na mão. Isso agravou o endividamento argentino, o qual foi intensificado mais ainda pela diminuição da carga tributária [4]. Sendo este mais um mandamento do credo neoliberal, que provocou maior decaimento da receita do Estado. Dessa forma, a dívida do Estado argentino disparou, pois, para suprir as perdas arrecadatórias, o Estado precisou contrair mais e mais dívidas¹. [5]

Ademais, após o aumento histórico dos juros básicos dos EUA², houve uma forte saída de investidores dos países emergentes em busca de maiores remunerações com títulos da dívida americana [6]. Provocando desvalorização cambial nesses países, cujo maior prejudicado foi a Argentina, que agora sofre com uma inflação galopante e incontrolável [7]. Tendo essa fortíssima evasão de investidores da Argentina, que não foi tão forte em outras economias, sido influenciada pelo desajuste da conta corrente do governo e pela incerteza de sustentabilidade da crescente dívida pública [8]. A excessiva confiança no mercado pegou Macri, novamente, desprevenido. A grande dívida externa contraída devido à confiança no mercado em proporcionar o financiamento das contas do governo é agora motivo para o próprio mercado não ter confiança no governo argentino.

Após perceber o fracasso das ingênuas medidas neoliberais adotadas , Macri anunciou o aumento de impostos para tentar manter a receita [9], o aumento estratosférico de juros para tentar controlar a inflação e manter investimentos no país [10] e, a mais traumática decisão, o retorno aos braços do FMI para manter o financiamento do déficit fiscal que a abertura econômica por si só não foi capaz de suprir [11]. Um empréstimo de 50 bilhões em junho [12] e de mais 7 bilhões em setembro de 2018 [13]. Um novo compromisso que tornará a Argentina mais uma vez submissa ao FMI. Este que, na década de 90, forneceu 38 bilhões ao País sob a exigência da adoção de paridade um peso = um dólar [14], o que beneficiou o mercado internacional em troca da saúde contábil da Argentina [15]. O povo argentino sofre ao ter que retornar às mãos da instituição capitalista que legou um trauma tão grande à nação.

Embora neoliberais preguem a possibilidade de colaboração multilateralmente benéfica entre agentes internacionais, o mundo real nem sempre segue esse script. Sendo o caso da Argentina um bom exemplo disso, esta que confiou de bom grado nas relações com o mercado internacional e teve sua já péssima condição de endividamento piorado por causa dessa ingênua abertura mercantil e financeira. Isso demonstra como o mercado internacional pode ser ferozmente parasitário à economia de países emergentes. Estando isso de acordo com os ensinamentos de Lênin, o qual corrobora que as periferias do mercado mundial são propensas a sofrerem o “parasitismo característico do imperialismo” [16]. O imperialismo é a fase do capitalismo em que há forças econômicas de magnitude mundial cuja competição é inviável para países como a Argentina. Tornando-os, assim, propensos ao parasitismo financeiro e mercantil toda vez que, crédulos no evangelho ideológico neoliberal, decidem aceitar o mercado internacional como seu salvador. Enquanto oferecem a classe trabalhadora, aquela que está se vendo obrigada a saquear supermercados diante dessa crise [17], como sacrifício.

NOTAS:

N1: Após Macri, a dívida externa argentina aumentou em 35%, tendo o FMI previsto um pico da dívida pública de 65% do PIB ainda em 2018

N2: Para entender o motivo do aumento de juros nos EUA, clique aqui

REFERÊNCIAS:

[1] http://www.celag.org/argentina-destino-incierto-crisis-economica-no-heredada/

[2] https://www.facebook.com/mblivre/videos/por-que-a-imprensa-não-quer-que-você-conheça-maurício-macri/337113943079422/

[3] https://spotniks.com/como-a-argentina-de-macri-esta-aplicando-um-7×1-no-brasil-de-dilma/

[4] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/31/internacional/1509483562_041053.html

[5] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/01/internacional/1514832832_626904.html

[6] https://www.terra.com.br/economia/a-onda-de-desvalorizacao-de-moedas-emergentes,ef847e701791cd49b74e834fb024502f9gakmdge.html

[7] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45470709

[8] https://exame.abril.com.br/economia/a-argentina-em-seu-labirinto-fiscal/

[9]https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/internacional/1535977553_350136.html

[10] https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2018/08/30/banco-central-da-argentina-aumenta-taxa-de-juros-de-45-para-60.htm

[11] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44035325

[12] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/06/argentina-assina-acordo-de-us-50-bilhoes-com-fmi.shtml

[13] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/09/argentina-e-fmi-anunciam-acordo-para-emprestimo-de-mais-us-7-bilhoes.shtml

[14] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/08/internacional/1525812410_093182.html

[15] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-98482006000200003

[16] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/cap8.htm

[17] https://jornalggn.com.br/noticia/resultado-da-politica-economica-de-macri-argentina-sofre-onda-de-saques

Entenda, em poucos passos, como os EUA estão entrando em sua próxima crise

Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 16/10/2018)

Existe um componente essencial ao capitalismo, descrito por Marx em sua economia política, nomeado de exército industrial de reserva. Segundo ele, é essencial ao funcionamento desse modo de produção a existência de uma taxa natural de desemprego que funciona como um estoque de mão obra disponível aos capitalistas, o qual serve como um inibidor de reivindicações por maiores remunerações aos trabalhadores. Certo que sempre é possível haver alguém desempregado disposto a abdicar de parte do tempo de lazer para trabalhar a mesma quantidade de horas por um salário menor. Forçando quem está empregado a ser mais eficiente se quiser preservar seu emprego. Conforme afirma Marx: 

“O excesso de trabalho da parte empregada da classe trabalhadora enche as fileiras da reserva, enquanto, inversamente, a maior pressão que o segundo exerce sobre o primeiro, força-o a submeter-se ao excesso de trabalho e à submissão sob os ditames do capital.” (TRADUÇÃO NOSSA) [1]

Contudo, uma implicação de magnitude mais expressiva dessa taxa natural de desemprego foi demonstrada por Edmund Phelps. Baseado na curva de Phillips, que expressa uma relação de trade-off entre desemprego e inflação, ele demonstrou que existe uma taxa natural de desemprego não-aceleradora de inflação. Ou seja, um ponto de equilíbrio da taxa de desemprego abaixo da qual a inflação aceleraria. Taxa esta composta pelo desemprego voluntário, pessoas que não desejam trabalhar, e pelo desemprego friccional, pessoas que estão em estado de procura por um novo emprego no curto prazo e, portanto, aptas a tomar o lugar de quem se mostre menos eficiente — a fatia disponível pra selvageria do mercado¹. Isso significa que existe um ponto de desempregabilidade abaixo do qual as expectativas inflacionárias dos agentes econômicos aumentam e fazem-os aumentar aceleradamente os preços. Segundo um artigo do The Economist dedicado a comentar essa teoria após ela ter proporcionado o Nobel ao seu autor:

“Em um mercado de trabalho tão apertado, as empresas apaziguam os trabalhadores oferecendo salários mais altos. Eles então repassam o custo na forma de preços mais caros, trapaceando os trabalhadores com um salário real mais alto. Assim, os formuladores de políticas podem engendrar menos desemprego apenas por engano.” [2]

Ou seja, quanto menor o exército de reserva, maior a capacidade de negociação do trabalhador por melhores salários, dada a menor quantidade de mão de obra disponível, o que faz a lei da oferta e da demanda agir pressionado os salários para cima. Contudo, os empregadores trapaceiam repassando esse aumento do salário aos preços dos próprios produtos que chegam no mercado que são consumidos pelos trabalhadores. Isso cria um cenário de conflito que só se equilibra quando a inflação corresponde às expectativas inflacionárias dos trabalhadores. Isto é, quando o exército de reserva está de um tamanho tal que permite que os preços dos salários – determinados pela oferta e demanda – não proporcionem um aumento dos repasses aos preços dos bens de consumo para além das expectativas inflacionárias dos trabalhadores. Permitindo, assim, que a inflação mantenha-se estabilizada. No entanto, ainda conforme o The Economist:

“Mas o equilíbrio não implica, infelizmente, em pleno emprego. Phelps argumentou que a inflação não irá se estabilizar até que o desemprego aumente para sua “taxa natural”, deixando alguns trabalhadores na prateleira.” [3]

Ou seja, o mainstream, de forma pomposa, finalmente reconheceu a existência do que os socialistas vêm tratando desde o século XIX como essencial ao funcionamento do capitalismo, o exército industrial de reserva. Sendo assim, o constrangimento econômico sofrido pelos trabalhadores, que se veem forçados a competirem ferozmente com seus companheiros, é essencial para manter a inflação estabilizada e, assim, preservar o próprio poder de consumo de sua classe. Ou se diminui o constrangimento econômico com mais postos de trabalho, aumentado a taxa de emprego e prejudicando o poder de compra dos próprios trabalhadores, ou se mantém uma inflação estabilizada, tolerando a existência do exército industrial de reserva e entregando os trabalhadores a um maior constrangimento econômico. O famoso “tiro no pé ou na mão” versão capitalismo. 

Eis que o Trump assume o poder da superpotência capitalista e evidencia de forma cristalina essa contradição intrínseca do capitalismo. Após anunciar uma série de desonerações, que trarão um déficit trilionário, os EUA experimentam a menor taxa de desemprego desde dezembro de 1969 (3,7%) [4], em troca do quarto anúncio de aumento de juros só em 2018 [5]. Pois, segundo os dados do próprio FED, a taxa de desemprego está em um patamar menor que o natural (4~5%) [6]. Democraticamente perguntaram se a nação americana queria um tiro no pé ou na mão; e escolheram no pé, porque com a mão ainda podem ser úteis a esse engodo cheio de contradições chamado capitalismo. Cuja modalidade americana expressa fortemente a emergência do precariado, trabalhadores que, na beira do precipício do exército industrial de reserva, encontram-se nas margens desse boom de empregos, em situação precária, sem moradia ou que dependem de ajuda oficial para comer [6]. Disputando entre si as migalhas na borda desse sistema fisiologicamente excludente e constrangedor àqueles que se entregam à alienação do sistema para se manterem produtivos sob a ameaça de caírem à condição de precariado, enquanto outros comemoram essa digníssima condição de emprego por ser um mero engordador de estatísticas. 

Houve espanto quando em 2016 a taxa de juros foi aumentada pela segunda vez em 8 anos, desde a crise de 2008 [7]. Agora, com o anúncio de um quarto aumento só em 2018, a crise explodir é apenas questão tempo. Certo que um ambiente econômico com juros distorcidos por causa de políticas econômicas irresponsáveis é propício à proliferação de investimentos cujo resultado é desconexo com as expectativas de resultado. Sendo notório que crises nos EUA surgiram em períodos de grande crescimento das taxas de juros [8].

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Cada pico das taxas de juros está historicamente relacionado a uma crise; a rumada para uma nova alta das taxas de juros não permite prever algo diferente

Diante desse prelúdio de mais uma crise estrutural do Capital, Marx não pode ser acusado de que não tentou nos avisar. 

NOTAS:

N1: Alguns incluem também o desemprego clássico, aquele desemprego involuntário sem perspectiva de recuperação de algum posto de trabalho no curto prazo. Contudo, dadas as divergências este texto preferiu trabalhar com o que já é objeto de consenso.

REFERÊNCIAS:

[1] 
MARX, Karl. The General Law of Capitalist Accumulation. In: MARX, Karl. Capital. Moscow: Progress Publishers, 1887. Disponível em: <http://hiaw.org/defcon6/works/1867-c1/ch25.html&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[2]  A NATURAL CHOICE. Londres. 12 out. 2006. Disponível em: <https://www.economist.com/finance-and-economics/2006/10/12/a-natural-choice&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[3]  DESEMPREGO NOS EUA CAI PARA 3,7% EM SETEMBRO, MENOR TAXA EM QUASE 50 ANOS. Rio de Janeiro. 05 out. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/10/05/criacao-de-vagas-de-trabalho-nos-eua-desacelera-em-setembro-taxa-de-desemprego-cai-para-37.ghtml&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[4]  NASDAQ DESABA MAIS 5% E TRUMP DIZ QUE O FED “ESTÁ MALUCO” EM SUBIR JUROS. São Paulo. 10 out. 2018. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/7689356/nasdaq-desaba-mais-de-5-e-trump-diz-que-fed-esta-maluco-em-subir-juros&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[5]  RESERVE, Federal. Natural Rate of Unemployment (Long-Term) (NROU). Disponível em: <https://fred.stlouisfed.org/series/NROU&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[6]  DESEMPREGO BAIXO NOS EUA ESCONDE AUMENTO DO NðMERO DE TRABALHADORES QUE VIVEM EM CONDIÇÕES PRECÁRIAS. Rio de Janeiro, 11 jun. 2018. Disponível em: <https://epoca.globo.com/mundo/noticia/2018/06/desemprego-baixo-nos-eua-esconde-aumento-do-numero-de-trabalhadores-que-vivem-em-condicoes-precarias.html&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[7]  O QUE SIGNIFICA O SEGUNDO AUMENTO DE JUROS NOS EUA EM 8 ANOS. São Paulo, 16 dez. 2016. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/12/16/O-que-significa-o-segundo-aumento-de-juros-nos-EUA-em-8-anos&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[8]  HOW INTEREST RATE HIKES WILL TRIGGER THE NEXT FINANCIAL CRISIS. Estado Unidos, 27 set. 2018. Disponível em: <https://www.forbes.com/sites/jessecolombo/2018/09/27/how-interest-rate-hikes-will-trigger-the-next-financial-crisis/#2b1af3226717&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

Não, amigo liberal, no capitalismo não há trocas voluntárias de verdade

A maioria dos adeptos à escola austríaca partem do princípio de que o capitalismo, em sua totalidade, nada mais é do que as relações de trocas entre os indivíduos, as quais são, supostamente, voluntarias. Não entrarei aqui no debate sobre o reducionismo que essa noção é, mas ponderarei sobre o “voluntarismo”.

Liberdade, na acepção marxiana, significa a capacidade dos indivíduos de escolherem entre alternativas concretas. Ou seja, dependendo de dadas condições, os indivíduos sempre têm, mesmo que limitadamente, a capacidade de optarem por possibilidades específicas de ações. Como essa capacidade sempre é, de modo mais ou menos espontâneo, mediada pela consciência, então apenas o ser humano tem essa capacidade, sendo os animais, encarcerados em um DNA bem determinado pela natureza, desprovidos dessa característica subjetiva. Para toda ação humana, há sempre a escolha entre alternativas concretas. E isso vai variar de acordo com vários fatores, tanto subjetivos quanto objetivos, como as próprias alternativas concretas que estão a dispor do realizador da ação, o conhecimento que o realizador tem em relação a realidade para a exteriorização dessa ação, as necessidades que o realizador quer atender etc. Primeiro elabora-se na mente uma ação com finalidade (teleologia), para depois exteriorizá-la para o mundo, transformando, assim, a realidade de alguma forma (Teleologia Subjetiva – Teleologia Objetivada – Transformação da Realidade). Portanto, a categoria da liberdade em si existe apenas no ser humano, porém, isso não significa que a liberdade seja plena e integral. [1]

Sendo assim, a própria liberdade tem limites específicos, determinados historicamente. Para as relações de trocas entre os indivíduos serem voluntárias, o âmbito social precisaria fornecer condições que permitissem a atuação da liberdade a tal nível, porém, não é isso o que acontece. Existe uma diferença entre aparência e essência. As expressões fenomênicas podem ter uma variação imensa dentro de um mesmo ser, o qual possui uma essência, um modo de funcionar bem determinado. Além disso, essas expressões, ao invés de mostrarem como aquela coisa funciona realmente, podem mascarar isso e, portanto, apresentarem atributos que, quando reproduzidas de forma desleixada pela subjetividade, tornam-se o oposto extremo de como a coisa geradora dessas expressões realmente é. E é exatamente isso que acontece nas relações de troca no capitalismo. 

Como já é sabido, a própria força de trabalho humana é uma mercadoria, uma vez que as próprias relações sociais capitalistas têm como elemento primordial de existência a “forma-mercadoria”. Os trabalhadores vendem a força de trabalho em troca de um salário, sendo os donos dos meios de produção os que irão comprar essa força de trabalho e oferecer um salário específico. Quando se fica apenas na superficialidade, na aparência, esse processo parece ser, de fato, algo voluntário, visto que ele se desdobra, aparentemente, a partir de um individuo que quer trocar, por escolha própria, a sua mão de obra por um salário; tendo do outro lado, outro individuo que quer trocar, também por escolha própria, um salário (capital variável) por essa mesma mão de obra. Contudo, quando se parte para a essência desse processo, para a raiz do modus operandi do capitalismo, descobre-se que, na verdade, esse é um processo que pressupõe uma relação de exploração entre os indivíduos. Chasin, em uma palestra, cuja a qual foi transcrita com o nome de “Método Dialético”, exemplifica bem como isso funciona:

“Quanto um operário encosta a barriga no balcão do Departamento de Pessoal de uma fábrica qualquer para pedir emprego, ele está disposto a que? A vender a sua força de trabalho. E o sujeito que o atende no balcão, que representa o capital, está disposto a comprar a força de trabalho. Tendo o balcão por peça de referência. Tendo indivíduos de cada lado que estabelecem um diálogo muito preciso, um querendo vender uma coisa, o outro querendo comprar uma coisa. Qual é o suposto disso? Está suposta uma igualdade. Entre o que compra e o que vende. Um é livre para vender, o outro é livre para comprar. Tudo aparece ali como se fosse uma transação entre iguais. E o é a nível fenomênico. Mas, e a nível essencial, ontológico? Aquela igualdade esconde uma desigualdade de raiz e de essência. Esconde que o sujeito só vai lá vender porque é a única maneira de sobreviver. Portanto, a pseudoliberdade, a aparência fenomênica, tem uma subordinação de raiz, que ele não pode vencer a não ser pela morte. Ele está coagido a vender, mas a aparência é de livre venda.” [2]

Porém, não apenas o trabalhador, mas o capitalista também não tem liberdade plena nas relação de troca; consequentemente não a faz, em sentido estrito, voluntariamente. O capitalista, certamente, tem mais liberdade, porém ainda assim é confinado pelo próprio sistema de metabolismo social vigente. Pra elucidar melhor como e porque isso ocorre, irei fazer uma hierarquia de valor (não no sentido axiológico, mas propriamente de utilidade/importância) no complexo “exploração”, na qual os capitalistas estão no topo e os trabalhadores na camada mais baixa. Essa hierarquia de valor é constituída por níveis com mais ou menos liberdade, visto que a liberdade é algo inerente ao próprio complexo do ser social, logo existe no mesmo com um caráter qualitativo e necessário. Portanto terei de admitir que, de uma forma ou de outra, mesmo que parcialmente, existe uma certa liberdade nas relações de trocas, porém, o intuito aqui é mostrar o porque de tal “liberdade” ser algo mais negativo do que positivo, que é onde entra a operacionalidade do capital.

O capitalista, ao investir parte do seu capital em força de trabalho, faz isso porque precisa eliminar seus concorrentes produzindo e vendendo mais, de modo que atendam às exigências do sistema de controle social chamado “capital”, o qual tem como fundamento último o lucro. Sendo assim, o capitalista não pode escolher não investir em força de trabalho (aqui eu me refiro tanto a força de trabalho humana quanto a mecânica, visto que na época contemporânea a automatização dos processos produtivos está a todo o vapor), já que ela é uma condição irrevogável para o capitalista crescer continuamente (ter uma reprodução ampliada do capital) ou, no mínimo, se manter na posição que está (ter uma reprodução simples do capital). Se o capitalista se atrever a não investir, nesse sentido, ele simplesmente vai à falência e desce de posição na hierarquia da exploração.

Quando o Bawerk, ao tentar explicar o lucro como não sendo fruto de exploração, afirma que o capitalista precisa esperar para colher os lucros do capital, ele não está errado, contudo, a espera de um trabalhador exige muitos mais ônus que a espera de um capitalista, já que ele nasceu em um contexto histórico-social, definido antes de seu nascimento, o qual não escolheu para si, em que ele não é capaz de poupar e investir como um capitalista. O trabalhador tem necessidades que precisam ser supridas de formas mais imediatas, como não passar fome, manter seu abrigo etc, sendo justamente por isso que a exploração não cessa. E é exatamente por isso que há uma hierarquia, que mostra que não há uma voluntariedade propriamente dita na relação de troca. Contudo, por o capitalista estar no topo, ele faz o papel de explorador, enquanto o trabalhador faz papel de explorado, o qual está em condição de maior dependência a fim de ter necessidades muitos mais imediatas supridas. Ou seja, por mais que ambos possuam certa liberdade, o que pertence ao ponto mais alto da hierarquia sempre estará em vantagem e, portanto, terá o poder de subordinar o que está na parte mais baixa. Pode-se reproduzir essa lógica, sinteticamente, da seguinte forma:

1. Sistema de Controle do capital: Controlador de tudo e de todos na sociedade vigente, aquele que é o responsável pela existência do complexo “exploração”.

2. Capitalista: Aquele que, já no interior do complexo “exploração”, tem o papel de desenvolver o próprio capital, de modo que o mantenha existindo e que mantenha a si mesmo em uma posição confortável, a partir da subordinação da classe trabalhadora.

3. Trabalhador: Aquele que é subordinado ao capitalista, que se não vender a sua força de trabalho para o mesmo, simplesmente irá morrer de fome, dentre outras necessidades. É também aquele que, se não se tornar capitalista de alguma forma, jamais irá ascender nessa hierarquia significativamente.

Sendo assim, o que existe é apenas uma liberdade parcial, que está subordinada à própria lógica do capital e que consequentemente não pode ir além dela. Por isso Mészáros afirma que o Capital é superável, mas não pode ser controlado. Tanto o capitalista quanto o trabalhador, os quais realizam na prática tal liberdade, estão sujeitos às exigências do capital, pois, caso não cumpram suas exigências, simplesmente irão descer cada vez mais na hierarquia exploratória, inerente aos próprios fundamentos do capital. Ou seja, por mais que pareça que há pessoas controlando o capital, na verdade, estão todos sendo controladas por sua própria natureza, a qual, caso não seja atendida, irá se voltar contra os que, aparentemente, são controladores do sistema. Em sua maior obra, o “Para Além do capital”, Mészáros explicita esse caráter incontrolável e anárquico do capital:

“O poder do capital social total, como controlador da reprodução sociometabólica, é indivisível, apesar das mistificações perpetuadas pela ideologia burguesa sobre ‘a divisão de forças’ na esfera política (…) Esse modo peculiar de controle sem sujeito, em que o controlador é na verdade controlado pelas exigências fetichistas do próprio sistema do capital, é inevitável, devido à separação radical entre produção e controle no âmago deste sistema. ” [3]

Me arrisco a dizer que o comunismo, uma sociedade sem estado, exploração, dinheiro, leis, pátria etc, inauguraria a primeira sociedade na história em que os homens não seriam submetidos à lógica de um metabolismo social específico. Uma vez que esse modelo societário pressupõe a superação e a conquista de uma multiplicidade de condições jamais vistas pela humanidade, devido ao grau subjetivo (uma nova consciência humana) e objetivo (novo patamar produtivo-tecnológico) inerente a esse sistema. Portanto, no comunismo, não haveria mais a sujeição abjeta de indivíduos a uma determinada ordem econômica, mas sim a uma atividade livre dos indivíduos. Por isso que essa sociedade seria constituída por “indivíduos livremente associados”, que por sua vez é caracterizada exatamente como “Reino da Liberdade”. [4]

Em suma, a liberdade que há no sistema do capital se torna algo negativo e extremamente limitado, uma vez que ela só existe se, de alguma forma, os indivíduos participarem dessa hierarquia inerentemente exploratória e obedecerem todos os ditames objetivos do capital. Caso esses critérios não sejam seguidos por determinados membros da sociedade burguesa, a tendência é que eles afundem cada vez mais nas camadas sociais mais baixas, onde se possui menos acesso a recursos necessários para pôr em práticas as verdadeiras potencialidades desejadas.

Referências:

[1] Lukács – Para Uma Ontologia do Ser Social

[2] Chasin – Método Dialético 

[3] Mészáros – Para Além do Capital

[4] Karl Marx – Manuscritos Econômico-Filosóficos

Karl Marx, o mestre pouco falado de Keynes

Humberto Matos (publicado originalmente em 15/07/2018)

John Maynard Keynes mudou o rumo da ciência econômica ao abrir margem para a concepção de moeda como dívida pública. Introduziu uma série de mudanças que alteraram o paradigma capitalista e, momentaneamente, salvou o capitalismo de si mesmo.

Keynes era um liberal, um marshaleano da tradição marginalista(1). Entretanto, ele conseguiu compreender que a moeda não é neutra no capitalismo, compreendeu que a relação produção-circulação-valor é a base do que garante os ganhos que fazem o capitalismo existir e se manter. Compreendeu que a demanda é função da renda e que os preços são rígidos. Cito isso para ilustrar algumas das determinações encontradas por Keynes para além do espantalho infantil da “impressão de dinheiro”, que infelizmente cresce e se tornou o que chamo de “keynesianismo vulgar da internet”. Ele percebeu que a moeda necessita de valor e o que ao cabo, o valor da moeda é o que a economia é capaz de produzir. E que para produzir, o segredo encontra-se na demanda que só se mantém se houver crescimento, ou seja, se nunca cessar a circulação das mercadorias.

Há aí uma junção de concepções da economia vulgar sob um novo arranjo e uma nova interpretação que deu margem para a economia criar uma espécie de taxonomia – que será introduzida depois: a ideia de expectativas(2).

Ao estabelecer a moeda como dívida pública, não Keynes, mas o mercado, tornou-se evidente que o dinheiro e, portanto, o fenômeno da inflação, deixou de se comportar como uma mercadoria. O dinheiro no capitalismo nunca foi uma mercadoria. Quando se deixou de trocar mercadorias por mercadorias sem a opção do intermédio do dinheiro é que passamos a ter capitalismo. Ou seja, essa noção de que oferta e demanda determinam o preço da moeda, na verdade, não tem impacto determinante sobre a mesma em uma economia de mercado(3).

A proposta keynesiana é deveras limitada. Não analisa a estrutura que dá origem ao valor social, não observa as relações sociais que se criam no estabelecimento desta configuração, nem consegue perceber o tempo e o meio como influência determinante diante de qualquer realidade material. Contudo, Keynes conseguiu o que os demais economistas liberais não haviam conseguido: uma teoria monetária válida que consegue descrever parte do movimento do real.

Os liberais não tem uma teoria monetária. Verdadeiramente, não. Há uma interpretação da moeda como mercadoria. O que fizeram foi estabelecer a Teoria Quantitativa da Moeda para explicar como o dinheiro se comporta em meio a sociedade mercantil capitalista(4).

Desde que o capitalismo deixou de ser um mero jogo de trocas de figurinhas, ou seja, desde que ele se estabeleceu – porque jogo de troca de figurinhas não é capitalismo – a TQM não explica a moeda. A moeda é um representante do valor, não é o valor. A moeda é um mito, um mito de um mito que é o dinheiro(5). A moeda é um papel que pode e é reproduzido. Nenhuma nação controla a oferta de moeda, não em absoluto, e no máximo no curto prazo(6). Nem nos tempos do padrão ouro era possível controlar. Talvez houvesse sim mais meios, porém além de não ser possível, jamais foi desejável em virtude de ser também esse tal crescimento (da oferta de dinheiro) um dos determinantes da expansão da atividade capitalista(7).

David Hume desenvolveu a TQM a partir do que havia a seu tempo(8). Um capitalismo embrionário, metalista onde nem mesmo as nações que empreenderam no capitalismo estavam consolidadas. A questão é que a partir de então, essa é a teoria que embasa a tradição liberal(9). Claro, no estabelecimento do capitalismo – a ferro e fogo – as nações que estavam nesta empreitada, sabiam exatamente como desenvolver seus mercados: proteção do setor de rendimentos crescentes e do mercado interno, inovação e controle de alguma matéria prima importante. A chamada “renda tripla”. 
O que ocorre, é que os manuais padrões não trazem o desenvolvimento histórico do capitalismo, trazem a matematização enviesada do mesmo, optando por mostrar um desenvolvimento da economia olhando para si própria, digo, os pesquisadores responsáveis pelo desenvolvimento econômico encontravam-se nos países onde ele havia se estabelecido e seus estudos, daí em diante, basearam-se neles olhando para eles mesmos(10). Os economistas vulgares, desde sempre, somente se dedicaram a tentar desenvolver este sistema de produção e circulação e fazê-lo trabalhar com crescimento e equilíbrio sem jamais questionar seus fundamentos(11).

Após o período de estabelecimento das nações continentais capitalistas: Inglaterra, França e Estados Unidos, o capitalismo assumiu sua necessidade de manter os retornos crescentes em escala crescente. Neste ponto, toda a tradição que vinha lá de Serra e que se consolidou com List – já que Marx se transformou em algo que as nações não podiam tolerar – foi subjugada. As mesmas nações que se apropriaram do modelo de List para se desenvolver, sabiam exatamente que para continuar se desenvolvendo sem deixar que as demais nações que iam se unificando os ameaçassem em sua disputa por hegemonia, impuseram, enquanto disputavam entre si por mercados, uma estratégia de dominação econômica que, entre outras coisas, estabeleceu a teoria ricardiana como modelo, impondo o esquecimento do modelo de List(12).

A teoria ricardiana, que vem do “alerta de Malthus”(13), estabelece que setores de retornos decrescentes poderiam provocar desenvolvimento. A lógica é simples: vai faltar comida se não produzirmos mais, já que a crescente população está demandando cada vez mais comida. Naquele momento isso parecia razoável diante das tecnologias de produção existentes e da taxa de natalidade e de expectativa de vida à época(14).

A Europa havia passado por várias situações que reduziram sua população após a crise do feudalismo que foi essencialmente uma crise populacional, e foi neste momento que germinou o capitalismo. Foi assim que retornos crescentes baseados na inovação geraram riqueza nos primeiros nichos capitalistas como Veneza, Gênova e Países Baixos(15). 

De Malthus veio Ricardo, e Ricardo, ao criar a primeira formalização de um “modelo econômico”. Criou a ferramenta para justificar a exploração colonial necessária para, não só o convencimento político durante as disputas com os locais na Ásia, África e Novo Mundo, como para agir na diplomacia no continente europeu diante das nações que não se estabeleceram neste período, como Itália e Alemanha, e nas que estavam estabelecidas mas foram convencidas a não fazer o que fizeram Inglaterra, França e Holanda – no caso, às Coroas Ibéricas. 

O ouro, a escravidão e os ganhos de mercado gerados pela colonização construída pelas baionetas, garantiram que esse modelo funcionasse até o momento em que se tornou impossível impedir a eclosão dos processos de independência nas colônias. Ou seja, novas nações, novos entes a buscarem soberania econômica e inserção neste mundo capitalista.

Obviamente que neste processo, as independências não acabaram com a exploração. A desigualdade de poder econômico provocava uma desigualdade de poder político de barganha entre as jovens nações e as já bem estabelecidas. A exceção foi os Estados Unidos. Lá, devido a uma conjunção de fatores, que talvez os principais possam ter sido a forma de colonização organizada pelos ingleses no norte, e mais tarde, a influência francesa no processo de independência, colocaram os Estados Unidos numa situação onde não houveram prejuízos da mesma ordem que nas demais emancipações no Continente(16).

Os estadunidenses sabiam exatamente como se desenvolver e não foi através do modelo ricardiano – ao menos não enquanto não obtiveram competitividade extra preço. O fato é que o modelo ricardiano sempre foi ferramenta ideológica, assim como o modelo de Samuelson que baseou o Consenso de Washinton, e que nada mais é que a derivação do proposto por Ricardo(17).

Mas voltando, uma vez estabelecidas as nações modernas, uma vez que os Estados Unidos também utilizando da mesma ferramentaria que desenvolveu Holanda e posteriormente Inglaterra e França, a economia, na academia, continuou a debater o capitalismo, a pesquisar. Neste período a tradição ricardiana suplantou completamente o modelo de List. De Ricardo se chega a Marshall e de Marshall à Keynes. Ainda estamos bem antes de Keynes.

Toda essa tradição é o que conhecemos por “liberalismo clássico”, os pais ou avós do “free trade”. Se este foi o modelo que floresceu academicamente – não coincidentemente foi na Inglaterra – onde formaram-se as mais conceituadas Faculdades de Economia que ditavam os viéses que, convenhamos, vinham a calhar para as demais economias desenvolvidas como o demonstrado atualmente por Reinert, Chang, Piketty, Keen, Hudson e outros. 

O mundo capitalista, pela baioneta ou pela diplomacia (ou ambos), seguiu estas regras e princípios. Entre 1870 e 1929, ao menos, foi assim, e então as crises tornaram-se cada vez mais constantes até que em 1929, o sistema não suportou mais(18).

É aí que entra Keynes.

Keynes estava desenvolvendo sua teoria. Foi neste momento que ele conseguiu perceber os buracos existentes no capitalismo (que não era mais aquele capitalismo nascente de Serra, List, Smith e Ricardo) era um capitalismo estabelecido. Neste capitalismo estabelecido não cabia mais nem o modelo de List(19), nem o modelo de Ricardo. Ele, ao perceber as características da moeda, do efeito da demanda, da importância da circulação, da manutenção do valor e do caráter simbólico da moeda, finalmente conseguiu criar um modelo que era compatível e capaz de explicar a realidade com menos distorções. 

Foi esse o modelo responsável por salvar o capitalismo de si mesmo desde dos anos trinta do século XX até mais ou menos 1980(20).

Alguns parágrafos acima eu citei Marx como algo intolerável. Por quê?

Marx viu os mesmo buracos no capitalismo vistos por Keynes quase cem anos antes, antes mesmo do capitalismo chegar ao nível de desenvolvimento que era observável por Keynes.

Marx fez as mesmas identificações que Keynes em vários pontos, mesmo partindo de uma perspectiva absolutamente diferente. Marx identificou a moeda. No caso, ele se refere como “dinheiro”, que embora não seja absolutamente a mesma coisa, a essência (que é o fato de possuir valor) é o que interessa aqui, como uma mercadoria especial no capitalismo. Vejam, mercadoria “especial”, jamais uma mercadoria como os liberais antes de Keynes argumentavam – e que uma parte dos liberais utilizam como argumento até hoje. Especial porque é o melhor representante do capital. A moeda, para ser o melhor representante do capital, necessita carregar consigo o valor, uma vez que o capital em sua dinâmica produz mais valor. Aí já temos o primeiro ponto. Tanto para Marx como para Keynes, a moeda/dinheiro, só se constitui enquanto tal se tiver valor, se for “reserva de valor”.

Para Marx o valor se constitui no trabalho socialmente útil empregado na produção da mercadoria, o resto é preço. Para Keynes o valor da moeda depende da produtividade da economia forçada a trabalhar com a moeda em questão. Para Marx, o dinheiro representa o valor social, porque é através dele que a circulação ocorre, e sem circulação, sem reprodução do capital, sem reprodução, portanto sem capitalismo. Então vejam no modelo marxista, o valor se constitui na dinâmica que reproduz o capital, desta forma envolve produção, circulação e reprodução. Sem o dinheiro para transformar duas mercadorias desiguais em iguais, não haveria a troca e nem a possibilidade de existência do capitalismo. Dinheiro é meio de troca em Marx. E se o dinheiro consegue transformar dois desiguais em iguais e quantificar o valor através dos preços, podemos dizer que para Marx, dinheiro também é unidade de conta, uma vez que as mercadorias são trocadas por seus respectivos preços e estes são expressos no principal representante do capital, que é o dinheiro. 

Então percebam, dinheiro em Marx é meio de troca, unidade de conta e reserva de valor, pois o valor se encontra no capital e o dinheiro é o que melhor o representa. Mas não para por aí. Se na constituição do capital, a produção é parte constituinte, podemos dizer que em Marx, o valor do dinheiro depende da produção. Então temos uma incrível correlação, tanto em Marx quanto em Keynes, onde o que dá valor ao meio de troca é a produção, e não bastando isso, a definição de moeda em Keynes é exatamente: meio de troca, unidade de conta e reserva de valor(21).

O que venho demonstrando aqui é exatamente o que Marx viu a seu tempo, e que as nações que eram as responsáveis por desenvolver o capitalismo naquele período também sabiam: que o valor social se constitui na produção, na circulação e na reprodução do capital. O que se construiu pela economia vulgar – representada pela produção acadêmica mainstream – foi uma forma de buscar formalizar uma teoria política baseada na construção de modelos econômicos que buscam prever o que ocorre entre economias desenvolvidas, o que ocorre num nível cada vez maior de abstração, nas relações de produção e distribuição entre agentes econômicos cada vez mais específicos, ou seja, pesquisas para estabelecer melhores entendimentos sobre relações micro-econômicas(22).

O fato é que essas pesquisas se deslocaram completamente do que vinha ocorrendo em termos macro-econômicos e essa total cegueira, em um mercado que se tornava cada vez mais mundial e complexo e que operava sem nenhuma, ou no mínimo, com uma base teórica precária, já que a mesma não explicava os fenômenos da realidade e era construída a partir de uma matematização, o que a torna alto referenciada quando desprovida de taxonomias que possibilitem mitigar as distorções da tentativa de transformar em valores absolutos, aquilo que é em essência físico e humano e passível de toda a passionalidade e sazonalidade(23). Essa falta de referência, causa e produto de interesses político-econômicos, provocou as constantes crises até a paralisia completa do sistema em 1929(24).

O que a teoria keynesiana fez foi deslocar a economia mainstream da fantasia para realidade, e assim, salvar o capitalismo daquilo que ele criou como ferramenta de dominação das nações que saíram na frente no processo de estabelecimento do modelo econômico que temos até hoje. Keynes fez isso encontrando as mesmas propriedades no capitalismo que Marx encontrou quase cem anos antes, só que com um detalhe: jogando convenientemente para baixo do tapete o que Marx descobriu a partir de descobrir essa mecânica que Keynes identificou também. A Exploração e a consequente contradição de uma sociedade que tem como pedra fundamental a liberdade, mas que na realidade só existe em função da exploração do trabalho(25).

Keynes tratou de corrigir o que se fazia no que diz respeito a esfera da produção, circulação e reprodução, para que o modelo continuasse funcionando. Ele só não questionou o mecanismo que gera crescimento econômico, ou seja, o mais valor social. Também não questionou as condições que estabeleceram as relações que formaram a estrutura social que divide a sociedade em burguesia e proletariado(26). Aliás, esses termos sequer são significativos. Como isso foi possível?

Na verdade é bastante simples, basta não estabelecer distinção entre valor e preço. Keynes é marshaleano e, desse modo, não consegue estabelecer uma definição mais rica em determinações em relação a categoria capital, que Marx. A diferença entre valor e preço, para os marginalistas, na prática, não existe(27). Transformar valor em preço elimina a percepção do mecanismo que gera o mais valor. É uma visão, influenciada por um certo cartesianismo, que não percebe que isso se trata apenas da dinâmica de uma parte do processo, sem ver que essa dinâmica é fluido da uma dinâmica anterior que produz as condições em que se da esta dinâmica. É nessa dinâmica anterior, que na verdade é parte constituinte deste processo, que ocorre a exploração do trabalho. Essa é a importância fundamental de Marx para o entendimento do capitalismo. Ele analisou a totalidade do objeto em O Capital, e ao analisar a totalidade do objeto encontrou as mais ricas determinações sobre a sua verdadeira forma de constituição e reprodução na sociedade mercantil capitalista(28).

É claro que Marx, ao perceber a parte mais concreta da materialidade – do que a relação produção-circulação identificada por Keynes – partiu para um nível maior de abstração por identificar a dinâmica como parte constituinte da forma de seu objeto, o capital.

Ao determinar a totalidade das categorias de seu objeto, Marx chegou a um nível de abstração que Keynes não queria chegar. Keynes salvou o capitalismo, este sempre foi esse seu objetivo. Marx, ao compreendê-lo, percebeu a contradição de um modelo ser baseado na liberdade mas que depende da exploração, e concluiu o óbvio: não se deve (se o objetivo é uma evolução do arranjo social que nos sustenta), salvar o capitalismo, pelo contrário, deve-se superá-lo.

A mensagem que fica é que Keynes, para salvar o capitalismo, utilizou de parte da constituição do capital identificada por Marx quase cem anos antes. Ele só “esqueceu” de mencionar o principal. Que a justificativa moral de um arranjo social não pode funcionar baseando-se ao mesmo tempo na liberdade e na exploração. Assim, concluo dizendo que Marx salvou o capitalismo cem anos antes de Keynes, não é curioso?

REFERÊNCIAS:

(1)Gazier, Bernard. John M. Keynes – Série L&PM Pocket Encyclopaedia;

(2)Keynes, J. Maynard. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda;

(3)Tobin, James. Money, Capital and other Stores of Value.

(4)Friedman, Milton. The Quantity Theory of Money – A Restatement;

(5)Sayad, João. Dinheiro: Dinheiro, inflação, desemprego, crises financeiras e Bancos;

(6)Sargent, Thomas J. & Wallace, Neil. Some Unpleasant Monetarist Arithmetic;

(7)Hobsbawn, Eric. A Era do Capital;

(8)Hume, David. Of Money & Of Interest;

(9)Samuelson, Paul A. Introdução à análise econômica, volumes I e II;

(10)Reinert, Erik S. Como os pa

(11)Marx, Karl. Manuscritos Econômicos-filosóficos;

(12)Chang, Ha-Joon. Chutando a Escada: A estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica;

(13)Malthus, Thomas. Segundo Ensaio;

(14)Ricardo, David. Princípios de Economia Política e de Tributação;

(15)Backman, Clifford R. The Worlds of the Medieval Europe;

(16)Hobsbawm, Eric. A Era dos Impérios;

(17)Arrighi, Giovanni. O Longo Século XX;

(18)Shaikh, Anwar (org). Globalization and the Myths od Free Trade: History, theory and empirical evidence.

(19)List, Friedrich. Das Nationale System der Politischen Oekonomie.

(20)Blyth, Mark. Austeridade, a história de uma ideia perigosa.

(21)Marx, Karl & Engels, Friedrich. O Capital, volumes I, II e III & Marx, Karl. Salário, preço e lucro;

(22)Keen, Steve. Debunking Economics;

(23)Hudson, Michael. Killing the Host;

(24)Galbraith, John Kenneth. 1929 – A Grande Crise;

(25)Ferreira, Carla, Osorio, Jaime & Luce, Mathias (org). Padrão de reprodução do capital.

(26)Marx, Karl. Formações econômicas pré-capitalistas;

(27)Menger, Princípios de Economia Política;

(28)Harvey, David. Para entender O Capital, volumes I e II.