Como o capitalismo precisou da escravidão para prosperar

A relação entre capitalismo e escravidão pode parecer contraditória quando se entende que nosso modo de produção atual depende da “liberdade” do trabalhador assalariado na negociação com o capitalista e, portanto, seria inverso ao encontrado na servidão do modo escravista. Por outro lado, é observando o desenvolvimento do capitalismo que entendemos a notável e necessária interrelação entre o triunfo deste modo de produção na Europa e a existência de uma escravidão conectada ao mercado na América e África.

Para tratar de forma mais específica desta questão, tomaremos como exemplo o proletariado inglês e os povos africanos e indígenas escravizados no Brasil durante o século XIX. E, com isso, teremos como base de análise o conceito de subsunção formal, de Marx. Citando o sociólogo brasileiro Antônio Mazzeo:


“O capitalismo, em seu processo de desenvolvimento, apropria-se das formas de trabalho e de produção dos modos de produção que o antecederam ou, como no caso das colônias americanas, cria novas formas de apropriação de mais-valia que não as tipicamente de conteúdo capitalista da Europa. […] Como exemplo, temos a incorporação do trabalho artesanal feudal ou do tipo de agricultura que corresponde à pequena economia camponesa. Marx chamará esse processo de ‘subsunção formal do trabalho ao capital’, isto é, o capital incorpora, em sua estrutura orgânica, formas produtivas que não lhe pertencem dando a essas formas pré-capitalistas conteúdos capitalistas.” [1]

Assim, compreendemos que subsunção formal refere-se a situação em que, neste caso, o modo escravista em funcionamento no Brasil é diferente do capitalista inglês (não possui trabalho livre ou assalariamento), mas está inserido na lógica deste modo. Isto é, a mercadoria produzida pelos escravizados entra na circulação do mercado mundial capitalista, apesar de ser produzida de modo diferente. E durante séculos foi uma necessidade para o capitalismo europeu a existência desse modo escravista na América e África, e, explicando mais especificamente o caso que tratamos, no Brasil.

No século XIX, os trabalhadores ingleses tinham jornadas de trabalho de 12, 14 ou mais horas diárias, e mal tinham suas necessidades energéticas compensadas, ao mesmo tempo em que trabalhavam na indústria que se desenvolvia progressivamente. Dentro disso, um exemplo que pode ser claramente compreendido é o da produção escravista em monocultura do café, pelo Brasil, para a venda na Inglaterra, isto é, com o propósito de suprir a energia dos operários ingleses, já que o café funciona como um energético e, por conta de sua produção ser feita pelos escravizados, o custo era bem menor. Dessa forma, compreendemos que o café não era produzido no Brasil por acaso (assim como outros produtos primários em outras economias escravistas da época), mas porque a Inglaterra demandava esse café de um país com as condições geográficas para tal e, igualmente, com um custo mais baixo de produção, isto é, que possuísse uma economia baseada no modo escravista.

Apesar de citarmos como exemplo o café, o mesmo processo aconteceu anteriormente com outros ciclos de monocultura escravista no Brasil para outros motivos, como o século XVII para cana-de-açucar e o século XVIII para o ouro, assim como também em outros países da América e da África. Dessa forma, a escravidão não tem fim por um ideal de libertação por parte de alguma figura bondosa da monarquia, mas principalmente devido a dois grandes fatores: as revoltas de indígenas e africanos por sua libertação; e a recém surgida necessidade de um mercado consumidor por parte dos países capitalistas mais desenvolvidos. Ou seja, tornava-se necessário abolir a escravidão para dar lugar ao trabalho assalariado e consequentemente o surgimento de um novo mercado consumidor, o recém formado proletariado das antigas economias escravistas.

“Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras.” [2]

Por Vinícius Fontoura

Referências:

[1] MAZZEO, Antonio Carlos. Burguesia e Capitalismo no Brasil. Editora Ática S.A., 1995, p. 9.

[2] PRADO Jr., Caio. História Econômica do Brasil. Editora Brasiliense, 1979, p. 14.

Machismo: Gênese histórica e combate

Atualmente, muito se debate acerca do machismo, considerado um dos principais males sociais contemporâneos. No entanto, apesar de todo o debate envolvendo o machismo, na maioria das vezes, os indivíduos têm uma visão demasiadamente imprecisa e pautada no senso comum do que ele é; em função disso, esse texto intenta transparecer qual a gênese do machismo, isto é, a qual estrutura social está atrelada historicamente.

Como já é notório, a economia em Marx tem “prioridade ontológica” sobre as demais esferas da sociedade, ou seja, ela é a dimensão mais importante que uma ordem social pode ter, visto que é ela quem permite a manutenção e perpetuação de todas as outras. Porém, a economia ser a anatomia da sociedade civil não pode ser confundida com uma espécie de economicismo, como se todos os fenômenos e complexos sociais pudessem ser abordados, mecanicamente, a partir de uma analise da economia. Obviamente que cada complexo social possui suas determinações próprias de existência, o seu modo de ser específico e suas mediações próprias com outros complexos, no entanto, direta ou indiretamente, tudo aquilo que é socialmente determinado possui sua estrutura imanente na forma como a sociedade se organiza economicamente, no sentido de existir, prioritariamente, para atender as necessidades e exigências dessa economia, mesmo não tendo tão somente essa função.

Nesse sentido, o machismo, racismo, etc, dentre outros problemas sociais estão articulados em uma relação necessária com a estrutura econômica na qual foram originados, a qual é a propriedade privada dos meios de produção e divisão de classes. Porém, como supracitado, o machismo tem suas mediações e processos sociais próprios que motivaram sua origem, e é exatamente sobre essa problemática que o texto irá tratar a seguir.

Na sociedade primitiva, onde não havia propriedade privada, a espécie humana era tão incipiente em seu desenvolvimento que se organizava em tribos e hordas coletoras e caçadoras para manter sua sobrevivência, visto que não era capaz de acumular riquezas para assegurar uma organização social e econômica mais complexa. Segundo estudos publicados na renomada revista “Nature”, nesse período da história humana, os homens e as mulheres viviam sob uma relativa igualdade social, no sentido que, tanto um quanto o outro tinham autoridade para decidirem quais as tarefas que seriam feitas, não sendo, desse modo, estabelecida uma espécie de divisão sexual do trabalho a rigor.

Certamente havia uma certa hierarquia por questões biológicas, porém, em termos gerais, os homens e as mulheres eram responsáveis pela produção social e pelos trabalhos domésticos, não havendo assim uma distinção nítida entre a divisão dos sexos. Além disso, a mulher era considerada mais importante para a sobrevivência humana, visto que a falta de uma mulher em uma tribo ou horda era muito mais impactante, para a taxa de fertilidade da espécie, do que a morte de um homem, na medida em que a mulher exercia e ainda exerce papel mais fundamental para a reprodução biológica.

“Segundo informou o antropólogo que liderou o estudo, Mark Dyble, ao jornal inglês “The Guardian”, a igualdade entre os sexos pode ter surgido como uma vantagem de sobrevivência. “A igualdade entre os sexos foi importante para as mudanças de organização social, incluindo o crescimento do cérebro e o desenvolvimento da linguagem, que distinguem os humanos (…) Os cientistas analisaram dados de duas populações de caçadores e coletores, um no Congo e outro nas Filipinas, que viviam em grupos de 20 pessoas, mudavam de lugar a cada dez dias e viviam de caça, peixe e frutas, vegetais e mel. Nas Filipinas, por exemplo, as mulheres caçavam e eram responsáveis por coletar o mel, e os homens atuavam significativamente no cuidado das crianças.” [1]

No entanto, com o definhamento da sociedade primitiva e passagem da mesma para a sociedade escravista, há uma profunda transformação para a sociedade na questão da diferenciação sexual. A passagem de uma sociedade pra outra foi marcada por muitas guerras, sendo os homens, por serem biologicamente mais fortes, isto é, terem uma estrutura muscular mais resistente, os indivíduos predominantes nessas guerras – como foi citado ao longo do texto, havia sim uma certa hierarquia, no entanto, era biologicamente determinada, não socialmente determinada. Além do mais, não era o suficiente para ser, efetivamente, uma divisão sexual do trabalho radical, tal como vai se deflagrar posteriormente – e isso fez com que, ao final das guerras que constituíram essa transição, os homens tivessem um poder sobre as propriedades muito maior do que as mulheres.

Desse modo, já na sociedade escravista, agora não mais caracterizada pela propriedade coletiva mas sim pela propriedade privada, visto que o patamar social já permitia isso, a totalidade social se organizava de tal forma em que o homem, predominantemente, tinha o poder da propriedade privada e portanto dos aspectos econômicos. Nesse sentido, as mulheres se conectavam á sociedade como subordinadas, sendo uma forma típica dessa subordinação a família monogâmica patriarcal – vale ressaltar que é patriarcal pois a família monogâmica em si não produz o machismo, mas sim ela com um teor patriarcal, isto é, dominada pelo sexo masculino – mas não tão somente ela.

Sendo assim, com a emersão do patriarcado e da família monogâmica compatível com o mesmo, houve uma divisão sexual do trabalho drástica. Isso porque, diferentemente da sociedade primitiva, surge a agricultura e a possibilidade de acumulação de recursos, a qual é protegida pela propriedade privada. Como a dimensão material da sociedade muda, a ideológica também, portanto os homens, detentores da propriedade privada, tinham em mente não apenas produzir o suficiente para o bem comum de toda a coletividade, mas sim, acumular riquezas como uma forma de adquirir cada vez mais poder econômico e político.

Com isso, as mulheres foram rebaixadas a tal ponto que, para o homem, agora munido de ideais egoístas característicos da propriedade privada, ela só servia apenas para gerar o herdeiro que seria responsável pela continuação da acumulação de riquezas. Isso explica porque, durante a história, as pessoas com maior poder aquisitivo e político sempre eram e são os homens, com exceção de rainhas e princesas, que eram privilegiadas, mas ainda assim submetidas às vontades dos homens. A partir disso, a mulher foi restringida de sua liberdade, sendo proibida de estudar, tomar decisões importantes, etc, sendo lançada apenas para os trabalhos domésticos.

Dessa forma, a mulher, que era importante para a reprodução biológica da sociedade primitiva de forma que a atividade coletiva de caça e coleta pudesse ser continuada e, com isso, garantisse o mantimento da espécie, permaneceu sendo importante para a reprodução biológica na sociedade escravista, porém, foi secundarizada porque agora não era mais tão somente a sobrevivência da espécie em jogo, mas também e principalmente a reprodução de riquezas e perpetuação da propriedade privada. Ou seja, a gênese dessa radical divisão sexual, na qual o homem subordina a mulher, está na forma como a sociedade passou a se organizar economicamente e socialmente na sociedade escravista, conforme as novas condições historicamente determinadas.

Com o tempo, o machismo foi se consolidando cada vez mais na consciência social e coletiva, de tal forma que muitas mulheres, mesmo que não todas, passaram a aceitar esse papel determinado á elas, isto é, corroboraram com o próprio machismo. Porém, com o desenvolvimento social, as mulheres através de organizações de luta, conquistaram vários direitos que não possuíam antigamente, mesmo que a subordinação tenha permanecido intensa e prevaleça até hoje, Direitos como votar, estudar, trabalhar onde quiser, não ser obrigada a ter filhos, etc, são exemplos do que a luta feminina pôde proporcionar, porém, a despeito disso, o preconceito contra o sexo feminino ainda é corriqueiro não só na sociedade brasileira, mas no mundo todo, em maiores ou menores proporções de acordo com cada região. Como o machismo não se restringiu a esfera econômica e se disseminou por toda cotidianidade da vida social, se tornou cada vez mais explicito e comum. Na sociedade moderna capitalista o machismo aparece na forma como os homens exigem que as mulheres se vistam, no modo como quer que elas se comportem, no assédio sexual verbal e físico, na desigualdade salarial, no mercado de trabalho em geral, etc. Todas esses atributos machistas têm origem, diametralmente, na economia da sociedade, e portanto, a sua matriz histórica se encontra nesse horizonte.

Nesse sentido, para que o machismo possa ser superado, há a necessidade de superar a propriedade privada e divisão de classes, pois senão, apenas medidas paliativas dentro dessa estrutura podem ser aplicadas, mas nunca em um sentido de erradicação do problema. Devido a isso, a luta pela emancipação da mulher deve ser, necessariamente, a luta pela superação de toda estruturalidade tipicamente classicista, sobretudo, do capitalismo, que é a sua fase histórica mais moderna e a vigente.

Referências:

[1] UOL, Portal. Homens e Mulheres pré-históricos tinham princípios igualitários diz estudo. Disponível em: https://bit.ly/2I6YvME

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/

GALILEU, Revista. Ciência comprova que igualdade de gênero existiu na pré-história. Disponível em: https://glo.bo/2Mh1Eil

O problema é muito maior que o Bolsonaro

Após o fim do poder moderador, houve um vácuo de poder que historicamente foi preenchido pelas forças armadas. Ora, sempre que há abalo institucional, o exército entra em cena com o objetivo de pôr “ordem na casa”. Essa era a função de D. Pedro II, que toda vez que se via diante de alguma instabilidade parlamentar, fechava o parlamento e convocava novas eleições. Assim, governou o imperador por mais de meia década no período de maior estabilidade política de nossa história. E, inegavelmente, o exército tomou essa função para si. É o que vemos na história nos sucessivos episódios de intervenções militares na política brasileira. A chegada de Vargas ao poder em 1930, a fundação do Estado Novo em 1937, a deposição de Vargas em 1945 e o golpe de 1964 seguido do regime que se estendeu até 1985 foram todos frutos de ações militares. Além da provocação do suicídio de um presidente, Vargas, e da renúncia de outro, Jânio. Nas sombras, o exército age como um quarto poder. Atribuem a si a missão de moderadores supra-institucionais do poder, E, agora, após um período conturbado politicamente, com afastamento e prisão de presidente e ex-presidente, o exército está de volta. Agora operando institucionalmente, porém, com a mesma astúcia que agia século passado. Voltaram ao poder escondidos no nacionalista iludido que hoje é chamado de presidente. O que vocês precisam enxergar primeiramente é isso: O exército já está no poder, com suas hierarquias bem estruturadas. E está cada vez mais penetrando. Aqui mora o perigo.

Uma vítima inesperada foi o guru da Virgínia. Olavo de Carvalho se afastou ideologicamente do governo por causa da resistência do exército, que o isolou. Vejam só. Seus alunos ministros mostravam-se favoráveis a coisas como intervenções na Venezuela e à transferência da embaixada de Israel para Jerusalém. O exército se opôs e hoje estamos vendo sua intriga com os olavistas. E eles ganharam. Conseguiram manter o Olavo distante. Não só isso como ganharam super-poderes dentro do executivo, na pessoa do general Santa Cruz, o ministro da Secretaria do Governo. Uma vez que o decreto 9794 assinado por Bolsonaro concede uma concentração absurda de poderes nas mãos do general, que agora pode vetar nomeações para agências reguladoras, autarquias, dirigentes, reitores de universidade federais, embaixadores. Pode vetar até mesmo nomeação para diretor e presidente do Banco Central. Ou seja, a nomeação de cargos importantíssimos dependem agora do exército. É um poder similar ao que o exército tinha em qualquer regime militar implantado no Brasil, só que agora conquistado por vias legais. Golpe sem golpe. Motivo de preocupação.

Diante de tudo isso temos ainda a carta compartilhada pelo Bolsonaro no What’sApp, falando de país ingovernável e de uma possível queda do presidente. Insinuação de uma possível renúncia? É possível. Tão possível quanto uma queda por outros meios. Afinal, a mídia está expondo que a família Bolsonaro não é honesta como afirmava ser. Estão ficando cada vez mais evidentes os esquemas de desvio de verba pública por meio de funcionários fantasmas, de lavagem de dinheiro através da venda casas e a possível associação com milicianos. Uma queda do Bolsonaro é possível. E seria isso o que faltaria para o exército tomar o executivo de vez, com o Mourão na linha sucessória. Estamos diante de um momento grave para o País. De um lado há um presidente desastrado e do outro um progressivo emparelhamento do exército. Uma malha fina. O meio político é inviável para dar conta do país. Como combater essas forças?

Resistir é preciso: A crise habitacional do capitalismo brasileiro

Gabriel Brasileiro

Na primeira parte de seu livro Para a questão da habitação, Engels inicia o texto com a seguinte constatação:

“A chamada falta de habitação, que hoje em dia desempenha na imprensa um papel tão grande, não consiste no facto de a classe operária em geral viver em casas más, apinhadas e insalubres. Esta falta de habitação não é algo próprio do presente; ela não é sequer um dos sofrimentos próprios do moderno proletariado, face a todas as anteriores classes oprimidas; pelo contrário, ela atingiu de uma forma bastante parecida todas as classes oprimidas de todos os tempos. Para pôr fim a esta falta de habitação, há apenas um meio: eliminar a exploração e opressão da classe trabalhadora pela classe dominante.” [1]

Ora, é evidente que o problema habitacional de uma economia representa a luta de classes da sociedade. Certo que aqueles que vivem em habitações precárias ou que sequer possuem habitações representam a segregação urbana. Frente aos privilégios de outros, que não só possuem recursos habitacionais suficientes para suprir suas necessidades como possuem excedentes de consumo. Estando a luta de classes no seguinte ponto de tensão: no capitalismo, a partir do momento em que se tenta pôr remendo para amortecer a condição dos desprivilegiados, mexe-se com os recursos daqueles que estão mais acima na pirâmide de classes. Diante disso, a luta comunista consiste em, primeiro, moldar melhores condições urbanas dentro do sistema vigente e, segundo, em revolucionar o próprio sistema capitalista a fim de construir um futuro abundante que supere a própria luta de classes.

No capitalismo brasileiro, há uma fortíssima crise habitacional. O país tem, pelo menos, 6,9 milhões de famílias sem casa para morar. Tem também cerca de 6,05 milhões de imóveis desocupados há décadas [2]. E, segundo dados da FGV, entre os que possuem habitações, nem todos vivem em moradias aptas a suprirem integralmente as necessidades básicas. A esse descompasso dá-se o nome de déficit habitacional, que denomina a precarização representada por domicílios improvisados, superlotados e excessivamente onerosos a renda domiciliar, devido ao pagamento de aluguel. Como pode ser visto no gráfico abaixo, o déficit apresentou uma tendência crescente entre 2007 e 2017 [3].

Ademais, averiguando o hiato entre ofertas habitacionais (em bilhões) e necessidades de mesma natureza, o estudo da FGV constatou que o mercado brasileiro não está sendo capaz de preencher todas as necessidades de investimento em habitação. Isso não é de se espantar, afinal, mercados são imperfeitos. Todavia o mesmo hiato se observa quando se considera os investimentos do FGTS e subsídios governamentais [4].

Isso mostra que o pacto social brasileiro de 88, que tornou a habitação um direito universal, está falhando. A idealização posta no papel não conseguiu acompanhar a debilidade do capitalismo brasileiro. Isto é, o pacto político burguês que pretendia amortecer as imperfeições do mercado mostrou-se tão falho quanto. Em razão disso, os movimentos sociais de resistência urbana aparecem como necessários para corrigir essas falhas estruturais, já que tanto o mercado quanto o estado burguês são incapazes de pôr em prática soluções. Contudo, jamais se deve esquecer que a luta não deve ser orientada apenas para amortecer as condições do sistema, mas também para superá-lo. Resistir é preciso.

REFERÊNCIAS

1.
https://www.marxists.org/portugues/marx/1873/habita/cap01.htm

2.
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44028774

3.
https://www.abrainc.org.br/wp-content/uploads/2018/10/ANEHAB-Estudo-completo.pdf

4. Ibidem

Uma reflexão para o dia do trabalho: Um gráfico que expõe a insatisfação do mundo com os empregos

Gabriel Brasileiro

A Gallup, uma empresa de opinião americana, buscando compreender mais a fundo atitudes e comportamentos dos funcionários, constatou, em seu relatório mais recente sobre o estado do local de trabalho global, que o engajamento psicológico dos empregados em seus trabalhos é baixíssimo em escala mundial. Certo que, considerando os engajados — aqueles psicologicamente comprometidos com seus empregos —, os não engajados — aqueles que não têm motivações e que são menos propensos a investir esforços — e os fortemente não engajados — aqueles que são infelizes e improdutivos —, a porcentagem dos dois últimos tipos de funcionários no mundo é largamento superior ao primeiro tipo. Vejamos:

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Embora o objetivo da Gallup seja buscar formas de assessorar empresas capitalistas a melhorarem o engajamento dos funcionários, uma perspectiva marxista sabe bem que esses esforços são inúteis, mesmo que possam servir como paliativos. Certo que, como bem explica Marx, o problema está no próprio modelo produtivo, não nos funcionários em si. O capitalismo é um modo de produção alienador e vicioso, em que as pessoas se veem constrangidas a contraírem relações de produção repetitivas que não representam as suas verdadeiras vontades. Isto é, não representam a prática de suas potencialidades que lhes proporcionaria uma verdadeira satisfação. Isso faz com que os trabalhadores não se vejam realizados com seu trabalho, sentindo-se estranhos, alheios, ao que estão fazendo. Contudo, é importante salientar que Marx, desde o Manifesto, não negava o poder do consumo sob o capitalismo, que, com bens barateados e abundantes, podem com certeza propiciar uma maior margem de engajamento psicológico dos empregados que desejam conquistar seus objetivos de consumo. Mas, o que se observa é que, mesmo assim, países que melhor representam o capitalismo em sua forma mais desenvolvidas, como os EUA e os países da Europa Ocidental, ainda possuem forte desengajamento psicológico. Ou seja, como bem descreve Marx, o comprometimento não seria resultado do prazer de praticar a atividade laboriosa em si, mas sim da projeção dos resultados remuneratórios, que representam o verdadeiro fim, o verdadeiro objeto de felicidade, que no capitalismo é provisório. Desse modo, o trabalhador é tomado como uma engrenagem que se submete a um emprego que odeia para conseguir a felicidade instantânea, esta que muitas vezes sequer é mais conquistada quando também vira rotina ou quando não há poder de compra suficiente para investir em novas atividades de lazer.

Ademais, como constata a Gallup, trabalhos intelectuais, típicos de burgueses ou de pessoas que preenchem cargos de maior nível hierárquico dentro da cadeia produtiva, são os que menos enfrentam o desengajamento psicológico. Ficando evidente que há uma assimetria de poder em que os mais hierarquicamente superiores são detentores de maior capacidade de tomada de decisões relevantes quanto ao os rumos dos recursos empresariais. Enquanto os mais subordinados e sem participação mais direta nas decisões referentes ao rumo dos produtos de seus trabalhos sofrem de maior desengajamento psicológico. E, mais uma vez, Marx acerta, pois esse é outro sintoma de alienação, em que o produtor não vê sua marca de realização no produto de seu trabalho, sentindo-se apenas uma engrenagem desumanizada que não toma grandes decisões quanto ao que produz.

Portanto, a fim de buscar a plena realização da humanidade no intercâmbio com a natureza, Marx propõe o comunismo, uma realidade social na qual, possuindo uma abundância de recursos sem precedentes, automatização plena do trabalho e livre acesso ao abundante, a humanidade tenha liberdade para contrair relações com a natureza e com outros seres humanos que representem, em si mesmas, a verdadeira manifestação de sua vontade.

A era do coaching, uma patologia do neoliberalismo

Igor Teo

Texto original aqui

Ser coach está na moda. Há coach para esportes, nutrição, carreira, finanças e até — pasmem — questões psicológicas. Neste texto vamos entender qual o verdadeiro problema (e perigo!) do coaching.

Em primeiro lugar, qualquer coisa pode ser interessante à primeira vista. O coaching também. Se você vê o Tonny Robbins, por exemplo, por mais forçado que pareça o seu espetáculo de transformação pessoal, é possível ainda extrair dele uma ou duas coisas bacanas.

Mas infelizmente não muito mais que isso.

O real problema por trás do coaching não está em sua formação extra-acadêmica, nos seus termos em inglês fora de contexto ou no seu conteúdo que se aplica redutivamente a uma classe média. O problema do coach está em sua precária visão de mundo.

Uma Weltanschauung neoliberal

O coaching não dispõe de uma rica psicologia. Ele não é uma psicologia junguiana que flerta com um mundo espiritual, nem uma psicanálise oriunda da alta filosofia alemã. Não chega a ser nem uma psicologia cognitiva com seu cientificismo biológico contemporâneo.

coach é aquilo que a própria palavra diz. Em inglês, é o técnico da equipe ou o treinador do atleta que precisa vencer uma partida. E afinal, é isso que todo coach nos enjoa de repetir de todas as maneiras possíveis: superação, vitória, desenvolvimento, expandir o seu potencial etc.

Weltanschauung do coaching — esta belíssima palavra que os alemães criariam para cosmovisão — é de que a vida é feita de superação. Todos nós temos um sentimento interior de incapacidade, uma autosabotagem por conta de nossas crenças limitantes, e que precisamos vencer nossas barreiras pessoais para alcançar nosso verdadeiro potencial, liberando o campeão que realmente somos.

Isso funciona bem nos esportes. E pode ser facilmente adaptado ao mundo corporativo em que os negócios são vistos como o campo de batalha moderno.

Mas no mundo neoliberal, em que nos dizem que devemos ser os empreendedores de nós mesmos, em que nossas escolhas são medidas como investimentos, e que nossa vida precisa ser gerida como uma empresa que não pode deixar nunca de crescer, o coaching é a cereja do bolo.

Neste universo, a vida se esvazia de qualquer outra possibilidade de sentido. Tudo se torna uma oportunidade de crescimento, superação, despertar de potencial, ou qualquer coisa mais piega.

E numa sociedade tão preocupada com esses termos, não é de se estranhar como as pessoas tanto se queixam de culpa em autorecriminação, ansiedade diante dos seus desejos, depressão por se verem distantes de seus ideais.

Quanto a isso, o coaching nunca vai resolver a vida de ninguém. Porque ele não é a solução. Ele é parte do problema.

Qual é a vida dos vencedores?

O coaching faz parte do discurso de que a vida é uma batalha e que precisamos sair vencedores dela. Por trás da ideia de que não devemos nos conformar com as limitações e que podemos superá-las, o coaching promove um sentimento de inadequação.

Isto é, nunca produzimos o suciente com nosso trabalho, o dinheiro que eu ganho não basta para aquilo que eu quero comprar, meu corpo necessita de dietas e exercícios especiais para ser bonito como o pessoal do Instagram, e por aí vai.

Não é curioso que as promessas do coaching geralmente estão em torno de questões de consumo, produtividade e ostentação?

Ao invés de questionar a origem desses estranhos ideais — e talvez pensar que não é a forma mais saudável ou sábia de viver — o coaching e o mercado neoliberal se alimentam do sentimento de insatisfação com nossas vidas, relações, economias, corpos etc. Um mercado que lucra com o inadequado, o insuficiente.

Diria o discurso raso de um coach que o problema não é a sociedade ou esse modelo de pensamento… é você que não está trabalhando bem o seu potencial.

Não há nenhuma inconformidade romântica aí, digna de um Nietzsche, questionando a moral e a sociedade. O discurso do coaching é um imperativo para que nos adequemos a uma sociedade que padece e por conta disso mesmo assiste o crescimento dos transtornos mentais.

Diante disso, a resposta é: Supere seus limites. Seja uma engrenagem melhor — produzindo e consumindo mais — nesse sistema que também lhe faz sofrer. Quem sabe ganhando mais ou postando no Instagram suas vitórias você se sentirá feliz. Afinal, aparentemente a culpa é sua por não conseguir.

Encontrar suas vitórias

Não estou dizendo que não hajam dificuldades na vida e que cai bem superá-las. São coisas que desejamos e não fazemos apenas por medo, doenças que queremos nos recuperar, ou inclusive sair de uma situação socialmente/economicamente desfavorável.

Há coisas realmente complicadas na vida e que faz sentido nos sentirmos orgulhosos em superá-las. Por exemplo, eu acredito que qualquer um que supere um câncer é um verdadeiro vencedor.

Há muitas formas de “vencer na vida”. Mas ainda assim não podemos medir a vida inteira com apenas esta régua.

Na vida há lugar tanto para a vitória quanto para a derrota. Muitas vezes iremos perder: para uma doença, uma situação fora do nosso controle ou qualquer tipo limite. Fato é que você perderá algumas vezes na vida. E tudo bem!

Não há nada errado em descobrir alguns limites para algumas coisas. Há um certo tipo mimado em pensar que tudo é possível, que jamais perderemos ou que existirem limitações nos fazem pior.

Aceitarmos as derrotas é importante para descobrir também nossas vitórias. E a obsessão com tudo “superar” é ela mesmo uma patologia do derrotado.

O que não lhe podem vender

Vivemos como se sempre faltasse algo para sermos realmente felizes. E é verdade, essa falta não vai embora. Se conquistamos algo, vamos querer um pouquinho mais.

Mas ao invés de transformar isso numa eterna batalha de limites e possibilidades, prefiro pensar que há uma ética mais simples para viver bem, mesmo que ainda falte algumas coisas depois disso. Uma ética para que aquilo que falte não mate o que já temos.

Em geral, viver é apenas aprender a estar.

Quero dizer: estar bem com algumas coisas que são muito difíceis de lidar e não haverá soluções fáceis como seu coach poderá propor. Refiro-me ao enigma da morte, ao nosso eterno desconforto com o tempo das coisas, a estranheza da sexualidade e os paradoxos do amor, a difícil sustentação dos laços familiares, os aprendizados para uma boa amizade, a incompreensão do outro, dentre tantas coisas.

Aí estão os “impossíveis” da existência. Para lidar com eles, as pessoas são capazes de encontrarem para si as mais diversas respostas e visões de mundo que nenhuma fórmula pronta consegue substituir. E se você consegue lidar suficientemente bem com esses impossíveis, sua vida já é um tanto sofisticada para se preocupar com ideais estranhos de realização.


Igor Teo é psicanalista. Formado em Psicologia e Mestre em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para mais conteúdo e contato, acesse o seu site.

Justiça decide, os réus da tragédia de Mariana não serão julgados por homicídio e Mészáros explica o motivo

De forma unânime, os desembargadores do TRF1 decidiram trancar a ação penal de 2016 quanto ao crime de homídio contra o executivos de Vale, Samarco e BHP Billiton devido à tragédia de Mariana. Desse modo, os executivos não serão mais julgados pelo júri popular – que julga crimes contra a vida -, tendo a ação penal para o crime de lesão corporal também sido trancado. Permaneceu apenas o processo para os crimes ambientais e de inundação, que é previsto no Código Penal. Isso significa, que a justiça burguesa retirou do povo a oportunidade de julgar diretamente os executivos, os quais, nessas circunstâncias, seriam julgados culpados.

Tal impunidade ocorre porque o Estado contemporâneo atua como estrutura política responsável pelos defeitos estruturais do Capital. Mészáros elenca os três defeitos primordiais, mas só vale falar sobre um: A extrema oposição entre a produção e o controle.

O Capital, enquanto uma relação social de expansão incessante de riquezas a partir da exploração da mão de obra humana, é incontrolável, e, portanto, todos os agentes econômicos têm que se adaptar às suas exigências de expansão contínua. Nesse sentido, tanto as personificações do trabalho (trabalhadores) quanto as personificações do próprio capital (empresários e suas respectivas empresas) devem se ajustar aos imperativos desses sistema, senão irão se afundar na estratificação social até atingirem a miséria, ou seja, serão engolidos pelo Capital por não terem atendido seus anseios de desenvolvimento.

Nesse defeito em específico, a tragédia de Mariana, o Estado age conforme as dinâmicas mutantes do Capital, mas tem como peculiaridade a proteção legal das relações de poder estabelecidas. Em outras palavras, o Estado garante o direito das empresas explorarem a força de trabalho humana da sociedade, além de impor a ilusão de que há relações livres e voluntárias entre trabalhador e patrão. Ele faz isso a partir de sua estrutura jurídica, por meio da qual assegura a proteção dos meios de produção e dos proprietários desses meios. Sendo assim, ele é exigência absoluta para o exercício da exploração nos locais de trabalho.

Mas o que isso tem a ver com essa tragédia? Ora, sem o aparato jurídico do Estado, as empresas seriam desmanteladas internamente por conta dos desacordos constantes entre as forças antagonicamente estabelecidas (classes sociais conflitantes). Em outras palavras, é o Estado que é o responsável pela seletividade penal, e, como ele serve às dinâmicas do Capital, irá atuar de acordo com a potencialização do seu desenvolvimento.

Isso significa, na prática, que os executivos não podem ser punidos como deveria, uma vez que eles são importantes para o desenvolvimento do Capital. E, nesse sentido, as penas são abrandadas.

Dentro da ordem social do capital, a vida humana só tem valor para uma coisa: produzir e consumir riquezas. Fora isso, ela é descartável e o Estado com a sua estrutura jurídica garante que isso se consolide na prática, bem como tenta, através de medidas paliativas e inefetivas para reparar os estrago, como no caso das indenizações para os familiares dos mortos em brumadinho, resolver esse desacordo entre as vitimas das tragédias e os causadores dela.

Referência do governo Bolsonaro, Japão não vai mais cortar verba de cursos de humanas

Por Helena Borges

Texto original aqui

Desde 1995, governo japonês diminuiu o orçamento público dedicado à formação em ciências humanas, mas impacto das mudanças tecnológica e climática na sociedade levou a revisão

RIO — O presidente Jair Bolsonaro reafirmou nesta sexta-feira (26) sua intenção de cortar investimentos nas faculdades brasileiras de ciências humanas , algo que já havia sido defendido pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub .

Segundo o chefe do MEC, o modelo exemplar a ser seguido seria o do Japão, que orientou suas universidades a fecharem ou remodelarem seus departamentos de ciências humanas em 2015.

No entanto, o governo japonês decidiu voltar a promover ciências humanas e sociais — com foco em ética e jurisprudência — em sua nova política de ciência e tecnologia, que será implementada a partir de 2020.

— O Japão, país muito mais rico do que o Brasil, está tirando dinheiro público das faculdades que são tidas como de elite, como filosofia. Pode estudar filosofia? Pode, (mas) com dinheiro próprio. E o Japão reforça: esse dinheiro que iria para faculdades como filosofia, sociologia, se coloca nas que geram retorno de fato: enfermagem, veterinária, engenharia e medicina — afirmou o ministro durante uma transmissão ao vivo no Facebook.

Na manhã desta sexta-feira (26) o presidente voltou a tratar do tema.

Desvalorização das ciências humanas

As ciências humanas e sociais foram excluídas dos programas de promoção científica no Ato Básico de Ciência e Tecnologia japonês, assinado em 1995 .

Vinte anos depois, o ministro japonês da educação, Hakuban Shimomura, enviou uma carta às 86 universidades federais japonesas pedindo que tomassem “passos ativos para abolir as ciências sociais e humanas das organizações ou convertê-las para melhor atender às necessidades da sociedade”.

Cerca de 30 universidades japonesas responderam de imediato, prometendo fechar ou reduziram seus departamentos de ciências humanas e sociais no ano seguinte.

No entanto, as duas maiores universidades japonesas, a de Tóquio e a de Kioto, afirmaram que não iriam atender ao pedido. O movimento chamou a atenção de acadêmicos de todo o mundo, levando muitos a se manifestarem contra a medida.

Com a onda reativa, atualmente a maior parte dos departamentos de ciências humanas permanece funcionando, porém com cada vez menos apoio financeiro.

Pesquisadores dessa área recebem salários mais baixos em comparação aos de colegas que trabalham nas mesmas instituições, porém focados em ciências naturais e tecnológicas.

As empresas que realizam estudos conjuntos com instituições de pesquisa em ciências sociais estão excluídas das isenções fiscais e de outros tipos de incentivos. A Agência de Ciência e Tecnologia do Japão, do Ministério da Educação, não fornece subsídios de ajuda para propostas de estudo que enfocam apenas as ciências humanas ou sociais.

Nos últimos anos, no entanto, pesquisas em áreas como inteligência artificial, mudanças climáticas e ciências biológicas criaram uma necessidade crescente de estudos sobre como esses avanços afetarão a sociedade e as pessoas que nela vivem.

Com isso, o governo japonês decidiu retomar o apoio público às ciências humanas e sociais, revisando sua política para 2020.

Conectando conhecimentos

O mais recente texto da Política Básica japonesa de Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) afirma que “mais do que nunca” é importante reunir especialistas em disciplinas variadas para alcançar os objetivos de inovação.

“É essencial fomentar recursos humanos que possam conectar ciência com política, administração e vários setores dentro e fora do Japão, com perspectivas históricas e internacionais e conhecimento geopolítico”, diz o texto.

Ele já aponta para os próximos passos, que serão definidos no plano a ser divulgado em 2019:

“É importante estimular colaborações entre ciências humanas, sociais e naturais, porque a realização dos ODS poderia ser feita com interações de vários fatores, incluindo sociedade, economia, sistema, modo de vida e valores. (…) O ministério promoverá estratégica e continuamente as medidas de política de CTI para ODS, refletindo apropriadamente essas medidas ao pedido de orçamento a cada ano.”

3 “argumentos” de Jordan Peterson no debate que provam que ele nunca leu Karl Marx

Por Ben Burgis

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O momento mais chocante do debate de Žižek-Peterson ocorreu durante os primeiros cinco minutos. Na declaração inicial de Jordan Peterson, ele mencionou que releu o Manifesto Comunista em preparação para o debate. Isso, por si só, não foi especialmente surpreendente. Uma das muitas razões pelas quais o evento foi tão esperado – como o Dr. Peterson mencionou, os cambistas de Toronto estavam cobrando mais por assentos do que cobravam os ingressos do Maple Leafs – era que um dos mais importantes intelectuais marxistas do mundo estaria debatendo um dos os mais ferozes críticos do marxismo. Assim, seria de se esperar que o oponente de Žižek retocasse alguns clássicos marxistas em preparação para o encontro deles. A parte chocante veio alguns segundos depois, quando Peterson, de 56 anos, casualmente acrescentou que não havia lido o Manifesto. desde que ele tinha 18 anos.

Peterson tem um interesse profundo e de longa data no totalitarismo. Ele encheu sua casa de arte da União Soviética para se lembrar dos males desse sistema. Por incrível que pareça, algo semelhante é verdade em relação ao seu parceiro de luta marxista. Žižek era um comunista dissidente na Iugoslávia de Tito, que deixou o partido para protestar contra o julgamento do ZBTZ, e ele mantém um retrato de Stalin em sua casa. Embora ele tenha explicado o significado do retrato de diferentes maneiras para diferentes entrevistadores, pelo menos parte da ideia parece ser que ela serve como um lembrete das maneiras pelas quais o projeto socialista pode dar terrivelmente errado.

Ao contrário de Žižek, Peterson aparentemente acredita que as tentativas de realizar um programa político inspirado nos escritos de Marx  podem dar errado. Antes de concordar em debater com Žižek, Peterson recusou uma oferta semelhante do economista marxista Richard Wolff. Embora Wolff seja um socialista democrático que promove as cooperativas de trabalhadores como “a cura para o capitalismo”, Peterson chamou sua introdução para uma nova edição do The Gulag Archipeligo de “uma resposta aos Richard Wolffs do mundo”.

O debate sobre se há uma linha direta de Marx a Stalin é importante, especialmente tendo em vista o ressurgimento do interesse pelo socialismo no Ocidente contemporâneo. Todos devem querer que os principais participantes nesse debate sejam tão bem informados quanto possível. Os marxistas deveriam querer afiar suas mentes tendo que enfrentar as melhores versões dos argumentos antimarxistas, enquanto os antimarxistas deveriam querer um defensor de sua posição que conheça os escritos de Marx por dentro e por fora. Infelizmente, como ele mostrou em muitas ocasiões, Jordan Peterson não se encaixa nessa conta.

1. A Crítica de Marx ao Programa de Gotha e a Crítica de Marx de Peterson

Peterson parece sugerir no vídeo abaixo que o pós-modernismo e o marxismo compartilham uma crença perigosa na “igualdade de resultados”. Enquanto ele vê a “igualdade de oportunidades” como um objetivo “louvável”, Peterson acha que as tentativas de impor a igualdade de resultados levam ao desastre.

Muitos críticos questionaram sua afirmação sobre a relação entre essas duas escolas de pensamento. O marxismo é, afinal, exatamente o tipo de “grande narrativa” denunciada pelos pensadores pós-estruturalistas. Mas o que tem sido menos apreciado é que Marx estava longe de defender a estrita “igualdade de resultados”. Em sua Crítica do Programa de Gotha de 1875 , Marx argumentou que nos primeiros estágios de uma sociedade pós-capitalista, trabalhadores individuais teriam ser compensado de forma desigual por uma variedade de razões:

O homem é superior ao outro fisicamente, ou mentalmente, e fornece mais trabalho ao mesmo tempo, ou pode trabalhar por mais tempo; e trabalho, para servir como uma medida, deve ser definido por sua duração ou intensidade, caso contrário, deixa de ser um padrão de medição. Além disso, um trabalhador é casado, outro não é; um tem mais filhos do que outro, e assim por diante. Assim, com um desempenho igual do trabalho e, portanto, uma participação igual no fundo de consumo social, um receberá de fato mais do que outro, um será mais rico que o outro e assim por diante. Para evitar todos esses defeitos, o direito, em vez de ser igual, teria que ser desigual.

Mais tarde, o progresso cultural e tecnológico eliminaria a necessidade de tais disparidades. Sob o capitalismo, a automação coloca as pessoas fora do trabalho. Sob o socialismo, previu Marx, isso significaria que todos deveriam trabalhar menos horas. Eventualmente, ele pensou que haveria tanta abundância que todos poderiam simplesmente pegar o que precisavam, e que pouco trabalho ainda precisava ser feito por humanos poderia ser realizado por todos, apenas perseguindo quaisquer projetos que acontecessem para interessá-los. “De cada um de acordo com suas habilidades, para cada um de acordo com suas necessidades.”

Os críticos do marxismo provavelmente reverberarão o utopismo dessa visão.Alguns recursos, eles argumentam, sempre serão escassos. Além disso, não é realista imaginar que os incentivos financeiros deixarão de ser o principal motor da ingenuidade humana. Este é um debate que vale a pena ter. Para tê-lo, porém, todos os disputantes precisam saber o que Marx é – e não está – dizendo. Em nenhum momento de seu raciocínio sobre como um futuro socialista poderia funcionar, ele imagina algo como todo mundo tendo uma participação estritamente igualitária dos recursos da sociedade.

2. Democracia, ditadura e revolução

Em sua declaração de abertura no debate com Žižek, Peterson disse que a solução de Marx para os males do capitalismo era “uma revolução violenta e sangrenta”. Isso não está certo. Marx defendeu a revolução contra os monarcas hereditários que governaram a maior parte da Europa quando o Manifesto Comunista foi publicado. Mas eu não conheço nenhuma passagem em seus volumosos escritos em colaboração de Engels em que Marx tenha dito que os socialistas precisariam recorrer a uma tomada violenta de poder em uma democracia parlamentar avançada, onde os direitos civis haviam sido estendidos à classe trabalhadora. Em, por exemplo, em seu discurso de 1872 “La Liberté” à Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx é explícito sobre essa distinção.

Em que casos, porém, a revolução era necessária? Marx e Engels conversaram em alguns lugares sobre a ideia de que uma “ditadura do proletariado” temporária seria necessária para consolidar os ganhos revolucionários. Isso certamente parece antidemocrático. Mas o que exatamente isso significa? Como assinalou Slavoj Žižek em Toronto, qualquer discussão historicamente fundamentada sobre “a ditadura do proletariado” deve referir-se ao exemplo do mundo real que Marx e Engels apontaram para ilustrar o conceito. Em 1871, os trabalhadores tomaram a cidade de Paris e criaram a Comuna de Paris. Todos os funcionários eleitos na Comuna poderiam ser chamados pelos seus constituintes a qualquer momento e por qualquer motivo. Havia uma milícia popular em vez de um exército permanente. Fábricas abandonadas por seus proprietários foram reabertas como cooperativas de trabalhadores. A Comuna foi tão radicalmente democrática que foi visto como um modelo pós-revolucionário tanto por marxistas quanto por anarquistas da Associação Internacional dos Trabalhadores.

Os críticos do marxismo podem argumentar que experimentos radicais como a Comuna de Paris são perigosamente caóticos por natureza. Talvez haja até boas razões para acreditar que esse modelo ultra-democrático acabaria se deteriorando em algo tão feio quanto a experiência soviética. O que quer que se pense sobre essas questões, qualquer debate razoável deve partir do conhecimento de que, quando Marx fala sobre “a ditadura do proletariado”, o que ele tem em mente é a Comuna de Paris.

3. Capitalismo, pobreza e o manifesto comunista

Peterson frequentemente aponta que muitas pessoas foram retiradas da pobreza desde o início do século XIX. Aqui, por exemplo, é um tweet de julho de 2018:

Na foto, uma notícia compartilhada pelo JP falando sobre a diminuição da quantidade de pessoas na extrema pobreza no mundo. Jordan Peterson: “Outra razão para odiar o capitalismo. Todas as pessoas pobres continuam apresentando crescimento de renda!” (tradução livre)

Aqui está um de abril de 2019, algumas semanas antes do debate:

Na foto, outra notícia compartilhada pelo JP falando sobre a diminuição da quantidade de pessoas na extrema pobreza no mundo. Jordan Peterson: “Mais evidências para os males da propriedade privada e do comércio – você sabe, capitalismo.”

Ele apresentou o mesmo ponto na fase de debate em Toronto, desta vez referenciando 1800 em vez de 1820 como ponto de partida. Nos três casos, a forte implicação foi que esse ponto enfraquece o pensamento dos marxistas e de outros críticos esquerdistas do capitalismo. Por que deveria, no entanto? Uma das razões pelas quais Marx pensava que a transição do feudalismo para o capitalismo era um progresso é porque isso permitia que as “forças de produção” se desenvolvessem para além das estruturas sociais feudais. As páginas de abertura do Manifesto Comunista são dedicadas em grande parte a uma celebração das maravilhas que foram realizadas por essa transição.

Todas as relações fixas e ultracongeladas, com o seu leque de antigos e veneráveis ​​preconceitos e opiniões, são varridas, todas as novas formadas tornam-se antiquadas antes de poderem ossificar. Tudo o que é sólido se funde no ar… A burguesia, durante seu governo de escassos cem anos, criou forças produtivas mais massivas e mais colossais do que todas as gerações precedentes juntas. Sujeição das forças da natureza ao homem, maquinário, aplicação da química à indústria e agricultura, navegação a vapor, ferrovias, telégrafos elétricos, limpeza de continentes inteiros para cultivo, canalização de rios, populações inteiras projetadas do solo – o que o século anterior tinha mesmo um pressentimento de que tais forças produtivas dormiam no colo do trabalho social?

Em 1820, não apenas as ilhas da indústria eram cercadas por um mar de campos, mas muitos dos camponeses que labutavam no interior da Europa eram (ou, pelo menos, nasceram como) servos. O capitalismo estava apenas começando a sair da sombra do feudalismo. Um fato de grande relevância para a disputa entre marxistas e defensores do capitalismo de livre mercado é o fato de que a taxa de pobreza extrema continuou a declinar dois séculos depois. E isso é um território polêmico. São 2 dólares por dia ou 5 dólares por dia uma indicação melhor da pobreza “extrema”? Devemos nos preocupar com números brutos ou sobre a porcentagem da população que é desesperadamente pobre?

De certa forma, um ponto de discórdia ainda mais interessante diz respeito ao papel que a República Popular da China desempenhou nesse processo. A China está cheia de empresas privadas nos dias de hoje, mas o estado continua a desempenhar um papel desmedido na formação da economia chinesa. Se um dos principais propulsores do declínio global da pobreza extrema é o seu declínio na República Popular, isso é uma história de sucesso para o capitalismo de “mercado livre” ou para uma forma modificada e liberalizada de socialismo de estado? Uma resposta a essa pergunta poderia lançar alguma luz sobre a questão mais profunda de se o capitalismo continua sendo a maneira mais eficaz de melhorar o destino dos pobres ou se um sistema global alternativo seria preferível. Este é um debate que vale a pena ter, mas o lado pró-capitalista merece representantes antimarxistas mais bem informados do que Jordan Peterson.

A atualidade insuperável de Lenin: em defesa do legado revolucionário de nosso mestre bolchevique

Gazeta Revolucionária

“Caminhamos num pequeno grupo unido por uma estrada escarpa e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. Estamos cercados de inimigos por todos os lados, e, quase sempre, é preciso caminhar sob fogo cruzado. Estamos unidos por uma decisão tomada livremente, justamente para lutar contra o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes nos acusam, desde o início, de termos formado um grupo à parte, preferido o caminho da luta ao da conciliação.” (Lenin).

No próximo dia 22 de abril, se completará os 149 anos de nascimento do grande dirigente revolucionário e chefe do proletariado mundial, Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido pelo pseudônimo Lenin. Lenin foi o principal dirigente da Revolução Russa de 1917 ao lado de Leon Trotsky, e maior líder político desde o século passado. Seu legado, método e obra revolucionária, sobretudo o bolchevismo, não só permanecem atualíssimos, mas é mesmo imprescindível como arma política dos trabalhadores de todo o mundo em sua luta contra a burguesia e pelo socialismo. Exatamente por tal legado de luta contra o capital, nenhum outro líder político foi tão odiado e caluniado em toda a história como o foi e é Vladimir Lenin, expressão do profundo ódio de classe que todos os exploradores e opressores do mundo, bem como seus serviçais e lacaios, nutrem (mas também temem) pelo grande revolucionário.

Lenin foi sem sombra de dúvidas, a personificação da fusão entre teoria e prática. Na atual etapa de decadência burguesa e decomposição do capitalismo senil, caracterizado pelo auge da barbárie social, econômica, etc., só mesmo o partido revolucionário e a organização internacional dos trabalhadores como teorizado e posto em prática por Lenin podem dirigir às massas em direção a derrubada mundial da sociedade burguesa tardia.

Além de lançar as bases do partido revolucionário do proletariado como sua principal arma contra a burguesia, as contribuições de Lenin acerca do imperialismo, do combate ao oportunismo e da elevação da filosofia marxista revolucionária, são verdadeiros arsenais da política proletária e devem ser conhecidos das novas gerações de trabalhadores  conscientes, que tem a missão histórica de levantar bem alto a bandeira do autentico  marxismo-leninismo, em direção a destruição do modo de produção capitalista e eliminar a exploração do homem pelo homem, somente possível pela sociedade socialista.

Lenin e sua juventude

Nascido no dia 22 de abril de 1870 em Simbirsk, nas margens do rio Volga na Rússia Czarista, Vladimir Ilich Ulianov teve origem familiar na pequena burguesia russa, seu pai, Ilya Nicolayevich Ulianov,  foi funcionário no setor educacional Czarista e sua mãe, Maria Alexandrovna Blank, era filha de um médico na província de Kazan. Lenin viveu em sua infância e adolescência tempos de grande agitação política, neste período a Rússia era uma sociedade semifeudal e dirigida politicamente de forma despótica pela aristocracia Czarista e por uma classe dirigente arcaica, incapaz de levar adiante uma profunda transformação nas relações econômicas e sociais no país, seguindo os passos da grande burguesia europeia ocidental, herdeiras direta da grande revolução francesa de 1789. Durante a juventude de Lenin, praticamente toda a intelligentsia progressista da Rússia e os revolucionários, eram atraídos para a luta política pelo grupo “Vontade Popular”, que tinham como método de ação os atentados espetaculares, que segundo seus militantes, eram o único meio que poderia abalar o poder do Czar e construir uma outra sociedade. O irmão mais velho de Lenin, Alexandre Ulianov, integrante do “Vontade Popular”, foi enforcado em 1886 após tentativa de assassinar o Czar Alexander III.

Por este período Lenin frequentava a faculdade de direito em Kazan, quando um ano após o assassinato de Alexandre é preso e expulso da universidade por suas atividades. Nessa época, mesmo reconhecendo o valor e a coragem dos revolucionários que davam a vida enfrentando a exploração e opressão Czarista e da burguesia atrasada russa, Lenin já percebia a ineficácia das ações voluntaristas de “Vontade Popular” e do espontaneísmo em voga. Com grande perspicácia e vontade política, Lenin já desenvolvia a preocupação em unificar todos os grupos clandestinos de tendência marxista, que atuavam sobretudo em São Petersburgo, cidade em que ele desembarcara mudando-se de Samara, e que segundo Trotsky: “Foi portanto, entre a execução de seu irmão e sua mudança para  São Petersburgo, nesse período de seis anos de trabalho árduo, que o Lenin  futuro foi formado”.

 Lenin estabelece contatos com grupos marxistas ilegais e estuda “O Capital” de Marx, seguido pelo “Anti-Duhring” de Engels, marcando em definitivo sua personalidade política revolucionária e seu avanço como teórico marxista. Logo se aproxima do grupo “Emancipação do Trabalho”, dirigido por George Plekhanov, o grande fundador do marxismo na Rússia, fatores decisivos na vida de Lenin, que em breve tempo caminharia na direção da fundação do partido revolucionário do proletariado. Através dos investimentos do capital estrangeiro, formou-se na Rússia uma pequena, mas poderosa classe trabalhadora, que deu origem aos círculos operários dos quais Lenin se aproximara. Sua aproximação dos operários foi decisiva para que ele compreendesse o papel fundamental que o proletariado poderia desempenhar no cenário político do país. Lenin nessa época percebe que, o desenvolvimento do capitalismo na Rússia arcaica, produzindo a instalação de grandes empresas e gerando um proletariado moderno, concentrado e disciplinado, estabelecia as bases materiais e condições objetivas para que a classe tivesse seus interesses próprios e independência política diante da burguesia e contra o Czar.

Em sua obra de 1894, “Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas”, polemizando com os “populistas”, que não compreendiam as peculiaridades pelas quais se desenvolviam as lutas de classes e o caráter da revolução no país, Lenin já destacava o papel dirigente do proletariado russo e sua independência de classe, nas lutas democráticas que se recrudesciam. Neste importante texto, expõe os fundamentos do socialismo cientifico de Marx e Engels, como a principal ferramenta de luta dos trabalhadores em sua empreitada revolucionária histórica contra o capital.

No ano de 1895, pertencendo ao grupo “União e Luta pela Emancipação da Classe Operária”, Lenin se encontra com Plekhanov na Suíça e conversa com Paul Lafargue, importante revolucionário comunista e genro de Karl Marx, em Paris, sobretudo para aprofundar seus estudos da Comuna de Paris. Poucos dias após seu retorno foi preso e em seguida exilado com outros camaradas. Em 1898 ocorre o primeiro Congresso do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), do qual surgiu o partido Bolchevique, atacado pelas forças da repressão e seus participantes presos. Neste período em seu exílio na Sibéria, escreve um clássico da economia marxista, seu lendário livro “O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia”, na qual analisa os efeitos da penetração do capitalismo na agricultura, as diversas etapas da evolução do modo de produção burguês na indústria, o crescimento da proletarização maciça e a formação da classe trabalhadora.

Lenin foi sem dúvida a principal figura do século XX, sua personalidade e seu protagonismo como dirigente revolucionário do proletariado mundial foram incomparavelmente decisivos para a luta da classe trabalhadora em todo o globo.

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 Bolchevismo: o partido de novo tipo

No começo dos anos 1900, já no fim de seu exílio, Lenin passa a dedicar grande esforço para a construção de um jornal que abarcasse toda a Rússia. O primeiro Congresso do POSDR já havia decidido publicar, por influência de Lenin, um jornal clandestino. Neste período surge o jornal “Iskra” (“A Faísca”), contrabandeado clandestinamente para dentro da Rússia e que se fundamentava programaticamente no marxismo e o colocava como força ideológica revolucionária dominante, contra as correntes sectárias e/ou oportunistas dentro do movimento operário, obra que Lenin valorizou até o fim de sua vida.

O “Iskra” prepara o 2º Congresso do Partido, que ocorreu em 1903, este que foi o Congresso fundador. Lenin centrou forças e escreveu uma das principais obras do marxismo revolucionário que mantém até hoje impressionante atualidade em seu método: “Que Fazer?”. Nessa obra magistral, o grande revolucionário lança as bases teóricas da “organização como sujeito político”, de forma que nenhum outro o fez antes. É neste genial documento que Lenin defende a criação de um partido de revolucionários profissionais, organizado, centralizado e disciplinado, como um verdadeiro “Estado Maior” do proletariado revolucionário. Nas palavras de Marcel Liebman “a própria ideia de organização ocupa no leninismo um lugar essencial: organização do instrumento revolucionário, organização da própria revolução, organização da sociedade surgida com a revolução”. As preocupações centrais de Lenin que o levaram a escrever “Que Fazer?”, eram produtos da desorganização pequeno-burguesa reinante que imperava entre a vanguarda revolucionária na Rússia Czarista.

Uma das características dessa vanguarda era o culto prestado ao “espontaneismo das massas”, desprezando os efeitos que a divisão do trabalho burguês impõe sobre os trabalhadores escravizados pelo capital.  Combatendo no melhor espírito do socialismo cientifico dos mestres Marx e Engels, Lenin ensina nesta gigante obra: “Dissemos anteriormente que, na época, os operários não podiam ter consciência socialdemocrata. Esta só poderia ser introduzida de fora. A história de todos os países demonstra que, contando apenas com as próprias forças, a classe operária só está em condições de atingir uma consciência trade-unionista, isto é, a convicção de que é preciso agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões, reivindicar ao governo a promulgação desta ou daquela lei necessária aos operários etc. A doutrina socialista, ao contrário, nasceu das teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas pelos representantes instruídos das classes proprietárias, pelos intelectuais. Por sua origem e posição social, também os fundadores do socialismo cientifico contemporâneo, Marx e Engels, pertenciam à intelectualidade burguesa.” (Lenin, “Que Fazer?”). Lenin discorre em outras importantes passagens do livro sobre a influência nociva que o espontaneismo traz ao movimento operário, dando-lhe um radical combate, mostrando aos trabalhadores conscientes e sua vanguarda a necessidade da organização, da centralização, disciplina e cuidado com a teoria, unindo-a à práxis revolucionária no combate de morte contra a sociedade burguesa.

Em 1903 ocorre o 2º Congresso do Partido, no qual os camaradas do Iskra tornam-se maioria. Após intensa polêmica acerca de questões organizativas, acontece o histórico racha entre Lenin e Martov, este último editor do Iskra e importante dirigente socialdemocrata da época. As principais divergências entre ambos os dirigentes, se dá principalmente quanto às problemáticas que envolviam a disciplina militante e as condições para ser tornar membro do partido. Enquanto Martov mantinha posição liberal pequeno burguesa (que refletia sua condição de classe) contrária a um partido composto por quadros disciplinados organicamente, Lenin afirmava que o revolucionário membro da organização deveria ter envolvimento completo, militante e disciplinado, contribuindo com o seu todo integral ao partido. Surge assim os Bolcheviques (Maioria em russo) e Mencheviques (Minoria). Expressando seu conteúdo de classe pequeno burguês, os Mencheviques afirmavam ser a burguesia nacional russa um elemento histórico progressista, destinado a levar adiante o desenvolvimento do capitalismo e da democracia burguesa clássica no país, como assim o fez em outra época, a burguesia revolucionária da Europa ocidental. Lenin e os Bolcheviques (Trotsky posteriormente desenvolveria cientificamente essa questão com a “Teoria da Revolução Permanente”), por sua vez, viam no proletariado russo a única classe que, apoiada no campesinato, poderia dirigir a revolução no país e resolver as tarefas democráticas pendentes em direção ao socialismo.

Enquanto os Mencheviques representavam a ala pequeno-burguesa e reformista da esquerda russa, os Bolcheviques tornaram-se os dirigentes máximos do proletariado e das massas exploradas e oprimidas, encabeçando e dirigindo com contribuição decisiva de Lenin como líder inconteste, essas massas à tomada do poder contra a burguesia, estabelecendo a ditadura do proletariado (democracia dos explorados e oprimidos contra os exploradores) e criando as bases do primeiro Estado operário da história.

1905: A veracidade do bolchevismo

A Rússia foi abalada econômica e socialmente pela grande crise que a atingiu entre os anos de 1900 e 1903, jogando na rua da amargura e do desemprego, mais de duzentos mil trabalhadores. Os campos passavam também por imensa pobreza e a opressão no país chegavam a limites insuportáveis. Em 1904 explodem em diversas regiões grandes greves em cidades industriais. Na cidade de Baku, os bolcheviques dirigem importante greve que teve imenso destaque. O Czarismo, enquanto dispensava algumas migalhas e pequenas concessões aos liberais e reformistas, apertava o torniquete contra os bolcheviques perseguindo-os implacavelmente.

Em 1905, com o recrudescimento qualitativo das contradições imensas no país, explode a revolução.  A insurreição dos marinheiros no famoso encouraçado Potenkin, e o surgimento dos Soviets, são as expressões do radicalismo das massas e da situação explosiva e revolucionária pelo qual passava o país, fruto da profunda crise que atingia o regime burguês de conjunto. Os Mencheviques continuavam mantendo suas ilusões num suposto caráter progressista da burguesia russa, que para eles desenvolveria o capitalismo nacional e a democracia, assim, caracterizava essa revolução como democrático burguesa, dirigida pelas classes exploradoras enquanto os trabalhadores deveriam fazer oposição no parlamento sem assustar a burguesia com o “fantasma” do socialismo.

Com a traição e repressão burguesa em 1905, as ilusões mencheviques se evaporam e fica evidente a veracidade do programa revolucionário bolchevique, que via no proletariado o sujeito histórico dirigente do processo, que deveria transformar dialeticamente a revolução democrática em socialista eliminando a sociedade de classes, programa atual até hoje nos países de capitalismo dependentes e semicoloniais.   Trotsky neste período era o mais importante dirigente dos Soviets em todo o país e buscava a unidade entre as duas principais alas do movimento operário russo, enquanto mantinha independência das duas correntes. Isso fez com que durante este período, Lenin e Trotsky mantivessem ácidas polêmicas no interior do movimento revolucionário. No entanto, nos anos que se seguiram, Trotsky se tornou o principal discípulo e herdeiro político e teórico de Lenin, que em seus últimos escritos foi radicalmente contrário em utilizar suas antigas divergências contra Trotsky.

Após a derrota da revolução de 1905, um duro período de reação se abateu contra os trabalhadores russos e sua vanguarda, se expressando no abatimento, desmobilização e desorientação de parte das massas. Além disso, houve um grande assenso de todo tipo de falsificações e apostasias filosóficas e ideológicas. Neste contexto Lenin pública “Materialismo e Empiriocriticismo” (1909), um clássico da filosofia materialista, combatendo os filósofos burgueses Mach e Avenarius, o padre Berkeley, além de social democratas como Bogdanov, partidários de um idealismo subjetivo reacionário e do agnosticismo, que negavam, como faziam os idealistas, a própria matéria, abrindo concessões ao irracionalismo teológico, arma ideológica poderosa da burguesia em sua luta contra o proletariado; ou defendiam como os agnósticos epígonos medíocres de Kant, a impossibilidade de conhecer a realidade objetiva, que nada mais era, segundo Lenin, uma tentativa de ressurgimento das concepções ultra subjetivistas do padre Berkeley e Hume.

 Lenin expõe celebremente a concepção materialista da psique e da consciência como produto superior da matéria, ou seja, como função do cérebro humano, destacando que são em essência, reflexo direto e indireto do mundo exterior. De acordo com Lenin, “A matéria é uma categoria filosófica para designar a realidade objetiva, que é dada ao homem nas suas sensações, que é copiada, fotografada, refletida pelas nossas sensações, existindo independente delas” (1909).Embora contendo certas limitações, que Lenin corrige em seus cadernos sobre Hegel, a teoria do reflexo de Lenin exposta resumidamente em sua citação acima, expressa uma defesa sem par da concepção materialista do homem, do desenvolvimento histórico dos seus sentidos e do seu próprio ser social.  Em seu outro monumental texto filosófico, “Cadernos sobre a Dialética de Hegel”, escrito no contexto da Primeira Guerra, Lenin deixa patente seu legado de grande filósofo do marxismo, contribuindo grandemente, assim como Marx e Engels, para solidificar a base materialista da dialética tomada de Hegel, outro gigante do pensamento humano: “Geralmente, procuro ler Hegel de modo materialista: Hegel é o materialismo de cabeça para baixo [segundo Engels],ou seja, eu elimino em grande parte o bom deus, o absoluto, a Ideia pura, etc.”(“Cadernos sobre a Dialética de Hegel”).

Lenin demonstra de forma certeira que filosofia e política andam juntas. Que não pode haver política correta sem estar iluminada por uma filosofia e teoria que correspondam às necessidades das condições objetivas e subjetivas, ou seja, revolucionárias e transformadoras da realidade social, bem distante do pedantismo e irracionalismo característico dos amorfos ambientes acadêmicos burgueses. Dessa forma, Lenin desbarata por completo a filosofia idealista burguesa contemplativa e seu conteúdo reacionário. Para Lenin a filosofia se insere entre outras coisas (longe do simplismo) como “luta de classes na teoria” e arma teórica, espiritual do proletariado.

Em 1912 surge um novo despertar dos trabalhadores, período que vai até 1914 com a explosão da Primeira Guerra Mundial, acontecimento que marcou a carnificina e barbárie que a burguesia recorre, sempre que necessitar e quando os imperativos econômicos alienantes de acumulação, corrida pelo lucro e saque em grande escala exigirem. A Primeira Grande Guerra, seus reflexos na luta de classes, particularmente no seio do movimento comunista e socialista, sepulta também toda a antiga direção reformista da II Internacional e da social democracia alemã, apoiadores da matança burguesa, duramente combatidos pelos bolcheviques e Lenin em especial, por Trotsky e Rosa Luxemburgo, que defendiam até as últimas consequências o internacionalismo proletário, a guerra revolucionária contra a burguesia em todos os países e mesmo a necessidade de uma nova Internacional diante de uma época sombria para o movimento comunista em todo o mundo.

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O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”: o avanço da economia política do marxismo

Em 1916 Lenin publica uma de suas principais contribuições ao movimento dos trabalhadores de todos os países. “O Imperialismo Fase Superior do Capitalismo” de Lenin significou de fato um avanço da economia política marxista, pois trata da nova fase pelo qual adentrava o capitalismo mundial em fins do século XIX, do qual Marx não poderia ter visto, embora tenha percebido e apontado em seu livro terceiro de “O Capital” as tendências dialéticas da sociedade burguesa marcada pela ascensão dos monopólios e da fusão do capital bancário hiperconcentrado com o capital industrial. Segundo Lenin, a “Concentração da produção; monopólios que resultam da mesma; fusão ou junção dos bancos com a indústria: tal é a história do aparecimento do capital financeiro e daquilo que este conceito encerra[…]O Monopólio, uma vez que foi constituído e controla milhões e milhões, penetra de maneira absolutamente inevitável em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de qualquer outra particularidade.” (“O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”). Olhando esses escritos, parece mesmo terem sido elaborados ontem, pois é em grande medida exatamente o que tem ocorrido com a economia capitalista contemporânea.

 Embora John Hobson (um liberal burguês, que não podia sacar de sua análise conclusões revolucionárias como Lenin o fez), Hilferding, Bukárin e mesmo Rosa Luxemburgo tenha precedido “O Imperialismo” de Lenin, o mestre bolchevique mantém sua originalidade impar e uma finalidade política e revolucionária precisa, característica de todas as suas obras. Se o imperialismo, como diz Lenin, se manifestava “em todos os aspectos da vida social”, inclusive pela guerra, “A isto deve-se acrescentar que, não só nos países recentemente descobertos mas também nos velhos, o imperialismo conduz às anexações, à intensificação da opressão nacional, e, por conseguinte, intensifica também a resistência”.  Lenin combate acidamente o oportunismo e a conciliação de classes, levado adiante pelos chefes degenerados da II Internacional, sobretudo Kautsky.

Segundo Lenin, “A particularidade fundamental do capitalismo moderno [imperialismo] consiste na dominação exercida pelas associações monopolistas dos grandes patrões. Estes monopólios adquire a máxima solidez quando reúnem nas suas mãos todas as fontes de matérias-primas, e já vimos com que ardor as associações internacionais de capitalistas se esforçam por retirar do adversário toda a possibilidade de concorrência, por adquirir, por exemplo, as terras que contém minério de ferro, o jazigos de petróleo, etc. A posse de colônias é a única coisa que garante de maneira completa o êxito do monopólio contra todas as contingências da luta com o adversário, mesmo quando este procura defender-se mediante uma lei que implante o monopólio do Estado. Quanto mais desenvolvido está o capitalismo, quanto mais sensível se torna a insuficiência de matérias primas, quanto mais dura é a concorrência e procura de fontes de matérias primas em todo o mundo, tanto mais encarniçada é a luta pela aquisição de colônias.[…]A época do capitalismo contemporâneo mostra-nos que se estão estabelecendo determinadas relações entre os grupos capitalistas com base na partilha econômica do mundo, e que, ao mesmo tempo, em ligação com isto, se estão estabelecendo entre os grupos políticos, entre os Estados, determinadas relações com base na partilha territorial do mundo, na luta pelas colônias, na luta pelo território econômico.”(idem). O método de Lenin, sua capacidade de manejar as armas da dialética são impressionantes, está descrito acima absolutamente tudo o que vemos acontecer em nosso período histórico, marcado pela agressividade dos grupos imperialistas atuais, sobretudo seu chefe, o imperialismo ianque e sua política neocolonizadora atual contra os povos; um simples olhar sobre o que ocorre com a Líbia, Síria e Venezuela são exemplares da veracidade e atualidade dessa imprescindível obra.

Mas, se o imperialismo “[…]é a época do capital financeiro e dos monopólios, que trazem consigo, em toda parte, a tendência para a dominação, e não para a liberdade.”, também podemos “qualificá-lo de capitalismo de transição ou, mais propriamente, de capitalismo agonizante.” (idem). Assim, sendo a época imperialista de “guerras e revoluções” segundo Lenin, tal período histórico da sociedade burguesa nada mais faz do que criar as bases materiais para as relações de produção socialista e a emancipação humana com o fim da sociedade de classes, só possível pela ação revolucionária e consciente das massas dirigidas pelo proletariado e seu partido comunista, que acaudilhe atrás de si, todos os setores explorados e oprimidos pela sociedade do capital.

O Estado e a Revolução”: a doutrina marxista do Estado e de seu desaparecimento histórico

Em 1917, pouco antes da insurreição proletária de outubro Lenin escreve “O Estado e a Revolução”, obra imprescindível a todos os trabalhadores conscientes e suas organizações, pois sistematiza e faz avançar a teoria marxista do Estado e seu caráter de classe, como nenhum outro antes.  Também nesta obra, escrita no contexto de guerra e revolução, Lenin combate sem tréguas o oportunismo, chauvinismo e as posições renegadas dos chefes da II Internacional, em primeiro lugar Kautsky. Partindo dos escritos de Engels em “A Origem da Família”, Lenin demonstra como o Estado é uma força que brota da sociedade, mas que, no entanto, se situa acima dela, com os destacamentos de homens armados e as instituições que garantem a dominação de classe dos exploradores. Neste sentido, Lenin afirma que: Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classes, no próprio conflito dessas classes, resulta, em princípio, que o Estado é sempre o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante que, também graças a ele, se toma a classe politicamente dominante e adquire, assim, novos meios de oprimir e explorar a classe dominada.Não só o Estado antigo e o Estado feudal eram órgãos de exploração dos escravos e dos servos, como também o Estado representativo moderno é um instrumento de exploração do trabalho assalariado pelo capital” (“O Estado e a Revolução”).

O Estado e a Revolução” significa de fato um verdadeiro manifesto contra o oportunismo e ilusões eleitoreiras, pois fica patente que “fora o poder tudo é ilusão”; ou seja, os trabalhadores devem não se apossar para reformar, mas “destruir a máquina estatal burguesa” e substituí-la pela ditadura do proletariado em armas contra a burguesia, como única forma de quebrar sua base material e econômica de dominação através da eliminação da propriedade privada dos meios de produção, e da condução da sociedade pelos trabalhadores conscientes e desalienados, senhores do seu destino como portadores históricos e agentes materiais destinados a  pôr um fim na sociedade dividida em classes sociais antagônicas.

Na perspectiva leninista:“O proletariado se apodera da força do Estado e começa por transformar os meios de produção em propriedade do Estado. Por esse meio, ele próprio se destrói como proletariado, abole todas as distinções e antagonismos de classes e, simultaneamente, também o Estado, como Estado. A antiga sociedade, que se movia através dos antagonismos de classe, tinha necessidade do Estado, isto é, de uma organização da classe exploradora, em cada época, para manter as suas condições exteriores de produção e, principalmente, para manter pela força a classe explorada nas condições de opressão exigidas pelo modo de produção existente (escravidão, servidão, trabalho assalariado). O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, a sua síntese num corpo visível, mas só o era como Estado da própria classe que representava em seu tempo toda a sociedade: Estado de cidadãos proprietários de escravos, na antiguidade; Estado da nobreza feudal, na Idade Média; e Estado da burguesia de nossos dias. Mas, quando o Estado se torna, finalmente, representante efetivo da sociedade inteira, então torna-se supérfluo. Uma vez que não haja nenhuma classe social a oprimir; uma vez que, com a soberania de classe e com a luta pela existência individual, baseada na antiga anarquia da produção, desapareçam as colisões e os excessos que daí resultavam – não haverá mais nada a reprimir, e, um poder especial de repressão, um Estado, deixa de ser necessário. O primeiro ato pelo qual o Estado se manifesta realmente como representante de toda a sociedade – a posse dos meios de produção em nome da sociedade – é, ao mesmo tempo, o último ato próprio do Estado. A intervenção do Estado nas relações sociais se vai tornando supérflua daí por diante e desaparece automaticamente. O governo das pessoas é substituído pela administração das coisas e pela direção do processo de produção. O Estado não é ‘abolido’: morre. É desse ponto de vista que se deve apreciar a palavra de ordem de ‘Estado livre do povo’, tanto em seu interesse passageiro para a agitação, como em sua definitiva insuficiência científica; é, igualmente, desse ponto de vista que se deve apreciar a reivindicação dos chamados anarquistas, pretendendo que o Estado seja abolido de um dia para o outro.”(idem).

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1917: os trabalhadores tomam o poder

A revolução de outubro significou o maior acontecimento histórico do ponto de vista dos explorados e oprimidos em todo o mundo. Pela primeira vez na história, os trabalhadores tinham tomado o poder de Estado das mãos dos opressores e eliminado seus privilégios de classe. Vale dizer que o período que precedeu a tomada do poder pelos bolcheviques, foi marcado pelo mais duro combate entre as classes em luta. A burguesia russa, apoiada por todos os exploradores internacionais resistiram o máximo que permitiram suas forças, para não perderem seu “direito” à exploração. Acontece que em 1917 a classe burguesa já estava condenada pela história. 

O proletariado, antagonista histórico da burguesia, entrava em cena na arena da luta de classes de forma independente, possuindo as condições objetivas e bases materiais para derrocar o poder do capital. Já nas revoluções de 1848, a burguesia pressente o fim de sua fase progressista e início de seu período irracionalista, marcado pelo freio ao desenvolvimento das forças produtivas e do próprio desenvolvimento humano em todo o seu potencial. Marx nos diz em seu “Dezoito Brumário” que: “A burguesia tomava consciência, com razão, de que todas as armas que havia forjado contra o feudalismo voltavam-se agora contra ela; que toda a cultura que havia gerado rebelava-se contra sua própria civilização; que todos os deuses que criara a haviam negado”. Embora os oportunistas e reformistas mencheviques, socialistas revolucionários, anarquistas e acadêmicos pequeno-burgueses vociferassem com pose indignada contra os bolcheviques, sobre a suposta prematuridade da revolução de outubro, reivindicando mecanicamente que o país perseguisse a trilha da burguesia ocidental, o regime imperialista já havia estabelecido a divisão mundial do trabalho, reservando para os países atrasados como a Rússia Czarista, a dependência e a subordinação.   

Segundo Trotsky: “Os países atrasados assimilam as conquistas materiais e ideológicas das nações avançadas. Mas isto não significa que sigam estas últimas servilmente, reproduzindo todas as etapas de seu passado. A teoria da reiteração dos ciclos históricos – procedente de Vico e seus discípulos – apoia-se na observação dos ciclos das velhas culturas pré-capitalistas e, em parte também, nas primeiras experiências do capitalismo[…]O capitalismo prepara e, até certo ponto, realiza a universalidade e permanência na evolução da humanidade. Com isto se exclui já a possibilidade de que se repitam as formas evolutivas das distintas nações. Obrigado a seguir os países avançados, o atrasado não ajusta em seu desenvolvimento a concatenação das etapas sucessivas[…]O desenvolvimento desigual, que é a lei mais geral do processo histórico, não se revela, em nenhuma parte, com maior evidência e complexidade do que no destino dos países atrasados. Açoitados pelo chicote das necessidades materiais, os países atrasados se veem obrigados a avançar aos saltos. Desta lei universal do desenvolvimento desigual da cultura decorre outra que, por falta de nome mais adequado, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, aludindo à aproximação das distintas etapas do caminho e à confusão de distintas fases, ao amálgama de formas arcaicas e modernas. Sem recorrer a esta lei, enfocada, naturalmente, na integridade de seu conteúdo material, seria impossível compreender a história da Rússia, nem a de nenhum outro país de avanço cultural atrasado, seja em segundo, terceiro ou décimo grau.” (Leon Trotsky, “História da Revolução Russa”).

No início de fevereiro de 1917, devido à escassez de alimento, recrudescimento da pobreza e efeitos nefastos da guerra, grandes distúrbios e instabilidade social e política se intensificam em Petrogrado. As grandes greves políticas tomam conta da capital, sacudindo o poder do Czar.  Segundo Trotsky, “Os primeiros dois meses de 1917 mostram 575 mil grevistas políticos, a maior parte dos quais correspondem à capital[…] Em cada fábrica, um número ativo estava se formando, geralmente em torno dos bolcheviques.” (idem). Em 23 de fevereiro (08 de março pelo calendário atual), por ocasião do dia internacional da mulher, reuniões, passeatas e manifestações tomam conta da capital, tendo as tecelãs importante participação. Em três dias, as greves que explodem tornam-se generalizadas, um primeiro passo de fato para a insurreição, marcados pelo enfrentamento contra a polícia e influenciando profundamente a psicologia de boa parte dos soldados das forças armadas. O dia 23 de fevereiro foi o estopim do grande movimento de massas revolucionário que conduziram à Revolução de Fevereiro, tendo os Sovietes participação fundamental no processo, pondo fim a monarquia absolutista e dando origem ao governo provisório, encabeçado pelo príncipe Lvov, posteriormente substituído pelo governo burguês liberal de Kerensky, baseado na colaboração de classes através dos seus ministros mencheviques e socialistas revolucionários, não resolvendo as grandes demandas das massas proletárias e populares e mantendo a Rússia na guerra.

Lenin, que estava exilado em Zurique na Suíça, percebe que todo o potencial revolucionário das massas estava longe de ter se esgotado. Em abril Lenin desembarca em Petrogrado e é recebido por uma multidão de operários e soldados, em seguida pronuncia duro discurso contra o governo provisório e faz o chamado à revolução proletária. Escreve em seguida suas conhecidas “Teses de Abril”, onde defende a necessidade de levar adiante a revolução socialista no país, não se detendo na república parlamentar burguesa. Trotsky já havia advertido que a república que saiu da Revolução de Fevereiro “não é a nossa república e a guerra que ela conduz não é a nossa guerra”. Lenin em suas “Teses”, que eram posições muito parecidas às de Trotsky, defende “[…] uma república dos sovietes de deputados de operários, assalariados agrícolas e camponeses de todo o país”

Nos meses que antecederam a revolução de outubro, Lenin lança o chamado para que os ministros mencheviques e socialistas revolucionários rompessem com os ministros capitalistas e tomassem o poder em suas mãos, o que eles se negaram. As massas se radicalizavam e os bolcheviques ganhavam influência entre os trabalhadores. A luta de classes ficava cada vez mais quente; segundo John Reed em seu clássico trabalho “Os Dez dias que Abalaram o Mundo”: “E em julho, a sublevação espontânea e desorganizada do proletariado, que assaltou novamente o Palácio da Táurida aos gritos de ‘Todo o poder aos sovietes!’, demonstrou, mais uma vez, que as massas estavam decididas a impor sua vontade. […] Os bolcheviques constituíam nesse momento um pequeno partido, mas se colocaram, resolutamente, à testa do movimento de julho”. O Governo Provisório, parido da insurreição de fevereiro, dá início a uma verdadeira caçada aos bolcheviques. Uma ordem de prisão contra Lenin é expedida, acusando-o de provocador à soldo da Alemanha. Centenas de militantes bolcheviques foram presos, entre eles Trotsky, Alexandra Kolontai e Zinoviev. Lenin foge para a Finlândia, onde começa a escrever “O Estado e a Revolução”.

Em agosto, o general Kornilov tenta impor um golpe e uma ditadura fascista para salvar o Estado burguês. Kornilov mobiliza, além de parte das tropas, um considerável contingente armado informalmente, conhecidos como “Sociedades Patrióticas” de Petrogrado, muito semelhante aos agrupamentos fascistas posto em marcha por Mussoline e Hitler em seu tempo, também parecidas com as milícias cariocas aqui no Brasil. Kerensky, por medo da insurreição de Kornilov e pretendendo ganhar apoio dos bolcheviques, liberta Trotsky e outros bolcheviques. O levante organizado e armado dos trabalhadores de Petrogrado, dirigidos pelos bolcheviques, sem capitular a Kerensky, esmagam a contra-revolução kornilovista, fazendo com que o partido de Lenin, ganhasse a total simpatia das massas e da base das forças armadas russa. O caminho para a revolução se acelerava. Em seguida, os bolcheviques conquistam grande influência nos Sovietes de Moscou e Petrogrado (Trotsky era o presidente do Soviete de Petrogrado), dirigindo os principais setores do proletariado e das massas russas.  O Governo provisório balançava e encontrava-se reduzido à impotência. Lenin, da Finlândia, fez duras críticas aos dirigentes bolcheviques, sobretudo Stalin,  Kamenev e Zinoviev, que eram contrários à tomada do poder pelos trabalhadores. Essa ala do partido via na Revolução de Fevereiro, a concretização do máximo que o proletariado russo poderia fazer: pensavam “Outubro” como utopia. Lenin diz em uma carta enviada ao Comitê Central que “Os eventos estão determinando nossa tarefa tão claramente para nós que a procrastinação está se tornando nitidamente criminosa[…]Esperar seria um crime para a Revolução”.

O Comitê Militar Revolucionário, do Soviete de Petrogrado, liderado por Trotsky, dirige a tomada do poder em 25 de outubro de 1917, mobilizando os operários, soldados e Marinheiros a ocuparem as redes ferroviárias, centrais telefônicas, Correios, tipografias, banco oficial, etc., tomando de fato o poder de Estado das mãos da burguesia. No dia 26 de outubro, no “II Congresso dos Sovietes de toda a Rússia”, é anunciado a todo o mundo o poder proletário e a derrubada do Estado capitalista. Lenin, dirigindo o Congresso anunciaria: “Procederemos para a construção da ordem Socialista.” Dias depois, o governo dos Sovietes, liderado por Lenin, emitiu diversos decretos sobre a questão da terra que beneficiava os camponeses, propostas de paz, abolição da diplomacia secreta, sobre autodeterminação dos povos, separação entre igreja e Estado, sobre o controle dos trabalhadores, a igualdade completa de homens e mulheres, etc. Estavam dadas as bases da ditadura do proletariado contra os exploradores. Em seguida o governo dos Sovietes expropria os principais setores capitalistas e latifundiários.  

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A Contrarrevolução

Pouco tempo depois do sucesso da revolução, numerosos levantes contrarrevolucionários causaram milhares de mortos. Os mencheviques por exemplo, que dirigiam o importante Sindicato dos Ferroviários, tentaram por todos os meios sabotar o sucesso da revolução. Além de diversos problemas que apareciam no sentido da reorganização da economia, que se encontrava em situação caótica devido principalmente à guerra, o governo de Lenin teve de enfrentar, em um momento de grande dificuldade, a invasão imperialista que tentava estrangular a revolução. Vinte e um exércitos estrangeiros, contando com o apoio dos mencheviques e dos socialistas revolucionários, ocupavam diversos fronts visando liquidar o Estado Soviético. O conjunto destas forças militares internacionais burguesas formavam o Exército Branco, uma força internacional bélica dirigida pelo imperialismo.

Atentados terroristas contra Lenin, Trotsky e outros líderes bolcheviques foram cometidos pela reação. Os Brancos planejavam explodir o trem de Trotsky, e Lenin fora baleado.  O Exército Vermelho, criado e dirigido por Trotsky implementou grande ofensiva em toda a parte e impôs uma derrota histórica ao terror Branco do imperialismo. No entanto, a ofensiva da reação e a guerra civil, criaram imensas dificuldades ao Estado soviético, que teve de recorrer ao “comunismo de guerra” e a Nova Política Econômica (NEP) ao fim da Guerra Civil, voltando sua economia essencialmente para a militarização e abrindo certas concessões ao capital e a determinadas relações capitalistas. Do contrário seria a derrocada militar, bancarrota econômica e o fim da revolução. Com a vitória histórica do Exército Vermelho, solidificava-se assim, o Estado Operário. Importante enfatizar que apesar de imensas dificuldades que rodeavam o Estado Operário, os bolcheviques, sobretudo Lenin e Trotsky, dispensam imensa energia para a fundação em março de 1919 da III Internacional, o partido mundial da revolução. Seus quatro primeiros Congressos e suas resoluções marcam um profundo avanço na luta internacional dos trabalhadores, como a defesa da Frente Única, a orientação para que os comunistas desenvolvessem o trabalho nas fábricas, criar núcleo comunista nelas, impulsionar a organização de conselhos operários e batalhar pelo ganho de hegemonia entre a classe. Outras resoluções de grande importância para orientar a luta dos trabalhadores, foram sobre o trabalho da mulher, a questão dos negros e sobre a revolução nos países do Oriente. A III Internacional dava conta da nova época pelo qual adentrava a sociedade burguesa, ou seja, a época do imperialismo e da necessidade da luta mundial contra o capital.

Os últimos dias e o ascenso da burocracia

Ao fim da Guerra Civil, a economia soviética estava em penúria. Suas forças foram mobilizadas para sustentar as tropas no front, que tinha de defender a pátria operária do assédio imperialista. A direção bolchevique, para tentar impulsionar a economia teve de recorrer a NEP, que permitia aos camponeses negociar seus grãos pelo livre mercado e abria concessões a determinados setores capitalistas. No cenário internacional, a Rússia soviética se encontrava isolada e sabotada, tanto política, mas fundamentalmente economicamente pelo mundo capitalista. Dado o caráter histórico de atraso econômico e das forças produtivas da Rússia, potencializados pela destruição causados pela Guerra, os trabalhadores ao tomarem o poder se deparavam com todo tipo de dificuldades e sabotagens. Tinham de reerguer o país, resolver os problemas mais elementares como o da fome, mas também desenvolver as forças produtivas da nação e elevar a produtividade do trabalho. Após longos anos de guerra, revolução e sacrifícios de todo tipo exigidos das massas, um período de abatimento e refluxo toma conta de grandes parcelas dos trabalhadores. Seus melhores, abnegados e mais audaciosos elementos foram mortos na Guerra Civil contra o terror Branco. Esta conjuntura favorece o ascenso de uma casta burocrática que ganhava corpo na direção do Partido e do Estado operário.

De acordo com Trotsky: “A uma intervenção sucedia a outra. Os países do Ocidente não forneciam uma ajuda direta. Em vez do esperado bem-estar, o país viu instalar-se, por muito tempo, a miséria. Os mais notáveis representantes da classe operária tinham desaparecido durante a guerra civil ou, subindo alguns degraus, tinham se desligado das massas. Assim sobreveio, após uma prodigiosa tensão de forças, de esperanças e de ilusões, um longo período de fadiga, de depressão e de desilusão. O refluxo do ‘orgulho plebeu’ teve como corolário um afluxo do arrivismo e pusilanimidade. Estas marés conduziram ao poder uma nova camada de dirigentes” (Leon Trotsky, “A Revolução Traída”). Lenin, por sua vez, já percebia essas tendências burocráticas no interior do poder de Estado e do próprio partido. Desde de 1920 vinha assinalando estas “deformações burocráticas”. Após voltar ao trabalho, depois de sua primeira enfermidade, Lenin se assusta com o grau atingido pela burocracia e sua influência degeneradora. Antes de sofrer seu segundo ataque cerebral, pronuncia três discursos atacando a burocracia. Em um destes, afirmava: “O que necessitamos é que os comunistas controlem a máquina para a qual foram designados e não, como frequentemente acontece entre nós, que a máquina os controle”. (Obras Completas, T. XXXIII).

Em seguida, no dia 16 de dezembro de 1922, Lenin sofre seu segundo ataque que o retira da vida pública facilitando o caminho da burocracia. Em 4 de janeiro de 1923, debilitado, dita um “pós-escrito”, conhecido como seu testamento, onde afirma: “o camarada Stalin, ao converter-se em secretário geral, concentrou em suas mãos um poder ilimitado e não estou seguro de que seja sempre capaz de utilizar essa autoridade com cautela”, propondo dessa forma que o partido “buscasse a forma de remover Stalin” de seu cargo de Secretário-Geral. (Lenin, “Diário das Secretárias”). Lenin dedica seu último período de vida a combater a burocracia, em uma de suas últimas conversas com Trotsky lhe orienta: “Propõe, então, iniciar a luta não só contra a burocracia de Estado, mas também contra a comissão de organização do Comitê Central?” (Trotsky, “Minha Vida”). Lenin pensava em formar com Trotsky um bloco contra a burocracia. Ainda segundo Trotsky, “A sua intenção (de Lenin) era criar uma comissão agregada ao comitê central para a luta contra a burocracia, e da qual devíamos ambos participar. Afinal de contas, tal comissão devia funcionar como uma alavanca para destruir a fração stalinista, espinha dorsal da burocracia, e para criar, no partido, as condições que me dessem a possibilidade de vir a ser substituto de Lenin, e, segundo a sua ideia, o seu sucessor na presidência do conselho dos comissários do povo.”(idem).

Lenin preparava uma dura batalha contra a burocracia para o XII Congresso do Partido Comunista Russo. Mas em 9 de março sofre um novo ataque cerebral que o paralisa completamente. No dia 24 de janeiro de 1924, o coração e cérebro genial de Lenin deixam de funcionar, e o grande chefe do proletariado mundial morre prematuramente. A obra de Lenin permanecera através dos tempos. Seu legado, seu método e exemplo mantém toda a integridade revolucionária e servem como guia para o proletariado e seus aliados. Diante da decadência mundial do regime capitalista, que tem acirrado a barbárie como forma de ser da sociedade burguesa, as contribuições de Lenin são valiosos instrumentos na luta da classe trabalhadora. Mais do que nunca o partido de Lenin se faz atual, como único instrumento capaz de conduzir às massas a derrubada violenta da sociedade capitalista em direção ao socialismo. Diante da crise de direção pelo qual passa o proletariado revolucionário, é cada vez mais urgente recorrermos ao legado e a obra de Lenin, como arma indispensável na luta pela destruição do mundo burguês!

Para terminar, ressaltamos as belas palavras de Trotsky, em nota divulgada um dia após o falecimento de Lenin, sobre o grande chefe revolucionário: “[…] como iremos prosseguir? Encontraremos o caminho? Não iremos perder-nos? Porque Lenin, camaradas, já não se encontra entre nós… Lenin já não existe, mas temos o leninismo. O que havia de imortal em Lenin – os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo – vive em nós, neste Partido que criou, neste primeiro Estado operário à cabeça do qual se encontrou e que ele dirigiu. Neste momento, os nossos corações estão invadidos por esta dor tão profunda, porque todos nós fomos contemporâneos de Lenin, trabalhamos a seu lado, estudamos na sua escola. O nosso Partido é o leninismo em ação; o nosso Partido é o chefe coletivo dos trabalhadores. Em cada um de nós vive uma parcela de Lenine, o que constitui o melhor de cada um de nós[…]”.