Do Equador ao Chile: o povo toma as ruas

Por Vinícius Fontoura

A América Latina vem amanhecendo com ondas cada vez mais fortes de luta popular. Nesse cenário, dois países merecem destaque aqui: Equador e Chile. Ambos os países demonstraram (e demonstram) o poder do povo organizado contra o governo, fazendo surgir e levantar multidões na luta contra medidas de cortes e decretos que prejudicam a população.

Milhares de pessoas foram para as ruas nas últimas semanas. Tanto o Equador quanto o Chile tiveram suas particularidades no que se refere aos motivos que levaram sua população aos protestos, mas todos com a mesma luta — pelo povo.

EQUADOR

Povo equatoriano mostra suas bandeiras em escudos improvisados.

No dia 3 de Outubro tiveram início os protestos no Equador. O “estopim” para as manifestações foi o decreto de medidas econômicas e trabalhistas assinado pelo presidente Lenín Moreno, que tinham como objetivo empréstimos milionários pelo FMI, e como consequências o aumento do preço de combustível em até 123% e ao aumento do preço dos transportes públicos.

O povo equatoriano não deixou por menos e foi às ruas em protestos radicais organizados contra as medidas de Moreno. Os protestos tiveram grande intensidade, demonstrando toda bravura dos povos indígenas e de todos os equatorianos num geral. Os números apontam para 7 mortos, pelo menos 1300 feridos e mais de 1150 presos. Por fim, Moreno suspendeu o projeto no dia 14 de Outubro.

No vídeo abaixo, o relato emocionante de um dos manifestantes no Equador.

CHILE

Chilenos criam barricadas em meio aos protestos.

No Chile, os protestos populares tiveram início após um aumento no preço da tarifa no metrô. Na sexta-feira (dia 18), após duas semanas de manifestações mais calmas, os manifestantes começaram a radicalizar os protestos, levando ao decreto de Estado de Emergência, a instauração de toque de recolher e a entrada do Exército contra o povo nas ruas — fato que não acontecia desde a ditadura de Pinochet.

Pelo sábado (dia 19) o presidente do país, Sebastián Piñera, recuou e suspendeu o aumento no preço. Apesar disso, os protestos continuaram e seguem até hoje, mesmo com as complicações que se sofre com o Exército do lado do governo. Segundo dados, 11 pessoas morreram e mais de 1400 já foram presas durante as manifestações. Em entrevista, o presidente declarou que o país está em guerra [contra seu próprio povo?].

No vídeo abaixo, manifestantes ateiam fogo na sede do jornal El Mercurio, que apoiou a ditadura de Pinochet.

A ONDA DE PROTESTOS

A onda de protestos — que ganha destaque com as fortes manifestações no Equador — impulsiona também outros protestos pela América. Mais países ainda passam por turbulências políticas e pouco a pouco organizam-se nas ruas. Merecem nossa atenção também os recentes acontecimentos no Peru, os constantes protestos no Haiti, os movimentos políticos na Colômbia e todas as outras lutas que se somam.

Para tal, recomendamos também o artigo de Pedro Marin, da Revista Opera, que aborda de forma clara o que vem acontecendo nas últimas semanas. O texto, intitulado de América Latina rebelada: A Projeção Continental do Povo e a geopolítica da força, pode ser acessado aqui.

Um espectro ronda a América Latina — o espectro do Comunismo.
Todos os poderes do velho Estado se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o presidente e os militares, a oposição e o imperialismo, radicais e liberais.
Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não arremessou de volta, tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários reacionários, a acusação de comunismo?
Deste fato concluem-se duas coisas:
(1) O comunismo já é reconhecido por todos os poderes da América Latina como um poder.
(2) Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante a América Latina inteira o seu modo de ver, os seus objetivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.

(Adaptação de trecho do 1º capítulo do Manifesto do Partido Comunista)

Socialista pode ter iPhone?

Por Vinícius Fontoura

Dos smartphones, serviços de streaming e os mais diversos aplicativos e facilidades para nosso cotidiano, o modo capitalismo trouxe muitos avanços, e Marx inclusive ressalta isso tratando do alto desenvolvimento das forças produtivas que este modo trouxe. Por outro lado, encontramos nas mais fracas argumentações o ponto de que “É socialista, mas tem iPhone” ou qualquer outra coisa envolvendo comunismo e possuir determinado bem. Qual a contradição nisso?

A resposta é curta e direta: nenhuma.

Não há absolutamente nada que diga respeito a alguém defender um modo de produção diferente enquanto utiliza de algum bem produzido >em< determinada sociedade. E ressaltamos o “em” porque esse mesmo bem também poderia ser produzido, por exemplo, em uma sociedade socialista.
Outro aspecto citado é o de que o “Fetichismo da Mercadoria” trataria justamente disso, já que o iPhone seria um smartphone mais caro que os demais, então a pessoa estaria colocando um “fetiche” sobre ele, o que implicaria em uma contradição para os comunistas.

Isso está absolutamente errado.

O Fetichismo da Mercadoria não trata de consumo, nem é uma crítica a este. Esse conceito trata da >produção< sob o modo capitalista. O Fetichismo é a ilusão que esconde o processo de exploração capitalista e as relações envolvidas na produção através da expressão da Mercadoria enquanto preço. É a substituição da essência (de todo trabalho gasto na produção) pela aparência (a simples expressão de determinada quantos de dinheiro).

Do mesmo modo, seria também estupidez contra-argumentar, por exemplo, um servo medieval que criticaria o modo servil porque este estaria utilizando de roupas e alimentos produzidos por este modo. Tal qual seria estupidez fazer o mesmo com um escravizado que se rebelasse contra o modo escravista por este estar usando ferramentas e roupas produzidas por este modo.

A crítica de Marx não é pautada em como um comunista deve ou não viver no capitalismo, mas sobre o modo de produção em sua totalidade, muito além do indivíduo.

México: Zapatistas retomam a ofensiva

Comunicado Oficial do EZLN, com tradução do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

COMUNICADO DO COMITÊ GERAL CLANDESTINO REVOLUCIONÁRIO INDÍGENA – COMANDO GERAL DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.

MÉXICO, 17 de agosto de 2019.

AO POVO DO MÉXICO, AOS POVOS DO MUNDO, AO CONGRESSO NACIONAL INDÍGENA-CONSELHO INDÍGENA DE GOVERNO, À SEXTA NACIONAL E INTERNACIONAL, ÀS REDES DE APOIO E RESISTÊNCIA E REBELDIA

IRMÃOS, IRMÃS, COMPANHEIROS E COMPANHEIRAS:

Aqui trazemos a você nossa palavra que é a mesma de antes, hoje e amanhã, porque é resistência e rebelião.

Em outubro de 2016, há quase três anos, em seu vigésimo aniversário, as cidades irmãs organizadas no Congresso Nacional Indígena, juntamente com o EZLN, se comprometeram a promover a ofensiva em defesa do território e da mãe terra. Perseguidos pelas forças do mau governo, chefes, empresas estrangeiras, criminosos e leis; contando mortos, afrontas e prejuízos, os povos nativos, os guardiões da terra, concordamos em passar para a ofensiva e espalhar a palavra e a ação de resistência e rebelião.

Com a formação do Conselho Indígena de Governo e a designação de sua porta-voz, Marichuy, o Congresso Nacional Indígena recebeu a tarefa de levar a palavra de advertência e organização aos irmãos e irmãs no campo e na cidade. O EZLN também passou à ofensivo em sua luta de palavra, ideia e organização.

Agora chegou a hora de reportarmo-nos ao CNI-CIG e sua porta-voz. Seus povos dirão se temos cumprido. Mas não apenas eles, também temos que lidar com organizações, grupos e indivíduos que, no México e no mundo, se preocupam com os povos zapatistas e, em seu tempo, geografia e modo de vida, sem importar a distância em quilômetros, os muros e fronteiras, ou as cercas que nos colocam, continuam com o coração palpitando junto ao nosso.

A chegada de um novo governo não nos enganou. Sabemos que o Mandón não tem mais Pátria que o dinheiro, que governa no mundo e na maioria dos lugares que eles chamam de “países”.

Também sabemos que a rebelião é proibida, assim como a dignidade e a raiva. Mas, em todo o mundo, em seus cantos mais esquecidos e desprezados, existem seres humanos que resistem a serem comidos pela máquina e não se rendem, não se vendem e não desistem. Muitas cores têm, muitas são suas bandeiras, muitas as línguas que as vestem, e gigantescas são sua resistência e sua rebelião.

O Mandón e seus capatazes constroem muros, fronteiras e cercas para tentar conter o que eles dizem ser um mau exemplo. Mas eles não podem fazê-lo, porque dignidade, coragem, raiva, rebelião não podem ser detidas ou trancadas. Mesmo se eles se esconderem atrás de seus muros, suas fronteiras, suas cercas, seus exércitos e policiais, suas leis e decretos, essa rebelião chegará a lhes cobrar a conta, mais cedo ou mais tarde. E não haverá perdão nem esquecimento.

Sabíamos e sabemos que nossa liberdade será apenas obra de nós mesmos, dos povos originais. Com o novo capataz no México, a perseguição e a morte continuaram: em apenas alguns meses, uma dezena de companheiros do Congresso Nacional Indígena – Conselho Indígena de Governo, combatentes sociais, foram mortos. Entre eles, um irmão muito respeitado pelos povos zapatistas: Samir Flores Soberanes, assassinado após ser apontado pelo capataz que, além disso, continua com os megaprojetos neoliberais para fazer desaparecer aldeias inteiras, destruindo a natureza e convertendo o sangue dos povos originários no lucro dos grandes capitais.

Portanto, em homenagem às irmãs e irmãos que morreram, são perseguidos e estão desaparecidos ou na prisão, decidimos nomear a campanha zapatista que culmina hoje e tornamos pública como “SAMIR FLORES VIVE”!

Após anos de trabalho silencioso, apesar do cerco, apesar das campanhas de mentiras, apesar das difamações, apesar das patrulhas militares, apesar da Guarda Nacional, apesar das campanhas contrainsurgentes disfarçadas de programas sociais, apesar do esquecimento e do desprezo, crescemos e nos tornamos mais fortes.

E rompemos o cerco.

Saímos sem pedir permissão e agora estamos novamente com vocês, irmãs e irmãos, companheiras e companheiros. O cerco do governo foi deixado para trás, não funcionou e nunca funcionará. Seguimos caminhos e rotas que não existem em mapas ou satélites e só são encontrados nos pensamentos dos mais antigos.

Conosco, zapatistas, em nossos corações também caminhou a palavra, a história e o exemplo de nossos povos, de nossos filhos, idosos, homens e mulheres. Lá fora, encontramos casa, comida, audição e palavras. Entendemo-nos como aqueles que compartilham não apenas a dor, mas também a história, a indignação e a raiva.

Entendemos, portanto, não apenas que cercas e muros servem para a morte, mas também que a compra e venda de consciências do governo é cada vez mais inútil. Eles não trapaceiam mais, não convencem, se enfraquecem, quebram, fracassam.

Foi assim que saímos. O Mandón foi deixado para trás, pensando que suas cercas nos detinham. De longe, vimos as tropas da Guarda Nacional, soldados, polícia, projetos, ajudas e mentiras. Fomos e voltamos, entramos e saímos. 10, 100, 1000 vezes o fizemos e o Mandón assistiu sem nos olhar, confiante no medo que seu medo transmitia.

Como uma mancha suja, ficaram para trás os cercadores, cercados em um território agora mais extenso, um território que transmite rebelião.

Irmãos, companheiros:

Aparecemos diante de vocês com novos Caracoles (territórios ocupados) e municípios rebeldes zapatistas autônomos em novas áreas do sudeste do México.

Agora teremos também Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista. Na maioria dos casos, esses centros também abrigam caracóis, conselhos do governo e municípios autônomos rebeldes zapatistas (MAREZ).

Embora lentamente, como deve ser segundo seu nome, os 5 caracóis originais foram reproduzidos após 15 anos de trabalho político e organizacional; e o MAREZ e suas Juntas de Bom Governo também tiveram que aumentar e vê-los crescer. Agora haverá 12 caracóis com suas Juntas de Bom Governo.

Esse crescimento exponencial, que hoje nos permite deixar o cerco novamente, deve-se principalmente a duas coisas:

Uma delas, e a mais importante, é o trabalho político organizacional e o exemplo das bases zapatistas de mulheres, homens, crianças e idosos. De maneira destacada, das mulheres e jovens zapatistas. Companheiros de todas as idades se mobilizaram para conversar com outras irmãs com ou sem organização. Os jovens zapatistas, sem abandonar seus gostos e desejos, aprenderam sobre ciência e artes e, assim, contagiaram cada vez mais jovens. A maioria desses jovens, principalmente mulheres, assumem cargos e os empapam com sua criatividade, engenhosidade e inteligência. Assim, podemos dizer, sem tristeza e com orgulho, que as mulheres zapatistas não apenas avançam, como o pássaro Pujuy, mas marcam o caminho para não que não nos percamos: também para os lados, para que não nos desviemos, e para trás, para que não nos atrasemos.

A outra é a política governamental destrutiva da comunidade e da natureza, particularmente a do atual governo denominado “Quarta Transformação”. As comunidades tradicionalmente partidárias foram feridas pelo desprezo, racismo e voracidade do atual governo e entraram em rebeliões abertas ou ocultas. Quem pensou que, com sua política contrainsurgente de esmolas, dividiria o zapatismo e compraria a lealdade dos não zapatistas, incentivando o confronto e o desânimo, deu os argumentos que faltavam para convencer aqueles irmãos que a terra e a natureza devem ser defendidas.

O mau governo pensou e acha que o que as pessoas esperam e precisam são esmolas monetárias.

Agora, os povos zapatistas e muitos não zapatistas, bem como as cidades irmãs do CNI no sudeste do México e em todo o país, respondem a ele e provam que ele está errado.

Entendemos que o capataz atual foi treinado no PRI e na concepção “indigenista” na qual os nativos desejam vender sua dignidade e deixam de ser o que são, e que o indígena é uma peça de museu, artesanato multicolorido para os poderosos esconderem o cinza do seu coração. É por isso que ele se preocupa com o fato de que seus muros de trem (os do istmo e o mal chamado “Maya”) incorporam as ruínas de uma civilização na paisagem, para que o turista se deleite.

Mas os povos originários estão vivos, rebeldes e resistentes; e o capataz agora pretende relançar um de seus capangas, um advogado que já foi indígena e que agora, como na história mundial, dedica-se a dividir, perseguir e manipular aqueles que já foram seus pares. O titular do INPI é esculpido na consciência cotidiana com pedra-pomes para eliminar qualquer vestígio de dignidade. Ele acha que sua pele está embranquecida e sua razão é a do Mandón. O capataz o felicita e felicita a si mesmo: não há nada melhor para tentar controlar os rebeldes do que um arrependido, transformado em troca de um alto salário, em fantoche do opressor.

Durante esses mais de 25 anos, aprendemos.

Em vez de escalar as posições de mau governo ou nos tornar uma cópia ruim daqueles que nos humilham e oprimem, nossa inteligência e conhecimento foram dedicados ao nosso próprio crescimento e força.

Graças às irmãs e aos irmãos do México e do mundo, que participaram das reuniões e encontros que convocamos neste momento, nossa imaginação e criatividade, assim como nosso conhecimento, se abriram e se tornaram mais universais, ou seja, mais humanos. Aprendemos a olhar, ouvir e falar com o outro sem zombaria, sem condenação, sem etiquetas. Aprendemos que um sonho que não abarque o mundo é um sonho pequeno.

O que é agora conhecido e público foi um longo processo de reflexão e pesquisa. Milhares de assembleias comunitárias zapatistas, nas montanhas do sudeste do México, pensaram e procuraram caminhos, modos, tempos. Desafiando o desprezo dos poderosos, que nos rejeitam como ignorantes e tolos, usamos inteligência, conhecimento e imaginação.

Aqui nomeamos os novos Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista (CRAREZ). Existem 11 novos centros, mais os 5 caracóis originais, 16. Além dos municípios autônomos originais, que são 27, o total de centros zapatistas são 43.

Nomes e localização dos novos Caracoles e Marez:

1- Novo caracol, seu nome: Coletivo coração de sementes rebeldes, em memória do companheiro Galeano. Sua Junta de Bom Governo se chama: Passos da história, pela vida da humanidade. Sua sede é La Unión. Terra recuperada. Ao lado de San Quintin, onde fica o quartel general do mau governo. Município oficial de Ocosingo.

2- Novo município autônomo, é chamado: Esperança da Humanidade. Sua sede é em Santa María. Município oficial de Chicomuselo.

3- Outro novo município autônomo é chamado: Ernesto Che Guevara. Sua sede é em El Belén. Município oficial de Motozintla.

4- Novo Caracol, com o nome Espiral digna tecendo as cores da humanidade em memória dos caídos. Sua Junta de Bom Governo é chamado: Semente que floresce com a consciência daqueles que lutam para sempre. Sua sede fica em Tulan Ka’u, terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

5- Outro novo caracol. O nome dele é: Florescendo a semente da rebeldia. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Novo amanhecer em resistência e rebelião pela vida e pela humanidade. Sua sede fica em Pueblo Patria Nueva, terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

6- Novo município autônomo, é chamado: Semeando consciência para colher revoluções pela vida. Sua sede é em: Tulan Ka’u. Terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

7- Novo caracol. O nome dele é: Em homenagem à memória do companheiro Manuel. Sua Junta de Bom Governo é chamada: O pensamento rebelde dos povos originais. Sua sede é em: Dolores Hidalgo. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

8- Outro novo caracol. Seu nome é: Resistência e rebelião, um novo horizonte. Sua Junta de Bom Governo é chamada: A luz que brilha no mundo. Sua sede fica na vila de Nova Jerusalém. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

9- Novo Caracol, é chamado: Raiz de Resistências e Rebeliões para a humanidade. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Coração de nossas vidas para o novo futuro. Sua sede fica no Jolj’a ejido. Município oficial de Tila.

10- Novo Município Autônomo, é chamado: 21 de dezembro. Sua sede fica na Ranchería K’anal Hulub. Município oficial de Chilón.

11- Novo Caracol, é chamado: Jacinto Canek. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Flor da nossa palavra e luz dos nossos povos que reflete para todos. Sua sede fica na Comunidade do CIDECI-Unitierra. Município oficial de San Cristóbal de las Casas.

Aproveitamos esta oportunidade para convidar a Sexta, as Redes, o CNI e o povo honesto a virem e, juntamente com os povos zapatistas, participarem da construção do CRAREZ, seja na obtenção de materiais e apoio econômico, seja martelando, cortando, carregando, orientando e vivendo com a gente. Ou da forma e modo e como lhes convêm. Nos próximos dias, publicaremos uma carta explicando como, quando e onde podem se registrar para participar.

Irmãos e companheiros:

Através do CNI-CIG, convidamos você a nos encontrar e conhecer o trabalho a que nos comprometemos, compartilhar os problemas, as dificuldades, os golpes, as quedas, mas também as sementes que servem para colher o melhor da luta e as sementes que sabemos que não nos darão uma colheita melhor, que nos leva ao contrário, de modo que não fazemos mais isso. Para encontrar aqueles que realmente querem a luta organizacional, nos encontramos para conversar sobre as boas colheitas e as ruins também. Propomos especificamente a realização conjunta, em um dos Caracóis, do que poderia ser chamado de FÓRUM EM DEFESA DO TERRITÓRIO E DA TERRA MÃE, ou, como você pode ver melhor, aberto a a todas as pessoas, grupos, coletivos e organizações que se empenham nessa luta pela vida.

À SEXTA e às REDES* chamamos a iniciar já a análise e discussão para a formação de uma Rede Internacional de Resistência e Rebeldia, Polo, Núcleo, Federação, Confederação, ou como se chame, baseada na independência e autonomia daqueles que a formem, renunciando explicitamente a hegemonizar e homogeneizar, na qual a solidariedade e o apoio mútuos sejam incondicionais, para que se compartilhem as experiências boas e ruins da luta de cada um e se trabalhe na difusão das histórias de baixo e à esquerda.

Para isto, como zapatistas que somos, convocaremos reuniões bilaterais com os grupos, coletivos e organizações que sim estão trabalhando em suas geografias. Não faremos grandes reuniões. Nos próximos dias daremos a conhecer como, quando e onde acontecerão estas reuniões bilaterais que estamos propondo. Claro, a quem as aceitem e tomando em conta seus calendários e geografias.

ÀQUELES QUE FAZEM ARTE, CIÊNCIA E CRÍTICA PENSAM A SUA VOCAÇÃO E VIDA, convidaremos para festivais, reuniões, festas, trocas ou do que essas ações poderão vir a ser chamadas. Já saberemos como, quando e onde eles poderão ser feitas. Isso inclui o CompArte e o Festival de Cinema “Puy ta Cuxlejaltic”, mas não apenas. Pensamos em criar CompArts especiais de acordo com cada arte. Por exemplo: Teatro, Dança, Artes Plásticas, Literatura, Música, etc. Haverá outra edição do ConCiences, talvez começando pelas Ciências Sociais. Semeadoras de pensamento crítico serão realizadas, talvez começando com o tema da Tormenta.

E, ESPECIALMENTE, PARA OS QUE ANDAM COM DOR E RAIVA, COM RESISTÊNCIA E REBELDIA E SÃO PERSEGUIDOS:

Convocaremos reuniões de parentes dos assassinados, desaparecidos e encarcerados, bem como organizações e grupos que acompanham sua dor, sua raiva e sua busca pela verdade e pela justiça. Terá como único objetivo que eles se conheçam e troquem não apenas dores, mas também e principalmente suas experiências nessa busca. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Os companheiros zapatistas convocam um novo Encontro de Mulheres que lutam, nos tempos, lugares e modalidades que elas decidirem, e os informarão quando e pelos meios que elas disserem. Informarmos de uma vez que será apenas para mulheres, por isso não podemos fornecer mais dados até que elas os digam.

Veremos se há uma maneira de fazer um encontro com as “outras” (LGBTs), com o objetivo de compartilhar, além de suas dores, as injustiças, perseguições e outras ações que lhes são feitas, suas formas de luta e força. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Veremos se é possível uma reunião de grupos, coletivos e organizações que defendem os direitos humanos, na forma e na modalidade que eles decidirem. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Parceiros e irmãos:

Aqui estamos, somos zapatistas. Para os que nos olham, cobrimos nossos rostos; para quem nos nomeou, negamos nosso nome; apostamos no presente para ter um futuro e, para viver, morremos. Nós somos zapatistas, principalmente indígenas com raízes maias, e não nos vendemos, não desistimos.

Somos rebelião e resistência. Somos um dos muitos martelos que quebrarão as paredes, um dos tantos ventos que varrerão a terra e uma das muitas sementes das quais outros mundos nascerão.

Nós somos o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Das montanhas do sudeste mexicano.

Em nome dos homens, mulheres, crianças e idosos, das bases de apoio zapatista e do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Subcomandante Insurgente Moisés.

México, agosto de 2019.

* Sexta e Redes: movimentos sociais organizados em várias regiões do México, a partir de 2012 (nota da tradução).

Fonte:
Comunicado del CCRI-CG del EZLN. Y ROMPIMOS EL CERCO. Subcomandante Insurgente Moisés

Por que é impossível ser neutro ideologicamente?

É muito comum observar indivíduos que se afirmam “apartidários” ou “isentos ideologicamente” frente a diversas questões que existem em nossa sociedade. Normalmente querem apenas tentar mostrar que estão sempre abertos para novas perspectivas e que, portanto, não se encaixam em nenhum tipo de espectro ideológico acerca da realidade. Nesse texto, será elucidado o porquê disso ser impossível e de como isso pode prejudicar, de muitos modos, o progresso da humanidade.

Tal como apresenta o método de análises sociais do materialismo histórico, o ser precede as ideias. Precisamente isso significa que a realidade, aquilo que é objetivo, sempre terá prioridade existencial sobre aquilo que está confinado à subjetividade do indivíduo, às suas projeções acerca de como o mundo funciona. Desse modo, as ideias sempre serão secundárias com relação à objetividade externa, e é exatamente em função disso que ideias podem estar erradas ou não. Com base nisso, as ideias têm como função a reflexão do mundo dentro dos seus limites históricos, ou seja, reproduzem-o abstratamente de determinadas formas. Essas reproduções podem ser correspondentes ao funcionamento do mesmo ou não, isso vai depender, primariamente, das próprias dinâmicas do funcionamento, mas também do modo como o indivíduo capta as categorias do mesmo. Apenas a partir disso que tudo que é real pode ser interpretado e transformado humanamente, pois, sem ideias, conceitos, concepções e abstrações da razão em geral acerca do que existe, o mundo não poderia ser entendido ou tampouco alterado dentro da peculiaridade que a humanidade tem perante os outros animais que existem, peculiaridade esta que tem sua expressão externa primordialmente realizada pelo trabalho. No entanto, como o trabalho, apesar de ser a categoria elementar do homem, não é o suficiente para abarcar toda a complexidade da realidade social, então as concepções também ultrapassam os limites do mesmo e assumem uma posição mais “socializada”, que representam as formas ideais mais desenvolvidas do ser humano. 

Nesse sentido, surgem diversas noções de como o mundo é e de como ele deve ser. Paralelamente, diversas ideologias começam a existir com um único e exclusivo objetivo: Representar e atender determinados interesses. A quem essas ideologias servem pode ter um caráter diversificado de um ponto de vista mais específico (Movimento Negro, Feminismo, Ambientalismo etc), bem como elas podem convergir em diversos pontos, divergirem em certos aspectos ou radicalmente, lutarem por uma mesma causa mas com princípios distintos. Enfim, há diversas possibilidades. Entretanto, do ponto de vista mais essencial e geral da estrutura social vigente, as ideologias representam os interesses dos oprimidos ou opressores. Sendo assim, quando se adota uma forma de enxergar o mundo, essa forma pode estar enquadrada, mesmo que o indivíduo que aderiu não saiba, em algum desses dois eixos, e, portanto, ele vai determinar como o sujeito vai agir e em favor de quem.

Cena do filme “Eles vivem”, de John Carpenter, que retrata o papel da ideologia na sociedade.

Quando as pessoas são defrontadas com problemáticas sociais, muitas hesitam em tomar determinada posição de forma clara e direta. No caso específico dos oprimidos, isso pode ocorrer por dois motivos: Ou não conhecem o suficiente para adotarem algum lado, ou então acham que nenhum dos lados servem e que deve-se tomar um “caminho do meio”. O grande problema é que desconhecer a realidade leva a uma transformação cega da mesma, bem como tentar esse caminho do meio confunde ser crítico e aberto com ecletismo. Como foi elucidado, essencialmente existem dois eixos, o do oprimido e o do opressor, apesar de diversas ramificações possíveis dentro dos diversos grupos sociais. No  entanto, esses grupos são constituídos no interior dessa divisão fundamental, e portanto eles próprios, independentemente do assunto que abordem, estarão dentro algum dos dois espectros. Mao Tsé Tung oferece uma compreensão baseada na contradição sobre isso, mostrando que existe a contradição primária e as contradições secundárias, sendo as segundas derivadas da primeira, mesmo que possam ter uma autonomia relativa. Nesse sentido, não é uma questão meramente ideal, mas também de funcionamento da própria realidade.

Como supracitado, a ideia de “neutralidade” advém de duas possibilidades com relação a realidade dos oprimidos, que é o desconhecimento ou a tentativa de oferecer uma alternativa distinta de qualquer um dos lados. A questão é que, por as ideias não serem isoladas, refletirem o real, elas jamais podem ser neutras. O indivíduo que desconhece e prefere ficar “isento”, por exemplo, não está tomando uma atitude neutra sobre a realidade, tentando ficar no famoso “em cima do muro”. Ele está apenas suspendendo seu juízo de valor, ou seja, não está defendendo nada sobre nada. Porém, como do mesmo modo ele se insere nessa realidade, querendo ou não, ele vai estar submisso à esta lógica de oprimidos e opressores, sendo, portanto, concretamente enquadrado em um dos dois lados. Ou seja, idealmente, não há uma defesa de algo, mas concretamente se está agindo em relação a algo que é sistematizado ideologicamente em forma de defesa desse mesmo algo. Em última instância, há uma transformação cega da realidade em favor de determinados interesses, mesmo que se tente negar que isso está ocorrendo. Já no caso de quem tenta ir por uma via diferente de tudo, em geral, como supracitado, se torna uma pessoa extremamente eclética e confusa, e por isso estará passível a defender interesses de uma classe contrária sem saber que está fazendo isso, e, de uma forma ou de outra, estará dentro dos limites daquilo que propõe “superar” com uma nova via ideológica desfigurada.  Ora, é plenamente possível ser anti-dogmático, adotando uma postura intelectual de crítica e autocrítica, corrigindo e complementando no que for necessário, sabendo que existem lados a serem defendidos.

No caso dos opressores, apesar de ainda haver essa narrativa, a particularidade dos opressores é que, pelo fato de serem os dominadores, a princípio são mais conscientes das dinâmicas da estrutura social do que os dominados. Sendo assim, quando um burguês se afirma “isento” ou que está tentando tomar um caminho do meio, que não é “nem de direita nem de esquerda”, usando uma linguagem mais simplista, ele não está realmente sendo o que está tentando transmitir, está na verdade dissimulando seus interesses justamente para legitima-los de forma que aqueles prejudicados por ele não percebam e sejam iludidos com seus discursos. Desse modo, as possibilidades de posições supostamente novas ou neutras por parte da classe dominante costumam ser praticamente nulas, visto que eles têm uma noção de mundo que, a princípio, os explorados não têm, e, portanto, tendem à confusão e ecletismo. Os primeiros têm plena compreensão do papel que exercem no mantimento da sociedade atual, enquanto os segundos não têm consciência de como suplanta-la, mesmo que sintam os males que ela provoca. Caso o contrário, a revolução já teria acontecido e a construção de consciência de classe seria desnecessária. 

Nesse sentido, não há como nenhum individuo ser “nem isso nem aquilo” quanto ao funcionamento social, pois o fator principal da existência não é o discurso ou as ideias no que se refere a como a sociabilidade funciona. Se pode até, mentalmente, afirmar tais coisas, mas concreta e historicamente existe uma estrutura independente de qualquer afirmação ou negação intelectual, e é ela que encaixa os indivíduos em certos postos sociais, dependendo do status quo de cada um. É essa objetividade que vai determinar a quem se está servindo. Compreendendo isso, pode-se desmascarar os grupos que discursam a favor dos oprimidos mas servem aos opressores, bem como conscientizar  aqueles que estão confusos e superficiais acerca da realidade e não têm uma noção coerente para uma mudança social significativa alicerçada na emancipação humana.

Referências:

CHASIN, José. Método Dialético.

LUKÁCS, Gyorgy. Para Uma Ontologia do Ser Social.

MAO TSE TUNG. Sobre a Contradição.

MARX, Karl. Ideologia Alemã.

MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia.

Conheça 16 revolucionários e revolucionárias não-europeus!

Por Vinícius Fontoura

A fim de reforçar mais uma vez o fato de que o marxismo ou o comunismo não se constituem num “ideal eurocêntrico” ou algo do tipo, elaboramos uma lista com 16 comunistas não-europeus. Pretendemos, assim, apresentar revolucionários e revolucionárias da África, América e Ásia que estiveram (ou ainda estão) envolvidos em processos de luta pela emancipação do povo em seus respectivos continentes.

A construção de cada uma das mini-biografias tiveram também como referência e apoio os textos linkados ao final de cada um dos nomes apresentados.

ÁFRICA

1. THOMAS SANKARA

Thomas Sankara (1949-1987) nasceu em Yako, em Alto Volta, a atual Burkina Faso. Iniciou sua carreira militar aos 19 anos, em 1968, e foi nesse ambiente onde teve contato com a teoria marxista pela primeira vez. Em 1970, Sankara viaja para Madasgar para treinamento em escola militar e estuda Sociologia, Ciência Política e Economia Política durante sua estadia, além de acompanhar um Levante Popular que ocorreu enquanto estava lá, levando a uma ainda maior radicalização de seu pensamento.

Com o passar dos anos, seu país se envolve em uma sequência de golpes militares, corrupção e instabilidade política. Durante um dos governos, em janeiro de 1983, Sankara é promovido a um posto em que obtém mais contato internacional, conhecendo líderes do bloco não-alinhado, como Fidel Castro e Samora Machel. Nesses encontros, os discursos de Sankara atacam o imperialismo e denunciam a corrupção em seu país. Assim, ele é destituído do cargo e preso por isso. Porém, devido a sua popularidade, os protestos por sua liberdade se intensificam, até que enfim em agosto de 1983 Sankara é liberto com apoio da PAI (Partido Africano de Independência) e ULC-R (União das Lutas Comunistas Reconstruídas) e conseguem derrubar o governo.

Sankara torna-se o presidente de Alto Volta e faz uma série de mudanças grandes no país. Logo no primeiro ano de mandato é determinada a distribuição de terras para habitação popular e 10 milhões de árvores são plantadas com o objetivo de conter a desertificação. No ano de aniversário da revolução, o país tem seu nome, bandeira e hino alterados, passando a se chamar Burkina Faso (que significa terra de homens íntegros nas línguas nativas). Na questão da mulher, foram proibidas a mutilação genital e o casamento forçado, bem como houve grande inclusão de mulheres nos postos do governo. Da mesma forma, a taxa de alfabetização cresceu por conta de um programa que envolveu mais de 35 mil instrutores. Aboliu-se todas as restrições que existiam para contraceptivos, tornando Burquina Fasso a primeira nação africana a reconhecer a epidemia de Aids como uma ameaça ao continente. Além disso, em 15 dias mais de 2,5 milhões de crianças foram vacinadas contra diversas doenças, incluindo sarampo e febre amarela. Fatos que levaram a uma melhora significativa da qualidade de vida do país.
Em 15 de outubro de 1987 a sede da presidência é invadida com apoio de líderes da França e Costa do Marfim, levando ao covarde assassinato de Sankara e de outros oficiais.

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2. AMÍLCAR CABRAL

Amílcar Cabral (1924-1973) nasceu em Bafatá, na Guiné-Portuguesa (atualmente Guiné-Bissau), mas ainda na infância se mudou para Cabo Verde, num período de seca e fome. Seu pai, que era professor, era de Cabo Verde e sua mãe, da Guiné-Bisseu.

Cabral consegue uma bolsa de estudos em 1945 e estuda Agronomia em Lisboa, sendo o único estudante negro de sua turma. Em 1955, Amílcar Cabral participa de uma conferência e toma consciência da questão africana e asiática. Em 1959 funda, clandestinamente, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Alguns anos depois, já em 1963, tem início a luta armada contra o colonialismo. Nesse contexto, seu Partido sofre dura perseguição do governo português, que determina a captura ou eliminação dos membros do PAIGC. Em janeiro de 1973 Cabral é traído e assassinado por membros do próprio Partido, sem conseguir ver a independência de seu país de origem.
A luta armada se intensifica ainda mais após a sua morte, e em setembro do mesmo ano a Guiné-Bissau finalmente conquista sua independência.

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3. SAMORA MACHEL

Samora Moisés Machel (1933-1986) nasceu na província de Gaza, em Moçambique. Era filho de pequenos agricultures, e começou a estudar aos 9 anos, na época em que o governo português (então colonizador de Moçambique) definiu a igreja católica como prestadora da educação. Samora terminou seus estudos aos 18 anos, mas quis continuar estudando, porém, naquele lugar só tendo como opção a Teologia. Parte, então, para outra cidade, onde arranja trabalho em um Hospital e começa a estudar enfermagem, já em 1952, onde fica por anos.

Desde cedo com tendências nacionalistas, Samora Machel também acompanhava os acontecimentos no mundo, como a revolução popular na China, em 1949 e a independência de vários outros países africanos na década de 1950. Porém, é em 1961 que, após um encontro com Eduardo Modlane (um dos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO), Samora decide se juntar ao grupo e partir para a luta de independência. Assim, deixando Moçambique em 1963 e partindo para a Tanzânia, onde encontraria o restante do grupo.

Mais tarde, Machel vai para Argélia e recebe treinamento militar de guerra e, ao retornar, começa a adquirir postos mais altos no FRELIMO. Em 1969, casa-se com a também guerrilheira Josina Muthemba, com quem participa ativamente não só da luta pela libertação de Moçambique, mas também da luta pela inclusão e igualdade da mulher. Infelizmente, sua companheira adoece e acaba falecendo ainda jovem devido a Leucemia, em 1973, no dia que mais tarde foi definido como Dia da Mulher Moçambicana. Antes disso, em 1969, o então presidente do FRELIMO, Eduardo Modlane, é assassinado e assumem três nomes para a presidência do Comitê Central, sendo um deles Samora Machel. A partir disso, o FRELIMO parte para ações ainda mais ofensivas, avançando e organizando seu exército pelo território. Machel organiza também ações diplomáticas, tendo apoio de aliados socialistas e de outros países no entorno de Moçambique.

Em 1975, após longo período de luta armada, discussões com Portugal e ações, a independência de Moçambique é enfim declarada. Depois, Samora Machel assume a presidência e começa uma série de medidas de nacionalização da saúde, educação e habitação, bem como reforma agrária, que promove um bem-estar e melhora da qualidade de vida em seu país. Por fim, já em 1986, Machel acaba morrendo após um acidente de avião, quando retonrava da União Soviética.

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4. JOSINA MACHEL

Josina Abiathar Muthemba (1945-1971) nasceu em Inhambane, no Moçambique, sendo a terceira de cinco filhos. Josina estuda na infância e adolescência, mudando mais tarde para a capital, em 1958, a fim de continuar seus estudos. Em 1960, em meio a seus estudos, Josina se envolve com movimentos estudantis secundaristas, e tem contato mais forte com pensamentos de indentidade cultural e conscientização política.

Em 1964, ela e outros membros do movimento estudantil viajam para a Tanzânia com a finalidade de se integrar a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Após isso, o grupo de estudantes passa por um processo constante de perseguições, prisões e viagens até finalmente conseguir se estabelecer na Tanzânia, junto da FRELIMO. Assim, com 20 anos, em 1965, Josina passa a estar ativamente ligada as atividades da Frente, criando o Destacamento Feminino, que tinha como objetivo o treinamento político e militar para que as mulheres também pudessem estar plenamente envolvidas com as questões do Partido. Mais tarde, Josina e outras 25 mulheres partem para o treinamento militar com orientação da guerrilha de Moçambique, em que tinha como treinador Samora Machel, seu futuro esposo e futuro presidente de Moçambique.

Em 1968, o Destacamento Feminino organiza ações em áreas liberadas visando questões sociais, como centros de cuidados médicos, escolas e assistência infantil, bem como ajuda no apoio a famílias desestruturadas por conta da guerra. É Josina quem percebe a necessidade do centro de assistência infantil devido ao número de crianças que perdiam seus pais em combate. No mesmo ano, Josina é nomeada uma das delegadas do II Congresso da FRELIMO, onde tem grande papel também na inclusão de outras mulheres na entrada de posições mais altas. Em 1969, no ano seguinte, Josina se casa com Samora Machel e passa a adotar seu sobrenome também. Entretanto, a partir de 1970, Josina começa a sofrer com fortes dores no estômago e gradualmente vai ficando mais doente, mas ainda continua ativa nas lutas pelo FRELIMO. Até que em 1971, com apenas 25 anos, enquanto comandava um exército de mais de mil soldados, Josina pede para retornar devido a doença que estava cada vez mais a prejudicando. O adoecimento acaba levando a sua morte nesse mesmo ano, sem que ela pudesse ver a independência do país, que só viria 4 anos mais tarde. O legado de Josina Machel é grande e nobre, e seu papel na luta pela independência e na ativa participação de mulheres em todas as atividades contribuiu também para as futuras políticas de Moçambique.

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AMÉRICA

5. CARLOS MARIGHELLA

Carlos Marighella (1911-1969) nasceu em Salvador, na Bahia, sendo um de sete irmãos. Seu pai havia vindo da Itália e tinha sido operário, mecânico e motorista de caminhão do lixo. Sua mãe era filha livre de escravos africanos do Sudão e empregada doméstica.

Por incentivo do pai, Marighella adquiriu hábito pela leitura desde muito cedo, sendo alfabetizado logo aos quatro anos. Assim, segue seus estudos primários, médios e chega a ingressar na faculdade, cursando Engenharia Civil. Mais tarde, porém, Marighella deixa a faculdade e se junta ao Partido Comunista do Brasil, logo aos 23 anos. Participa de manifestações durante a Era Vargas e chega a ser preso por conta de uma poema crítico publicado. Mais tarde foi preso e torturado durante diversas outras vezes, como em 1936, 1939 e 1964. Após o Golpe Militar-empresarial, já em 1967, Marighella deixa o PCB e funda a Ação de Libertação Nacional, a ALN, depois de seu retorno ao Brasil vindo de uma conferência em Cuba.

Marighella chega a ser considerado o inimigo número um da ditadura militar, organizando guerrilhas, agitação política e diversas ações contra o governo ditatorial, até enfim ser covardemente assassinado em 1969, por policiais do DOPS.

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6. CARLOS LAMARCA

Carlos Lamarca, durante treinamento de tiro

Carlos Lamarca (1937-1971) nasceu no Rio de Janeiro, na favela Morro de São Carlos. Era filho de sapateiro e sua mãe era dona de casa. Desde cedo Lamarca já se interessava por assuntos ligados a política, tendo participado de manifestações em favor do petróleo nacional, ainda aos 16 anos. Em 1955, aos 18 anos, ingressa na carreira militar e mais tarde vai para a Academia Militar dos Agulhas Negras, onde se forma em 1960, sendo o melhor atirador de seu regimento.

Em 1962 vai para Gaza, na Palestina, em serviço da ONU, onde encontra uma realidade cruel e de extrema pobreza, afirmando em carta para amigos que se fosse para lutar em combate, estaria do lado dos palestinos. É nessa mesma época, após retornar o Brasil, em 1963, que seus ideais se aproximam do socialismo e Lamarca começa a ler os clássicos do marxismo. Em 1964, acontece o golpe militar e no ano seguinte Lamarca volta para seu local de atuação, sendo promovido a capitão em 1967, onde encontra um velho amigo que havia sido preso durante o golpe por formação política, mas depois reintegrado às forças armadas. Assim, Lamarca e seu colega se dedicam a leitura de Lenin e Mao Tse Tung, fato que daria mais impulso a sua associação com grupos socialistas que pretendiam derrubar a ditadura. Lamarca começa a organizar um grupo comunista dentro de seu próprio regimento. E em 1968, consegue se encontrar com Carlos Marighella, líder da ALN, que o ajuda a refugiar sua mulher e filhos para fora do país, transferido-os para Cuba. Dessa forma, Lamarca deixa o exército em 1969 e parte para a luta armada contra a ditadura.

São anos de luta, que têm como acontecimentos esconderijos na mata, encontros com colegas, confrontos diretos com exército, mudanças de localização, prisões e assassinatos de companheiros, bem como sequestros e negociações por presos políticos. Até que em 1971, após uma série de descuidos de seus companheiros, a localização de Lamarca (então escondido na Bahia) começa a ficar mais clara para o exército. E em setembro do mesmo ano, em uma operação que envolve mais de 215 homens, os militares descobrem o esconderijo, mas Lamarca (já em péssimas condições físicas) e seu colega conseguem fugir. Lamarca é carregado nas costas durante boa parte do percurso, e os dois andam por mais de trezentos quilômetros, até enfim serem encontrados novamente pelos militares, que disparam dezenas de tiros quando avistam os dois, levando a morte de ambos.

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7. FIDEL CASTRO

Fidel Castro (1926-2016) nasceu em Holguín, em Cuba. Seu pai era um fazendeiro rico e Fidel nasceu de um relacionamento fora do casamento, sendo sua mãe empregada doméstica. Mas, logo aos 6 anos, foi enviado para para viver com seu professor.

Em 1945, Fidel estuda Direito na Universidade de Havana e começa e se envolver com ativismo político, demonstrando opiniões anti-imperialistas. Com o tempo, se envolve com Partidos de cunho socialista. Primeiro, sendo membro do Partido Socialista do Povo Cubano, em 1947, e mais tarde, do Partido do Povo Cubano, em 1952, onde esteve até o golpe de Fulgêncio Batista, fato que o fez pensar em novas formas de combate contra o governo e o imperialismo que assolava seu país por meio dos Estados Unidos.

Fidel se reúne com um jornal clandestino e publica críticas a ditadura de Fulgêncio juntamente com esse grupo de editores. E é dele que surge o grupo com o qual ele contará para a primeira ação armada, em 1953, e mais tarde ao Movimento Revolucionário 26 de Julho. Nesse contexto, Fidel é preso neste mesmo ano após a ação do grupo, e é condenado a 15 anos de prisão, tendo cumprido 2 e depois sendo absolvido por pressão popular. Fidel se exila temporariamente no México, e lá tenta reunir braços para a revolução, onde conhece também Che Guevara. Em 1955, no mesmo ano, buscou ainda ajuda de outros imigrantes cubanos que estavam nos EUA, para constituir um grupo maior para a revolução. Retornam para Cuba em 1956 e lá iniciam a luta armada com amplo apoio popular contra a ditadura de Fulgêncio Batista.

Em 1° de Janeiro de 1959 tem vitória a revolução cubana, derrubando o governo de Fulgêncio Batista. Fidel visita primeiro os EUA durante o pós-revolução, mas é da URSS que recebe grande apoio econômico e militar. A partir disso, os EUA enxergam uma possível tendência socialista que a revolução cubana, de caráter mais nacionalista, ainda não tinha bem desenvolvida. E, justamente por conta do apoio da União Soviética, os Estados Unidos impõe um embargo a Cuba (que dura até hoje). Assim, Cuba se volta para medidas de estatização de empresas, reforma agrária e diversas outras ações que levam o país aos menores índices de desnutrição, aos melhores índices de educação e a melhor medicina da América Latina.

Fidel sofre com milhares de tentativas de assassinato por parte dos EUA. Desde bombas até charutos explosivos, mas só vem a falecer por causas naturais em 2016, aos 90 anos.

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8. CHE GUEVARA

Ernesto Guevara (1928-1967), conhecido popularmente como Che Guevara, nasceu numa família de classe média na província de Santa Fé, na Argentina. Estudou medicina na faculdade e durante esse período viajou por vários países da América Latina, onde presenciou fome e pobreza generalizada, levando a sua radicalização de pensamento, entendendo que tais condições só seriam superadas com a derrubada do capitalismo.

Durante suas viagens, no México, Che conhece Raul e Fidel Castro, e se junta ao movimento para a derrubada do ditador Fulgencio Batista, em Cuba. Enquanto se organizavam no país, o próprio Che, após observar as condições precárias do lugar, monta fábricas, clínicas de saúde, oficinas militares e organiza escolas para ensinar os camponeses analfabetos a ler e escrever. Enfim, após confrontos e diversas ações de luta contra o governo, se dá a vitória da revolução em primeiro de janeiro de 1959, e faz com que o movimento revolucionário fique ainda mais ativo na América Latina.

Após tomar medidas referentes a economia, reforma agrária e alfabetização no país, Guevara deixa Cuba, em 1965, e parte para apoiar as revoluções no exterior. Primeiro sem sucesso no Congo-Kinshasa e por fim na Bolívia, onde foi capturado por forças bolivianas apoiadas pela CIA, sendo covardemente executado em 1967.

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9. HUEY NEWTON

Huey Percy Newton (1942-1989) nasceu em Luisiana, nos Estados Unidos e era o mais novo de outros sete irmãos. Newton se mudou para a Califórnia logo aos 3 anos, e passou por experiências e percepções fortes a respeito da questão racial e de pobreza. Mais tarde, já durante seus estudos enquanto ainda jovem, Newton tem contato, através da Associação Afro-Americana, com as obras de Marx, Lenin, Mao, Malcom X e Che Guevara.

A partir disso, junto de seu colega Bobby Seale e inspirados nos pensadores que haviam lido, em outubro de 1966, criam o Partido dos Panteras Negras para Auto-defesa, que mais tarde viria a ganhar reconhecimento nacional e internacional, no qual Newton assumiu as funções de Ministro da Defesa, enquanto Seale era a de presidente.

Os Panteras Negras organizaram diversas ações positivas nos bairros em que atuavam, como a criação de clínicas populares e programas de alimentação, bem como ações armadas organizadas contra a violência policial e o governo. Infelizmente sofreram dura perseguição do FBI, que chegou a considerar o grupo como a maior ameaça interna do país, fazendo com que sofressem constantemente com ataques e sabotagens. Newton chega a visitar a China e Cuba durante a vida, encontrando com Fidel Castro e outros líderes. Mas, em 1989, Huey Newton acaba sendo assassinado a tiros.

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10. ANGELA DAVIS

Angela Yvonne Davis (1944) nasceu no Alabama, um dos estados mais racistas dos EUA naquela época. Aos 14 anos participou de um programa que levava estudantes negros do Sul para o Norte do país, onde teve contato com comunismo pela primeira vez, levando a sua integração a uma organização socialista de estudantes. Na década de 1960 começa a participar mais ativamente dos movimentos do Partido e se envolve também com o movimento Black Power e com os Panteras Negras.

Em 1970, Angela Davis passa para a lista dos 10 fugitivos mais procurados do FBI, e tem sua busca constantemente divulgada pela mídia, até enfim ser presa nesse mesmo ano. Sua prisão e processo de divulgação tornam-se um grande evento, e Davis aproveita as sessões no julgamento para discursar sobre a questão racial no país. Após os mais de 18 meses de julgamento, Davis é enfim absolvida. Após sua libertação, viaja para Cuba atrás de seus companheiros dos Panteras Negras (como Huey Newton), onde se encontra também com Fidel Castro.

Por fim, a atividade dos Panteras Negras é cada vez mais reprimida pelo FBI e Angela Davis retorna aos Estados Unidos, agora seguindo sua carreira como ativista política, tratando de temas como o abolicionismo penal, a questão de classe, a questão de raça e a questão da mulher.

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11. SUB-COMANDANTE MARCOS

Sub-comandante Marcos (1957) é o nome utilizado pelo porta-voz dos Zapatistas, os revolucionários mexicanos e indígenas que formam o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

O movimento tem seu nome inspirado em Emiliano Zapata, ícone da luta contra a ditadura no México. E é com os dizeres de “Já basta!”, em 1° de janeiro de 1994, de capuzes pretos e armados, que os revolucionários surgiram defendendo princípios de autonomia econômica e defesa das terras contra o governo e os latifundiários do México. Sofrendo duras repressões e invasões por parte do exército mexicano durante décadas, os zapatistas resistem até hoje e estão em várias regiões do México.

O sub-comandante Marcos era professor de Filosofia na UAM e, apesar de não se considerar marxista, admite suas influências em Mao Tse Tung e Gramsci, bem como a própria organização dos Zapatistas, que possui um caráter comunal (de influência tanto anarquista como socialista).

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12. PRESIDENTE GONZALO

Manuel Rubén Abimael Guzmán Reynoso (1934), conhecido popularmente como Presidente Gonzalo, nasceu em Arequipa, no Peru. Gonzalo entrou na faculdade ainda cedo, aos 19 anos, e já tinha certo interesse em marxismo. Teve seu pensamento político influenciado pelo livro “Sete ensaios sobre a interpretação da realidade peruana”, de José Carlos Mariátegui, o fundador do Partido Comunista Peruano. Mais tarde, Gonzalo se graduou em Filosofia e Direito.

Nos anos 1960, Guzmán lecionou Filosofia na Universidade San Cristóbal de Huamanga, onde encontrou também outros colegas da academia que compartilhavam de seu pensamento sobre a necessidade de uma revolução no Peru. Nesse sentido, o Sendero Luminoso é criado na mesma década, sendo um Partido de orientação maoísta (em contraste com o Partido Comunista Peruano, de orientação soviética da época) que almejava a revolução e emancipação popular tendo como forte princípio a questão camponesa.

O Sendero Luminoso organiza-se primeiro em Ayacucho, onde se consolida e então ganha força em outras regiões do Peru, sendo considerado a maior ameaça ao governo do Peru. O Partido ganha mais popularidade e apoio com o passar dos anos, tendo dado início a Guerra Popular nos anos 1980, organizando diversas revoltas e ações contra o governo da época.

Enfim, Gonzalo é preso em 1992 depois de meses de armação para sua captura. Durante esse período, outros líderes do Sendero também foram presos, o que fez com que o Partido perdesse certa força, tendo sua atividade diminuída. O Presidente Gonzalo segue preso até hoje, mas o Partido e a Guerra Popular no Peru permanecessem vivos, bem como o desejo de emancipação do povo peruano.

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ÁSIA

13. MAO TSE TUNG

Mao Tse Tung (1893-1976) nasceu na província de Hunan, no antigo Império Qing. Mao era filho de camponeses e inicialmente só pôde estudar até os 13 anos, tendo que trabalhar no campo depois disso. Mais tarde, deixa sua casa e parte para a capital (Changsha na época) com o intuito de retomar estudos, onde acaba conhecendo ideias de caráter nacionalista.

Aos 18 anos, em 1911, Mao se alista ao exército revolucionário em meio a revolução pela derrubado do Império, que acontece em 1912. Depois disso, Mao se muda para Pequim e inicia seus estudos em Filosofia e Pedagogia. Participa do movimento contra a entrega de regiões da China de domínio alemão para o Japão, em 1919, e a partir daí adere ao leninismo como pensamento político. Já em 1921, Mao ajuda na fundação do Partido Comunista da Chinês e levanta pontos importantes sobre o potencial revolucionário dos camponeses. Entretanto, com a chegada de um novo governador na China, em 1927, o Partido Comunista passa a ser perseguido, sofrendo inúmeros ataques, como o Massacre de Xangai, em que vários comunistas foram executados com o objetivo de destruir a influência do Partido. A partir disso, Mao organiza o movimento revolucionário e tem sucesso com táticas de defesa e guerrilha. Em 1934, parte do exército do Partido Comunista, liderado por Mao, consegue romper com o cerco militar do governo, levando a chamada Grande Marcha, uma manobra de recuada do exército comunista que estava em desvantagem enorme numericamente contra o exército nacionalista (aproximadamente 700mil contra 100mil). Dessa maneira, os soldados comunistas marcham por mais de 10mil quilômetros em 368 dias até Shensi, no noroeste da China, fato que faz com que Mao ganhe grande reconhecimento popular e no Partido.

Em 1937 o Japão ataca a China e o Partido Comunista e o Partido nacionalista unem forças contra o imperialismo japonês e durante toda a Segunda Guerra Mundial que estava por vir. Porém, após o fim da guerra, já em 1946, os ataques do Partido nacionalista iniciam novamente contra o Partido Comunista, mas dessa vez é o Partido Comunista, contando com mais de 1 milhão de membros, quem obtém a vitória, em 1949. Assim, se proclama a República Popular da China e Mao torna-se presidente, iniciando uma série de medidas de industrialização, de reforma agrária e de cooperativas associadas de produção, além de ideias como as do Grande Salto Adiante e de Revolução Cultural, elevando significativamente os níveis de qualidade de vida na China.

Por fim, Mao adoece e acaba falecendo em 1976, deixando um imenso legado e de grande influência nos movimentos revolucionários até hoje.

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14. KIM IL SUNG

Kim Il Sung (1912-1994) nasceu em Chŏnju, na Coreia, em uma família religiosa, protestante, enquanto o país ainda estava sob domínio colonialista. Interessou-se pelo marxismo quando era estudante do ensino médio e com apenas 17 anos já participava de um grupo clandestino marxista, tendo, por isso, sido preso por vários meses.

Em 1935, aos 23 anos, ingressou nas tropas anti-japonesas lideradas pelo Partido Comunista no norte da China. Com 24 anos já era Comandante de Divisão, tendo obtido uma vitória sobre os japoneses, o que lhe garantiu notoriedade entre os chineses. Em 1940 recebeu treinamento militar na União Soviética, tendo retornado à Coréia em 1945 junto com as tropas soviéticas e assim assumindo o cargo de Chefe do Comitê Popular Provisório. Criou o Exército do Povo da Coreia.

Com o início do conflito entre a Coreia do Norte a do Sul (apoiada pelos EUA), assumiu o cargo de Primeiro Ministro da República Popular Democrática da Coréia e tornou-se vice-presidente do Partido dos Trabalhadores da Coréia do Norte. Organizou a economia da Coreia do Norte com base nos princípios do “Juche”, uma interpretação do socialismo para realidade e identidade coreana.

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15. HO CHI MINH

Ho Chi Minh (1890-1969), de nome verdadeiro Nguyen Tat Thanh, nasceu na vila de Kimlien, em Anã, no Vietnã central, que ainda estava sob o domínio francês. Era filho de um oficial que se demitiu em protesto contra o domínio francês de seu país.

Em 1920 ajuda a fundar o Partido Comunista Francês e alguns anos depois recebe treinamento de guerrilha em Moscou. Em 1941 o Japão invade o Vietnã e Ho Chi Min organiza a criação de um novo Partido de independência e com orientação comunista, o Vietminh. Quando o Japão se rende, em 1945, é declarada a criação da República Democrática do Vietnã, em que Ho Chi Minh se torna presidente.

A França não aceita a independência de sua antiga colônia e inicia uma guerra que dura 8 anos, até enfim a derrota das tropas francesas para os guerrilheiros vietnamitas. Por outro lado, o Vietnã tem seu território dividido em dois até a morte de Ho Chi Minh, em 1969, que não chega a ver a unificação de seu país, em 1975, por meio de nova guerra contra o Sul (que era apoiado pelos EUA).

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16. LEILA KHALED

Leila Khaled (1944) nasceu em Haifa, então parte do Mandato Britânico da Palestina. Ainda antes da adolescência, Leila e sua família tornaram-se refugiados junto com outros 750.000 palestinos quando o Estado de Israel foi fundado, em 1948.

Aos 15 anos Khaled se juntou ao Movimento Nacionalista Árabe. Frequentou a Universidade Americana de Beirute, onde ajudou a organizar manifestações da militância em apoio à libertação da Palestina. Após sua formação, Khaled se juntou à Frente Popular marxista para a Libertação da Palestina. Ela tornou-se uma grande revolucionária comunista, professando admiração por Lênin, Fidel Castro e Che, Ho Chi Minh e Kim II Sung, entre outros.

Khaled atualmente vive com o marido e dois filhos em Amã, na Jordânia. Ela não perdeu seu espírito revolucionário e continuou seu ativismo político com dedicação. Segundo Khaled, “a luta dos palestinos tomou muitas faces. Luta armada, intifada e agora ambos. O que significa que enquanto houver ocupação em nosso país, o conflito continuará.”

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O 11 de Setembro: Do Chile aos Estados Unidos

É preciso compreender a tragédia do atentado que causou a morte de centenas de civis, ao passo em que faz-se necessário entender também o “primeiro” 11 de Setembro, normalmente “despercebido” pela mídia geral. O primeiro acontece no Chile, por meio de um golpe militar apoiado e financiado pelos Estado Unidos e a CIA contra o então presidente Salvador Allende, levando a instauração da ditadura de Pinochet, que resulta em perseguições e mortes. O segundo, a tragédia marcada pelo ataque às torres gêmeas, que resulta na morte de centenas de civis e desencadeia numa série de guerras causadas pelos EUA no Oriente Médio.

O texto a seguir é a reprodução do trecho de um artigo de Noam Chosmky, em que o 11 de Setembro é analisado sob duas perspectivas.

“Em ’11-9′, citei a conclusão de Robert Fisk de que ‘o crime horrendo’ de 11/9 foi cometido ‘com maldade e crueldade impressionante,’ um juízo exato. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponham, por exemplo, que o ataque tivesse ido tão longe ao ponto de bombardear a Casa Branca, matando o presidente, de impor uma ditadura militar brutal que matasse milhares e torturasse dezenas de milhares, instalando ao mesmo tempo um centro de terror internacional que ajudasse a impor estados similares de tortura-e-terror noutros países, e executando uma campanha internacional de assassinato; e como um incentivo suplementar, tivesse trazido uma equipa de economistas – chamemos-lhes de ‘os Kandahar boys’ – que rapidamente conduzissem a economia a uma das piores depressões da sua história. Claramente, teria sido muito pior do que o 11/9.

Infelizmente, nada disto é especulação. Aconteceu. A única inexatidão neste breve relato é que os números devem ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida apropriada. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é frequentemente chamado de ‘o primeiro 11/9’: o 11 de Setembro de 1973, quando os Estados Unidos culminaram com sucesso os seus esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende, no Chile, com um golpe militar que levou ao poder o regime brutal do general Pinochet. O objetivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o ‘vírus’ que poderia estimular todos esses ‘estrangeiros [que] andam a querer tramar-nos’ e que queriam assumir o controle dos seus próprios recursos e aplicar uma política intolerável de desenvolvimento independente. A apoiar esta política estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional que, se os EUA não conseguiam controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem realizar a sua Ordem ‘em qualquer outro lugar no mundo’.”

Texto extraído de: hwww.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Havia-alternativa-Chomsky-revisita-o-11-de-Setembro/6/17637

Marx está morto? Resposta ao Terraço Econômico

Por João Neto Pitta

A página Terraço Econômico, pela autoria do Sr. Paulo André Silveira, agraciou-nos com um artigo cheio de equívocos sobre Marx [1]. O texto logo serviu de abrigo para os variados difamadores e inimigos do barbudo alemão, que o celebraram como a prova cabal de que não é apenas o corpo físico do mouro que está desintegrado em um caixão, mas também todo o corpo teórico que ele produziu em vida.

Resta saber se, ao cavar o buraco pra enterrar as ideias do barbudo, o autor do artigo não terminou caindo nele por descuido. É isso que estamos prontos pra defender neste texto.

O artigo começa dizendo que a única importância em se estudar  Marx é como forma de compreender “as raízes da disciplina’’ (suponho que ele esteja falando da economia política), mas que usá-lo pra compreender o mundo atual é “regredir no conhecimento’’, pois o marxismo não teria ferramentas teóricas sofisticadas pra explicar, por exemplo, a crise de 2008. 

Indo de encontro a essa percepção frágil, indicamos o artigo do aclamado economista marxista Andrew Kliman, “A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx’’[2], em que ele destrincha justamente sobre o que o Sr. Paulo André julga impossível. Cockshott, Cottrell [3] e Shaikh [4] também são exemplos de marxistas com produção empírica acerca de variados assuntos da atualidade.

Nesta parte introdutória do artigo, há muitas afirmações panfletárias e pouquíssimas justificações, o que torna desnecessário responder a cada uma delas. Vamos agora rebater o que há de substancial em sua crítica.

Paul Cockshott durante fala em palestra.

A primeira alegação do autor do artigo alvo de nossa resposta é: Marx teria, como defensor da Teoria do Valor-Trabalho (daqui em diante chamaremos de TVT), deixado de lado casos específicos que supostamente colapsariam o seu sistema teórico. O vinho é uma dessas especificidades que o autor alega que Marx teria omitido, pois “o valor de troca do vinho é acrescido depois de anos de armazenamento’’. No entanto, essa afirmação é drasticamente mentirosa. No segundo volume d’o Capital, mais especificamente no capítulo “Tempo de Produção’’, Marx ilustra o exemplo do vinho como algo que está completamente de acordo com seu arcabouço teórico. Diz o barbudo:

Mas o próprio processo de produção pode exigir interrupções no processo de trabalho e portanto no tempo de trabalho, intervalos durante os quais o objeto de trabalho é exposto ao efeito de processos físicos, sem colaboração adicional de trabalho humano. O processo de produção e portanto a função dos meios de produção, continua, nesse caso, embora o processo de trabalho, e portanto a função dos meios de produção enquanto meios de trabalho, esteja interrompido. Assim, por exemplo, o grão que é semeado, o vinho que fermenta na adega, o material de trabalho de muitas manufaturas, como curtumes, sujeito a processos químicos. O tempo de produção é aqui maior que o tempo de trabalho. A diferença entre ambos consiste num excedente do tempo de produção sobre o tempo de trabalho. Esse excedente sempre se baseia no fato de que o capital produtivo se encontra latente na esfera da produção, sem funcionar no próprio processo de produção, ou que funciona no processo de produção sem se encontrar no processo de trabalho […]” (p. 90) [5] (grifo nosso)

Ou seja, o tempo sob o qual os processos físicos atuam, ainda que não diretamente manuseados pelo trabalho, são também parte do processo de produção e, portanto, condições para efetivação do trabalho socialmente necessário. Como podemos perceber, tal caso, longe de ser omitido pelo barbudo alemão – como o Sr. Paulo André falsamente alegou – foi citado por Marx como exemplo de como, no seu sistema teórico, funciona a produção de valor. Tal erro não me parece muito escusável pra quem se julga habilitado a enterrar um pensador tão relevante. Mas prossigamos.

Desenvolvendo sobre a mais-valia, o Sr. Paulo André diz: “Em última instância, a mais-valia é o lucro do capitalista’’. Em primeiro lugar, essa afirmação não é absolutamente errada, mas ela supõe um grau de abstração que, se não for devidamente contextualizada, poderá causar erros no futuro. Em suma, há uma diferença entre mais-valia e mais-valia realizada na circulação, em que só a segunda se confunde diretamente com o lucro. Por exemplo, no caso citado em que se trabalha por 12 horas, sendo 6 destas de trabalho excedente. Percebe-se que a mais-valia é realizada na esfera da produção (as 6 horas já foram tomadas), mas ela não necessariamente será realizada durante a venda de determinada mercadoria (enquanto lucro). Feitas as correções, vamos ver qual é de fato a crítica do autor acerca deste tema. Ele diz:

“Só há um problema: a mais-valia é uma falácia. Assim como aponta Russel, não há como provar que o trabalho é o único denominador comum de uma série de coisas distintas. Tampouco se pode provar como isso se traduz em relevância’’

Em nenhum lugar do artigo ele explicita que série de coisas são essas que Marx deriva a partir do trabalho e nem o motivo de isso ser uma falácia. Não há qualquer fundamento, só uma divagação vaga e solta, aguardando um leitor desinformado. Mas, ainda sim é importante deixar claro que valor em Marx é medido pela seguinte equação:

m= c + v + s, onde

m: Valor

c: Capital Constante

v: Capital Variável

s: Mais-valia

Em que os fatores de produção (c+v), ou seja, capital constante (maquinaria) e capital variável (salários) – que naturalmente são as instâncias causadoras do valor – são advindos direta ou indiretamente do trabalho.

Marx foi suficientemente honesto para traçar as exceções pontuais, dentre elas: objetos que possuem valor de uso, mas não possuem valor – no sentido de trabalho empregado (como as terras virgens, o ar, o oxigênio) e também os casos em que algo pode assumir a forma-mercadoria, e ser precificado, mesmo sem ter um valor (como a honestidade, o amor, etc).

Por outro lado, tratando ainda da relevância do trabalho como denominador comum de mercadorias – e não algum outro tipo de coisa – chegamos a duas abordagens diferentes: uma histórica e outra sociológica. Da primeira parte, em um brevíssimo resumo do desenvolvimento humano, notamos o trabalho (a interação do homem com a natureza) como a ferramenta que permite ao ser humano, pela primeira vez, produzir seus meios de subsistência e satisfação. Fato que permite também sua reprodução e sobrevivência aos milênios que passam. Da parte sociológica, entendemos que é a partir do trabalho social, isto é, do trabalho para produzir uma mercadoria em determinada condição, com uma intensidade média e habilidade média de trabalho, que se percebe algumas características sobre a produção em determinada sociedade, como o nível de desenvolvimento de suas forças produtivas. Outro aspecto (de uma mescla entre o social e o histórico) é o de que, justamente por ser o trabalho a categoria fundamental da reprodução humana, também é fundamental a forma que em que ele está organizado em sociedade para definir as relações sociais desta.

Onde está a falácia aqui, Sr. Paulo André? Gostaríamos de ler os seus fundamentos.

Monumento de Karl Marx, em Karlovy, na República Tcheca.

O crítico de Marx diz em seguida:

“Além disso, considerando o sistema de livre concorrência admitido por Marx, o que impediria um capitalista de abrir mão da própria parcela de valor apropriado pra vender um preço menor do que a concorrência.’’

Nada impediria isso enquanto escolha puramente isolada, entretanto, isso impede a realização de seu lucro, uma vez que, para lucrar, ele precisa realizar, além dos valores referentes ao preço dos fatores de produção (c + v), valor da mais-valia (s), ou, caso contrário poderá ter sua taxa de lucro (r) comprometida, levando em conta que r= s/(c + v). Em outras palavras, ele não pode simplesmente deixar de apropriar e/ou realizar parte de seu valor sem sofrer fortes custos por conta disso.

Prosseguindo no texto, o próximo parágrafo já traz uma nova crítica:

“Dado que o valor seria determinado pelo trabalho humano indiferenciável, o que explicaria um caso típico da Inglaterra do século XIX: por que há diferenças de remuneração entre um advogado conselheiro da rainha e um advogado qualquer?’’

Aqui o Sr. Paulo André faz uma confusão entre a determinação do valor e a determinação da remuneração. O fato de o valor ser determinado pelo trabalho abstrato (indiferenciável) não significa que todos os trabalhadores que possuem a mesma função receberão o mesmo salário, mas que existe um fator unificador entre as diferentes qualidades especificas de cada trabalho, esse fator é o dispêndio de nervos e músculos necessário para a realização do labor (isso é o que chamamos de trabalho abstrato e indiferenciável).

A remuneração do trabalho de um advogado, como trabalho autônomo, depende de inúmeras circunstâncias sociais, como sua visibilidade e o custo de suas causas processuais. Isso em nada refuta a teoria marxista do valor. Deixarei pra explicitar mais sobre o que determina a remuneração do trabalho logo a seguir.

Vamos agora a um dos erros mais absurdos cometidos em todo o texto:

“A respeito dos salários, caso eles sejam iguais ao tempo necessários para produzir as condições mínimas de sobrevivência, a mera existência de um assalariado num nível diferente de remuneração invalida o argumento inicial.’’

Ainda sobre isso:

“Isso acontece porque as ditas ‘condições mínimas’ são decorrentes de fatos históricos. Não se trata de lógica, dado que reivindicações sindicais, por exemplo, poderiam melhorar a remuneração dos trabalhadores. A mais-valia, porém, foi descoberta e demonstrada por Marx a partir de evidências contábeis. Esses registros corroboram a tese de que parte do valor produzido é destinado aos salários e o restante aos lucros. Entretanto, a ausência de evidência não é a evidência de ausência.”

Estamos diante da prova mais concreta de que Sr. Paulo André não leu Marx, pois ele acaba de usar justamente os argumentos do próprio Marx para refutar esse frágil espantalho oriundo de sua cabeça ao qual ele deu o nome de Marx. Para alguém que se mostra arrogante em diversos trechos do texto, isso é no mínimo irônico. Vou embasar o que estou dizendo, porque tenho respeito aos meus leitores. Vamos lá.

Primeiro: “A respeito dos salários, caso eles sejam iguais ao tempo necessário para produzir as condições mínimas de sobrevivência’’ Está errado. Para Marx, esse é apenas o limite inferior que o salário pode ter no capitalismo, uma vez que: se os salários forem menores do que o necessário para a subsistência fisiológica do trabalhador, não haverá mais força de trabalho (pois o trabalho depende da energia bioquímica que advém das propriedades qualitativas dos alimentos consumidos). Você não precisa ser marxista pra concordar com isso.

Ao julgar que para Marx o salário será necessariamente sempre igual ao mínimo fisiológico para a sobrevivência do trabalhador, o Sr. Paulo André está o acusando de defender a lei de bronze dos salários; a grande ironia em questão, é que tal lei foi refutada na época pelo próprio Marx em suas críticas a Lassalle no livro “Critica ao Programa de Gotha’’.

Engels sobre o assunto, de uma carta a August Bebel:

Em terceiro lugar, a nossa gente deixou que lhe impusessem a «lei de bronze do salário» lassalliana, baseada numa concepção económica inteiramente caduca, a saber: que o trabalhador não recebe, em média, mais do que um salário mínimo e isto porque, segundo a teoria malthusiana da população, há sempre trabalhadores de sobra (era esta a argumentação de Lassalle). Ora bem: Marx demonstrou, minuciosamente, em O CAPITAL, que as leis que regulam os salários são muito complexas, que tão depressa predomina um fator como outro, segundo as circunstâncias; que, portanto, esta lei não é, de modo algum, de bronze, mas, pelo contrário, muito elástica, e que o problema não pode ser resolvido assim, em duas palavras, como pensava Lassalle. A fundamentação que Malthus dá da lei de Ricardo (falseando este último), tal como pode ver-se, por exemplo, citada noutro folheto de Lassalle, no «Manual do trabalhador», página 5, foi refutada exaustivamente por Marx, no capítulo sobre «a acumulação do Capital». Assim, pois, ao adotar a «lei de bronze» de Lassalle, pronunciaram-se a favor dum princípio falso e duma demonstração falaciosa […]”. [6]

Como diz Engels, para Marx, as leis que regulam o salário são demasiadamente elásticas e complexas, isto porque tal determinação depende de fatores exógenos e sociopolíticos que envolvem, em certa medida, a disputa das duas classes antagônicas do processo produtivo pelo excedente.  Exógena porque ela dependerá das flutuações entre vitórias e derrotas no meio político (ou seja, fora do processo produtivo). Reivindicações sindicais, portanto, fazem parte desse processo de luta pelo excedente, aliás, ela revela a profunda luta pelo excedente entre as classes, pois, no meio político, há forças que atuam justamente para baixar tais “encargos trabalhistas’’, o estado/desenvolvimento dessa luta varia geograficamente e historicamente em cada país (isso Marx reconhece no primeiro volume d’o Capital).

O Sr. Paulo André, em sua inglória tentativa de refutar Marx, terminou confirmando a luta de classes.

Friedrich Engels e Karl Marx discutindo, pintura de G. Goron.

Sigamos.

“Isso levou a um erro de dedução, que se desdobra numa proposição absurda: a participação do empresário no processo produtivo não envolve trabalho e tampouco acrescenta valor à mercadoria’’.

Aqui temos mais um erro fruto de uma leitura extremamente pobre de Marx (eu estou convencido de que nem sequer houve leitura).  A participação do empresário, em termos marxianos, não acrescenta diretamente valor às mercadorias, mas indiretamente, por exemplo: ao organizar os fatores de produção capital e trabalho para garantir a maior produtividade, ao usar métodos normativo/gerenciais pra tentar extrair a maior eficiência possível de seus trabalhadores (o que depende de métodos organizacionais e administrativos) etc. Fora isso, os empresários também usam métodos de Marketing necessários para transformar o m’ (mercadoria produzida) em d’ (dinheiro da venda), e, portanto, realizar o valor potencial criado no processo de produção.

Mas quem de fato assume o maior custo social no processo de produção, quem produz diretamente o valor, é o trabalhador, no entanto, é quem recebe em troca a menor remuneração dentro da cadeia produtiva. Portanto existe sim uma função social que é assumida pelo capitalista, Marx a reconhece.

Na segunda parte do artigo do Sr. Paulo André, a crítica é direcionada para a concentração de capital, ele começa dizendo:

“No conjunto de ideias em questão, a concentração de capital é praticamente uma lei. Após o fim do artesão, proprietário (detentor) das ferramentas matérias e intelectuais (meios de produção) necessárias para a produção econômica, restam dois papéis a serem desempenhados numa sociedade: o capitalista, detentor exclusivo desses meios, e o proletário, desapropriado dos mesmos.’’

Mais um erro grotesco para a nossa lista. Em momento algum Marx reduz, o papel que os indivíduos podem ocupar em sociedade, a dois. Há uma série de trabalhos que estão fora do âmbito produtivo. Além de Marx reconhecer a existência de inúmeras outras classes no “18 de Brumário’’ [7]. A questão, porém, é que há um protagonismo destas duas classes na produção MATERIAL de riqueza, naquilo que constitui a essência do que Marx chama de forças produtivas. Fica claro, portanto, que tal critica é só mais uma das inúmeras vulgarizações presentes neste artigo. Vamos para o próximo ponto.

“Mas há uma inconsistência: a tendência à concentração de capital contradiz a teoria marxiana do valor. Se a produção em escala leva ao barateamento da produção, horas de trabalho não determinam os custos de maneira exclusiva […]”

A confusão feita aqui é em relação à natureza do valor tal como entendido pelo barbudo. O valor possui uma substância (trabalho), uma medida de magnitude (tempo de trabalho) e uma forma (wertform), tais elementos funcionam em um conjunto operativo (é impossível a teoria do valor ser entendida sem isso). O Sr. Paulo André critica Marx levando em conta apenas a magnitude do valor e cai, por isso, em um erro crasso. Vamos desenvolver isso um pouco mais.

O valor não é uma propriedade simplesmente aderida às coisas pelo trabalho, porque todo trabalho é dispendido em um arranjo societário em que ele é necessariamente comparado a outros trabalhos no processo de troca.  Dessa forma, a magnitude do valor (tempo socialmente necessário) vai variar conforme a diminuição do trabalho abstrato necessário; o que, por sua vez, é justificado pela diminuição do trabalho concreto fruto do desenvolvimento técnico-material na produção (aumento de produtividade). Assim os custos são diminuídos. Entenda que esse exemplo, mais uma vez, ao invés de refutar Marx, confirma.

Em geral, a magnitude do trabalho depende do tempo médio necessário que uma sociedade, com seu grau médio de tecnologia, leva para produzir riqueza. Na prática, em uma situação de concorrência, temos três possibilidades nas quais cada firma pode se enquadrar individualmente, elas podem: 1) produzir em um tempo superior a esta média social; 2) produzir mais ou menos próximo a essa média de tempo; 3) produzir em um tempo inferior a esta média de tempo (são as que geralmente conseguem a partir de um aumento de produtividade). O resultado óbvio disso é que as firmas que estão situadas no terceiro caso vão conseguir reduzir custos, cobrar preços mais baratos e vender mais, aumentando, por isso, a sua concentração de capital.

Contudo, algo que não é nem mencionado pelo Sr. Paulo André, é que a tendência à concentração de capital em Marx depende de certas circunstâncias sociais plenamente delimitadas, ela não se dá meramente ‘ipso facto’ como algo determinado pela natureza. Existe um capítulo do curso de economia política de Paul Singer em que ele inclusive mostra como a tendência a concentração de capital pode explicar a concentração de capital no Brasil a partir de 1962. [8]

Portanto, Sr. Paulo André, diferente do que você disse, nem a mais-valia e nem a teoria do valor são refutadas por isso. Aliás, parece mesmo que o Sr. só conhece a mais-valia absoluta, nem sequer leva em conta a mais-valia relativa e a extraordinária, que são as expressões mais comuns em que a exploração do trabalho é expressada nos casos de aumento da composição orgânica de capital e de concentração de capital.

Levantando a bandeira, pintura de Gely Mikhailovich Korzhev-Chuvelev .

Certa vez, sendo questionado sobre as constantes distorções e adulterações feitas em suas obras, Marx ironizou que, se fosse pra responder cada uma delas, precisaria de ao menos uns 20 funcionários.  Esse artigo é mais uma resposta às inúmeras distorções sobre Marx que inundam a internet.

Para encerrar deixo um questionamento: Se Marx é um teórico tão fraco assim, e de ideias tão atrasadas, por que vocês precisam metamorfoseá-lo a simplificações tão torpes e drasticamente erradas?  

“É nesse quadro de referências que deve ser feito com todas as letras o registro de que o capital celebra na atualidade a morte de Marx e o enterro da esquerda, e interrogado também porque o faz incansável e reiteradamente. Se não restam senão cadáveres, por que da intranquilidade do capital e de seus vozeiros? Por que têm eles que praticar diariamente o assassinato do velho filósofo alemão e proclamar sem descanso a extinção da perspectiva de esquerda? Desconfiam, decerto, que tudo não passa de mais uma de suas ilusões voluntárias. De fato, a morte de Marx é uma missa cotidiana no altar do medo’’ (José Chasin). [9]

Referências:

[1] SILVEIRA Jr, P. A. Marx está morto. Disponível em: https://terracoeconomico.com.br/karl-marx-esta-morto/

[2] KLIMAN, Andrew. A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx. Disponível em: http://outubrorevista.com.br/wp-content/uploads/2015/11/3_Andrew-Kliman.pdf

[3] COCKSHOTT, Paul; COTTRELL, Allin. The Scientific Status of the Labour Theory of Value. Disponível em: http://users.wfu.edu/cottrell/eea97.pdf?fbclid=IwAR2h5Uitx3gPTY1QwJPYyZIcM9cU6HhaHdnPMRMB9kPYupUS_ArmMkbfpeg

[4] SHAIKH, Anwar M. The Empirical Strength of the Labour Theory of Value. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/0BxvNb6ewL7kOdWhYSEI4OVJHTkk

[5] MARX, Karl. O Capital (volume 2). Disponível em: https://cursosobreocapital.files.wordpress.com/2017/06/marx-o-capital-livro-2-os-economistas-nova-cultural.pdf

[6] ENGELS, Friedrich. Carta a August Bebel, em 1875. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1875/03/28.htm

[7] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luis Bonaparte. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/index.htm

[8] SINGER, Paul. Curso de Introdução a Economia Política. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/857921/mod_resource/content/1/Singer%2C%20Paul%20-%20Curso%20de%20introducao%20a%20economia%20politica.pdf

[9] CHASIN, José. A morte da esquerda e o neoliberalismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/chasin/1989/mes/morte.pdf

Propriedade privada e alienação

Por Pedro Nogarolli

Marx começa o capítulo “trabalho alienante e propriedade privada” (dos Manuscritos Econômicos-Filosóficos) com um fato das nossas sociedades: o trabalho humano é alienado. Mas o que isso significa? Alienação em sua origem significa – que pertence a outro, mas também significa indiferença ao mundo, á sociedade, ás pessoas. Quando escutamos “Essa pessoa é uma alienada!”, entende-se que é uma pessoa cabeça dura, sem conhecimento, isolada, etc. Bom, para entender esse conceito no pensamento de Marx, o barbudo divide três aspectos da alienação do trabalho alienado:

• O trabalho em si é alienante;
• Os trabalhadores estão alienados dos produtos dos seus trabalhos;
• O trabalhador está por fim alienado de si mesmo e dos outros.

1) O trabalhador não se sente bem no seu trabalho. Pelo contrário, o seu trabalho é desgastante (fisicamente e espiritualmente), ele se estressa, se auto-sacrifica, se esgota. Não se sente em casa no trabalho, mas o oposto: só se sentiria em casa fora do trabalho. Odeia o início da semana, mas adora o fim da semana. Portanto, esse trabalho não é por livre e espontânea vontade, é trabalho forçado.
Esse fato é visível, pois logo que não houvesse coerção ou necessidade, o trabalhador fugiria imediatamente desse trabalho alienante.

2) Logo, se o trabalho é trabalho forçado, então esse trabalho não é trabalho seu, mas trabalho de outra pessoa. O trabalhador não pertence a si próprio, ele pertence a outra pessoa. Assim, o regime salarial e a propriedade privada é uma consequência necessária do trabalho alienado, pois são o que significa pertencer a outra pessoa em sua forma socialmente estabelecida.

3) Por fim, Marx argumenta: O que nos diferencia dos outros animais é a atividade livre e consciente. A vida verdadeiramente humana é a atividade consciente e livre. Entretanto, o trabalho alienado faz do que nos diferencia dos animais um mero meio para subsistirmos – consumo, habitação etc. Trabalhamos para viver, mas não vivemos para trabalhar. O trabalho ganhou significados tão alienantes que naturalmente enxergamos essa frase como absurda. Como assim viver para trabalhar? Mas aquilo que é verdadeiramente humano é nossa liberdade criativa, nossa paixão criadora, nossa atividade. Por isso, o ser humano perde sua identidade com o que lhe faz humano, e sem essa noção, se distancia dos outros (sentimentalmente, espiritualmente, etc). Assim sendo, o trabalhador acaba por se sentindo humano apenas nas suas funções meramente animais – a comida, a bebida, o sexo; e se sentindo um animal na sua ação mais humana – o trabalho.

Recapitulando: o trabalho alienante possui três aspectos – o próprio ato do trabalho é alienante, o trabalhador é alienado dos frutos do seu trabalho e, por fim, o trabalhador é alienado de si mesmo e dos outros. A propriedade privada e o regime salarial são uma consequência lógica do trabalho alienante.

Alguns dados sobre o assunto:

Trabalho alienado: https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap01.htm

O paradoxo da escolha: https://www.ted.com/talks/barry_schwartz_on_the_paradox_of_choice?language=pt-br&fbclid=IwAR0HKROcvXxrnilBP7nTeQ4oWe8lKhQnaA2xQgQy6QcIRlQD4h3fHP4nktA

Sociedade do cansaço – Byung-Chul Ha:

“Do ponto de vista patológico, o incipiente século XXI não é determinado nem por bactérias nem por vírus, mas por neurônios. Doenças neurológicas, como depressão, déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), personalidade limítrofe distúrbio (DBP) e síndrome de burnout marcam o contexto da patologia no início do século vinte e um.”

James Oliver -Selfish Capitalism:

“Taxas de sofrimento quase duplicaram entre as pessoas nascidas em 1946 (trinta e seis anos em 1982) e 1970 (trinta anos em 2000). Para por exemplo, 16% das mulheres de 36 anos em 1982 relatou ter “problemas com os nervos, sentindo-se baixo, deprimido ou triste ‘, enquanto 29 por cento das pessoas de trinta anos relataram isso em 2000 (para os homens foi de 8 por cento em 1982, 13 por cento em 2000)”

Capitalismo Tardio e os Fins do Sono – Jonathan Crar:

“A história tem mostrado que as inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas uma esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou consumidor sem sono. Produtos que tiram o sono, quando agressivamente promovidos pela farmacêutica empresas, seria a primeira opção de estilo de vida e, eventualmente, para muitos, uma necessidade. Mercados 24/7 e uma infraestrutura global para trabalho contínuo e consumo estão em vigor há algum tempo, mas agora um sujeito humano está em construção para coincidir com estes mais intensivamente”

A fórmula da ideologia dominante

Por João Neto Pitta

Hoje ensinaremos a receita de como transformar uma série de pessoas com pouco conhecimento sobre política em um rebanho governado pelo ódio ao comunismo.

1) Coloque correntes teóricas visivelmente distintas como sendo pertencentes a mesma tradição filosófica, depois culpe a “dialética” pelas diferenças evidentes entre elas. De preferência, sigam o método do Orvalho de Cavalo, em que tudo que que não é conservadorismo ortodoxo, logo é lido como esquerda e, tudo que é esquerda, é lido como comunista. Colapse as distinções flagrantes que as tornam correntes contrárias.

2) Uma vez que o comunismo agora é entendido como tudo que não é conservadorismo, faça a constatação de que a mídia e as universidade estão tomadas por estes ‘agentes da revolução’. Como se houvesse uma uniformidade entre elas que sabidamente não existe. Fazendo isso, você mata dois coelhos em uma cajadada só, pois também se mina das possíveis críticas que tais instituições podem fazer à sua narrativa, levando em conta que isso afasta o rebanho de qualquer aparato científico capaz de oferecer um contraponto ao que você diz.

3) Crie uma narrativa coerente e longa, em que todas as desgraças do mundo podem ser remetidas a este mesmo inimigo comum. Faça-os entender que, mesmo que tais inimigos sejam educados e cultos, no fundo tal aparência serve apenas para mascarar sua monstruosidade e seu desejo por uma revolução sanguinária. Torne o debate inviável, leve-os a crer que não se trata de uma oposição meramente ideológica, mas moral, portanto qualquer manifestação desequilibrada, com palavrões e chiliques contra estas pessoas, estará plenamente justificada. Afinal de contas, eles são o mal.

4) Crie uma grande conspiração internacional em que as grandes corporações financiam esses inimigos comuns, obscurecendo a existência de inúmeras entidades que financiam variados tipos de pensamento que se distinguem em gênero, número e grau. Ataque todos os intelectuais, e quando for atacado por eles, diga que essa é a prova da perseguição dos virulentos comunistas a quem ousa discordar deles. Passe, sobretudo, a imagem de um intelectual perseguido por lutar contra o ‘establishment esquerdista.’

5) Transforme os perseguidos em perseguidores. Diga que o mundo está dominado pelos que se dizem oprimidos, use termos como ditadura gay, ditadura do politicamente correto, racismo contra branco e relativize as verdadeiras ditaduras como a ditadura militar. Faça o rebanho pensar que foi por um bem maior. Crie um grande e perigoso inimigo, pois quanto mais forte é o inimigo, mais se legitimam os métodos mais traiçoeiros para se vencer.

Esse método foi testado no Brasil e conseguiu eleger um presidente.

Em 1995, Carl Sagan escreveu o ”Mundo assombrado pelos Demônios”, e nele mostrou o quanto a pseudo-ciência é eficaz em se infiltrar nos medos, preconceitos e dúvidas das pessoas, levando-as a agir conforme a sua ópera. Na era atual, as coisas não mudaram tanto, exceto a velocidade com a qual a informação falsa é compartilhada. Quanto mais simplista é um pensamento, com mais facilidade ele ultrapassará as barreiras do mundo virtual.

É obvio que uma ideia que converge várias tradições de pensamento em uma só, que cria um inimigo comum ao qual todo mal é atribuído, que cria um cenário de grandes perseguições e segundas intenções, se encaixa como uma peça de quebra-cabeça na fragilidade das pessoas. Os Nazistas fizeram o mesmo com os Judeus.

A única maneira de vencer a pseudo-ciência, o pensamento falacioso, a manipulação e a mentira é trazendo a luz do sol o método usado pelos embustes e gurus e esmagá-los com a realidade, mostrando o quão torpe e simplório são suas especulações.

Os lucros estão encolhendo e é você quem está pagando a conta

Gabriel Brasileiro

Análises dialéticas do capitalismo são capazes de evidenciar as mais diversas contradições vigentes nas entranhas desse sistema. Estando dentre tais contradições a lei da queda tendencial da taxa de lucro (LQTTL), esta, apontada por Marx, cuja validade expressa para muitos o fundamento da derrocada do capitalismo. Contudo, ao contrário do que talvez se imagine, Marx não foi o precursor teórico dessa lei. Certo que, como expõe Andrew Kliman [1], Adam Smith e David Ricardo já defendiam sua validade. Tendo cada um explicado à sua maneira esse fenômeno [2]. De acordo com Adam Smith, a queda ocorre devido ao excesso de capital empregado. Já David Ricardo, desenvolveu sua explicação utilizando sua noção de lei dos rendimentos decrescentes aplicada à agricultura. E, finalmente, Karl Marx teorizou que a tendência de queda da taxa de lucro é resultado da mecanização, que diminui a participação do trabalho humano na produção, a fonte concreta do lucro por meio da mais-valia. No entanto, independente de qual explicação seja a correta e diante de críticas à LQTTL, a averiguação empírica do fato histórico prevalece: As taxas de lucro demonstram tendência à queda em vários momentos da história; como será demonstrado adiante. 

Contudo, antes de mais nada, faz-se necessário expor a definição de taxa de lucro. Segundo Esteban E. Maito [3]:

“Em termos marxistas, a taxa de lucro é calculada a partir da razão entre lucros e, do outro lado, capital investido em maquinaria, infra-estrutura (capital constante fixo, FCC), insumos (capital circulante constante, CCC) e salários (capital variável, VC).”

Tendo em seu estudo constatado que a taxa de lucro em países tomados como centrais do capitalismo (Alemanha, EUA, Holanda, Japão, Reino Unido e Suécia), desde o século XIX, vem a apresentando uma tendência ao decaimento. Enquanto os países tomados como periféricos (Argentina, Austrália, Brasil, Chile, China, Coréia, Espanha e México), com dados datados a partir da metade do século XX, também vêm apresentando a mesma tendência.

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Andrew Kliman, também considerando a taxa de lucro como a razão entre o lucro e o capital investido, chegou a conclusões semelhantes analisando o histórico da taxa de lucro americana. Em seu caso, Kliman utilizou quatro definições distintas de lucro, os rendimentos de propriedade, o excedente operacional líquido, os lucros pré-impostos e os lucros pós-impostos, explicados a seguir [4]: 

“A medida mais inclusiva dos lucros é a que eu chamo de ‘rendimentos de propriedade’ (property income), o valor adicionado bruto menos a depreciação e as remunerações dos empregados. O excedente operacional líquido exclui, adicionalmente, impostos indiretos sobre os negócios líquidos (impostos sobre vendas, etc). Lucros pré-impostos são o excedente operacional líquido menos juros, transferências e pagamentos diversos, e os lucros pós-impostos também excluem a parcela do lucro pré-impostos direcionada ao pagamento do imposto de renda das corporações.”

Considerando todas os conceitos de lucro, constatou que para cada uma das definições houve, nos Estados Unidos, queda da taxa de lucro, com dados datados desde a metade do século XX até 2007.

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Nota-se, portanto, que historicamente é possível observar em economias capitalistas uma tendência ao decaimento das taxas de lucro. Todavia, é importante ressaltar que Marx não trata a LQTTL como uma tendência constante durante todo o capitalismo, a qual escatologicamente levaria ao seu colapso. O ponto de Marx, diferente dos demais clássicos — que acreditavam que haveria uma constante declinação da taxa de lucro até se alcançar um estado estacionário — é tão somente argumentar que a tendência de queda da taxa de lucro é um fator que gera ciclos econômicos, de crescimento e queda. Segundo Kliman, nada nos escritos do comunista alemão sugere que ele acreditava que a LQTTL era um lei de colapso iminente do capitalismo. Ao contrário disso, Marx pretendia apenas demonstrar que há períodos de queda da taxa de lucro, causados por evoluções técnicas capazes de diminuir a rentabilidade de setores da economia, que tornam o ambiente econômico propício a crises, devido à propensão à superprodução e especulação excessiva nesses períodos com o objetivo de preservar os lucros [5]. Crises estas que, quando superadas, permitem que as taxas retomem o crescimento, voltando a economia a se expandir até que em algum momento volte se retrair. A teoria de Marx, portanto, descreve cenários cíclicos, não um cenário de estagnação de longo prazo da economia que persiste durante toda vida do capitalismo[6]. A partir disso, é possível inferir que, mesmo que a economia capitalista estivesse apresentando aumento da taxa de lucro ao longo da história, tal aumento ainda estaria sujeito a momentos de tendência de queda da taxa de lucro, que eventualmente voltariam a crescer devido a algum aprimoramento técnico etc. Por exemplo, mesmo que o controverso estudo de Michel Husson, que propõe que a partir do final de 1960 até 2007 as taxas de lucro americanas tiveram uma tendência ascendente [7], esteja correto, seu modelo não consegue erradicar a existência de momentos de decaimento da taxa de lucro que depois se recuperaram. Cuja queda de rentabilidade natural ao mercado pode ser um fator contribuidor para tal.

Curiosamente, Kliman oferece uma explicação para a LQTTL sob uma ótica que desconsidera a teoria do valor de Marx, mas que demonstra que o aperfeiçoamento técnico substituidor de trabalho humano realmente tem o potencial de fazer taxas de lucro decaírem. Mesmo que a teoria do valor de Marx esteja errada, ainda é possível entender a LQTTL tão somente a partir da crescente produtividade observada no capitalismo, que barateia os custos de produção de mercadorias através da disponibilidade crescente de equipamentos substituidores de trabalho, pressionando os capitalistas a diminuírem os preços de venda a fim de se manterem competitivos, o que faz com que a lucratividade de vários setores decaiam. Citando Alan Greenspan, ex-presidente do FED e ótimo representante do neoliberalismo financeiro, que reconhece a recorrência desse fenômeno — “perda do poder de precificação dos negócios”, em suas palavras — [8], Kliman demonstra, portanto, como a conclusão de Marx estaria certa mesmo que sua teoria do valor estivesse errada. “Porque as novas tecnologias economizam trabalho, elas tenderão a reduzir o valor das mercadorias e (tudo mais sendo igual) reduzir preços por toda a economia.”, diz Kliman em outro artigo chamado “O Teorema de Okishio” [9]. Onde ele argumenta que Nobuo Okishio, um grande economista marxista e crítico da LQTTL, ao partir do pressuposto de que uma economia mais produtiva é necessariamente a mais rentável, ignorou os efeitos de longo prazo descritos acima que fazem as rentabilidades decaírem. No curto prazo, inovações tecnológicas têm, de fato, o potencial de proporcionar maior lucratividade, mas a médio e longo prazo o barateamento de produtos fazem essa tendência se inverter em vários setores.

Esclarecido isso, não parece mais haver grandes polêmicas envolvendo a concretude da LQTTL. Sendo agora necessário esclarecer como os capitalistas podem combater a tendência de decaimento de suas remunerações. Marx sugere no mínimo seis ações contra-tendenciais colocadas em prática pelos capitalistas [10]. Sendo a de maior relevância, para a compreensão da contrariedade dos interesses das classes, a supressão dos salários, esta que também pode ser constatada empiricamente. O que se observa é que, em países desenvolvidos, está havendo uma disparidade entre o crescimento da produtividade do trabalho e o crescimento dos salários, este que cresce em um ritmo menor que aquele. Isso significa que os ganhos de produtividade não estão sendo repassados aos trabalhadores, que se beneficiam menos com os ganhos do trabalho. Segundo a OIT, em seu “Relatório Global sobre os Salários 2016/17” [11]:

“Como referido em edições anteriores do Relatório Global sobre os Salários, o crescimento dos salários médios ficou atrás do crescimento médio da produtividade do trabalho desde o início dos anos 1980 em várias grandes economias desenvolvidas, incluindo a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos, onde além disso a parte do trabalho no PIB diminuiu”

É, portanto, uma tendência observada desde o século passado, o que pode ser ilustrada por este gráfico presente no referido relatório que toma o período entre 1999 e 2015 como referência.

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Especificamente nos EUA essa tendência passou a ser observada a partir da década de 70.

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Como bem descreve o Economic Policy Institute [12]: 

“De 1973 a 2017, a produtividade líquida aumentou 77,0%, enquanto a remuneração horária dos trabalhadores típicos essencialmente estagnou – aumentando apenas 12,4% em 44 anos (após o ajuste da inflação). Isso significa que, embora os americanos estejam trabalhando de maneira mais produtiva do que nunca, os frutos de seus trabalhos foram principalmente atribuídos aos que estão no topo e aos lucros corporativos, especialmente nos últimos anos.”

Isso permite presumir que a supressão dos níveis salariais frente à produtividade é uma maneira de preservar a taxa de lucro dos capitalistas, que temem mais do que tudo a queda de suas taxas de lucro. Ademais, uma possível explicação para essa diminuição no ritmo de crescimento dos salários é a automatização do capital. Pois, como constatou o recente estudo do Brookings Instituion sobre o assunto, o qual analisou 28 indústrias em 18 países da OCDE, de 1970 a 2018, a automatização está sendo responsável por manter os salários baixos, devido ao crescimento lento [13]. Dado que a automatização diminuiu a parcela do trabalho humano no valor agregado da produção. 

Sendo assim, observa-se que, além de a LQTTL ser válida, há um conflito entre as classes de empregadores e empregados. Logo, é inevitável concluir que o sistema capitalista, de fato, passa por grandes contradições. Enquanto a taxa daquilo que movimenta o sistema, o lucro, vem experimentando quedas, os trabalhadores de países cujo capitalismo está maduro não experimentam maiores ganhos salariais, que poderiam ser proporcionados pelo avanço tecnológico. Ao contrário, isso propiciou o aumento lento dos salários ao longo dos anos frente ao aumento da produtividade do trabalho, cujo maior ganho vai para os lucros dos capitalistas, a fim de não haver maiores quedas da taxa de seus lucro. Diante de tudo isso, fica o questionamento, até que ponto o capitalismo persistirá sem gerar o ambiente insuportável de descontentamento generalizado que irá revolucioná-lo?

REFERÊNCIAS:

[1] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 10

[2] http://www.sbpcnet.org.br/livro/62ra/resumos/resumos/3074.htm

[3] https://thenextrecession.files.wordpress.com/2014/04/maito-esteban-the-historical-transience-of-capital-the-downward-tren-in-the-rate-of-profit-since-xix-century.pdf

[4] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 16

[5] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 14

[6] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 14-15

[7] https://www.marxists.org/portugues/harman/2009/10/19.htm

[8] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 13

[9] O Teorema de Okishio, pág. 1 

[10] https://blog.esquerdaonline.com/?p=7789

[11] http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/rel_global_salarios_2016_pt_web.pdf

[12] https://www.epi.org/productivity-pay-gap/

[13] https://www.brookings.edu/bpea-articles/is-automation-labor-displacing-productivity-growth-employment-and-the-labor-share/