Como o capitalismo precisou da escravidão para prosperar

A relação entre capitalismo e escravidão pode parecer contraditória quando se entende que nosso modo de produção atual depende da “liberdade” do trabalhador assalariado na negociação com o capitalista e, portanto, seria inverso ao encontrado na servidão do modo escravista. Por outro lado, é observando o desenvolvimento do capitalismo que entendemos a notável e necessária interrelação entre o triunfo deste modo de produção na Europa e a existência de uma escravidão conectada ao mercado na América e África.

Para tratar de forma mais específica desta questão, tomaremos como exemplo o proletariado inglês e os povos africanos e indígenas escravizados no Brasil durante o século XIX. E, com isso, teremos como base de análise o conceito de subsunção formal, de Marx. Citando o sociólogo brasileiro Antônio Mazzeo:


“O capitalismo, em seu processo de desenvolvimento, apropria-se das formas de trabalho e de produção dos modos de produção que o antecederam ou, como no caso das colônias americanas, cria novas formas de apropriação de mais-valia que não as tipicamente de conteúdo capitalista da Europa. […] Como exemplo, temos a incorporação do trabalho artesanal feudal ou do tipo de agricultura que corresponde à pequena economia camponesa. Marx chamará esse processo de ‘subsunção formal do trabalho ao capital’, isto é, o capital incorpora, em sua estrutura orgânica, formas produtivas que não lhe pertencem dando a essas formas pré-capitalistas conteúdos capitalistas.” [1]

Assim, compreendemos que subsunção formal refere-se a situação em que, neste caso, o modo escravista em funcionamento no Brasil é diferente do capitalista inglês (não possui trabalho livre ou assalariamento), mas está inserido na lógica deste modo. Isto é, a mercadoria produzida pelos escravizados entra na circulação do mercado mundial capitalista, apesar de ser produzida de modo diferente. E durante séculos foi uma necessidade para o capitalismo europeu a existência desse modo escravista na América e África, e, explicando mais especificamente o caso que tratamos, no Brasil.

No século XIX, os trabalhadores ingleses tinham jornadas de trabalho de 12, 14 ou mais horas diárias, e mal tinham suas necessidades energéticas compensadas, ao mesmo tempo em que trabalhavam na indústria que se desenvolvia progressivamente. Dentro disso, um exemplo que pode ser claramente compreendido é o da produção escravista em monocultura do café, pelo Brasil, para a venda na Inglaterra, isto é, com o propósito de suprir a energia dos operários ingleses, já que o café funciona como um energético e, por conta de sua produção ser feita pelos escravizados, o custo era bem menor. Dessa forma, compreendemos que o café não era produzido no Brasil por acaso (assim como outros produtos primários em outras economias escravistas da época), mas porque a Inglaterra demandava esse café de um país com as condições geográficas para tal e, igualmente, com um custo mais baixo de produção, isto é, que possuísse uma economia baseada no modo escravista.

Apesar de citarmos como exemplo o café, o mesmo processo aconteceu anteriormente com outros ciclos de monocultura escravista no Brasil para outros motivos, como o século XVII para cana-de-açucar e o século XVIII para o ouro, assim como também em outros países da América e da África. Dessa forma, a escravidão não tem fim por um ideal de libertação por parte de alguma figura bondosa da monarquia, mas principalmente devido a dois grandes fatores: as revoltas de indígenas e africanos por sua libertação; e a recém surgida necessidade de um mercado consumidor por parte dos países capitalistas mais desenvolvidos. Ou seja, tornava-se necessário abolir a escravidão para dar lugar ao trabalho assalariado e consequentemente o surgimento de um novo mercado consumidor, o recém formado proletariado das antigas economias escravistas.

“Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras.” [2]

Por Vinícius Fontoura

Referências:

[1] MAZZEO, Antonio Carlos. Burguesia e Capitalismo no Brasil. Editora Ática S.A., 1995, p. 9.

[2] PRADO Jr., Caio. História Econômica do Brasil. Editora Brasiliense, 1979, p. 14.

Machismo: Gênese histórica e combate

Atualmente, muito se debate acerca do machismo, considerado um dos principais males sociais contemporâneos. No entanto, apesar de todo o debate envolvendo o machismo, na maioria das vezes, os indivíduos têm uma visão demasiadamente imprecisa e pautada no senso comum do que ele é; em função disso, esse texto intenta transparecer qual a gênese do machismo, isto é, a qual estrutura social está atrelada historicamente.

Como já é notório, a economia em Marx tem “prioridade ontológica” sobre as demais esferas da sociedade, ou seja, ela é a dimensão mais importante que uma ordem social pode ter, visto que é ela quem permite a manutenção e perpetuação de todas as outras. Porém, a economia ser a anatomia da sociedade civil não pode ser confundida com uma espécie de economicismo, como se todos os fenômenos e complexos sociais pudessem ser abordados, mecanicamente, a partir de uma analise da economia. Obviamente que cada complexo social possui suas determinações próprias de existência, o seu modo de ser específico e suas mediações próprias com outros complexos, no entanto, direta ou indiretamente, tudo aquilo que é socialmente determinado possui sua estrutura imanente na forma como a sociedade se organiza economicamente, no sentido de existir, prioritariamente, para atender as necessidades e exigências dessa economia, mesmo não tendo tão somente essa função.

Nesse sentido, o machismo, racismo, etc, dentre outros problemas sociais estão articulados em uma relação necessária com a estrutura econômica na qual foram originados, a qual é a propriedade privada dos meios de produção e divisão de classes. Porém, como supracitado, o machismo tem suas mediações e processos sociais próprios que motivaram sua origem, e é exatamente sobre essa problemática que o texto irá tratar a seguir.

Na sociedade primitiva, onde não havia propriedade privada, a espécie humana era tão incipiente em seu desenvolvimento que se organizava em tribos e hordas coletoras e caçadoras para manter sua sobrevivência, visto que não era capaz de acumular riquezas para assegurar uma organização social e econômica mais complexa. Segundo estudos publicados na renomada revista “Nature”, nesse período da história humana, os homens e as mulheres viviam sob uma relativa igualdade social, no sentido que, tanto um quanto o outro tinham autoridade para decidirem quais as tarefas que seriam feitas, não sendo, desse modo, estabelecida uma espécie de divisão sexual do trabalho a rigor.

Certamente havia uma certa hierarquia por questões biológicas, porém, em termos gerais, os homens e as mulheres eram responsáveis pela produção social e pelos trabalhos domésticos, não havendo assim uma distinção nítida entre a divisão dos sexos. Além disso, a mulher era considerada mais importante para a sobrevivência humana, visto que a falta de uma mulher em uma tribo ou horda era muito mais impactante, para a taxa de fertilidade da espécie, do que a morte de um homem, na medida em que a mulher exercia e ainda exerce papel mais fundamental para a reprodução biológica.

“Segundo informou o antropólogo que liderou o estudo, Mark Dyble, ao jornal inglês “The Guardian”, a igualdade entre os sexos pode ter surgido como uma vantagem de sobrevivência. “A igualdade entre os sexos foi importante para as mudanças de organização social, incluindo o crescimento do cérebro e o desenvolvimento da linguagem, que distinguem os humanos (…) Os cientistas analisaram dados de duas populações de caçadores e coletores, um no Congo e outro nas Filipinas, que viviam em grupos de 20 pessoas, mudavam de lugar a cada dez dias e viviam de caça, peixe e frutas, vegetais e mel. Nas Filipinas, por exemplo, as mulheres caçavam e eram responsáveis por coletar o mel, e os homens atuavam significativamente no cuidado das crianças.” [1]

No entanto, com o definhamento da sociedade primitiva e passagem da mesma para a sociedade escravista, há uma profunda transformação para a sociedade na questão da diferenciação sexual. A passagem de uma sociedade pra outra foi marcada por muitas guerras, sendo os homens, por serem biologicamente mais fortes, isto é, terem uma estrutura muscular mais resistente, os indivíduos predominantes nessas guerras – como foi citado ao longo do texto, havia sim uma certa hierarquia, no entanto, era biologicamente determinada, não socialmente determinada. Além do mais, não era o suficiente para ser, efetivamente, uma divisão sexual do trabalho radical, tal como vai se deflagrar posteriormente – e isso fez com que, ao final das guerras que constituíram essa transição, os homens tivessem um poder sobre as propriedades muito maior do que as mulheres.

Desse modo, já na sociedade escravista, agora não mais caracterizada pela propriedade coletiva mas sim pela propriedade privada, visto que o patamar social já permitia isso, a totalidade social se organizava de tal forma em que o homem, predominantemente, tinha o poder da propriedade privada e portanto dos aspectos econômicos. Nesse sentido, as mulheres se conectavam á sociedade como subordinadas, sendo uma forma típica dessa subordinação a família monogâmica patriarcal – vale ressaltar que é patriarcal pois a família monogâmica em si não produz o machismo, mas sim ela com um teor patriarcal, isto é, dominada pelo sexo masculino – mas não tão somente ela.

Sendo assim, com a emersão do patriarcado e da família monogâmica compatível com o mesmo, houve uma divisão sexual do trabalho drástica. Isso porque, diferentemente da sociedade primitiva, surge a agricultura e a possibilidade de acumulação de recursos, a qual é protegida pela propriedade privada. Como a dimensão material da sociedade muda, a ideológica também, portanto os homens, detentores da propriedade privada, tinham em mente não apenas produzir o suficiente para o bem comum de toda a coletividade, mas sim, acumular riquezas como uma forma de adquirir cada vez mais poder econômico e político.

Com isso, as mulheres foram rebaixadas a tal ponto que, para o homem, agora munido de ideais egoístas característicos da propriedade privada, ela só servia apenas para gerar o herdeiro que seria responsável pela continuação da acumulação de riquezas. Isso explica porque, durante a história, as pessoas com maior poder aquisitivo e político sempre eram e são os homens, com exceção de rainhas e princesas, que eram privilegiadas, mas ainda assim submetidas às vontades dos homens. A partir disso, a mulher foi restringida de sua liberdade, sendo proibida de estudar, tomar decisões importantes, etc, sendo lançada apenas para os trabalhos domésticos.

Dessa forma, a mulher, que era importante para a reprodução biológica da sociedade primitiva de forma que a atividade coletiva de caça e coleta pudesse ser continuada e, com isso, garantisse o mantimento da espécie, permaneceu sendo importante para a reprodução biológica na sociedade escravista, porém, foi secundarizada porque agora não era mais tão somente a sobrevivência da espécie em jogo, mas também e principalmente a reprodução de riquezas e perpetuação da propriedade privada. Ou seja, a gênese dessa radical divisão sexual, na qual o homem subordina a mulher, está na forma como a sociedade passou a se organizar economicamente e socialmente na sociedade escravista, conforme as novas condições historicamente determinadas.

Com o tempo, o machismo foi se consolidando cada vez mais na consciência social e coletiva, de tal forma que muitas mulheres, mesmo que não todas, passaram a aceitar esse papel determinado á elas, isto é, corroboraram com o próprio machismo. Porém, com o desenvolvimento social, as mulheres através de organizações de luta, conquistaram vários direitos que não possuíam antigamente, mesmo que a subordinação tenha permanecido intensa e prevaleça até hoje, Direitos como votar, estudar, trabalhar onde quiser, não ser obrigada a ter filhos, etc, são exemplos do que a luta feminina pôde proporcionar, porém, a despeito disso, o preconceito contra o sexo feminino ainda é corriqueiro não só na sociedade brasileira, mas no mundo todo, em maiores ou menores proporções de acordo com cada região. Como o machismo não se restringiu a esfera econômica e se disseminou por toda cotidianidade da vida social, se tornou cada vez mais explicito e comum. Na sociedade moderna capitalista o machismo aparece na forma como os homens exigem que as mulheres se vistam, no modo como quer que elas se comportem, no assédio sexual verbal e físico, na desigualdade salarial, no mercado de trabalho em geral, etc. Todas esses atributos machistas têm origem, diametralmente, na economia da sociedade, e portanto, a sua matriz histórica se encontra nesse horizonte.

Nesse sentido, para que o machismo possa ser superado, há a necessidade de superar a propriedade privada e divisão de classes, pois senão, apenas medidas paliativas dentro dessa estrutura podem ser aplicadas, mas nunca em um sentido de erradicação do problema. Devido a isso, a luta pela emancipação da mulher deve ser, necessariamente, a luta pela superação de toda estruturalidade tipicamente classicista, sobretudo, do capitalismo, que é a sua fase histórica mais moderna e a vigente.

Referências:

[1] UOL, Portal. Homens e Mulheres pré-históricos tinham princípios igualitários diz estudo. Disponível em: https://bit.ly/2I6YvME

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/

GALILEU, Revista. Ciência comprova que igualdade de gênero existiu na pré-história. Disponível em: https://glo.bo/2Mh1Eil

O problema é muito maior que o Bolsonaro

Após o fim do poder moderador, houve um vácuo de poder que historicamente foi preenchido pelas forças armadas. Ora, sempre que há abalo institucional, o exército entra em cena com o objetivo de pôr “ordem na casa”. Essa era a função de D. Pedro II, que toda vez que se via diante de alguma instabilidade parlamentar, fechava o parlamento e convocava novas eleições. Assim, governou o imperador por mais de meia década no período de maior estabilidade política de nossa história. E, inegavelmente, o exército tomou essa função para si. É o que vemos na história nos sucessivos episódios de intervenções militares na política brasileira. A chegada de Vargas ao poder em 1930, a fundação do Estado Novo em 1937, a deposição de Vargas em 1945 e o golpe de 1964 seguido do regime que se estendeu até 1985 foram todos frutos de ações militares. Além da provocação do suicídio de um presidente, Vargas, e da renúncia de outro, Jânio. Nas sombras, o exército age como um quarto poder. Atribuem a si a missão de moderadores supra-institucionais do poder, E, agora, após um período conturbado politicamente, com afastamento e prisão de presidente e ex-presidente, o exército está de volta. Agora operando institucionalmente, porém, com a mesma astúcia que agia século passado. Voltaram ao poder escondidos no nacionalista iludido que hoje é chamado de presidente. O que vocês precisam enxergar primeiramente é isso: O exército já está no poder, com suas hierarquias bem estruturadas. E está cada vez mais penetrando. Aqui mora o perigo.

Uma vítima inesperada foi o guru da Virgínia. Olavo de Carvalho se afastou ideologicamente do governo por causa da resistência do exército, que o isolou. Vejam só. Seus alunos ministros mostravam-se favoráveis a coisas como intervenções na Venezuela e à transferência da embaixada de Israel para Jerusalém. O exército se opôs e hoje estamos vendo sua intriga com os olavistas. E eles ganharam. Conseguiram manter o Olavo distante. Não só isso como ganharam super-poderes dentro do executivo, na pessoa do general Santa Cruz, o ministro da Secretaria do Governo. Uma vez que o decreto 9794 assinado por Bolsonaro concede uma concentração absurda de poderes nas mãos do general, que agora pode vetar nomeações para agências reguladoras, autarquias, dirigentes, reitores de universidade federais, embaixadores. Pode vetar até mesmo nomeação para diretor e presidente do Banco Central. Ou seja, a nomeação de cargos importantíssimos dependem agora do exército. É um poder similar ao que o exército tinha em qualquer regime militar implantado no Brasil, só que agora conquistado por vias legais. Golpe sem golpe. Motivo de preocupação.

Diante de tudo isso temos ainda a carta compartilhada pelo Bolsonaro no What’sApp, falando de país ingovernável e de uma possível queda do presidente. Insinuação de uma possível renúncia? É possível. Tão possível quanto uma queda por outros meios. Afinal, a mídia está expondo que a família Bolsonaro não é honesta como afirmava ser. Estão ficando cada vez mais evidentes os esquemas de desvio de verba pública por meio de funcionários fantasmas, de lavagem de dinheiro através da venda casas e a possível associação com milicianos. Uma queda do Bolsonaro é possível. E seria isso o que faltaria para o exército tomar o executivo de vez, com o Mourão na linha sucessória. Estamos diante de um momento grave para o País. De um lado há um presidente desastrado e do outro um progressivo emparelhamento do exército. Uma malha fina. O meio político é inviável para dar conta do país. Como combater essas forças?

Resistir é preciso: A crise habitacional do capitalismo brasileiro

Gabriel Brasileiro

Na primeira parte de seu livro Para a questão da habitação, Engels inicia o texto com a seguinte constatação:

“A chamada falta de habitação, que hoje em dia desempenha na imprensa um papel tão grande, não consiste no facto de a classe operária em geral viver em casas más, apinhadas e insalubres. Esta falta de habitação não é algo próprio do presente; ela não é sequer um dos sofrimentos próprios do moderno proletariado, face a todas as anteriores classes oprimidas; pelo contrário, ela atingiu de uma forma bastante parecida todas as classes oprimidas de todos os tempos. Para pôr fim a esta falta de habitação, há apenas um meio: eliminar a exploração e opressão da classe trabalhadora pela classe dominante.” [1]

Ora, é evidente que o problema habitacional de uma economia representa a luta de classes da sociedade. Certo que aqueles que vivem em habitações precárias ou que sequer possuem habitações representam a segregação urbana. Frente aos privilégios de outros, que não só possuem recursos habitacionais suficientes para suprir suas necessidades como possuem excedentes de consumo. Estando a luta de classes no seguinte ponto de tensão: no capitalismo, a partir do momento em que se tenta pôr remendo para amortecer a condição dos desprivilegiados, mexe-se com os recursos daqueles que estão mais acima na pirâmide de classes. Diante disso, a luta comunista consiste em, primeiro, moldar melhores condições urbanas dentro do sistema vigente e, segundo, em revolucionar o próprio sistema capitalista a fim de construir um futuro abundante que supere a própria luta de classes.

No capitalismo brasileiro, há uma fortíssima crise habitacional. O país tem, pelo menos, 6,9 milhões de famílias sem casa para morar. Tem também cerca de 6,05 milhões de imóveis desocupados há décadas [2]. E, segundo dados da FGV, entre os que possuem habitações, nem todos vivem em moradias aptas a suprirem integralmente as necessidades básicas. A esse descompasso dá-se o nome de déficit habitacional, que denomina a precarização representada por domicílios improvisados, superlotados e excessivamente onerosos a renda domiciliar, devido ao pagamento de aluguel. Como pode ser visto no gráfico abaixo, o déficit apresentou uma tendência crescente entre 2007 e 2017 [3].

Ademais, averiguando o hiato entre ofertas habitacionais (em bilhões) e necessidades de mesma natureza, o estudo da FGV constatou que o mercado brasileiro não está sendo capaz de preencher todas as necessidades de investimento em habitação. Isso não é de se espantar, afinal, mercados são imperfeitos. Todavia o mesmo hiato se observa quando se considera os investimentos do FGTS e subsídios governamentais [4].

Isso mostra que o pacto social brasileiro de 88, que tornou a habitação um direito universal, está falhando. A idealização posta no papel não conseguiu acompanhar a debilidade do capitalismo brasileiro. Isto é, o pacto político burguês que pretendia amortecer as imperfeições do mercado mostrou-se tão falho quanto. Em razão disso, os movimentos sociais de resistência urbana aparecem como necessários para corrigir essas falhas estruturais, já que tanto o mercado quanto o estado burguês são incapazes de pôr em prática soluções. Contudo, jamais se deve esquecer que a luta não deve ser orientada apenas para amortecer as condições do sistema, mas também para superá-lo. Resistir é preciso.

REFERÊNCIAS

1.
https://www.marxists.org/portugues/marx/1873/habita/cap01.htm

2.
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44028774

3.
https://www.abrainc.org.br/wp-content/uploads/2018/10/ANEHAB-Estudo-completo.pdf

4. Ibidem

Uma reflexão para o dia do trabalho: Um gráfico que expõe a insatisfação do mundo com os empregos

Gabriel Brasileiro

A Gallup, uma empresa de opinião americana, buscando compreender mais a fundo atitudes e comportamentos dos funcionários, constatou, em seu relatório mais recente sobre o estado do local de trabalho global, que o engajamento psicológico dos empregados em seus trabalhos é baixíssimo em escala mundial. Certo que, considerando os engajados — aqueles psicologicamente comprometidos com seus empregos —, os não engajados — aqueles que não têm motivações e que são menos propensos a investir esforços — e os fortemente não engajados — aqueles que são infelizes e improdutivos —, a porcentagem dos dois últimos tipos de funcionários no mundo é largamento superior ao primeiro tipo. Vejamos:

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Embora o objetivo da Gallup seja buscar formas de assessorar empresas capitalistas a melhorarem o engajamento dos funcionários, uma perspectiva marxista sabe bem que esses esforços são inúteis, mesmo que possam servir como paliativos. Certo que, como bem explica Marx, o problema está no próprio modelo produtivo, não nos funcionários em si. O capitalismo é um modo de produção alienador e vicioso, em que as pessoas se veem constrangidas a contraírem relações de produção repetitivas que não representam as suas verdadeiras vontades. Isto é, não representam a prática de suas potencialidades que lhes proporcionaria uma verdadeira satisfação. Isso faz com que os trabalhadores não se vejam realizados com seu trabalho, sentindo-se estranhos, alheios, ao que estão fazendo. Contudo, é importante salientar que Marx, desde o Manifesto, não negava o poder do consumo sob o capitalismo, que, com bens barateados e abundantes, podem com certeza propiciar uma maior margem de engajamento psicológico dos empregados que desejam conquistar seus objetivos de consumo. Mas, o que se observa é que, mesmo assim, países que melhor representam o capitalismo em sua forma mais desenvolvidas, como os EUA e os países da Europa Ocidental, ainda possuem forte desengajamento psicológico. Ou seja, como bem descreve Marx, o comprometimento não seria resultado do prazer de praticar a atividade laboriosa em si, mas sim da projeção dos resultados remuneratórios, que representam o verdadeiro fim, o verdadeiro objeto de felicidade, que no capitalismo é provisório. Desse modo, o trabalhador é tomado como uma engrenagem que se submete a um emprego que odeia para conseguir a felicidade instantânea, esta que muitas vezes sequer é mais conquistada quando também vira rotina ou quando não há poder de compra suficiente para investir em novas atividades de lazer.

Ademais, como constata a Gallup, trabalhos intelectuais, típicos de burgueses ou de pessoas que preenchem cargos de maior nível hierárquico dentro da cadeia produtiva, são os que menos enfrentam o desengajamento psicológico. Ficando evidente que há uma assimetria de poder em que os mais hierarquicamente superiores são detentores de maior capacidade de tomada de decisões relevantes quanto ao os rumos dos recursos empresariais. Enquanto os mais subordinados e sem participação mais direta nas decisões referentes ao rumo dos produtos de seus trabalhos sofrem de maior desengajamento psicológico. E, mais uma vez, Marx acerta, pois esse é outro sintoma de alienação, em que o produtor não vê sua marca de realização no produto de seu trabalho, sentindo-se apenas uma engrenagem desumanizada que não toma grandes decisões quanto ao que produz.

Portanto, a fim de buscar a plena realização da humanidade no intercâmbio com a natureza, Marx propõe o comunismo, uma realidade social na qual, possuindo uma abundância de recursos sem precedentes, automatização plena do trabalho e livre acesso ao abundante, a humanidade tenha liberdade para contrair relações com a natureza e com outros seres humanos que representem, em si mesmas, a verdadeira manifestação de sua vontade.

A era do coaching, uma patologia do neoliberalismo

Igor Teo

Texto original aqui

Ser coach está na moda. Há coach para esportes, nutrição, carreira, finanças e até — pasmem — questões psicológicas. Neste texto vamos entender qual o verdadeiro problema (e perigo!) do coaching.

Em primeiro lugar, qualquer coisa pode ser interessante à primeira vista. O coaching também. Se você vê o Tonny Robbins, por exemplo, por mais forçado que pareça o seu espetáculo de transformação pessoal, é possível ainda extrair dele uma ou duas coisas bacanas.

Mas infelizmente não muito mais que isso.

O real problema por trás do coaching não está em sua formação extra-acadêmica, nos seus termos em inglês fora de contexto ou no seu conteúdo que se aplica redutivamente a uma classe média. O problema do coach está em sua precária visão de mundo.

Uma Weltanschauung neoliberal

O coaching não dispõe de uma rica psicologia. Ele não é uma psicologia junguiana que flerta com um mundo espiritual, nem uma psicanálise oriunda da alta filosofia alemã. Não chega a ser nem uma psicologia cognitiva com seu cientificismo biológico contemporâneo.

coach é aquilo que a própria palavra diz. Em inglês, é o técnico da equipe ou o treinador do atleta que precisa vencer uma partida. E afinal, é isso que todo coach nos enjoa de repetir de todas as maneiras possíveis: superação, vitória, desenvolvimento, expandir o seu potencial etc.

Weltanschauung do coaching — esta belíssima palavra que os alemães criariam para cosmovisão — é de que a vida é feita de superação. Todos nós temos um sentimento interior de incapacidade, uma autosabotagem por conta de nossas crenças limitantes, e que precisamos vencer nossas barreiras pessoais para alcançar nosso verdadeiro potencial, liberando o campeão que realmente somos.

Isso funciona bem nos esportes. E pode ser facilmente adaptado ao mundo corporativo em que os negócios são vistos como o campo de batalha moderno.

Mas no mundo neoliberal, em que nos dizem que devemos ser os empreendedores de nós mesmos, em que nossas escolhas são medidas como investimentos, e que nossa vida precisa ser gerida como uma empresa que não pode deixar nunca de crescer, o coaching é a cereja do bolo.

Neste universo, a vida se esvazia de qualquer outra possibilidade de sentido. Tudo se torna uma oportunidade de crescimento, superação, despertar de potencial, ou qualquer coisa mais piega.

E numa sociedade tão preocupada com esses termos, não é de se estranhar como as pessoas tanto se queixam de culpa em autorecriminação, ansiedade diante dos seus desejos, depressão por se verem distantes de seus ideais.

Quanto a isso, o coaching nunca vai resolver a vida de ninguém. Porque ele não é a solução. Ele é parte do problema.

Qual é a vida dos vencedores?

O coaching faz parte do discurso de que a vida é uma batalha e que precisamos sair vencedores dela. Por trás da ideia de que não devemos nos conformar com as limitações e que podemos superá-las, o coaching promove um sentimento de inadequação.

Isto é, nunca produzimos o suciente com nosso trabalho, o dinheiro que eu ganho não basta para aquilo que eu quero comprar, meu corpo necessita de dietas e exercícios especiais para ser bonito como o pessoal do Instagram, e por aí vai.

Não é curioso que as promessas do coaching geralmente estão em torno de questões de consumo, produtividade e ostentação?

Ao invés de questionar a origem desses estranhos ideais — e talvez pensar que não é a forma mais saudável ou sábia de viver — o coaching e o mercado neoliberal se alimentam do sentimento de insatisfação com nossas vidas, relações, economias, corpos etc. Um mercado que lucra com o inadequado, o insuficiente.

Diria o discurso raso de um coach que o problema não é a sociedade ou esse modelo de pensamento… é você que não está trabalhando bem o seu potencial.

Não há nenhuma inconformidade romântica aí, digna de um Nietzsche, questionando a moral e a sociedade. O discurso do coaching é um imperativo para que nos adequemos a uma sociedade que padece e por conta disso mesmo assiste o crescimento dos transtornos mentais.

Diante disso, a resposta é: Supere seus limites. Seja uma engrenagem melhor — produzindo e consumindo mais — nesse sistema que também lhe faz sofrer. Quem sabe ganhando mais ou postando no Instagram suas vitórias você se sentirá feliz. Afinal, aparentemente a culpa é sua por não conseguir.

Encontrar suas vitórias

Não estou dizendo que não hajam dificuldades na vida e que cai bem superá-las. São coisas que desejamos e não fazemos apenas por medo, doenças que queremos nos recuperar, ou inclusive sair de uma situação socialmente/economicamente desfavorável.

Há coisas realmente complicadas na vida e que faz sentido nos sentirmos orgulhosos em superá-las. Por exemplo, eu acredito que qualquer um que supere um câncer é um verdadeiro vencedor.

Há muitas formas de “vencer na vida”. Mas ainda assim não podemos medir a vida inteira com apenas esta régua.

Na vida há lugar tanto para a vitória quanto para a derrota. Muitas vezes iremos perder: para uma doença, uma situação fora do nosso controle ou qualquer tipo limite. Fato é que você perderá algumas vezes na vida. E tudo bem!

Não há nada errado em descobrir alguns limites para algumas coisas. Há um certo tipo mimado em pensar que tudo é possível, que jamais perderemos ou que existirem limitações nos fazem pior.

Aceitarmos as derrotas é importante para descobrir também nossas vitórias. E a obsessão com tudo “superar” é ela mesmo uma patologia do derrotado.

O que não lhe podem vender

Vivemos como se sempre faltasse algo para sermos realmente felizes. E é verdade, essa falta não vai embora. Se conquistamos algo, vamos querer um pouquinho mais.

Mas ao invés de transformar isso numa eterna batalha de limites e possibilidades, prefiro pensar que há uma ética mais simples para viver bem, mesmo que ainda falte algumas coisas depois disso. Uma ética para que aquilo que falte não mate o que já temos.

Em geral, viver é apenas aprender a estar.

Quero dizer: estar bem com algumas coisas que são muito difíceis de lidar e não haverá soluções fáceis como seu coach poderá propor. Refiro-me ao enigma da morte, ao nosso eterno desconforto com o tempo das coisas, a estranheza da sexualidade e os paradoxos do amor, a difícil sustentação dos laços familiares, os aprendizados para uma boa amizade, a incompreensão do outro, dentre tantas coisas.

Aí estão os “impossíveis” da existência. Para lidar com eles, as pessoas são capazes de encontrarem para si as mais diversas respostas e visões de mundo que nenhuma fórmula pronta consegue substituir. E se você consegue lidar suficientemente bem com esses impossíveis, sua vida já é um tanto sofisticada para se preocupar com ideais estranhos de realização.


Igor Teo é psicanalista. Formado em Psicologia e Mestre em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para mais conteúdo e contato, acesse o seu site.

Justiça decide, os réus da tragédia de Mariana não serão julgados por homicídio e Mészáros explica o motivo

De forma unânime, os desembargadores do TRF1 decidiram trancar a ação penal de 2016 quanto ao crime de homídio contra o executivos de Vale, Samarco e BHP Billiton devido à tragédia de Mariana. Desse modo, os executivos não serão mais julgados pelo júri popular – que julga crimes contra a vida -, tendo a ação penal para o crime de lesão corporal também sido trancado. Permaneceu apenas o processo para os crimes ambientais e de inundação, que é previsto no Código Penal. Isso significa, que a justiça burguesa retirou do povo a oportunidade de julgar diretamente os executivos, os quais, nessas circunstâncias, seriam julgados culpados.

Tal impunidade ocorre porque o Estado contemporâneo atua como estrutura política responsável pelos defeitos estruturais do Capital. Mészáros elenca os três defeitos primordiais, mas só vale falar sobre um: A extrema oposição entre a produção e o controle.

O Capital, enquanto uma relação social de expansão incessante de riquezas a partir da exploração da mão de obra humana, é incontrolável, e, portanto, todos os agentes econômicos têm que se adaptar às suas exigências de expansão contínua. Nesse sentido, tanto as personificações do trabalho (trabalhadores) quanto as personificações do próprio capital (empresários e suas respectivas empresas) devem se ajustar aos imperativos desses sistema, senão irão se afundar na estratificação social até atingirem a miséria, ou seja, serão engolidos pelo Capital por não terem atendido seus anseios de desenvolvimento.

Nesse defeito em específico, a tragédia de Mariana, o Estado age conforme as dinâmicas mutantes do Capital, mas tem como peculiaridade a proteção legal das relações de poder estabelecidas. Em outras palavras, o Estado garante o direito das empresas explorarem a força de trabalho humana da sociedade, além de impor a ilusão de que há relações livres e voluntárias entre trabalhador e patrão. Ele faz isso a partir de sua estrutura jurídica, por meio da qual assegura a proteção dos meios de produção e dos proprietários desses meios. Sendo assim, ele é exigência absoluta para o exercício da exploração nos locais de trabalho.

Mas o que isso tem a ver com essa tragédia? Ora, sem o aparato jurídico do Estado, as empresas seriam desmanteladas internamente por conta dos desacordos constantes entre as forças antagonicamente estabelecidas (classes sociais conflitantes). Em outras palavras, é o Estado que é o responsável pela seletividade penal, e, como ele serve às dinâmicas do Capital, irá atuar de acordo com a potencialização do seu desenvolvimento.

Isso significa, na prática, que os executivos não podem ser punidos como deveria, uma vez que eles são importantes para o desenvolvimento do Capital. E, nesse sentido, as penas são abrandadas.

Dentro da ordem social do capital, a vida humana só tem valor para uma coisa: produzir e consumir riquezas. Fora isso, ela é descartável e o Estado com a sua estrutura jurídica garante que isso se consolide na prática, bem como tenta, através de medidas paliativas e inefetivas para reparar os estrago, como no caso das indenizações para os familiares dos mortos em brumadinho, resolver esse desacordo entre as vitimas das tragédias e os causadores dela.