6 fatos que mostram que mentiram pra você sobre a URSS stalinista

Artigo original (em russo): http://politrussia.com/istoriya/menya-sprosili-nuzhen-456/

Autores: Ilya Belous (Илья Белоус), Yuri Belous (Юрий Белоус)

Neste momento atual, o interesse científico e público na personalidade “verdadeira” de Stalin está crescendo. Em dezembro de 2014, mais da metade (52%) dos entrevistados pelo Centro Levada expressaram pontos de vista positivos sobre o papel histórico de Stalin na Rússia. Aqueles que expressam pontos de vista negativos – mediram menos de um terço (30%). Este resultado foi uma espécie de satisfação — depois de 60 anos de tentativas de esquecer e até destruir a personalidade do Secretário-Geral, sua autoridade permanece muito alta.

Antes da celebração do 70º aniversário da Grande Vitória sobre o fascismo, a autoridade de Stalin ressurgiu. Muitas pessoas ficaram surpresas ao verem cartazes com sua imagem aparecendo em Krasnodar, Makhachkala, Ecaterimburgo e outras cidades, em ‘ônibus de aço’ em São Petersburgo, a instalação de monumentos em Lipetsk e na Crimeia (ainda no estágio de planejamento em St. Petersburg, Yekaterinburg), a abertura de placas comemorativas em Simferopol e Ussuriisk. Estes são apenas alguns dos exemplos que perturbaram muito a mídia e os políticos liberais.

Tentamos analisar essa questão e formar nossa própria opinião, porque se a reputação de um político está sem controle devido a dezenas de anos de propagandas negativas, isso diz muito. Colocaremos em discussão os argumentos em apoio a Stalin e, consequentemente, contra-argumentos.

Argumento 1. Na era de Stalin, a população aumentou e, sob os liberais nos anos noventa, diminuiu drasticamente.

Foto: De acordo com o Comitê Estadual de Estatística da Federação Russa

A linha verde no gráfico indica o crescimento populacional como uma porcentagem (quanto maior a linha, maior a porcentagem), e, apesar das guerras, a melhor dinâmica é a época de Stalin e uma das melhores em 1937. A demografia populacional é um indicador qualitativo significativo do padrão de vida. 

Assim, de 1926 a 1954, apesar da fome e da Segunda Guerra Mundial, a população cresceu em 50 milhões de pessoas.

No entanto, a queda quantitativa da população, como aconteceu na era capitalista-liberal pós 1991, não foi visto na URSS, mesmo durante os tempos de guerra e fome. Para comparação: de 1991 a 1999, o crescimento populacional natural foi menos de 5,8 milhões de pessoas, ou seja, em vez de um aumento, houve seu declínio. Como se expressou o reformador liberal Anatoly Chubais: “Eles não se encaixaram ao livre mercado.”

Na Segunda Guerra Mundial, a perda de vida da URSS gerou 6,3 milhões de soldados mortos, incluindo mortos por ferimentos. 555 mil morreram de doenças, em acidentes, condenados à morte (segundo relatos de tropas, instituições médicas, tribunais militares) e 4,5 milhões de pessoas capturadas e desaparecidas. Total de perdas demográficas (incluindo a população civil perdida no território ocupado e aumento da mortalidade no resto da URSS das dificuldades da guerra) ascendeu a 26,6 milhões de pessoas.

Mas mesmo nos anos de guerra e pós-guerra não houve tal queda na população como nos anos noventa, o que acabou sendo ainda pior para a Rússia em termos de demografia.

Acontece que a política liberal dos anos 90 levou o país a uma catástrofe demográfica, enquanto Stalin a evitou. O que significa? Precisa-se pesquisar. Negando Stalin, negamos toda a sua experiência em liderar o país.

Argumento 2. A produção industrial cresceu a taxas elevadas.

Foto: mysteriouscountry.ru / A taxa de crescimento da produção industrial bruta da URSS

Sob Stalin, foi criada sua própria produção nacional poderosa. Antes da guerra, em termos de produção industrial bruta, a URSS tornou-se a segunda potência mundial; um pouco atrás dos Estados Unidos, mas à frente de qualquer país europeu (Industrialização da URSS, 1933-1937. Documentos e materiais. – Moscou: Nauka, 1971. – P. 598). A indústria soviética nasceu e, o mais importante, cresceu naqueles anos 30, quando, após a grande crise, as economias dos países capitalistas realmente tropeçaram. A industrialização soviética fez mudanças no equilíbrio das forças mundiais. Do ponto de vista do desenvolvimento industrial, as repúblicas não-russas se encontraram em uma posição apreciada, e algumas delas (na Ásia Central) se desenvolveram mais rapidamente que o resto do país. As repúblicas periféricas estavam ativamente envolvidas na transformação econômica. Observou-se um crescimento impressionante de pessoal no campo da educação: o número de funcionários no sistema Narkompros dobrou no mesmo período, de 1,3 milhão para 3,7 milhões de pessoas. O número de pessoas empregadas em instituições de saúde e pesquisa também dobrou. Esses números mostram que, no que diz respeito ao sucesso, a industrialização começou a trazer resultados benéficos não apenas para a economia da URSS, mas também para os países vizinhos. Uma rede de instituições científicas e de pesquisa, universidades, escolas secundárias e bibliotecas surgiram na periferia nacional, onde as pessoas não conheciam a alfabetização.

Em 1937, 13 economias foram criadas na URSS. O país poderia produzir qualquer equipamento, inclusive militar. Em 1953, Korolev desenvolveu o projeto conceitual de um míssil balístico de longo alcance de dois estágios, pesando até 170 toneladas, com uma ogiva de separação pesando 3 toneladas a uma distância de 8 mil quilômetros. Este projeto foi a chave para mais sucesso no espaço.

Nos anos 90, países capitalistas foram diametralmente opostos a essa tendência, estes que tentaram destruir o estado soviético de maneira ideológica. Sob Stalin, a URSS trabalhou e criou, graças em parte ao alto nível de disciplina e à presença de uma ideia nacional. Em termos de taxas de crescimento per capita na URSS foram significativamente maiores do que em qualquer um dos países desenvolvidos do mundo.

Foto: mysteriouscountry.ru / A taxa de crescimento da produção industrial per capita na URSS e nos EUA

Argumento 3. O padrão de vida sob Stalin foi o melhor da história recente.

Hoje em dia, o “custo do hambúrguer” ganhou popularidade bastante alta (por exemplo, quantos hambúrgueres podem ser comprados por salários em diferentes países). Mas por que temos que considerar pratos venenosos do exterior, literalmente? Vamos medir o padrão de vida com batatas!


Foto: opoccuu.com / o salário médio dos russos em quilogramas de batatas a preços de tempo relevantes

De acordo com esse cronograma, atingimos o nível de 1953 apenas em 1970, mas agora estamos com índices mais baixos — e isso com todas as tecnologias e progresso! O padrão de vida deveria ter crescido muitas vezes, mas não cresce. Por que talvez a resposta esteja na superfície — no fenômeno da liderança stalinista? Então, devemos estudar esse fenômeno, e não apenas lembrar a rigidez do governo. O mercado de produtos hoje cresceu devido a grandes fábricas, não devido a pequenas fazendas camponesas. Foi esse objetivo que a coletivização de Stalin buscou. Pessoas que ativamente obstruíam o curso estatal, ameaçavam-no, naturalmente, eram punidos. Mas isso não era algo surpreendente, isso era uma característica de um único país da época? Em 1953, o salário médio na URSS era de 719 rublos, ou seja, 179 dólares na então taxa de câmbio. Tendo em conta a inflação em termos de hoje — cerca de 1600-1700 dólares. Agora, o salário médio não é superior a US$ 500. Acontece que as pessoas nunca ganharam tanto depois de Stalin. E se você levar em conta o chamado “pacote social”: apartamentos, educação gratuita, viagens, cuidados médicos?

Sob Stalin, uma sociedade de justiça social foi construída, uma sociedade para os trabalhadores. A autoridade de Stalin antes da guerra, e especialmente depois da guerra, era tão grande que ameaçava a oligarquia financeira mundial. Estados e movimentos comunistas começaram a se espalhar por todos os continentes. A única saída para a oligarquia era iniciar uma campanha para humilhar Stalin, primeiro “pessoalmente”, depois a URSS e os comunistas em todos os países. Aliás, foi a crítica do culto à personalidade de Stalin feita por Khrushchev que causou a deterioração das relações com a China. O degelo na URSS foi mais usado pela CIA. “Um sopro de ar fresco do oeste” revelou-se uma colherada de mel em um barril de alcatrão. O país foi inundado com representantes dos serviços ocidentais que realizaram trabalho subversivo na URSS. Eles já têm que lidar com Brezhnev. A China se tornou um aliado dos Estados Unidos. Na implementação do princípio da coexistência pacífica com os países da “democracia” européia, o próprio Khrushchev encontrou na ONU um “clube pró-americano”. O insight chegou a Khrushchev tarde. O apoio de Fidel Castro, Patrice Lumumba e Nkrumah Kwame, pôs fim ao “descongelamento soviético” e provocou uma nova rodada de hostilidades na Guerra Fria . O que mais Khrushchev fez?  Transferiu a Crimeia para a RSS da Ucrânia, que ativou o programa do Ocidente para o resgate da Ucrânia da URSS”. 


O desenvolvimento de arsenais nucleares dos EUA e da URSS / Rússia ao longo dos séculos XX – XXI. Foto: ru.wikipedia.org/wiki/Arquivo: US_and_USSR_nuclear_stockpiles.png

Nossos três contra-argumentos refutando os argumentos dos adversários de Stalin

Contra-argumento 1. Stalin lançou a Segunda Guerra Mundial

A guerra vinha acontecendo desde 1935. Em 1935-1936, Mussolini capturou o único estado independente na África, a Etiópia. Em 1936-1939, a agressão ítalo-alemã ocorreu na Espanha, a república foi derrubada e o governo fascista de Franco foi estabelecido. Em 1937-1945- Guerra entre japoneses e chineses. Os japoneses capturaram a Manchúria. A invasão da China foi levada a cabo pelo país aliado de Hitler no bloco Anti-Comintern. Em 1938, Hitler já anexou a Áustria e os Sudetos. Em março de 1939 toda a Checoslováquia. Ao mesmo tempo, eles nos asseguram que a guerra mundial começou em 1 de setembro de 1939 com o ataque de Hitler à Polônia e que Stalin desencadeou a guerra. A guerra começou em 1935-1937, com o acordo tácito da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos. E em 1938 já com o consentimento aberto em Munique. Os Aliados declararam o início da Segunda Guerra Mundial a partir da data da invasão da Polônia por Hitler e, para não manchar seus uniformes anglo-franceses, culpam, pela eclosão da guerra, Stalin e Hitler. A URSS, tendo entrado em tropas em setembro de 1939 na Polônia, salvou os povos ucraniano e bielorrusso. Todos eles se esqueceram do programa racial “Ost” — a “libertação” da terra para os Urais de “sub-humanos” eslavos para os colonos alemães. O extermínio dos poloneses, judeus, ciganos. A Estónia, a Letónia e a Lituânia estavam sujeitas à germanização plena.

Contra-argumento 2. Repressão. Os excessos nas repressões foram consequência da provocação da quinta coluna.

Este fato está documentado. O contra-argumento é confirmado por materiais de arquivo. O Marechal da União Soviética (1935) M. N. Tukhachevsky, reprimido em 1937 no “Caso das Forças Armadas”, escreveu em seu manuscrito que, desde 1932, com o apoio da Grã-Bretanha e da Alemanha, preparava uma conspiração de generais. Desta vez, o objetivo era a derrubada de Stalin (havia planos e remoção física). Além do manuscrito de Tukhachevski, documentos da União Soviética, Alemanha e Reino Unido confirmam isso. No Comitê Central do PCUS (b), a conspiração foi liderada pelo lituano Iosif Vareikis, que “se destacou” em 1937 como primeiro secretário do Dalkraykom PCUS (b), elaborando “listas de execução” e deportando coreanos para a Ásia Central. Em 8 de setembro, Vareikis enviou a Joseph Stalin um relatório sobre o trabalho realizado, no qual ele falou sobre a situação no Território do Extremo Oriente e sobre os sucessos em expor os inimigos do povo. Ele relatou que 500 espiões foram identificados e executados apenas entre trabalhadores ferroviários.


Foto: Joseph (Juozas) M. Vareikis (Juozas Vareikis), 1894-1938. http://politrussia.com/istoriya/10-otvetov-narodnomu-564/
Vareikis foi baleado como traidor pelo veredicto do Colégio Militar da Suprema Corte da URSS.

Especialmente o trabalho de sabotagem foi realizado nos subúrbios nacionais (incluindo a Ucrânia) com o objetivo do colapso da URSS. Os planos do Ocidente para afrouxar o regime soviético incluíam a provocação com a compilação de “listas de execução” — as então sagradas vítimas do Ocidente. No contexto da contra-operação do OGPU-NKVD ‘contra as pragas’, começou a difamação de pessoas honestas e a sua inclusão nessas listas. Em seguida, o trabalho de resistência incluiu o chamado “pelotão de fuzilamento” (Troika), composto pelo chefe da administração regional da NKVD, o secretário do comitê regional e o promotor da região. Decisões tomadas pela Troika foram independentes dos órgãos do NKVD. O procedimento para lidar com os casos foi livre, não foram mantidos protocolos. Uma característica dos casos considerados pela “Troika” foi o número mínimo de documentos com base no qual foi tomada uma decisão para aplicar a repressão. Por decisão do Politburo do Comitê Central do CPSU nº P65/116 de 17 de novembro de 1938, os trios judiciais foram liquidados. Os casos foram encaminhados para tribunais e para a reunião especial da NKVD da URSS.

Nos “anos de repressão” na URSS, não havia mais pessoas atrás das grades do que na América contemporânea.

Incrível, mas é verdade. De acordo com O International Prison Research Center (ICPS), hoje, nos Estados Unidos democráticos e livres exemplares, uma média de 738 pessoas por cem mil pessoas, e, em termos absolutos, 2.217.000 pessoas na prisão. Para fins de comparação, na Rússia agora esse número é de 460 pessoas por cem mil, ou 673 818 pessoas.

De acordo com a estatística que VN Zemskov publicou na revista
‘Sotsis’, na URSS, em 1930, havia uma média de 583 prisioneiros por cem mil. Muito importante ressaltar é que, naquela época, na URSS, de acordo com relatos de testemunhas oculares, a maioria dos criminosos estavam atrás das grades, e na Rússia moderna, por causa de leis muito liberais, muitas vezes os criminosos estão andando livres.

Abaixo está uma das maneiras de manipular números para demonizar Stalin:


Foto: twitter.com/stalinbus/status/593651442205990912 / Sociedade “Memorial”, que é financiado pela Fundação Americana para o NED, em entrevista à “Eco de Moscou” 

O mecanismo de manipulação da consciência da sociedade com objetivos políticos foi magistralmente revelado pelo cientista soviético russo Sergey Georgievich Kara-Murza em seu livro, um livro didático para estudantes, “A manipulação da consciência”. No capítulo 17, “Influenciando o equipamento da mente”, que trata de programas de guerra de informação, ele nota especialmente a perda do senso de proporção decorrente da manipulação de números: “Não é que uma pessoa perca o instrumento de medição e reduza a precisão. Ela perde o sistema de coordenação em que colocamos a realidade, a fim de nos orientar nele.”

“A maior campanha para manipular a mente com a ajuda dos números”, em sua opinião, estava associada às repressões stalinistas:  

“A consciência pública ainda rejeita toda informação racional sobre as reais escalas quantitativas da repressão. Então, foi o lado quantitativo que foi importante para os manipuladores ”

Manipulações semelhantes realizadas com o número deligações dos kulaks”, com o destino dos prisioneiros de guerra soviéticos que retornam do cativeiro alemão, etc. Assim, o historiador e escritor russo, diretor do Museu Estadual de História do Gulag, Anton Antonov escreveu em seu artigo:

De acordo com o Escritório Geral de Suprimento do Gulag, havia quase 16 milhões de prisioneiros nos locais de detenção, de acordo com o número de notas de pagamento nos primeiros anos do pós-guerra ”.

Sergey Kara-Murza expõe essa falsificação:

Na lista de pessoas que utilizam este documento, o sobrenome Antonova-Ovseenko está ausente. Consequentemente, ele não viu este documento e cita-o das palavras de alguém e com uma distorção grosseira do significado. Se A. V. Antonov-Ovseenko tivesse visto este documento, certamente teria prestado atenção à vírgula entre os números 1 e 6, já que no outono de 1945 nos acampamentos e colônias do Gulag não havia 16 milhões, mas 1,6 milhão prisioneiros. Os materiais do censo All-União em 1937 e 1939, o número de contingente especial de grupo de NKVD ‘B’ (prisioneiros e colonos trabalho), coincide com nossos dados, retirados de relatórios estatísticos do Gulag NKVD, da gestão prisional NKVD e do Departamento de acordos trabalhistas NKVD Gulag “.

Como é fácil remover uma vírgula, publicar um número na mídia e fazer centenas de milhões de pessoas acreditarem. E, quando surge um estereótipo, nenhum argumento convence mais.

Ademais, retornando para estatísticas do crime, pode-se ainda constatar que, em 1940, com uma população de 193 milhões de pessoas na URSS, houve 6.549 assassinatos e, em 2005, com uma população de 145 milhões, houve quase cinco vezes mais assassinatos na Rússia – 30.800.

Contra-argumento 3. Stalin reprimiu a igreja e os sacerdotes: falsificação

O arcebispo Luka, escritor espiritual russo, bispo da Igreja Ortodoxa Russa, desde Maio de 1946, Arcebispo de Simferopol e Crimea, mostra que Stalin nunca lutou contra a Igreja:

“Stalin lutou pela grandeza da Rússia e realmente salvou a Igreja de Cristo a partir de um pogrom conduzida trotskistas, a maioria deles odiava a Igreja e Rússia, e o povo russo sua história. Stalin salvou a Rússia, mostrou o que isso significa para o mundo.Portanto, como cristão ortodoxo e patriota russo, me baixo com Stalin ” . Sob Stalin, o estado não interferiu nos assuntos da igreja, a igreja estava livre.


Outros documentos também confirmam isso:

“Em relação à religião, os ministros da Igreja Ortodoxa Russa e o Comitê Central acreditado ortodoxo decide: 1) Reconhecer a prática dos órgãos do NKVD da URSS na área de prender os servos da Igreja Ortodoxa Russa, perseguindo os crentes no futuro. 2) A indicação do camarada Ulyanov (Lenin) de 1 de maio de 1919 para N13666-2 “Sobre a luta contra os sacerdotes e a religião”, abordada anteriormente. A Cheka, o camarada Dzerzhinsky e todas as instruções relevantes da Cheka – OGPU – NKVD sobre a perseguição dos servos da Igreja Ortodoxa Russa e dos fiéis ortodoxos deveriam ser canceladas ”. EXTRATO DO PROTOCOLO N98 DA REUNIÃO DA MESA POLÍTICA DO CC 11.11.1939.

O resultado:

A personalidade de Stalin permanece pouco estudada na ciência histórica. Demonização de sua imagem no Ocidente e na URSS após sua morte não permite aos cientistas, mesmo após a abertura de arquivos secretos, recriar uma imagem real da vida do país durante o governo de JV Stalin. A demonização de Stalin logicamente mudou para a demonização da imagem de todo o país. Nenhum país na Europa tem uma analogia com uma atitude tão tendenciosa em relação ao chefe de Estado quanto a Stalin, diante da qual os crimes de guerra de Hitler e seus cúmplices murcham na Europa.

Com base no exposto, apresentamos os seguintes pontos para discussão pública:

1. A imagem positiva de I. V. Stalin deve ser devolvida não apenas à história da Rússia, mas também à história mundial.

2. Os  méritos de I. V. Stalin como estadista são enormes. Stalin salvou a Rússia da destruição após a Primeira Guerra Mundial e a subsequente revolução, guerra civil e intervenção. É improvável que Stalin seja culpado por todos esses levantes. Ele não deixou que os países da Entente e os EUA destruíssem o país. Além disso, ele conseguiu restaurar quase toda a Rússia dentro das fronteiras da URSS, criando assim condições para que todas as repúblicas não-russas se tornassem economicamente e culturalmente prósperas entidades estatais. Nenhuma dessas nações antes da URSS tinha um estado desenvolvido.

3. Os méritos de Stalin no campo da construção nacional são grandes. No lugar da Rússia que entrou em colapso após as guerras, ele criou uma poderosa União dos Estados socialistas soviéticos, uma união supranacional que não conhece análogos na história. No quadro da URSS, no menor tempo possível, todas as grandes e pequenas nações exerceram seus direitos. Isto é especialmente verdade para os povos da Ásia Central, que receberam a sua condição de Estado (Uzbequistão, Turquemenistão, Quirguistão, Tajiquistão, Cazaquistão). Em 1936, a URSS garantiu o direito ao trabalho (não havia desemprego), a educação gratuita, a medicina gratuita, a descanso (centros de saúde para adultos, jovens e crianças foram erguidos em todas as repúblicas e oblasts); jornais, cinema, teatro, museus, estado e desenvolvimento da cultura nacional. Escolas, universidades, escolas técnicas, universidades, institutos de pesquisa,

O “sistema de trabalho Stalin” foi construído em outras leis econômicas, em uma organização sócio-econômica diferente. Ao contrário da democracia européia, baseada na busca dos mercados de lucro e de capital, o sistema soviético se baseava ano trabalho social e na produção social . Este sistema foi criado, funcionou perfeitamente e refletiu, em pouco tempo, no sucesso da industrialização. Sob Stalin, uma sociedade de justiça social foi construída sem precedentes no mundo, com os quais os humanistas da época renascentista sonhavam, baseados em uma nova organização socioeconômica, excluindo as leis selvagens da competição capitalista, reivindicando dominação na economia e política (incluindo política internacional) da oligarquia financeira.

O processo de unir milhões de pessoas foi lançado, no qual os trabalhadores criaram mais e mais novas formas de auto-organização na produção, cultura, esportes e na luta contra o crime. Tudo isso foi uma manifestação de genuína, diferente da democracia ocidental. Sob Stalin, uma sociedade com valores humanistas foi formada basicamente: coletivismo, ajuda mútua, diligência, internacionalismo, respeito aos mais velhos, o desejo de melhorar constantemente seu nível educacional e cultural. Tudo isso formou a base da educação dos jovens. As organizações do movimento pioneiro e juvenil de crianças do Komsomol também não têm análogos no mundo.

Em economia, os valores materiais criados nos anos de Stalin foram enormes. A URSS tornou-se um país com a indústria mais avançada, a estratégia de economia de substituição de importações foi implementada com sucesso. A URSS poderia produzir qualquer máquina e qualquer equipamento, incluindo equipamentos para energia atômica. As fundações de uma agricultura de alta tecnologia foram estabelecidas.

7.  Stalin construiu um Estado que não só poderia defender sua soberania durante a Segunda Guerra Mundial, mas também salvar a Europa e o mundo do fascismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele provou ser um comandante talentoso. Muitas cidades da Europa e da Ásia honram a memória de Stalin, que liderou o maior exército do mundo para a vitória sobre o fascismo. Ruas e praças com seu nome, às vezes até mesmo monumentos para Stalin estão em muitas cidades da Europa e da Ásia. A maioria dos monumentos foi demolida nos anos 90, resta a questão da legalidade deste vandalismo de uma geração de crianças que não conheciam a frente e a guerra, que esqueceram como as pessoas entraram em batalha e morreram com o nome de Stalin nos lábios.

8. A  reabilitação do nome de Stalin será um evento significativo para a história moderna. Hoje estamos vendo fenômenos, em muitos aspectos semelhantes àqueles com os quais nosso país se deparou há 70-80 anos. A Rússia está restaurando sua autoridade no mundo, tornando-se um país independente da influência estrangeira. A este respeito, o Ocidente iniciou uma guerra de informação contra o nosso povo, contra o nosso sucesso na construção do Estado, contra o nosso Presidente Vladimir Putin. Na própria Rússia, agentes do Ocidente voltaram a ser ativos. 

Hoje, os russos estão começando a entender melhor as dificuldades que seus avós encontraram na construção de seu modelo soberano e não ocidental. O Ocidente “democrático” está novamente tentando não nos permitir passar por nossa maneira única de civilização, para fazer nossa escolha nacional, pela qual nossos veteranos derramaram seu sangue. 

A reabilitação de Stalin não apenas provará nosso direito à nossa política nacional, mas também será um excelente indício para a “quinta coluna” de que a polidez de nosso povo não pode durar para sempre. Este será também um ato da vontade política do povo russo em apoiar as ações firmes do Presidente e as políticas destinadas a fortalecer a soberania do país, libertando-se da dependência econômica do Ocidente, para limpar os valores ocidentais pervertidos da peste. 

Hoje tornou-se óbvio: não havia culto à personalidade de Stalin, havia uma unidade das pessoas em torno do líder em uma difícil guerra contra a agressão interna e externa pela preservação da pátria. Da mesma forma, estamos agora consolidando em torno de nosso líder. Já ouvimos os liberais falando sobre o culto à personalidade de Putin.

É perfeitamente justificável hoje reconsiderar o papel dos indivíduos na história preservaram a Rússia, impediram sua divisão e se tornaram um apêndice de matérias-primas do Ocidente. Pelo contrário, é necessário fazer uma avaliação histórica das ações dos governantes liberais do país, que, sob a liderança dos serviços ocidentais, destruíram a Rússia e a URSS. O país deveria conhecer os verdadeiros heróis que serviram e fortaleceram a Pátria e os anti-heróis – aqueles que a destruíram.

A onda de popularidade de Stalin está crescendo agora e, portanto, monumentos e cartazes aparecerão. Isso é compreensível: só agora nos tornamos conscientes do contexto da história nacional e mundial dos anos 30. Agora, o espírito do fascismo está novamente pairando sobre o mundo. A guerra já está sendo travada contra a Rússia, sendo travada por novos métodos e tecnologias sofisticados. Na ausência de oposição a esta guerra, as condições para uma crise serão novamente criadas na Rússia, como foi o caso nos anos 90. Vai ficar de novo?

Ao mesmo tempo, figuras implacáveis ​​e documentos desclassificados mostram que a maioria dos materiais negativos sobre Stalin foi fabricada. Propomos nos livrar do estereótipo, estudar os materiais, restaurar a justiça histórica, inserir o nome de Stálin em sua época, ver, por exemplo, que ao lado dos destinos destruídos dos camponeses soviéticos estavam os mesmos destinos dos fazendeiros americanos em 1929, um milhão dos quais “em nenhum lugar” A classe média nos EUA ficou completamente devastada. Estas foram as duras leis da industrialização capitalista.

Fatos históricos mostram: Joseph Stalin não foi mais cruel do que seus contemporâneos Churchill, Truman ou Allen Dulles. Os fatos ajudam a concluir que este é o mais difamado pelo estadista da historiografia ocidental e, particularmente irritante, traído por nós, por seu próprio povo, salvo por seu serviço à pátria, mas pendurando os ouvidos diante da propaganda liberal.

O poder soviético viveu em tempo de guerra e agiu de acordo com as leis da era soviética. Nós acreditamos que a verdade prevalecerá. Stalin, que havia reunido o país em pedaços e fez dele um dos maiores da Terra, previu a guerra de informação do Ocidente, e estava certo em dizer que após sua morte eles infligiriam um monte de lixo que o vento da história dissiparia.  
 Então é hora de deixar que este vento faça o que ele quer.
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Refutando os mitos sobre o “culto à personalidade” de Stalin


Artigo original: O ‘Culto do Indivíduo’ (1934-52)

Um artigo lido por Bill Bland para a Stalin Society na Grã-Bretanha em maio de 1991

Bill Bland , marxista-leninista e oftalmologista britânico, mais conhecido como proponente do Hoxhaismo

Em 14 de fevereiro de 1956, Nikita Kruschev, então primeiro secretário do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, publicou um obscuro e enviesado ataque contra Stalin no XX Congresso do Partido: “É de suma importância para restaurar e reforçar por todos os meios possíveis o princípio leninista da liderança coletiva. O Comitê Central condena veementemente o culto individual, alheio ao espírito do marxismo-leninismo”. (NS Kruschev:Relatório para o Comitê Central, 20 o Congresso do PCUS , Fevereiro de 1956, Londres 1956, p. 80-81).

Em seu “discurso secreto” no mesmo Congresso em 25 de Fevereiro (que vazou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EUA, mas não foi publicado na União Soviética), Kruschev atacava Stalin mais abertamente ainda, afirmando que “o culto do indivíduo adquiriu um tamanho monstruoso, principalmente porque o próprio Stalin, utilizando-se de todos os métodos possíveis, apoiou a glorificação de sua própria pessoa” (Russian Institute, da Universidade Columbia (Ed.): A Campanha Anti-Stalin e o Comunismo Internacional, New York, 1956, p 69).

Muitos anticomunistas e anti-stalinistas têm escrito extensivamente sobre o “culto da personalidade”, espalhando sempre os mesmos rumores e opiniões não fundáveis como se fossem fatos comprovados. No entanto, várias testemunhas atestam a simplicidade e a modéstia de Stalin.

Assim, podemos observar várias testemunhas oculares de todas as ideologias políticas, que não tinham qualquer razão para mentir.

Vamos começar com as declarações de testemunhas neutra e hostis sobre a pessoa de Stalin:

O diplomata americano Joseph Davis, destacou com bastante propriedade o jeito simples e amável de Stalin: “Fiquei um pouco espantado quando vi o Sr. Stalin entrando sozinho no escritório. Seu comportamento é amável e sua vida, despreocupadamente simples. Saudou-me cordialmente com um sorriso e com grande simplicidade, mas também com autêntica dignidade. Seus olhos castanhos transmitem um olhar profundamente amável e tranquilo. Certamente uma criança gostaria de sentar em seu colo e um cachorro ficaria muito à vontade esgueirando-se nele” (Joseph E. Davis em “Missão em Moscou”, Londres, 1940, p. 222, 230).

Isaac Don Levine escreve em sua biografia hostil de Stalin: “Stalin não procura honras. Aborrece-lhe os elogios exagerados. É contrário a todo tipo de exibição pública. Poderia levar no peito todas as honrarias pessoais de um grande Estado. No entanto, prefere permanecer em um segundo plano”. (Levine JD: Stalin: Uma Biografia, de Londres 1931, p. 248-49)

Outro crítico hostil, Louis Fischer, assinala a capacidade de ouvir de Stalin:

“Stalin (…) é uma fonte de inspiração para o Partido por sua grande determinação e calma. Indivíduos em contato com ele admiravam sua capacidade de ouvir e sua habilidade para melhorar as sugestões e propostas de subordinados altamente inteligentes” (L. Fischer: Artigo publicado em The Nation, Volume 137, em 09 de agosto de 1933, p. 154).

Eugene Lyons, em sua biografia, intitulada Stalin, o Czar de Todas as Russias, descreve a vida simples de Stalin: “Stalin vivia em um apartamento de três quartos modestos. Na sua vida diária os seus gostos sempre foram simples – quase até ao extremo do rigor. Mesmo aqueles que o odiavam com um ódio desesperado e o atribuíram crueldades sádicas, nunca o acusaram de excessos em sua vida privada. Os que medem o ‘sucesso’ pelos milhões de dólares, iates e os amantes acham difícil entender como os poderosos podem encontrar prazer na austeridade. Não havia nada remotamente parecido com a atitude de um ogro na aparência ou no comportamento, nada de teatral em suas maneiras. Um homem simpático, sério e maduro – disposto a ser amigável com o primeiro estrangeiro que havia admitido sua presença nos últimos anos. ‘É uma pessoa agradável, de qualquer ponto de vista’, me recordo de pensar
enquanto estávamos ali sentados e esse pensamento me causava grande admiração”. (E. Lyons: Stalin, o Czar de todas as Russias, Filadélfia, 1940, p. 196, 200).

Lyons perguntou a Stalin:

– “Você é um ditador”?

Stalin sorriu, dando a entender que a pergunta era absurda.

– “Não”, disse lentamente… – “Eu não sou um ditador”. Aqueles que usam essa palavra não entendem o sistema soviético de governo ou os métodos do Partido Comunista. Nenhum homem ou grupo de homens pode ditar qualquer coisa. Decisões são tomadas pelo Partido e aceitas pelos seus órgãos, o Comitê Central do Politburo “(E. Lyons: ibid, p. 203).

O revisionista finlandês Arvo Tuominen, fortemente hostil a Stalin, comenta em seu livro ‘As Bandeiras do Kremlin’sobre o desejo de Stalin de passar despercebido:

“Em seus discursos e escritos Stalin sempre recuado para o plano de fundo, falando apenas do comunismo, do poder soviético e do Partido, e salientando que ele era apenas um representante da idéia e da organização, nada mais (…). Eu nunca percebi o menor sinal de orgulho de Stalin” (A. Tuominen: As Bandeiras do Kremlin, em Hanover, New Hampshire, EUA. UU, 1983, p. 155, 163).

Neste ponto, o próprio autor expressa surpresa com o contraste entre o real e a imagem de Stalin, que exercia a propaganda sobre ele: “Durante meus muitos anos em Moscou nunca deixei de maravilhar-se com o contraste entre o homem e as biografias colossais que haviam feito dele. Um caucasiano de estatura média, ligeiramente marcado com um grande bigode, foi tão longe quanto se poderia imaginar o
estereótipo de um ditador. Mas ao mesmo tempo, a propaganda proclamava suas habilidades sobre-humanas” (A. Tuominen: ibid, p. 155).

Marechal soviético Zhukov fala sobre a “falta de ostentação” de Stalin, “sem extravagâncias e excentricidades, ele (Stalin) ganhava os corações de todos com quem tratava” (CK Zhukov: Memórias do marechal Zhukov , em Londres; 1971, p. 283).

A filha de Stálin, Svetlana Aliluyeva foi suficientemente ingênua como para aceitar quase toda crítica contra o seu pai, mas até ela rechaça a acusação de que Stalin promovesse o “culto” à sua personalidade. Ela descreve uma viagem de trem com Stalin da Criméia para Moscou em 1948: “Ao pararmos em uma estação, saímos para dar uma volta. Meu pai chegou até a locomotiva saudando os trabalhadores da ferrovia que ia encontrando por todo o caminho, mas não era permitido ver nenhum dos passageiros. Era um trem especial e não deixavam que ninguém pudesse subir à plataforma (…). Quem havia imaginado uma coisa dessas? Quem havia planejado esses estratagemas? Evidente que não foi o meu pai. Foi o sistema a que ele mesmo estava submetido e cativo a ele, (…) porquanto também sofria da mesma solidão, do vazio e a da falta de companhia como qualquer ser humano. Hoje, quando leio ou escuto em algum lugar que meu pai se considera praticamente um deus, me espanta, pois, pessoas que o conhecem bem não diriam tal ordem de coisas. Ele nunca pensou em si mesmo como um deus”. (S. Aliluyeva: Cartas a um amigo, Londres, 1968, p. 202-03, 213).

Svetlana descreve a dor dos serviçais da casa quando Stalin morreu: “Estes homens e mulheres que foram criados pelo meu pai, o amavam. Ele não era difícil de amar. Pelo contrário, era suave, modesto e muito próximo deles. Homens, mulheres, sem exceção, choraram a sua morte. Ninguém estava fazendo teatro. Todos eles eram conhecidos há muitos anos. Ninguém naquela sala o considerava um deus ou um super-homem, um gênio ou um demônio. Eles o amavam e o respeitavam pelas qualidades humanas mais elementares, aquelas qualidades das quais os serviçais são os melhores juízes de todos” (S. Aliluyeva: ibid, p. 20, 22).

Além disso, os fatos mostram em inúmeras ocasiões que Stalin denunciou e ridicularizou o “culto individual como sendo totalmente contrário ao marxismo-leninismo”. Por exemplo:

Em Junho de 1926, ele diz: “Sinceramente, camaradas, devo dizer que não mereço nem metade das coisas lisonjeiras que me foi dito aqui. Pelo que dão a entender, sou um herói da Revolução de Outubro, o líder do Partido Comunista Internacional, o líder do Comunismo, um guerreiro lendário, e tudo mais… Isso é um absurdo, camaradas, um exagero completamente desnecessário. Este é o tipo de coisa que costumam dizer no funeral de um revolucionário morto, mas eu não tenho nenhuma intenção de morrer ainda. Na verdade eu era e continuo a ser um dos aprendizes de trabalhadores qualificados nas oficinas ferroviárias em Tbilisi” (J.V. Stalin: Works , Volume 8, Moscou, 1954, p. 182).

Outubro de 1927: – “E quem é Stalin?” (…) – “Stalin é apenas uma figura menor”. (JV Stalin: Obras. Vol. 10, Moscou, 1954, p. 177).

Dezembro 1929: “Vossas felicitações merece unicamente o grande partido da classe operária que me deu a luz e me criou a sua imagem e semelhança. E somente porque as merece o glorioso Partido Leninista me atrevo a dar meu agradecimento como bolchevique” (J.V. Stalin: Works, Volume 12, Moscou, 1955, p.146).

Abril de 1930: “Algumas pessoas pensam que o artigo ‘O Êxito Vertiginoso’ [A tradução espanhola traz como título da obra: ‘El Vertigo del Éxito’, que trata de estatísticas sobre a coletivização das terras e sobre a produção na Rússia dos anos 30] foi o resultado da iniciativa pessoal de Stalin. Isto é um absurdo. Não se pode conceber que um assunto como esse seja tratado por uma pessoa só, seja quem ela for, pois temos um Comitê Central” (JV Stalin:Obras, ibid, p. 218).

Agosto de 1930: “Me falais de vossa ‘devoção’ a mim (…), mas eu vos aconselho descartar o “princípio” da devoção as pessoas. Esse não é o caminho bolchevique. Sede unicamente devoto da classe obreira, de seu Partido e seu Estado. Isso é uma coisa boa e útil. Mas não confundais com a devoção das pessoas, esta ninharia vã e inútil, é própria de intelectuais de pouca vontade” (JV Stalin: Works, Volume 13, Moscou, 1955, p. 20).

Em dezembro de 1931: “Quanto a mim, sou apenas um discípulo de Lenin, e o objetivo da minha vida é ser um digno discípulo dele. O marxismo não nega completamente o papel dos indivíduos excepcionais ou que a história seja feita pelas pessoas. Mas as pessoas podem fazer grandes coisas valiosas na medida em que elas sejam capazes de compreender bem as condições reais para poder alterá-las. Se eles não conseguem entender essas condições e procuram mudar de acordo com o pulso
de sua imaginação, eles estão na posição de Dom Quixote (…)”.
“(…) As pessoas não podem decidir. As decisões dos indivíduos são sempre ou quase sempre decisões unilaterais. Em cada grupo coletivo, há pessoas cuja opinião deveria contar. A partir da experiência de três revoluções, sabemos que de 100 decisões tomadas por pessoas sem serem testadas e corrigidas coletivamente, aproximadamente 90 são unilaterais. Nunca, em nenhuma circunstância, os trabalhadores poderão tolerar se o poder estiver concentrado nas mãos de uma só pessoa. Conosco, as personagens de maior autoridade se reduzem a insignificância quando as massas de trabalhadores perdem a confiança neles” (J. V Stalin: ibidem, p. 107-08, 109, 113).

Em Fevereiro de 1933: “Recebi uma carta, concedendo-me vossa 2º Ordem como uma recompensa pelo meu trabalho. Agradeço muito por suas calentosas palavras e o presente de camaradagem. Sei bem o quanto você tem se privado para fazer este favor e aprecio os seus sentimentos. No entanto, não posso aceitar a vossa 2º Ordem. Não posso e não devo aceitá-la, não só porque unicamente pertence a você, como porque só você tem a conquistado, senão também porque já fui amplamente recompensado pela estima e respeito dos meus companheiros e, por conseguinte, não tenho o direito de roubá-lo. As Ordens foram instituídas não para aqueles que já são conhecidos, senão, principalmente para os heróis ainda pouco conhecidos de nosso povo e merecem ter o reconhecimento de todos. Ademais, devo dizer que eu tenho duas Ordens e isso já é mais do que uma pessoa precisa. Posso lhe assegurar disso”. (JV Stalin: ibid, p. 241).

Maio de 1933:
Robins a Stalin: “- Considero uma grande honra ter a oportunidade de fazer-te uma visita”.
Stalin a Robins: “- Não há nada especial sobre isso, você exagera”.
Robins: “- O que eu acho de mais interessante é que em todas as partes da Rússia, se encontram os nomes de Lênin-Stalin, Lênin-Stalin, Lênin-Stalin, sempre juntos.”
Stalin: “- Isso também é um exagero! Como posso ser comparado a Lenin?”. (JV Stalin: ibidem, p. 267.)

Fevereiro 1938: “Eu sou absolutamente contra a publicação de ‘As Histórias de Infância de Stalin’. Este livro abunda em inexatidões de fatos, alterações, exageros e louvores desmerecidos (…)”. “Mas, (…) o importante reside no fato de que o livro mostra uma tendência para gravar nas mentes das crianças soviéticas (e das pessoas em geral) o culto da personalidade de líderes, de heróis infalíveis. Isso é perigoso e prejudicial. A teoria dos ‘heróis’ e da ‘multidão’ não é bolchevique, senão uma teoria social-revolucionária. Sugiro queimar esse livro”. (JV Stalin: ibid, p. 327).

E fontes amigáveis:

O escritor francês Henri Barbusse descreve a simplicidade do estilo de vida de Stalin: Quando se pisa no primeiro piso se vê cortinas brancas nas três janelas. “Essas três janelas são do quarto de Stalin. No estreito corredor tem uma capa militar pendurada num cabide sob um gorro. Além deste corredor, três quartos e uma sala de jantar. Os quartos estão decorados com simplicidade, como um hotel respeitável de segunda classe. O filho mais velho, Khashek, dorme à noite na sala de jantar em um sofá que se transforma em cama e os menores em um buraco estreito, uma espécie de nicho aberto… Stalin ganha quinhentos rublos por mês, que é o magro salário mais alto entre os funcionários do Partido Comunista. Esse homem franco e brilhante é um homem simples. Ele não tem trinta e dois secretários como o Sr. Lloyd George. Tem apenas um. Stalin atribui sistematicamente, todos os êxitos a Lênin, quando uma parte importante do mérito pertence a si mesmo.” (H. Barbusse, Stalin: a New Word Seen Through One Men, Londres, 1935, p. VII, VIII, 291, 294).

De fato, Stalin tinha uma ‘dacha’, ou uma casa de campo, mas ali a sua vida era igualmente simples, e de acordo com sua filha Svetlana ele era igual na ‘dacha’ de Kuntsevo. “Meu pai vivia no piso inferior. Vivia no quarto e fazia tudo nesse lugar.

Dormia no sofá, disposto a virar cama improvisada durante a noite.” (S. Aliluyeva: Cartas a um amigo, Londres, 1967, p. 28).

O dirigente albanês Enver Hoxha descreveu Stalin como “modesto e atencioso”, não era nenhum tirano, nenhum déspota. Stálin era um homem de princípios. Era justo, modesto, muito amável e atencioso com as pessoas, quadros e colegas seus”. (E. Hoxha, com Stalin: Memórias de Tirana, 1979, p. 14-15).

Os britânicos Sidney e Beatrice Webb rejeitam veementemente a acusação de que Stalin exercia um poder ditatorial: “Às vezes se afirma que o Estado inteiro é governado pela vontade de uma única pessoa: Josef Stalin. Devemos assinalar que, ao contrário de Mussolini, Hitler e outros ditadores modernos, Stalin não é legalmente investido de nenhuma autoridade sobre seus concidadãos. Não há nem sequer o grande poder que a Constituição americana outorga durante quatro anos a cada um dos sucessivos presidentes. Stalin não é e nunca foi o presidente da URSS. Nem mesmo um comissário do povo ou um membro de um gabinete. Ele é o secretário-geral do partido. Não achamos que o partido seja regido pela vontade de uma pessoa só ou que Stalin seja o tipo de pessoa capaz de reivindicar ou desejar tal posição. Ele tem negado de maneira muito explícita qualquer ditadura pessoal em termos que correspondem exatamente a nossa impressão pessoal dos fatos (…)”.
“(…) O Partido Comunista da URSS adotou para sua própria organização, o modelo que temos descrito. Neste modelo, a ditadura individual não tem lugar algum. Eles desconfiam das decisões pessoais e se protegem escrupulosamente contra elas a fim de evitar erros devido ao preconceito, raiva, inveja, vaidade e outros males. É desejável que a decisão individual seja sempre compensada com a necessidade de obter um consentimento de seus iguais. E que estes, discutam sinceramente o assunto
e se façam conjuntamente responsáveis pela decisão (…)”.
“(…) Stalin tem insistido com frequência que não toma as decisões do Comitê Central do Partido Comunista sozinho. A simples verdade é que, inspecionando as decisões do governo da URSS durante a década passada sob a alegada ditadura de Stalin, as principais decisões não demonstraram nem a prontidão (rapidez), nem a casualidade, nem mesmo a obstinação audaciosa que frequentemente se tem
afirmado como vantagens de uma ditadura. Pelo contrário, a ação do Partido era levada a cabo, muitas vezes, após uma prolongada discussão e como resultado de discussões às vezes tão acaloradas e ásperas que não tinham como não carregar em sua formulação os sinais da hesitação vacilante e da falta de segurança. Essa política revelava o estigma do controle por parte do comitê.” (S. B. Webb: o comunismo soviético: Uma Nova Civilização, Londres, 19.., p. 431, 432, 433, 435).

Talvez Barbusse, Hoxha e os Webbs possam ser considerados testemunhas parciais. Mas até mesmo os observadores que são altamente críticos de Stalin estão de acordo com o depoimento delas.

Assim, o “culto individual” ou “culto da personalidade” erigido em torno de Stalin, era contrário ao marxismo-leninismo e uma prática contrária aos desejos de Stalin. Então, isso deve levantar uma questão importante: Vimos que, apesar de Stalin expressar forte oposição ao “culto da personalidade”, a lenda de um “culto da personalidade”, continuou. Disto se segue irrefutavelmente que: 1) Stalin era incapaz de detê-lo, ou 2) não quis pará-lo e era, pois, um mesquinho, hipócrita, mentiroso, e de nenhum modo um “marxista- leninista”, ou 3) não foi plenamente consciente disso, ou 4) a lenda foi forjada
posteriormente e / ou às suas costas. Quando foi a primeira vez que alguém ouviu falar desses fatos? Acaso Stalin foi um Elvis Presley? De fato, todos sabiam que Elvis era um sucesso já em sua época e
não depois dela.

O “culto da personalidade em torno de Stalin não foi promovido por Stalin, vez que, expressamente contrário aos seus desejos. Então, por quem foi promovido? Os fatos demonstram que os expoentes mais fervorosos do culto à personalidade de Stalin eram revisionistas como Karl Radek, Nikita Khrushchev e Anastas Mikoyan.

Roy Medvedev registrou que “no Pravda em janeiro de 1934 continha um artigo de duas páginas escrito por Radek, com uma avalanche de orgiásticos elogios a Stalin. Radek, um antigo trotskista que havia liderado a oposição contra Stalin por muitos anos (!), agora o chamava de “melhor discípulo de Lenin”, “ícone do partido leninista”, “carne de sua carne e sangue do seu sangue” (…) e que “é tão proativo quanto Lênin”, etc, etc… “Este parece ter sido o primeiro artigo de imprensa especificamente dedicado à bajulação de Stalin, e rapidamente foi reeditado como folheto e seguiu com uma tiragem de 225.000 exemplares. Uma cifra enorme para a época”. (RA Medvedev: Let History Judge: The Origins and Consequences of Stalinism, Londres, 1972, p. 148).

Foi Khrushchev que introduziu o termo ‘vozhd’ (“líder”, correspondente a palavra alemã ‘Führer’). Na conferência do Partido em Moscou, em janeiro de 1932, Khrushchev concluiu seu discurso dizendo: “Os bolcheviques em Moscou, reunidos em torno do Comitê Central Leninista como nunca antes em sua história, e sob a liderança do nosso ‘vozhd’ do Partido, o camarada Stalin, marcham com alegria e segurança rumo às novas vitórias na luta pelo socialismo e pela revolução proletária mundial”. (‘Rabótchaia Moskva, 26 de janeiro de 1932, citado em: L. Pistrak: The Grand Tactician: Khrushchev’s Rise to Power, Londres 1961, p. 159).

Na Décima Sétima Conferência do Partido, em janeiro de 1934, foi Khrushchev, e somente Khrushchev, que chamou Stalin de ‘vohzd’ e “gênio” (XVII S’ezd Vsesoiuznoi Kommunisticheskoi Partii (B.), p 145, citado em: L. Pistrak: ibid, p. 160).

Em agosto de 1936, Khrushchev, em sua posição de Secretário do Partido em Moscou, durante o julgamento de Lev Kamenev e Zinoviev Grigory, por crimes de traição, fez a seguinte afirmação: “Pigmeus miseráveis! (…) Vocês levantaram as mãos contra o maior de todos os homens, o nosso sábio ‘vozhd’, o camarada Stalin! (…) O senhor, camarada Stálin, foi quem levantou a grande bandeira do marxismo-leninismo sobre o mundo e a levou ao ponto mais alto(…). Asseguramos-lhe, camarada Stalin, que a organização bolchevique de Moscou, fiel partidária do ‘Comitê Central Stalinista’ (…) incrementará a vigilância stalinista ainda mais e extirpará o resto dos trotskistas-zinovievistas, cerrando fileiras do Partido Bolchevique e independentes ao ‘Comitê Central Stalinista’ e ao grande Stalin” (Pravda, 23 de agosto de 1936, citado em: L. Pistrak: ibid, p. 162).

No Oitavo Congresso dos Sovietes de toda a União em novembro de 1936, foi novamente Khrushchev quem propôs que a nova Constituição soviética, que foi submetida à aprovação do Congresso, fosse chamada de “’Constituição stalinista’, ‘porque’ foi escrita do começo ao fim pelo camarada Stalin “(Pravda , 30 de novembro de 1936, citado em: L. Pistrak:. ibid, p. 161).

É preciso registrar que Vyacheslav Molotov, então primeiro-ministro, e Andrey Zdanov, o então, secretário do Partido em Leningrado, não atribuiu a Stalin nenhum papel especial no processo na redação da Constituição. No mesmo discurso, Khrushchev criou o termo “estalinismo”. “Nossa Constituição é o ‘marxismo-leninismo-stalinismo’, que conquistou uma sexta parte do globo” (Ibidem).

O discurso de Khrushchev em Moscou para uma platéia de 200.000 pessoas, em face do julgamento de Karl Radek e Piatakov Grigory, em janeiro de 1937, por crimes de traição, estava em uma linha semelhante: “Ao levantar suas mãos contra o camarada Stalin, levantaram-na contra o que tem de melhor a humanidade. Pois, Stalin é a esperança e a expectativa, é o farol que conduz a humanidade ao progresso. Stalin é a nossa bandeira! Stalin é nossa vontade! Stalin é nossa vitória!” (Pravda, 31
de janeiro de 1937, citado em: L. Pistrak: p.. ibidem 162).

Stalin foi descrito por Khrushchev em março 1939 como “o nosso gênio”, “nosso amado Stalin” (“Visti VTsVK” , 03 março de 1939, citado em: L. Pistrak: ibid, p. 164).

E na parte XVIII Congresso, em março de 1939, como “o maior gênio da humanidade, mestre e ‘vozhd’, que nos conduz ao Comunismo, nosso mui amado Stalin” (XVIII S’ezd Vsesoiuznoi Kommunisticheskoi Partii (B. ): p. 174, citado em L. Pistrak: ibid, p. 164).

E em Maio de 1945, como o “Grande Marechal da Vitória” (Pravda Ukrainy, 13 maio de 1945, citado em: L. Pistrak:. ibid, p. 164).

Por ocasião do quinquagésimo aniversário de Stalin em dezembro de 1929, Anastas Mikoyan acompanhou suas felicitações com a seguinte petição: “Que aceitemos as demandas legítimas das massas para, finalmente, começar a trabalhar sua biografia e tornar disponível para Partido e para todos os trabalhadores do nosso país” (Izvestia, 21 de dezembro de 1929, citado em: L. Pistrak: ibid, p. 164).

Dez anos depois, durante o sexagésimo aniversário de Stalin em dezembro de 1939, Mikoyan defendeu ainda a publicação de “biografia científica de Stalin” (Pravda, 21 de dezembro de 1939, citado em: L. Pistrak: ibid: p. 158).

A biografia foi finalmente publicada em 1947 compilada por “G.F. Alexandrov, Galaktionov M.R., Kruzhkov V.S., Mitin M.B., Mochalov V.D. e Pospelov P.N.. (Joseph Stalin: A Short Biography, Moscú, 1947).

No entanto, em seu “discurso secreto” no XX Congresso do PCUS, em 1956, com base no “culto da personalidade” que ele mesmo e seus colegas haviam promovido sobre Stalin, Khrushchev atribuiu à autoria do livro a Stalin, dizendo que “(…) um dos exemplos mais característicos da auto-glorificação de Stalin e da sua falta de modéstia é a edição de sua biografia curta. Este livro é um exemplo da mais
dissoluta bajulação” (Russian Institute, da Universidade de Columbia (ed.): Op. Cit. Pág. 69).

Isto nos mostra que os bajuladores se opõem aos desejos de seus ‘ídolos’, que nunca quiseram ser idolatrados em absoluto, e quando os ídolos os rejeitam, ou quando eles vão embora, culpam os ídolos de forçá-los a agradar durante todo esse tempo.

Evidente, que muitos cidadãos soviéticos admiraram Stalin e manifestaram esta admiração. Mas, com toda a certeza, o “culto da personalidade em torno de Stalin foi promovido principalmente por revisionistas ocultos, contra a vontade expressa de Stalin. Mas, por quê? Quais as causas possíveis? Vejamos: Primeiro, mascarar o fato de que revisionistas ocultos começaram a controlar o Partido e a Internacional Comunista, apresentando a idéia de que esses organismos estavam dominados pessoalmente por Stalin; deste modo, a culpa pela quebra da legalidade socialista e pelos desvios do marxismo-leninismo, mais tarde seriam atribuídos a Stalin; Segundo, fornecer um pretexto para atacar Stalin mais adiante (sob o disfarce de conduzir um programa de “democratização” que seria, na realidade, um desmantelamento do programa socialista, substituindo-o pelo Capitalismo de Estado).

O mesmo Stalin não era inconsciente de que revisionistas escondidos era a principal força por trás do “culto da personalidade”. O revisionista finlandês Tuominen, em 1935, descreveu como, quando, em uma ocasião, Stalin foi informado de que haviam instalado uns bustos seus em lugares de destaque na galeria principal de arte em Moscou, o Tretyakov. Stálin disse que isto era uma sabotagem! (A. Touminen: Op.
cit., p. 164.).

O escritor alemão Lion Feuchtwanger confirmou em 1936 que Stalin suspeitava que o “culto da personalidade” era diretamente promovido por “sabotadores” com o objetivo de desacreditá-lo: (…) “obviamente é muito irritante para Stálin ser adorado como alguns o adoram, e não raramente, ele os rejeita. De todos os homens de poder que eu conheci, Stalin é o que tem menos ambições. Eu lhe falei francamente sobre o culto vulgar e excessivo a sua pessoa, e ele respondeu com igual franqueza. Pensa que ser possível que sabotadores possam estar por trás desse referido culto em uma tentativa de desacreditá-lo” (L. Feuchtwanger, Moscou 1937, Londres, 1937, p. 93, 94-94).

Para concluir, o ataque feito pelos revisionistas para com o “culto da personalidade” na União Soviética foi um ataque não apenas contra a pessoa de Stálin, como principal marxista-leninista e advogado do socialismo, mas foi a primeira etapa de uma ofensiva contra o marxismo-leninismo e o socialismo na União Soviética. Talvez o melhor comentário sobre este caso, seja o brinde sarcástico, como relata o revisionista finlandês Tuominen, foi proposto por Stalin na Festa de Ano Novo de 1935: “Camaradas, eu quero propor um brinde ao nosso ‘patriarca’, ‘vida’ e ‘sol’, ‘libertador das nações’, ‘arquiteto do socialismo’ (recitando com sátira aos bajuladores quase todos os qualificativos que ele recebia naquela época), e espero que este seja o primeiro e o último discurso pronunciado em honra deste ‘gênio’ nessa noite” (A. Tuominen, op. cit., p. 162).

6 mitos sobre Stalin que você provavelmente já acreditou

Willian Abreu

Você já ouviu falar em Josef Vissariónovitch Stalin?

Certamente você já leu sobre ou ouviu falar em Stalin. Imagino também que você ao ler seu nome no título do artigo logo relacionou sua imagem a atrocidades, genocídios e milhares de mortes. Isso é vendido para o senso comum como a verdadeira imagem de Stalin. Escrevo este texto na expectativa de atingir aqueles que acreditam nessa dita “verdade” e que não se questionam sobre esse fato.

Dito isso, faço menção a Lenin, que foi o maestro da revolução soviética e estruturador de um novo modelo para o país, que estava passando por um processo de superação do feudalismo. Antes de deixar sua posição de líder e idealizador das estruturas, que veio a ocorrer com seu falecimento, Lenin deixou uma carta, que vinha a ser bastante polêmica, em que comenta sobre a rivalidade entre Stalin e Trotsky, fazendo crítica a ambos. Em determinado momento, diz a carta:

“O camarada Stálin, tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência. Por outro lado, o camarada Trotsky, segundo demonstra sua luta contra o CC em razão do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, não se distingue apenas por sua grande capacidade. Pessoalmente, embora seja o homem mais capaz do atual CC, está demasiado ensoberbecido e atraído pelo aspecto puramente administrativo dos assuntos.” [1]

Após a morte de Lenin e após Stalin ter tomado a frente do partido, tornando-se, assim, uma liderança para a URSS, Trotsky foi expulso do país por motivos de contrarrevolução. Tais motivos teriam como pressuposto o revisionismo e a rivalidade que ali era vigente, como Lenin havia descrito, o que fez Trotsky tecer constantemente ataques que induziam as pessoas a acreditarem que estaria ocorrendo na URSS uma ditadura stalinista. A partir disso, irei descrever uma lista de ataques fantasiosos contra Stalin e desmistificá-los.

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Túmulo de Stalin sendo homenageado por russos gratos à sua contribuição à nação

O culto à personalidade

Primeiramente é necessário ressaltar o que é “stalinismo”, termo este cuja criação representa puro sadismo. Uma vez que imputa a Stalin a figura de um tirano vaidoso e o coloca como criador de uma nova vertente do marxismo que o colocava como centro. O que, na verdade, não passa de mentira, pois Stalin em nenhum momento criou uma ideologia desconexa com o marxismo-leninismo. Já o “culto à personalidade” é algo ainda mais fantasioso, afinal, nem o próprio Stalin acreditava em tal conceito e tecia criticas a ele, o que é evidenciado em suas próprias palavras:

“Sinceramente, camaradas, devo dizer que não mereço nem metade das coisas lisonjeiras que me foi dito aqui. Pelo que dão a entender, sou um herói da Revolução de Outubro, o líder do Partido Comunista Internacional, o líder do Comunismo, um guerreiro lendário, e tudo mais… Isso é um absurdo, camaradas, um exagero completamente desnecessário. Este é o tipo de coisa que costumam dizer no funeral de um revolucionário morto, mas eu não tenho nenhuma intenção de morrer ainda. Na verdade eu era e continuo a ser um dos aprendizes de trabalhadores qualificados nas oficinas ferroviárias em Tbilisi.” [2]

“Me falais de vossa ‘devoção’ a mim (…), mas eu vos aconselho descartar o “princípio” da devoção as pessoas. Esse não é o caminho bolchevique. Sede unicamente devoto da classe obreira, de seu Partido e seu Estado. Isso é uma coisa boa e útil. Mas não confundais com a devoção das pessoas, esta ninharia vã e inútil, é própria de intelectuais de pouca vontade.” [3]

Stalin um tirano?

Para responder essa pergunta, vale ressaltar aqui, primeiramente, as vezes em que Stalin propôs aos camaradas do partido sua própria renuncia, o que demonstra o quão “tirano” ele era:

– Em 1924, no 13º Congresso do Partido Comunista, Stálin renunciou ao seu cargo, mas o partido negou seu pedido (incluindo Trotsky).

– Em 1934 Stálin novamente solicitou ser removido do cargo, mas o partido rejeitou novamente.- Em 1946 Stálin e seu governo deixaram o governo, como definido pela constituição de 1936. Mas o partido lhe pediu, no mesmo dia, que ele formasse um novo governo.

– Em 1952, no 19º Congresso do Partido Comunista, Stálin mais uma vez entregou o cargo, o que o partido novamente rejeitou. [4] [5] [6]

Mesmo assim acusa-se bastante Stalin de autoritarismo. Menciono, portanto, Engels, pois há um trecho em que ele aborda o assunto “autoritarismo” de forma bastante esclarecedora:

“Porque é que os anti-autoritários não se limitam a erguer-se contra a autoridade política, contra o Estado? Todos os socialistas concordam em que o Estado político e com ele a autoridade política desaparecerão como conseqüência da próxima revolução social, ou seja, que as funções públicas perderão o seu caráter político e se transformarão em simples funções administrativas protegendo os verdadeiros interesses sociais. Mas os anti-autoritários pedem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, antes mesmo que se tenham destruído as condições sociais que o fizeram nascer. Pedem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Já alguma vez viram uma revolução, estes senhores? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação.” [7]

Não há muito que acrescentar aqui, mas sim ponderar no que tange a importância de não alimentar o fantasma liberal do conceito de “autoritário”, certo que toda ordem social fruto de revolução, onde se inclui a própria ordem burguesa, é “autoritária” na perspectiva de que uma classe está impondo seus interesses a partir da força coercitiva das armas e das instituições que protegem o sistema. A diferença é que a revolução comunista, como lembra Engels, deseja o fim do autoritarismo de uma vez por todas. Para finalizar, podemos recorrer à constituição da URSS para espantar de vez o fantasma da tirania que sonda a figura de Stalin. Constituição de 1936 — URSS, Capitulo 3:

“Artigo 34 — O Soviet da União será eleito pelos cidadãos da URSS, por distritos, na base de um deputado para cada 300.000 habitantes.
Artigo 36 — O Supremo Soviet da URSS será eleito por um período de quatro anos.
Artigo 42 — O Soviet da União deverá eleger um Presidente e dois vice-presidentes para o Soviet da União.
Capitulo 4:
Artigo 57 — O mais alto órgão do poder de Estado de uma República Soviética Socialista é o seu Supremo Soviet.
Artigo 58 — O Supremo Soviet de uma República Soviética Socialista deve ser eleito pelos cidadãos da república, pelo prazo de quatro anos. Os cálculos para a representação deverão ser fixados pela Constituição das Repúblicas Soviéticas Socialistas.”
[8]

Aliança com o nazismo?

Retornamos a governabilidade de Stalin, agora adentrando um pouco no que abrange os mortos durante o período em que Stalin era líder do governo da URSS. Já é bastante sabido que a URSS participou diretamente da Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Sabemos também que o nazi-fascismo surgiu querendo dominar a Europa, bem como querendo fazer frente ao socialismo soviético. Ou seja, Hitler desejava combater a ascensão socialista que se estabelecia principalmente pelo Oriente. Mas há quem negue tal antagonismo apontando para o Pacto Molotov-Ribbentrop, que nada mais foi do que um pacto de não agressão, o qual foi necessário para a URSS. Certo que ela precisava agregar mais homens e ter mais preparo militar para, assim, poder entrar de vez no combate ao nazi-fascismo. Stalin, com plena consciência do significado do nazi-fascismo para os povos do mundo inteiro e, particularmente, para a URSS, viu a clara necessidade de convocar uma frente antifascista na Europa para barrar a ascensão nazista, desejando que Inglaterra e França compusessem esta frente. Porém, ambas as nações, por baixo dos panos, fizeram acordos com os nazistas na intenção de que a Alemanha atacasse e desmantelasse o socialismo soviético. Sobre isso, escreve o historiador Ludo Martens:

“Em Março de 1939, a União Soviética entabula negociações para formar uma aliança antifascista. A Inglaterra e a França deixam as coisas arrastarem-se, manobrando. Com esta atitude, as duas grandes «democracias» dão a entender a Hitler que poderia marchar contra Stáline sem ser incomodado a Oeste. De Junho a Agosto de 1939 realizam-se conversações secretas anglo-germânicas, durante as quais, em troca da integridade do Império Britânico, os ingleses prometem a Hitler liberdade de acção no Leste.” [9]

Por dois anos Stalin trabalhou arduamente para edificar a autodefesa do país. Do pacto de não agressão, em 1939, a URSS colheu frutos que seriam essenciais para o combate ao nazi-fascismo. Como o general Jukóv, considerado herói na guerra anti-nazista, escreveu:

“A obra de defesa nacional, nas suas linhas e orientações fundamentais e essenciais, foi conduzida da maneira adequada. Durante anos foi feito tudo ou quase tudo o que podia ser feito, tanto no sector econômico como no sector social. Quanto ao período que se estende de 1939 até meados de 1941, é uma época em que o povo e o Partido desenvolveram esforços particularmente importantes para reforçar a defesa, esforços que exigiam a utilização de todas as forças e de todos os meios. Uma indústria desenvolvida, uma agricultura colectivizada (sic), a instrução pública alargada ao conjunto da população, a unidade da nação, o poder do Estado socialista, o nível elevado de patriotismo do povo, uma direcção (sic) que, através do Partido, estava pronta para realizar a unidade entre a frente e a retaguarda, todo este conjunto de factores constituiu a causa primeira da grande vitória que iria coroar a nossa luta contra o fascismo. Só o facto de a indústria soviética ter podido produzir uma quantidade colossal de armamentos — perto de 490 mil canhões e morteiros, mais de 102 mil tanques e canhões autopropulsionados, mais de 137 mil aviões de combate — prova que os fundamentos da economia, do ponto de vista militar, haviam sido lançados de forma adequada e sólida. (…) Em tudo o que era essencial e fundamental, o Partido e o povo souberam preparar a defesa da pátria. Ora é o essencial e o fundamental que, no fim de contas, decidem o destino de um país em guerra.” [10]

Com isso, acho que não é mais necessário estender o tema, pois, a partir do que foi exposto, fica evidente que Stalin foi o responsável pela criação do maior exército de combate ao nazi-fascismo, o que fez com que ele saísse vitorioso da guerra, livrando o mundo do terror nazista.

Sobre o Gulag

Passamos então ao famoso Gulag. É importante saber que esses centros de trabalhos forçados não foram criados por Stalin, mas já eram existentes desde a época do Czar. Stalin apenas manteve esse local para prisões de estupradores, assassinos e antirrevolucionários. Pessoas que cometessem crimes leves não eram deslocadas para o Gulag e sim para prisões comuns. Vale também ressaltar que esse local não era utilizado para extermínio de pessoas. Menciono aqui uma análise baseada em uma tabela da The American Historical Review, desmentindo as mentiras propagadas por Robert Conquest, que afirmava haver milhões de presos políticos no Gulag:

“Para começar podemos comparar os números da tabela com os de Robert Conquest. Este diz-nos que em 1939 havia 9 milhões de presos políticos nos campos de trabalho e que 3 milhões mais tinham morrido durante o periode de 1937–39. Não esqueça o leitor que os números de Conquest se referem apenas a presos políticos! Além desses, diz-nos Conquest que havia os presos de delito comum que segundo ele eram em muito maior número que os “políticos”. Em 1950 havia segundo Conquest 12 milhões de presos políticos! Com os factos na mão podemos ver agora o falsificador que este Conquest na realidade é. Não há um único número que corresponda à realidade. No ano de 1939 havia em todos os campos, colônias e prisões cerca de 2 milhões de presos. Desses eram 454 mil condenados por crimes políticos e não 9 milhões como Conquest afirma. Os mortos nos campos de trabalho de 1937 a 1939 foram cerca de 160 mil e não 3 milhões como diz Conquest. No ano de 1950 havia nos campos de trabalho 578 mil presos por crimes políticos e não 12 milhões. Não esqueça o leitor que este Robert Conquest ainda hoje é uma das fontes mais importantes da propaganda da direita contra o comunismo. Para os pseudointelectuais da direita Conquest é como um deus. No que diz respeito aos números de Alexander Solzhenitsyn, os 60 milhões de mortos nos campos de trabalho, não há necessidade de comentários, o ridículo da afirmação é evidente. Só uma mente enferma pode afirmar tais fantasias.” [11]

Ou seja, ao contrário das mentiras que sobre milhões de perseguidos políticos aprisionados, os campos de trabalho forçado eram destinados de forma majoritária para a punição de criminosos, que trabalhavam para a sociedade enquanto pagavam pela sua pena.

Stalin matou milhões?

Depois de apresentar para vocês fatos devidamente documentados e embasados, questiono se ainda acreditam nos números apresentados pela mídia anti-comunista. Espero que não, mas, ainda sim, vamos mais além. Façamos uma análise, além de geográfica, sensata desses números. Seria Stalin o maior “ocultador” de cadáveres do mundo? Afinal, as acusações de mortes são de números extremamente altos, o que me faz trazer uma luz para entender melhor. Pensemos então no próprio nazismo, que é acusado de exterminar 6 milhões de pessoas. Neste caso, temos provas concretas e devidamente documentadas. Foi isto que ocorreu, existem inúmeras provas do método industrial de mortes: as camarás de gás, os trens da morte, as indústrias da morte, os crematórios etc. Enquanto sobre a URSS não houve nenhum relato de um local onde teriam execuções em massa. Se foi necessário tais atos para consagrar 6 milhões de mortes na Alemanha nazista, qual método Stalin utilizou para ocultar 22 milhões de cadáveres que supostamente “matou”? Isso é, no mínimo, cômico.

Stalin destruiu economicamente a URSS?

Vejamos o que Kruschiov, em sua detalhada análise sobre a economia das democracias populares, em que analisou os dados tabelados referentes ao volume da produção industrial na URSS e nos países capitalistas, tinha a dizer:

“Estes dados evidenciam que em um quarto de século, ou mais exatamente, em 26 anos, a União Soviética, apesar dos enormes danos que a guerra causou à sua economia nacional, aumentou a produção industrial mais de 20 vezes, enquanto que os Estados Unidos, que se encontravam em condições extraordinariamente favoráveis, só puderam aumentar a produção de pouco mais do dobro, e, em seu conjunto, a indústria do mundo capitalista não registrou sequer esse incremento.” [11]

Kruschiov fez uma análise muito aprofundada do crescimento da URSS, o que poderia render muito mais neste texto, porém, acredito que já esteja satisfatório. Podemos observar, então, de forma mais objetiva, as conquistas de Stalin dando rosto ao fato de que ele, em pouquíssimo tempo, foi capaz de transformar um país rural em uma superpotência aeroespacial [12]

Finalizando

Por fim, este é Stalin. E é isso o mínimo que você precisa saber para não ser enganado. O “mínimo” porque não foi feita uma análise aprofundada e sim pontual sobre alguns aspectos que surgiram como importantes ao escrever esse texto. Ame-o ou não, Stalin foi um grande estadista. E arrisco dizer que um dos maiores erros de Stalin foi não ter tido uma bola de cristal para prever a traição oportunista guiada pelo individualismo de Nikita Khrushev, que colocaria abaixo tudo aquilo que construiu.

REFERÊNCIAS

[1] LENINE, V. I.. Carta ao Congresso. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1923/01/04.htm#carta&gt;. Acesso em: 05 mar. 2019.

[2] STALIN, Joseph. J.V. Stalin: Works. Moscou: S.n., 1954. p. 182

[3] STALIN, Joseph. J.V. Stalin: Works. Moscou: S.n., 1955. p. 20

[4] FURR, Grover. Stalin and the Struggle for Democratic Reform. Disponível em: http://marxism.halkcephesi.net/Grover%20Furr/index.htm. Acesso em: 06 mar. 2019.

[5] STALIN, J.v.. Speech at the Plenum of the Central Committee of the Communist Party of the Soviet Union. Disponível em: http://www.revolutionarydemocracy.org/rdv8n1/stalin.htm. Acesso em: 06 mar. 2019.

[6] SPIEGEL, Der. Ur-Kunde von Stalin. 1949. Disponível em: http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-44437536.html. Acesso em: 06 mar. 2019.

[7] ENGELS, Friedrich. Sobre a Autoridade. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1873/03/autoridade-pt.htm. Acesso em: 06 mar. 2019.

[8] URSS. Constituição, de 1936. Moscou, Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/stalin/biografia/ludwig/constituicao.htm. Acesso em: 06 mar. 2019.

[9] MARTENS, Ludo. Um Outro Olhar Sobre Stáline. S.l: Para A História do Socialismo, 2009. Disponível em: http://www.hist-socialismo.com/docs/UmOutroOlharStaline.pdf. Acesso em: 06 mar. 2019. p. 196

[10] Ibidem. p. 202

[11] SOUSA, Mário. Mentiras sobre a história da União Soviética. De Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn! Disponível em: <http://www.mariosousa.se/MentirassobreahistoriadaUniaoSovietica.html&gt;. Acesso em: 06 mar. 2019.

[12] POR QUE A UNIÃO SOVIÉTICA FOI A VERDADEIRA GANHADORA DA CORRIDA ESPACIAL (E NÃO OS EUA). Brasil, 26 dez. 2016. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38407916&gt;. Acesso em: 06 mar. 2019.

Vício em drogas, imperialismo e como o comunismo derrotou ambos

The Weekly Bolshevik (Tradução)

Não é segredo que grande parte do mundo ainda sofre de dependência de drogas. De fato, o abuso de substâncias não canibinóides tem uma prevalência anual global entre 1,7% e 3,5% [1]. Embora isso possa não parecer muito, entender isso significa que de 77,38 a 159,31 milhões de pessoas abusam do que chamamos de “drogas pesadas” regularmente.

Agora, não se deve confundir o uso recreativo de “drogas leves”, como a cannabis, com a dependência física de substâncias como a heroína. Quando falamos de dependência de drogas, falamos apenas da dependência involuntária de substâncias “duras”.

Uma pergunta inicial que pode ter é: “e daí?” O que o vício em drogas e o abuso de substâncias têm a ver com a luta de classes ou o comunismo em geral?

Bem, vamos olhar para a história como nosso ponto de referência. Como sabemos, toda a história pode ser entendida como uma luta entre forças sociais. A introdução e disseminação de abuso de substâncias não é diferente.

No início do século 19, os imperialistas britânicos procuraram uma maneira de abrir os ricos mercados internos da China. Os britânicos deliberadamente usavam o ópio como forma de “acessar” os mercados domésticos chineses. Ao vender o ópio aos chineses, os britânicos conseguiram extrair quantidades significativas de capital da rica dinastia Qing. Isto conduziu eventualmente à Primeira e Subsequente Segunda Guerra do Ópio [2], onde os chineses tentaram resistir a esta conspiração imperialista. A dinastia Qing acabou por ser derrotada e a China tornou-se subserviente à hegemonia britânica. Isso começou o que muitos chamam de “século de humilhação” para a China; ilustrando a condição embaraçosa da sociedade chinesa e da soberania política [3]. Em 1949, cerca de 70 milhões de chineses eram usuários “regulares” de ópio, incluindo 20 milhões de dependentes registrados [4].

Uma história familiar pode ser vista com a introdução da cocaína crack nos Estados Unidos. Embora o abuso de substâncias sempre tenha sido paralelo à “guetização” de minorias raciais e pobres urbanos, nada teve o efeito que o crack tinha sobre os guetos dos EUA. De 1984 a 1994, considerada a “epidemia de crack” em sua época, a taxa de homicídio de homens negros de 14 a 17 anos dobrou. Além disso, homens negros entre 18 e 24 anos experimentaram aumentos semelhantes [5]. O motivo é óbvio. O crack era uma maneira fácil de ganhar dinheiro, de “sair do gueto”. Muitos jovens e jovens alienados buscaram o tráfico de drogas como forma de melhorar a si mesmos e àqueles próximos a eles e, portanto, usaram a violência para proteger esse investimento.

A maioria acredita que o crack foi introduzido apenas por narcotraficantes, principalmente nas Bahamas e na República Dominicana. No entanto, as evidências parecem indicar diferentemente.

O atual entendimento em torno da proposta original de cocaína era produzir um lucro maior para os traficantes. Em meados dos anos 80, um aumento maciço na quantidade de cocaína fez com que a forma em pó perdesse cerca de 80% do seu valor de rua [6]. Os negociantes então se voltaram para a criação de uma forma fumável denominada “crack”, que poderia gerar uma maior taxa de retorno.

Em 1986, o governo Reagan admitiu ter ajudado a financiar os anticomunistas Contras através do tráfico de cocaína, a partir de 1984 [7]; No mesmo ano em que a “epidemia de crack” começou a devastar muitas cidades do interior dos Estados Unidos. Acredita-se que esse fluxo de cocaína “estimula” a onda de crack que se espalhou como fogo pelos Estados Unidos [8].

Mais incriminador foi a série de relatórios Dark Alliance, publicada em 1996 pelo autor Gary Webb, que indicava uma ligação direta entre agentes da CIA e traficantes de cocaína. As evidências de Webb explicam como a CIA atacou as comunidades negras para a maioria de suas operações e depois usou os lucros para financiar os anticomunistas na Nicarágua [9].

Então, aqui vemos uma natureza dupla para a disseminação da cocaína crack nos Estados Unidos. De um lado, foi usado para acalmar os sentimentos do Poder Negro popularizado por grupos como o Partido dos Panteras Negras e o Exército de Libertação Negra. Por outro lado, vemos os lucros irem diretamente para financiar esquadrões da morte anticomunistas na periferia.

Mais importante ainda, devemos entender a natureza de classe que o abuso de drogas assume. Como o abuso de substâncias não é simplesmente uma dependência individual, mas uma arma usada pelos imperialistas para esmagar a oposição, criar complacência e dependência.

Com essa compreensão, podemos ver por que a “Guerra às Drogas” é pouco mais que justificativas para a opressão sistemática de grupos sociais inteiros. A CIA, o FBI e o DOJ sabem exatamente como essas drogas estão entrando no país. Eles eram os responsáveis ​​pela operação original. A atual ‘Guerra às Drogas’ é apenas um truque. Nenhuma quantidade de repressão policial, lei marcial ou encarceramento terminará com a venda de drogas pesadas, mesmo se essa fosse a intenção original (o que aparentemente não é o caso). É impossível acabar com uma função burguesa de opressão utilizando o estado burguês.

No entanto, isso não significa que as epidemias de drogas não tenham sido derrotadas antes. De fato, existem alguns exemplos sólidos de como os comunistas não apenas resistiram com sucesso ao imperialismo, mas especificamente o abuso de substâncias como ferramenta de opressão.

Lembre-se da China no final do “século da humilhação”, quando a sociedade chinesa foi engolida pelo vício do ópio (70 milhões de usuários regulares, 20 milhões de viciados). Em 1952 esse número era zero [10]. Como poderia uma mudança tão incrível acontecer tão rapidamente?

Em 1949, Mao Tse-Tung declarou o fim do “século da humilhação” com a fundação da República Popular da China. Muitos problemas sérios enfrentaram a nação empobrecida, mas o abuso de drogas estava próximo do topo dessa lista. Para combater isso, o Partido Comunista da China usou a linha de massa e a política de massa para erradicar a epidemia de ópio em todos os níveis da sociedade [11].

O Partido Comunista encorajou a destruição da “velha sociedade” e dos “velhos valores”, incluindo a dependência do ópio; corretamente ensinando que o abuso do ópio era arma de luta de classes usada pelos imperialistas contra os chineses [12]. Os viciados em drogas foram encorajados a ficarem limpos e a pressão significativa da comunidade foi feita para usuários regulares encerrarem o hábito. De acordo com a construção desse novo poder, o aparato do estado revolucionário serviu aos interesses do povo. O punho do povo caiu duro sobre os traficantes de ópio que poderiam ser considerados exclusivamente inimigos de classe por sua mão na exploração imperialista. Enquanto muitos comerciantes de ópio desistiram do comércio, muitos resistiram ao novo poder da construção dessa “nova sociedade”. Esses inimigos de classe foram legitimamente esmagados, com milhares sendo sentenciados a campos de trabalho ou executados [13].

Enquanto muitos “historiadores” e críticos burgueses afirmam que Mao acabou com o abuso do ópio por meio de “repressão brutal”, a razão e as evidências indicam de maneira bem diferente.

Primeiro, não havia punição inerente por ser um traficante ou ser um viciado. Houve apenas represália quando um traficante se recusou a renunciar ao comércio ou um viciado recusou-se a aceitar tratamento [14]. Em segundo lugar, creditar uma pessoa pela abolição do vício em drogas na China é ridículo. A guerra contra o ópio na China foi travada pelas massas e sua vanguarda no Partido Comunista da China. Somente uma mobilização de massas e o desejo de esmagar a velha sociedade poderiam acabar com a epidemia de ópio na escala que ela existia. Em terceiro lugar, a ideia de que as ações de um estado por si só podem acabar com o vício em drogas generalizada é a-histórica. O estado policial capitalista nos EUA prendeu milhões em sua ‘Guerra às Drogas’ sem sucesso. Isso porque, para combater o abuso de substâncias, é preciso compreendê-lo adequadamente dentro de seu contexto para a luta de classes. Ser vitorioso contra qualquer epidemia de drogas significa ser vitorioso no processo de reprodução; no caso do ópio na China ou do crack nos Estados Unidos, isso significa ser vitorioso na luta de classes.

Uma história semelhante pode ser contada sobre a luta do Partido dos Panteras Negras contra o abuso de drogas em suas comunidades. Entendendo a natureza de classe da dependência de drogas, o PPN estabeleceu várias iniciativas comunitárias e programas entre os jovens para combater a influência da cultura de drogas nos guetos americanos [15] [16].

“O depravado opressor capitalista-racista explora essas deficiências psicológicas e emocionais por tudo o que elas valem. O opressor encoraja nossa participação em qualquer atividade que seja autodestrutiva. Nossos padrões de comportamento autodestrutivos e nossas tendências escapistas constituem uma fonte de lucros para os capitalistas. Eles também, ao enfraquecer, dividir e destruir, reforçam a força do opressor, permitindo-lhe: Perpetuar sua dominação sobre nós.”

O PPN entendeu a importância de combater a cultura de drogas entre os jovens que seriam o motor primário de resistir à dominação capitalista manifestada na hegemonia branca [17]:

“Enquanto nossos jovens irmãos e irmãs negros estão perseguindo a bolsa, enquanto eles estão tentando consertar uma solução, a regra de nossos opressores é segura e nossas esperanças pela liberdade estão mortas. São os jovens que fazem a revolução e são os jovens que a realizam. Sem nossos jovens, nunca seremos capazes de forjar uma força revolucionária.”

Em última análise, o PPN sabia que apenas um movimento totalmente em massa poderia destruir a praga do abuso de substâncias na Comunidade Negra. Esta é uma contribuição importante não apenas no âmbito da libertação dos negros, mas também do marxismo-leninismo como um todo. Como podemos resistir à expansão imperialista e à dominação capitalista? Somente capacitando as massas oprimidas e aplicando uma linha de massa correta para nossa luta [18]:

“Somos os únicos capazes de erradicar a peste das nossas comunidades. Não será uma tarefa fácil. Isso exigirá um tremendo esforço. Terá que ser um programa revolucionário, um programa popular… Será controlado totalmente pelo povo. Nós, o povo, devemos erradicar a peste e nós vamos. O narcótico é uma forma de genocídio em que a vítima paga para ser morta.”

Embora os Panteras Negras não tenham tido sucesso em sua luta contra o abuso de drogas (principalmente devido à intervenção do FBI através do COINTEL e do tráfico de cocaína), ainda podemos aprender com a experiência deles.

O que permanece verdadeiro é que a luta contra o abuso de substâncias assume um caráter de classe ao compreender a dominação capitalista. Além disso, sabemos pela experiência da China que o comunismo pode ser usado como arma contra todos os mecanismos da exploração capitalista-imperialista. No entanto, não é suficiente fazer uma “guerra às drogas” ou criminalizar erroneamente o vício. Derrotar o vício em drogas como uma função da opressão significa derrotar o capitalismo e todas as suas subsidiárias. Somente a construção bem-sucedida do socialismo e o progresso em direção ao comunismo podem eliminar completamente as características hediondas da sociedade burguesa.

Devemos esmagar o sistema que permite tal exploração e lucros brutais da alienação. Temos de destruir a classe capitalista-imperialista. Nós devemos criar uma nova sociedade. Temos que vencer a luta de classes.

“O comunismo não é amor. O comunismo é um martelo que usamos para esmagar o inimigo.”

Referências:

[1] Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Relatório Mundial sobre Drogas 2012.

[2] Kaufman, Alison Adcock. 2010. O “século da humilhação”. Então e agora: Perspectivas Chinesas e Ordem Internacional

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Reinarmen, C. 1994. O ataque de crack: política e os meios de comunicação no mais recente medo de drogas da América.

[6] Departamento de Justiça, EUA. 1991. O Livro de História da DEA, 1876-1990.

[7] Alexandre, Cockburn. 1999. Whiteout: A CIA, Drogas e Imprensa.

[8] Ibid.

[9] Gabinete do Pessoal de Investigações do Inspector Geral. 1998. Volume I: The California Story.

[10] Kissinger, C. Clark. Como a revolução maoísta eliminou a dependência de drogas na China

[11] Ibid.

[12] Ibid.

[13] Ibid.

[14] La Motte, Ellen N. 2011. O monopólio do ópio.

[15] Bolseiro, Brian. 2002. História do Partido dos Panteras Negras.

[16] Tabor, Michael “Cetewayo”. Pantera de NY. O capitalismo mais narcótico é igual ao genocídio.

[17] Ibid.

[18] Ibid.

Destruindo o mito da perseguição a homossexuais no socialismo

John Rodrigues, Gabriel Brasileiro e Vinícius Fontoura (publicado originalmente em 16/11/2018)

A REPRESSÃO DA HOMOSSEXUALIDADE NOS PAÍSES DE CARÁTER SOCIALISTA

Quando aparecem militantes socialistas homossexuais, é comum a direita tentar apontar uma suposta contradição, alegando que o socialismo é uma ideia contra os homossexuais e que, nos países de caráter socialista, os homossexuais eram perseguidos. Fato é que esse assunto deve ser debatido de uma forma honesta. 

É verdade que a maioria dos países de caráter socialista não tinha muita tolerância com a homossexualidade, mas, lembrando do contexto da época, nenhum país tinha, inclusive os capitalistas. Afirmar que os comunistas eram “malvados” por criminalizarem os homossexuais é fazer uma afirmação anacrônica. A homossexualidade era considerada uma doença, uma perversão, e, no caso dos países socialistas, um desvio pequeno-burguês. Também havia quem defendesse a correlação entre a homossexualidade e o fascismo [1]. O mundo mudou e agora se trata a homossexualidade – ao menos em boa parte do Ocidente – como o que de fato é: uma condição normal. A seguir será exposta a questão da homossexualidade em países que representaram algumas experiências socialistas do século passado e que geralmente estão no centro da polêmica envolvendo a questão da homossexualidade.

HOMOSSEXUALIDADE NA RÚSSIA SOCIALISTA

Quando a revolução russa se concretizou, foram abolidas todas as leis antigas que faziam parte do regime Czarista, inclusive as que criminalizavam a prática homossexual. Em 1930, Mark Serejskij, perito médico, escreveu na Grande Enciclopédia Soviética que:

“A legislação soviética não reconhece crimes ditos contra a moral. As nossas leis partem do princípio da defesa da sociedade, e portanto preveem uma punição somente naqueles casos nos quais o objeto de interesse homossexual seja uma criança ou um menor de idade.” [2]

Além disso, no livro ‘A Revolução Sexual na Rússia’, Dr. Grigorii Batkis, diretor do Instituto de Higiene Social de Moscou, afirmou:

“Declara-se que o Estado e a sociedade não interferirão em absolutamente nenhuma questão sexual, contanto que ninguém seja ferido e que os interesses de ninguém sejam prejudicados.” [3]

Isso evidencia que os avanços da luta proletária também carregaram avanços da luta pela liberdade sexual; algo incrivelmente à frente de seu tempo. A situação dos homossexuais só começou a ficar mais difícil na União Soviética durante o governo de Stalin, que recriminalizou a prática homossexual, especificamente a masculina, devido à associação entre homossexualidade e fascismo [4]. No entanto, isso não deve ser encarado como algo próprio do socialismo, mas sim como um retrocesso da luta em favor da liberdade sexual frente aos avanços que houve na época de Lênin.

HOMOSSEXUALIDADE NA CUBA SOCIALISTA

Cuba é um dos países de caráter socialista que é acusado de perseguir e matar homossexuais. Contudo, Mariela Castro, filha de Raul Castro e uma das principais lideranças LGBTs no país explica melhor essa história. Em uma entrevista ao jornal Opera Mundi [5], ela responde sobre os supostos campos de concentração destinados a homossexuais em Cuba, as Umap:

“Primeiro, convém precisar que as Umap afetavam todos os homens em idade de entrar no serviço militar, não só os homossexuais. Alguns, inclusive, falaram de campos de concentração para homossexuais. Não creio que seja necessário exagerar, é preciso ser fiel à verdade histórica. As Umap afetaram a todo, menos aos que podiam justificar [a não integração] com um emprego estável.”

Ademais, reconhecendo problemas referentes à discriminação que Cuba sofreu no passado, ela ainda fala:

“Não resta a menor dúvida de que o processo de criação e de funcionamento das Umap foi arbitrário. Por isso, essas unidades foram fechadas definitivamente três anos depois. Mas, repito, a situação dos homossexuais no resto do mundo era similar, às vezes pior. Isso, evidentemente, não justifica em nada as discriminações das quais os homossexuais foram vítimas em Cuba.”

E destaca como Cuba conseguiu avançar na luta contra a discriminação:

“Graças ao permanente diálogo que mantemos com os legisladores e com o Partido Comunista, atualmente, pela primeira vez na história da Revolução, nos documentos debatidos em 2012, a orientação sexual foi incluída como motivo de discriminação geral contra a qual se deve lutar, e sobre o qual a imprensa deve discutir sem censura ou tabu. Os homossexuais devem poder participar da vida pública, como todos os cidadãos, sem qualquer discriminação.”

Como ela destaca, a homofobia presente no decorrer da experiência cubana não foi decorrente do pensamento socialista, mas um reflexo do conservadorismo cultural expressivo em Cuba. Isso demonstra como o socialismo em si não está comprometido com o reacionarismo anti-homossexual, mas que foi o contexto histórico da época que contaminou a experiência, o que atualmente, dado o progresso cultural, não há motivos para se repetir.

HOMOSSEXUALIDADE NA IUGOSLÁVIA SOCIALISTA

Embora seja uma experiência menos afamada que as citadas anteriormente, a antiga República Socialista da Iugoslávia experimentou grandes avanços que merecem ser destacados. Dentro das repúblicas que integravam a nação, a descriminalização da homossexualidade teve início em 1977, com Croácia, Eslovênia, Montenegro e a província autônoma de Vojvodina [6]. Contudo, Sérvia e Montenegro só experimentaram descriminalização em 1994 e 1998, respectivamente, já após o fim do socialismo na Iugoslávia [7]. Além disso, ainda no ano de 1984 foi organizado um festival de ‘cultura gay’ em Liubliana, como forma de comemoração pelas conquistas adquiridas [8]. Essa experiência mereceu destaque devido ao fato de ter sido um país socialista considerado como estando fora da Cortina de Ferro. O que demonstra que mesmo países socialistas fora da influência da União Soviética estavam suscetíveis a grandes conquistas dos direitos dos homossexuais. Ademais, várias outras experiências menos expressivas também tiveram grandes avanços com relação ao tema, como a do Congo, Alemanha Oriental, Hungria, Polônia, Benim etc.

A LUTA DOS HOMOSSEXUAIS SOB UM VIÉS SOCIALISTA 

Com o avanço dos movimentos LGBTs, os homossexuais no geral passaram a ter mais visibilidade dentro da luta anticapitalista, contribuindo imensamente ao marxismo e ao socialismo, tanto teoricamente quanto praticamente. Kipp Dawson, Huey Newton e Mariela Castro são exemplos. 

Kipp Dawson, ativista LGBT e militante do Partido Socialista dos Trabalhadores nos EUA, em 1975 publicou um panfleto no jornal Young Socialist, intitulado “Libertação Gay: Uma Perspectiva Socialista” [9], onde abordou a questão dos movimentos homossexuais que estavam começando a lutar por direitos civis, suprimidos legalmente pela maioria dos estados americanos em sua época, e lutar contra a homofobia sofrida em hospitais, escolas, empregos, forças armadas etc.

Kipp Dawson, além de abordar esses problemas, que infelizmente ainda são recentes em boa parte dos países, traz uma alternativa socialista para eles:

“Ao mesmo tempo, aqueles que pretendem conquistar direitos plenos para as pessoas homossexuais desempenham um papel fundamental na luta pela mudança da sociedade como um todo. O cerne do movimento de libertação gay é a luta pela dignidade plena para todos os seres humanos, independentemente de sua orientação sexual. A história e a experiência da nossa própria geração têm demonstrado que essa forma de dignidade humana, livre de todo preconceito, não é possível sem que se elimine o capitalismo – sem uma revolução socialista.”

Ou seja, o movimento pela libertação dos homossexuais só é completo quando busca a total libertação da humanidade das amarras da sociedade vigente. Isso implica a superação não só da mentalidade discriminatória contra homossexuais, mas também a superação do modo de produção capitalista. Os homossexuais devem ser vistos como aliados na luta contra o Capital, como bem expressou Huey Newton ao dizer que “a frente de libertação gay são nossos amigos, eles são nossos aliados potenciais e precisamos de quantos aliados quer sejam possíveis.” [10]

POR FIM, PODE UM COMUNISTA SER HOMOSSEXUAL?

Há uma carta de um comunista homossexual chamado Harry Whyte direciona a Stalin após este voltar a criminalizar a homossexualidade na União Soviética. Apesar da carta estar lotada de estereótipos a respeito dos homossexuais, por culpa do contexto da época, sua leitura é boa e contribui para o debate sobre a questão. Em uma passagem, ele diz a Stalin o seguinte [11]: 

“Assim como as mulheres da classe burguesa sofrem em grau significativamente menor das injustiças do regime capitalista (você naturalmente se lembra do que disse Lênin a respeito), também os homossexuais natos da classe dominante sofrem muito menos da perseguição do que os homossexuais do meio operário. Deve-se dizer que mesmo dentro da URSS há condições que complicam as vidas cotidianas dos homossexuais e que frequentemente os colocam em situação difícil.”

Fica evidente, portanto, que o cenário discriminatório soviético não estava imune às críticas de homossexuais comunistas, que confiavam no ideal socialista, porém, discordavam das diretrizes homofóbicas que o Partido estava tomando naquela experiência. 

CONCLUSÃO 

Mesmo que os regimes socialistas realmente tivessem investido pesado em políticas de repressão aos homossexuais, analisar tais fatos fora do contexto histórico seria uma total desonestidade. Como esperar que países socialistas na década de 30-70 tivessem políticas abertas em relação à homossexualidade quando, na verdade, a homossexualidade só deixou de ser classificada como doença em 1990? [12]

O contexto do século XXI é outro, em que a homossexualidade é encarada com normalidade em boa parte do mundo, embora em muitos países ainda seja criminalizada [13] e ainda haja muita discriminação velada nos países liberais. Logo, lutar pelos direitos dos homossexuais é importante. Decerto, os militantes homossexuais devem ter consciência de que não há libertação plena sem a superação do capitalismo. Certo que o Capital, enquanto sacode em uma mão a representatividade que ludibria o público LGBT, com a outra recolhe os lucros provenientes de um modo de produção corrosivo e alienante que também assola os homossexuais. A única luta pela emancipação dos grupos oprimidos no geral é a socialista.

Referências:

[1] Oosterhuis, Harry, The “Jews” of the Antifascist Left: Homosexuality and the Socialist Resistance to Nazism. Journal of Homosexuality, Vol. 29, Nº 2/3.

[2] KON, Igor Semyonovich. The Sexual Revolution in Russia: From the Age of the Czars to Toda. New York: The Free Press, 1995. 71 p.

[3] DEMOCRÁTICO, Partido Socialista. Uma Estratégia Revolucionária para a Libertação Gay. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/tematica/1979/01/libertacao_gay.htm>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[4] FEINBERG, Leslie. Can a homosexual be a member of the Communist Party? Disponível em: <https://www.workers.org/ww/2004/lgbtseries1007.php>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[5] LAMRANI, Salim. Sobre homofobia, Fidel sempre assumiu responsabilidades, diz Mariela Castro. 2013. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/26925/sobre-homofobia-fidel-sempre-assumiu-responsabilidades-diz-mariela-castro>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[6] GRUBIC-RADAKOVIC, Lidija; ZAGREBU, Sudac Okružnog Suda U. SEKSUALNA DELINKVENCIJA U SUVREMENOM KRIVINOM PRAVU. Disponível em: <http://www.vsrh.hr/custompages/static/hrv/files/grubicrl_seksualnadelinkvencija.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[7] “LGBT PRAVA U SFRJ” (in Serbo-Croatian). Disponível em: <http://www.gayecho.com/istorija.aspx?id=7449#.U0ruAFWSx0k> Acesso em 16 nov. 2018.

[8] “TOPLA BRAĆA, HVALA NE! HISTORIJA SLOVENSKOG GEJ I LEZBEJSKOG POKRETA” (in Bosnian). Disponívelm em: <http://lgbt.ba/topla-braca-hvala-ne-historija-slovenskog-gej-i-lezbijskog-pokreta/> Acesso em 16 nov. 2018.

[9] DAWSON, Kipp. Libertação Gay: Uma Perspectiva Socialista. 1975. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/tematica/1975/06/libertacao.htm>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[10] NEWTON, Huey. Discurso Sobre a Libertação Gay e Feminina. 1970. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/newton/1970/08/15.htm>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[11] WHYTE, Harry. Pode um homossexual ser comunista? 1934. Disponível em: <https://www.marxismo.org.br/content/pode-um-homossexual-ser-um-comunista-carta-de-harry-whyte-a-stalin-1934/>. Acesso em: 16 nov. 2018.

[12] TERRA, Portal. Homossexualidade não é doença segundo a OMS. Disponível em: <https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/ha-21-anos-homossexualismo-deixou-de-ser-considerado-doenca-pela-oms,0bb88c3d10f27310VgnCLD100000bbcceb0aRCRD.html> Acesso em 16 nov. 2018.

[13] G1, Portal. Homossexualidade ainda é criminalizada em mais de 70 países. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/09/10/homossexualidade-ainda-e-criminalizada-em-mais-de-70-paises.ghtml>. Acesso em: 16 nov. 2018.

Como a URSS se tornou uma potência enquanto os EUA enfrentavam a fome

Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 13/11/2018)

INTRODUÇÃO

Após anos de imperialismo — ou neocolonialismo –destinado ao desenvolvimento econômico de nações capitalistas, as condições internacionais que propiciaram a Primeira Guerra Mundial foram criadas. E foi aproveitando o cenário de pós-guerra, com um resultado de eliminação de vidas humanas sem precedentes, que os Estados Unidos puderam ascender ao patamar de superpotência. O desgraçamento da Europa tornou-se meio de lucro dos EUA e o estilo de vida americano pôde entrar em voga. O capitalismo parecia que finalmente havia chegado à sua fase madura de prosperidade que duraria para sempre. Todavia, como esperado, tal fase não durou muito, certo que, em 1929, estourou a maior crise da história do capitalismo desde então. Tendo início nos EUA, a crise se alastrou pelo mundo, corroendo as entranhas do capitalismo global. Contudo, em meio aos escombros financeiros, o desenvolvimento soviético persistia, o que não só impressionou o mundo como atraiu uma forte massa migratória composta por trabalhadores insatisfeitos com seus respectivos países capitalistas.

DO IMPERIALISMO À PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: A ANIQUILAÇÃO DE VIDAS HUMANAS COMO COMBUSTÍVEL DO CAPITAL

O capitalismo histórico, desde os seus primórdios, sempre demonstrou ser um sistema de caráter dominador e exploratório. Mesmo antes de vir a ser o modo de produção dominante em nível mundial, a expansão ultramarina do período colonial já dava um prelúdio quanto à acumulação de riquezas em larguíssima escala que viria a ser uma característica do capitalismo em sua fase monopolista posteriormente. Alguns chamam de mito a afirmação de que a história se repete, mas é inegável que ela pelo menos rima. Certo que, no século XIX, deu-se início a um movimento de expansão ultramarina semelhante ao colonialismo de séculos antes. Chamado de imperialismo — ou neocolonialismo –, esse fenômeno caracterizava-se por novas dominações de centros metropolitanos, agora capitalistas, sobre outros territórios. Embora haja divergências sobre como o capitalismo em sua fase monopolista propiciou a emergência do imperialismo, há consenso quanto ao papel crucial da expansão econômica ultramarina para os países capitalistas. Como destaca Eric Hobsbawm em seu livro A Era dos Impérios:

“Não precisamos discutir aqui os mecanismos específicos através dos quais o “capitalismo monopolista” levou ao colonialismo — as opiniões divergem a esse respeito, mesmo entre os marxistas — ou a ampliação mais recente dessa análise numa “teoria da dependência” de alcance mais geral, no fim do século XX. De uma forma ou de outra, todas partem do princípio de que a expansão econômica ultramarina e a exploração do mundo ultramarino foram cruciais para os países capitalistas.” [1]

Isso significa que o imperialismo foi um fenômeno de fortalecimento do modo de produção capitalista e que, portanto, foi algo essencial para a história desse sistema. Ademais as “rivalidades entre as potências capitalistas que levaram a essa divisão também geraram a Primeira Guerra Mundial” [2]. Ou seja, o imperialismo não fortaleceu apenas as potências capitalista, mas também a rivalidade entre elas, sendo esta uma condição importante para que mais tarde eclodisse uma guerra entre vários países. Uma vez que, em meio a vários jogos de disputas expansionistas, surgiram aliados diplomáticos dispostos a se auxiliarem em um contexto de guerra. Era uma constante inflamação do ambiente internacional à espera de uma pequena faísca que causasse o incêndio. E essa faísca veio com o assassinato de Francisco Fernando, o herdeiro do trono austro-húngaro, morto por um nacionalista iugoslavo. O que fez com que a Áustria-Hungria decretasse guerra contra o reino da Sérvia e, consequentemente, com que as alianças diplomáticas se envolvessem no conflito. Dando início à Primeira Guerra Mundial, cuja fórmula de desencadeamento é resumida por Hobsbawm da seguinte maneira: “(…) o desenvolvimento do capitalismo empurrou o mundo inevitavelmente em direção a uma rivalidade entre os Estados, à expansão imperialista, ao conflito e à guerra.” [3]. Sendo assim, o capitalismo, de fato, gerou as condições que fariam a Guerra tomar forma.

Segundo o Centre européen Robert Schuman, o “número total de vítimas militares e civis na Primeira Guerra Mundial foi de cerca de 40 milhões. Foram 20 milhões de mortes e 21 milhões de feridos.” [4]. Vítimas estas que podem ser encaradas como consequência de um jogo de poder de motivação econômica da ordem capitalista global. Contudo, vale destacar que essa destruição não foi mero efeito de motivações capitalistas, mas também causa de outras motivações capitalistas, que ocasionaram, por sua vez, a ascensão americana ao patamar de superpotência durante o pós-guerra. Uma vez que os prejuízos da guerra fizeram as potência europeias voltarem-se aos EUA, que se tornaram “a principal fonte dos recursos necessários para colocar novamente em marcha a engrenagem do comércio internacional” [5]. E, assim, tornou-se a maior exportadora de capital do mundo. Como destaca Rogério Arthmar, em seu artigo “Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra”:

“Estimativas recentes da movimentação financeira internacional à época revelam que, do total de $7,4 bilhões emprestados às nações da Europa entre 1924 e 1930, sendo 60% desse valor provenientes dos Estados Unidos, $3,5 bilhões compreendiam ativos de curto-prazo, dos quais $2,4 bilhões estacionados na Alemanha (Feinstein, Temin e Toniolo, 1997:85-97).” [6]

Inegavelmente, o arruinamento da Europa contribuiu para pôr os Estados Unidos no topo da cadeia alimentar do ambiente econômico internacional. Os interesses econômicos de nações capitalistas primeiro criaram as condições para a Guerra surgir e, após essa mazela, o ambiente de desgraçamento do pós-guerra, cujo resultado foi dezenas de milhões de mortos e feridos, tornou-se o balcão de comércio da burguesia americana.

A CRISE DE 29: A QUEDA DOS ESTADOS UNIDOS E O DESENVOLVIMENTO IMPLACÁVEL DA URSS

Não se entrará aqui em grandes detalhes sobre as causas da Grande Depressão de 1929. Basta ter em mente que foi uma crise do capitalismo na totalidade de seu sistema historicamente contraditório. Afinal, há tanto evidências que apontam para esquemas da iniciativa privada [7] quanto para gerências mal-sucedidas da burocracia capitalista [8] como culpadas pela devastadora crise. Sendo notório que polos econômicos europeus da época também sofreram bastante com a crise financeira, tais como Alemanha, Itália, Reino Unido e França. E foi utilizando números não-oficiais, dado o descrédito aos oficiais atribuídos pelos autores, que Paul R. Gregory e Joel Sailors expuseram uma comparação entre esses países e a URSS no período da Grande Depressão. Como descreve os autores, sob o princípio de desenvolver uma economia autárquica que evitasse os distúrbios internacionais do capitalismo, a URSS buscou elevar sua taxa de poupança doméstica para financiar sua formação de capital sem depender do capital estrangeiro. Exportações eram vistas com maus olhos e eram toleradas apenas em casos estritamente necessários de contrapartidas por meio de importações. Ademais, dado o desinteresse do planejamento em relação a créditos, a economia soviética encontrou-se em um estado de desenvolvimento voltado estritamente para dentro, o que a tornou independente do mercado de capitais mundiais e de suas instabilidades [9]. Dessa forma, “a URSS experimentou uma rápida expansão da produção e do investimento entre 1928 e 1937, enquanto os principais países industrializados registravam produção e investimento real estagnados ou em declínio.” [10].

Como pode ser observado nos gráficos a seguir, em comparação às principais nações capitalistas da época, a URSS apresentou um despontamento singular no que tange o largo aumento do seu PIB e a acelerada evolução do seu índice de formação de capital [11].

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Índices do PIB: URSS e outro países , 1920-40 (1929 = 100)
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Índice de formação de capita: URSS e outros países, 1920-40 (1928 = 100)

O mundo via o capitalismo padecer enquanto a URSS mantinha-se firme entre as ruínas financeiras. O otimismo quanto ao modelo soviético era grande. O que fez que uma grande massa de migrantes legais e ilegais adentrasse no país em busca de oportunidades de emprego. Segundo números oficiais de setembro de 32, a URSS, que havia fechado contratos com vários empreendimentos ocidentais — americanos, alemães, franceses etc –, havia empregado 9190 especialistas e 10655 trabalhadores estrangeiros, acompanhados de suas respectivas famílias, contabilizando 17655 membros. Todavia, considerando imigrantes ilegais sub-notificados, presume-se que esse número é bem maior [12].

Diante disso, a propaganda anti-comunista alega que o grande desenvolvimento da URSS teve um alto custo humanitário, apontando para o que chamam de Holodomor, uma grande onda de fome que assolou a Ucrânia, esta que teve como consequência milhões de mortos. Primeiramente, é importante salientar que, ao contrário do que a propaganda anti-comunista veicula, o dito Holodomor não foi um genocídio, enquanto um extermínio deliberado com o objetivo estrito de eliminar um determinado grupo étnico, como foi o Holocausto. Como bem resgata Losurdo, quem criou essa versão foi Robert Conquest, um agente ligado ao serviço secreto britânico, cuja finalidade era influenciar “a radicalização dos ímpetos independentistas da Ucrânia” [13]. Tal onda de fome realmente ocorreu, contudo, não foi um ato deliberado do planejamento soviético com estrita intenção de eliminar o povo ucraniano. Como reconhece Stanislav Kulchytsky, historiador ucraniano e grande crítico do stalinismo que já usou o termo “genocídio” para se referir ao Holodomor, é confuso usar a palavra para se referir a esse episódio, certo que há uma imensa fragilidade na tentativa enquadrá-lo no sentido estritamente legal do conceito de genocídio. Agora, falando em números, em meio a imprecisões de cálculos, a estimativa mais precisa, do historiador Stephen Wheatcroft, baseada em arquivos soviéticos, estima um número entre 3 e 3.5 milhões de mortos na Ucrânia e algo entre 6 e 7 milhões em toda URSS [14]. O que demonstra que a ditadura do proletariado enfrentou sim problemas, isso é necessário reconhecer. Contudo, o grande ônus humanitário em meio ao rápido crescimento econômico não foi algo exclusivo da União Soviética. Pois os críticos parecem esquecer que o rápido desenvolvimento dos EUA durante o pós-guerra foi propiciado por um conflito bélico mundial, cujas condições de origem foram criadas por interesses econômicos de nações capitalistas, que gerou 40 milhões de vítimas, dentre essas 20 milhões de mortos, como já exposto anteriormente. Ademais, considerando o período da Grande Depressão, segundo estimativas do historiador russo Boris Borisov, a fome teria sido a causa da morte de 7 milhões de pessoas nos EUA entre 1932 e 1933, período este em que milhões de agricultores foram expulsos de suas terras por bancos por causa de dívidas [15]. Ainda durante esse período, eram comuns relatos postais sobre a fome enfrentada pela população. Pessoas implorando por comida e outras comendo pedras no café da manhã tornou-se realidade nesse episódio da história americana [16], que, tendo impactado de maneira tão traumática o País, modificou toda a sua cultura de controle de qualidade alimentícia posterior [17] . A experiência soviética não foi perfeita, mas seus críticos devem começar a apontar o dedo para si e reconhecer que a ordem espontânea do Capital também não é. Deveriam fazer como Stalin, que reconheceu que o período de transição do capitalismo para o comunismo não é apenas um período de avanços e vitórias, mas também de recuos e derrotas:

“Portanto, a ditadura do proletariado, a transição do capitalismo para o comunismo, não deve ser considerada como um período fugaz de atos e decretos “super-revolucionários”, mas como uma era histórica inteira, repleta de guerras civis e conflitos externos, com trabalho organizacional persistente e construção econômica, com avanços e recuos, vitórias e derrotas.” [18]

CONCLUSÃO

Diante disso, percebe-se que a URSS, embora tenha tido baixas, também teve conquistas importantes. Seu planejamento baseado nas previsões de Marx quanto à instabilidade do sistema capitalista lhe permitiu desenvolver uma economia independente que não estava suscetível às crises do Capital, tal como a Grande Depressão de 1929. O que, por sua vez, lhe permitiu ter um crescimento econômico incrível nessa mesma época, enquanto os polos capitalistas estagnaram. Isso demonstra como a experiência soviética teve conquistas que podem, com toda certeza, servir de inspiração, tal como os erros devem servir de aprendizado.

REFERÊNCIAS

[1] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 52 p.

[2] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 52 p

[3] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 250 p

[4] SCHUMAN, Centre Européen Robert. World War I casualties. Disponível em: <http://www.centre-robert-schuman.org/userfiles/files/REPERES%20–%20module%201-1-1%20-%20explanatory%20notes%20–%20World%20War%20I%20casualties%20–%20EN.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[5] ARTHMAR, Rogério. Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2156>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[6] ARTHMAR, Rogério. Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2156>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[7] Charles E. Persons. Credit Expansion, 1920 to 1929, and its Lessons. The Quarterly Journal of Economics Vol. 45, No. 1 (November 1930). 94-130 p

[8] OHANIAN, Lee E.. What – or Who – Started the Great Depression? Disponível em: <http://www.econ.ucla.edu/people/papers/Ohanian/Ohanian499.pdf?fbclid=IwAR26tUSsJIebLBIwIzTOhETqMNBkoNdyupn6IULZbTd-ZH64FnKR7TY5IWI>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[9] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 199-202 p

[10] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 193 p

[11] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 192-193 p

[12] KOSTIAINEN, Auvo. Illegal Emigration to the U.S.S.R. During the Great Depression. Disponível em: <https://www.genealogia.fi/emi/art/article237e.htm>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[13] LOSURDO, Domenico. Stalin: História crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010. 198-200 p

[14] KULCHYTSKY, Stanislav. Was the 1933 Holodomor an act of genocide? Disponível em: <https://day.kyiv.ua/en/article/history-and-i/was-1933-holodomor-act-genocide-0>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[15] FAMINE KILLED 7 MILLION PEOPLE IN USA. Rússia, 19 maio 2008. Disponível em: <http://www.pravdareport.com/world/105255-famine/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[16] UYS, Errol Lincoln. THE BOXCAR BOYS AND GIRLS. Disponível em: <http://erroluys.com/greatdepressionarchive3.html&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[17] HOW THE GREAT DEPRESSION STILL SHAPES THE WAY AMERICANS EAT. Estados Unidos, 22 dez. 2016. Disponível em: <https://www.theatlantic.com/business/archive/2016/12/great-depression-eat/511355/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[18] STALIN, Josef. THE DICTATORSHIP OF THE PROLETARIAT. Disponível em: <https://www2.stetson.edu/~psteeves/classes/stalindictatorship.html>. Acesso em: 13 nov. 2018.