Ditadura Militar: corrupção e falso moralismo

Um dos maiores mitos contados pelos falsos moralistas da direita brasileira é de que na época da ditadura militar-empresarial não havia corrupção, pois supostamente a educação rígida do militarismo impedia esse mal e vários outros que atentavam contra a “moral e os bons costumes“. 

A Comissão Geral de Investigações (CGI) foi o principal órgão de combate a corrupção na época da ditadura [1]. Ela foi criada durante o governo do Castelo Branco visando combater esse tipo de ato ilícito, que, segundo ele, era pior e mais grave do que a subversão revolucionária. No entanto, apesar de tal órgão ter sido criado e endurecido com O AI-5, devemos sempre lembrar que, dentro de uma sociedade dividida em classes, seja ela militar ou civil, determinados interesses são priorizados pelos grupos da classe dominante. Na época da ditadura militar brasileira não foi diferente. Nesse sentido, a CGI era extremamente seletiva com relação a quem investigava e culpava. 

Processos contra Antonio Carlos Magalhães e José Sarney, por exemplo, foram arquivados sem sequer serem investigados; no entanto, no processo contra Brizola houve uma extensa quebra de privacidade do mesmo, que teve suas declarações de bens investigadas desde 1959, além de ter seu sigilo bancário revogado e seus imóveis verificados [2]. Apesar disso, não foi encontrado nada contra ele. As suspeitas de ilicitudes com relação aos militares sequer eram encaminhadas para o CGI, mas sim para comissões próprias de investigação das forças armadas, que não permitia o acesso do andamento das investigações e de suas respectivas conclusões.

Apesar disso, vários casos de corrupção e irregularidades são verificáveis na época da ditadura. O superfaturamento da ferrovia do aço [3] e os desvios de dinheiro público para a construção da rodovia transamazônica [4] são exemplos, mas também podem ser citadas as diversas vantagens que as empreiteiras da época recebiam ao concederem favorecimentos aos governantes (isso não é algo próprio dos escândalos dos últimos anos, é bem mais antigo do que se costuma divulgar).

O historiador Pedro Henrique Pedreira possui um livro direcionado especificamente para a relação entre as empreiteiras e o regime militar, o qual se chama “Estranhas Catedrais – As Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar“. Empreiteiras como a Andrade Gutierres, Odebretch, dentre outras, foram extremamente beneficiadas principalmente durante os anos 70, época em que elas mais cresceram e se tornaram potencias nacionais [5]. Os mecanismos de fiscalização e divulgação eram extremamente frágeis e, portanto, essa dinâmica ilícita pouco foi denunciada na época.

Esses e diversos outros casos, que podem ser conferidos nas referências, eram ocultados em função da autocracia inerente ao regime. Foi por conta dela que juízes corrompidos legitimaram processos bizarros e perícias mentirosas, que médicos fraudaram autopsias e faziam vistas grossas para sinais de torturas, que militares como o Delegado Fleury e o Capitão Aílton Guimarães Jorge [6], dentre diversos outros, agiam criminalmente e não eram punidos, bem como é em virtude da autocracia referida que não havia liberdade para investigar, denunciar e divulgar todas as sujeiras da época.

Referências:

[1] Comissão Geral de Investigações. Disponível em: http://dibrarq.arquivonacional.gov.br/index.php/comissao-geral-de-investigacoes

[2] Revista ABRIL. Mito: “na época da Ditadura Militar, não tinha corrupção”. Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/mito-na-epoca-da-ditadura-militar-nao-tinha-corrupcao/

[3] EM. Ferrovia do Aço é símbolo do desperdício e das obras inacabadas em Minas. Disponível: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/02/25/interna_politica,352743/ferrovia-do-aco-e-simbolo-do-desperdicio-e-das-obras-inacabadas-em-minas.shtml

[4] Globo News. Projeto polêmico, Transamazônica faz 40 anos sem ter sido concluída. Disponível em: http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2014/02/projeto-polemico-transamazonica-faz-40-anos-sem-nunca-ter-sido-concluida.html

[5] Revista ABRIL. Ditadura militar enriqueceu grandes empreiteiras. Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/ditadura-militar-enriqueceu-grandes-empreiteiras/

[6] Portal UOL. Conheça das histórias de corrupção durante a ditadura militar. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm

Conheça 16 revolucionários e revolucionárias não-europeus!

Por Vinícius Fontoura

A fim de reforçar mais uma vez o fato de que o marxismo ou o comunismo não se constituem num “ideal eurocêntrico” ou algo do tipo, elaboramos uma lista com 16 comunistas não-europeus. Pretendemos, assim, apresentar revolucionários e revolucionárias da África, América e Ásia que estiveram (ou ainda estão) envolvidos em processos de luta pela emancipação do povo em seus respectivos continentes.

A construção de cada uma das mini-biografias tiveram também como referência e apoio os textos linkados ao final de cada um dos nomes apresentados.

ÁFRICA

1. THOMAS SANKARA

Thomas Sankara (1949-1987) nasceu em Yako, em Alto Volta, a atual Burkina Faso. Iniciou sua carreira militar aos 19 anos, em 1968, e foi nesse ambiente onde teve contato com a teoria marxista pela primeira vez. Em 1970, Sankara viaja para Madasgar para treinamento em escola militar e estuda Sociologia, Ciência Política e Economia Política durante sua estadia, além de acompanhar um Levante Popular que ocorreu enquanto estava lá, levando a uma ainda maior radicalização de seu pensamento.

Com o passar dos anos, seu país se envolve em uma sequência de golpes militares, corrupção e instabilidade política. Durante um dos governos, em janeiro de 1983, Sankara é promovido a um posto em que obtém mais contato internacional, conhecendo líderes do bloco não-alinhado, como Fidel Castro e Samora Machel. Nesses encontros, os discursos de Sankara atacam o imperialismo e denunciam a corrupção em seu país. Assim, ele é destituído do cargo e preso por isso. Porém, devido a sua popularidade, os protestos por sua liberdade se intensificam, até que enfim em agosto de 1983 Sankara é liberto com apoio da PAI (Partido Africano de Independência) e ULC-R (União das Lutas Comunistas Reconstruídas) e conseguem derrubar o governo.

Sankara torna-se o presidente de Alto Volta e faz uma série de mudanças grandes no país. Logo no primeiro ano de mandato é determinada a distribuição de terras para habitação popular e 10 milhões de árvores são plantadas com o objetivo de conter a desertificação. No ano de aniversário da revolução, o país tem seu nome, bandeira e hino alterados, passando a se chamar Burkina Faso (que significa terra de homens íntegros nas línguas nativas). Na questão da mulher, foram proibidas a mutilação genital e o casamento forçado, bem como houve grande inclusão de mulheres nos postos do governo. Da mesma forma, a taxa de alfabetização cresceu por conta de um programa que envolveu mais de 35 mil instrutores. Aboliu-se todas as restrições que existiam para contraceptivos, tornando Burquina Fasso a primeira nação africana a reconhecer a epidemia de Aids como uma ameaça ao continente. Além disso, em 15 dias mais de 2,5 milhões de crianças foram vacinadas contra diversas doenças, incluindo sarampo e febre amarela. Fatos que levaram a uma melhora significativa da qualidade de vida do país.
Em 15 de outubro de 1987 a sede da presidência é invadida com apoio de líderes da França e Costa do Marfim, levando ao covarde assassinato de Sankara e de outros oficiais.

Para conhecer mais sobre Thomas Sankara, clique aqui (leitura em espanhol).

2. AMÍLCAR CABRAL

Amílcar Cabral (1924-1973) nasceu em Bafatá, na Guiné-Portuguesa (atualmente Guiné-Bissau), mas ainda na infância se mudou para Cabo Verde, num período de seca e fome. Seu pai, que era professor, era de Cabo Verde e sua mãe, da Guiné-Bisseu.

Cabral consegue uma bolsa de estudos em 1945 e estuda Agronomia em Lisboa, sendo o único estudante negro de sua turma. Em 1955, Amílcar Cabral participa de uma conferência e toma consciência da questão africana e asiática. Em 1959 funda, clandestinamente, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Alguns anos depois, já em 1963, tem início a luta armada contra o colonialismo. Nesse contexto, seu Partido sofre dura perseguição do governo português, que determina a captura ou eliminação dos membros do PAIGC. Em janeiro de 1973 Cabral é traído e assassinado por membros do próprio Partido, sem conseguir ver a independência de seu país de origem.
A luta armada se intensifica ainda mais após a sua morte, e em setembro do mesmo ano a Guiné-Bissau finalmente conquista sua independência.

Para conhecer mais sobre Amílcar Cabral, clique aqui.

3. SAMORA MACHEL

Samora Moisés Machel (1933-1986) nasceu na província de Gaza, em Moçambique. Era filho de pequenos agricultures, e começou a estudar aos 9 anos, na época em que o governo português (então colonizador de Moçambique) definiu a igreja católica como prestadora da educação. Samora terminou seus estudos aos 18 anos, mas quis continuar estudando, porém, naquele lugar só tendo como opção a Teologia. Parte, então, para outra cidade, onde arranja trabalho em um Hospital e começa a estudar enfermagem, já em 1952, onde fica por anos.

Desde cedo com tendências nacionalistas, Samora Machel também acompanhava os acontecimentos no mundo, como a revolução popular na China, em 1949 e a independência de vários outros países africanos na década de 1950. Porém, é em 1961 que, após um encontro com Eduardo Modlane (um dos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO), Samora decide se juntar ao grupo e partir para a luta de independência. Assim, deixando Moçambique em 1963 e partindo para a Tanzânia, onde encontraria o restante do grupo.

Mais tarde, Machel vai para Argélia e recebe treinamento militar de guerra e, ao retornar, começa a adquirir postos mais altos no FRELIMO. Em 1969, casa-se com a também guerrilheira Josina Muthemba, com quem participa ativamente não só da luta pela libertação de Moçambique, mas também da luta pela inclusão e igualdade da mulher. Infelizmente, sua companheira adoece e acaba falecendo ainda jovem devido a Leucemia, em 1973, no dia que mais tarde foi definido como Dia da Mulher Moçambicana. Antes disso, em 1969, o então presidente do FRELIMO, Eduardo Modlane, é assassinado e assumem três nomes para a presidência do Comitê Central, sendo um deles Samora Machel. A partir disso, o FRELIMO parte para ações ainda mais ofensivas, avançando e organizando seu exército pelo território. Machel organiza também ações diplomáticas, tendo apoio de aliados socialistas e de outros países no entorno de Moçambique.

Em 1975, após longo período de luta armada, discussões com Portugal e ações, a independência de Moçambique é enfim declarada. Depois, Samora Machel assume a presidência e começa uma série de medidas de nacionalização da saúde, educação e habitação, bem como reforma agrária, que promove um bem-estar e melhora da qualidade de vida em seu país. Por fim, já em 1986, Machel acaba morrendo após um acidente de avião, quando retonrava da União Soviética.

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4. JOSINA MACHEL

Josina Abiathar Muthemba (1945-1971) nasceu em Inhambane, no Moçambique, sendo a terceira de cinco filhos. Josina estuda na infância e adolescência, mudando mais tarde para a capital, em 1958, a fim de continuar seus estudos. Em 1960, em meio a seus estudos, Josina se envolve com movimentos estudantis secundaristas, e tem contato mais forte com pensamentos de indentidade cultural e conscientização política.

Em 1964, ela e outros membros do movimento estudantil viajam para a Tanzânia com a finalidade de se integrar a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Após isso, o grupo de estudantes passa por um processo constante de perseguições, prisões e viagens até finalmente conseguir se estabelecer na Tanzânia, junto da FRELIMO. Assim, com 20 anos, em 1965, Josina passa a estar ativamente ligada as atividades da Frente, criando o Destacamento Feminino, que tinha como objetivo o treinamento político e militar para que as mulheres também pudessem estar plenamente envolvidas com as questões do Partido. Mais tarde, Josina e outras 25 mulheres partem para o treinamento militar com orientação da guerrilha de Moçambique, em que tinha como treinador Samora Machel, seu futuro esposo e futuro presidente de Moçambique.

Em 1968, o Destacamento Feminino organiza ações em áreas liberadas visando questões sociais, como centros de cuidados médicos, escolas e assistência infantil, bem como ajuda no apoio a famílias desestruturadas por conta da guerra. É Josina quem percebe a necessidade do centro de assistência infantil devido ao número de crianças que perdiam seus pais em combate. No mesmo ano, Josina é nomeada uma das delegadas do II Congresso da FRELIMO, onde tem grande papel também na inclusão de outras mulheres na entrada de posições mais altas. Em 1969, no ano seguinte, Josina se casa com Samora Machel e passa a adotar seu sobrenome também. Entretanto, a partir de 1970, Josina começa a sofrer com fortes dores no estômago e gradualmente vai ficando mais doente, mas ainda continua ativa nas lutas pelo FRELIMO. Até que em 1971, com apenas 25 anos, enquanto comandava um exército de mais de mil soldados, Josina pede para retornar devido a doença que estava cada vez mais a prejudicando. O adoecimento acaba levando a sua morte nesse mesmo ano, sem que ela pudesse ver a independência do país, que só viria 4 anos mais tarde. O legado de Josina Machel é grande e nobre, e seu papel na luta pela independência e na ativa participação de mulheres em todas as atividades contribuiu também para as futuras políticas de Moçambique.

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AMÉRICA

5. CARLOS MARIGHELLA

Carlos Marighella (1911-1969) nasceu em Salvador, na Bahia, sendo um de sete irmãos. Seu pai havia vindo da Itália e tinha sido operário, mecânico e motorista de caminhão do lixo. Sua mãe era filha livre de escravos africanos do Sudão e empregada doméstica.

Por incentivo do pai, Marighella adquiriu hábito pela leitura desde muito cedo, sendo alfabetizado logo aos quatro anos. Assim, segue seus estudos primários, médios e chega a ingressar na faculdade, cursando Engenharia Civil. Mais tarde, porém, Marighella deixa a faculdade e se junta ao Partido Comunista do Brasil, logo aos 23 anos. Participa de manifestações durante a Era Vargas e chega a ser preso por conta de uma poema crítico publicado. Mais tarde foi preso e torturado durante diversas outras vezes, como em 1936, 1939 e 1964. Após o Golpe Militar-empresarial, já em 1967, Marighella deixa o PCB e funda a Ação de Libertação Nacional, a ALN, depois de seu retorno ao Brasil vindo de uma conferência em Cuba.

Marighella chega a ser considerado o inimigo número um da ditadura militar, organizando guerrilhas, agitação política e diversas ações contra o governo ditatorial, até enfim ser covardemente assassinado em 1969, por policiais do DOPS.

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6. CARLOS LAMARCA

Carlos Lamarca, durante treinamento de tiro

Carlos Lamarca (1937-1971) nasceu no Rio de Janeiro, na favela Morro de São Carlos. Era filho de sapateiro e sua mãe era dona de casa. Desde cedo Lamarca já se interessava por assuntos ligados a política, tendo participado de manifestações em favor do petróleo nacional, ainda aos 16 anos. Em 1955, aos 18 anos, ingressa na carreira militar e mais tarde vai para a Academia Militar dos Agulhas Negras, onde se forma em 1960, sendo o melhor atirador de seu regimento.

Em 1962 vai para Gaza, na Palestina, em serviço da ONU, onde encontra uma realidade cruel e de extrema pobreza, afirmando em carta para amigos que se fosse para lutar em combate, estaria do lado dos palestinos. É nessa mesma época, após retornar o Brasil, em 1963, que seus ideais se aproximam do socialismo e Lamarca começa a ler os clássicos do marxismo. Em 1964, acontece o golpe militar e no ano seguinte Lamarca volta para seu local de atuação, sendo promovido a capitão em 1967, onde encontra um velho amigo que havia sido preso durante o golpe por formação política, mas depois reintegrado às forças armadas. Assim, Lamarca e seu colega se dedicam a leitura de Lenin e Mao Tse Tung, fato que daria mais impulso a sua associação com grupos socialistas que pretendiam derrubar a ditadura. Lamarca começa a organizar um grupo comunista dentro de seu próprio regimento. E em 1968, consegue se encontrar com Carlos Marighella, líder da ALN, que o ajuda a refugiar sua mulher e filhos para fora do país, transferido-os para Cuba. Dessa forma, Lamarca deixa o exército em 1969 e parte para a luta armada contra a ditadura.

São anos de luta, que têm como acontecimentos esconderijos na mata, encontros com colegas, confrontos diretos com exército, mudanças de localização, prisões e assassinatos de companheiros, bem como sequestros e negociações por presos políticos. Até que em 1971, após uma série de descuidos de seus companheiros, a localização de Lamarca (então escondido na Bahia) começa a ficar mais clara para o exército. E em setembro do mesmo ano, em uma operação que envolve mais de 215 homens, os militares descobrem o esconderijo, mas Lamarca (já em péssimas condições físicas) e seu colega conseguem fugir. Lamarca é carregado nas costas durante boa parte do percurso, e os dois andam por mais de trezentos quilômetros, até enfim serem encontrados novamente pelos militares, que disparam dezenas de tiros quando avistam os dois, levando a morte de ambos.

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7. FIDEL CASTRO

Fidel Castro (1926-2016) nasceu em Holguín, em Cuba. Seu pai era um fazendeiro rico e Fidel nasceu de um relacionamento fora do casamento, sendo sua mãe empregada doméstica. Mas, logo aos 6 anos, foi enviado para para viver com seu professor.

Em 1945, Fidel estuda Direito na Universidade de Havana e começa e se envolver com ativismo político, demonstrando opiniões anti-imperialistas. Com o tempo, se envolve com Partidos de cunho socialista. Primeiro, sendo membro do Partido Socialista do Povo Cubano, em 1947, e mais tarde, do Partido do Povo Cubano, em 1952, onde esteve até o golpe de Fulgêncio Batista, fato que o fez pensar em novas formas de combate contra o governo e o imperialismo que assolava seu país por meio dos Estados Unidos.

Fidel se reúne com um jornal clandestino e publica críticas a ditadura de Fulgêncio juntamente com esse grupo de editores. E é dele que surge o grupo com o qual ele contará para a primeira ação armada, em 1953, e mais tarde ao Movimento Revolucionário 26 de Julho. Nesse contexto, Fidel é preso neste mesmo ano após a ação do grupo, e é condenado a 15 anos de prisão, tendo cumprido 2 e depois sendo absolvido por pressão popular. Fidel se exila temporariamente no México, e lá tenta reunir braços para a revolução, onde conhece também Che Guevara. Em 1955, no mesmo ano, buscou ainda ajuda de outros imigrantes cubanos que estavam nos EUA, para constituir um grupo maior para a revolução. Retornam para Cuba em 1956 e lá iniciam a luta armada com amplo apoio popular contra a ditadura de Fulgêncio Batista.

Em 1° de Janeiro de 1959 tem vitória a revolução cubana, derrubando o governo de Fulgêncio Batista. Fidel visita primeiro os EUA durante o pós-revolução, mas é da URSS que recebe grande apoio econômico e militar. A partir disso, os EUA enxergam uma possível tendência socialista que a revolução cubana, de caráter mais nacionalista, ainda não tinha bem desenvolvida. E, justamente por conta do apoio da União Soviética, os Estados Unidos impõe um embargo a Cuba (que dura até hoje). Assim, Cuba se volta para medidas de estatização de empresas, reforma agrária e diversas outras ações que levam o país aos menores índices de desnutrição, aos melhores índices de educação e a melhor medicina da América Latina.

Fidel sofre com milhares de tentativas de assassinato por parte dos EUA. Desde bombas até charutos explosivos, mas só vem a falecer por causas naturais em 2016, aos 90 anos.

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8. CHE GUEVARA

Ernesto Guevara (1928-1967), conhecido popularmente como Che Guevara, nasceu numa família de classe média na província de Santa Fé, na Argentina. Estudou medicina na faculdade e durante esse período viajou por vários países da América Latina, onde presenciou fome e pobreza generalizada, levando a sua radicalização de pensamento, entendendo que tais condições só seriam superadas com a derrubada do capitalismo.

Durante suas viagens, no México, Che conhece Raul e Fidel Castro, e se junta ao movimento para a derrubada do ditador Fulgencio Batista, em Cuba. Enquanto se organizavam no país, o próprio Che, após observar as condições precárias do lugar, monta fábricas, clínicas de saúde, oficinas militares e organiza escolas para ensinar os camponeses analfabetos a ler e escrever. Enfim, após confrontos e diversas ações de luta contra o governo, se dá a vitória da revolução em primeiro de janeiro de 1959, e faz com que o movimento revolucionário fique ainda mais ativo na América Latina.

Após tomar medidas referentes a economia, reforma agrária e alfabetização no país, Guevara deixa Cuba, em 1965, e parte para apoiar as revoluções no exterior. Primeiro sem sucesso no Congo-Kinshasa e por fim na Bolívia, onde foi capturado por forças bolivianas apoiadas pela CIA, sendo covardemente executado em 1967.

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9. HUEY NEWTON

Huey Percy Newton (1942-1989) nasceu em Luisiana, nos Estados Unidos e era o mais novo de outros sete irmãos. Newton se mudou para a Califórnia logo aos 3 anos, e passou por experiências e percepções fortes a respeito da questão racial e de pobreza. Mais tarde, já durante seus estudos enquanto ainda jovem, Newton tem contato, através da Associação Afro-Americana, com as obras de Marx, Lenin, Mao, Malcom X e Che Guevara.

A partir disso, junto de seu colega Bobby Seale e inspirados nos pensadores que haviam lido, em outubro de 1966, criam o Partido dos Panteras Negras para Auto-defesa, que mais tarde viria a ganhar reconhecimento nacional e internacional, no qual Newton assumiu as funções de Ministro da Defesa, enquanto Seale era a de presidente.

Os Panteras Negras organizaram diversas ações positivas nos bairros em que atuavam, como a criação de clínicas populares e programas de alimentação, bem como ações armadas organizadas contra a violência policial e o governo. Infelizmente sofreram dura perseguição do FBI, que chegou a considerar o grupo como a maior ameaça interna do país, fazendo com que sofressem constantemente com ataques e sabotagens. Newton chega a visitar a China e Cuba durante a vida, encontrando com Fidel Castro e outros líderes. Mas, em 1989, Huey Newton acaba sendo assassinado a tiros.

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10. ANGELA DAVIS

Angela Yvonne Davis (1944) nasceu no Alabama, um dos estados mais racistas dos EUA naquela época. Aos 14 anos participou de um programa que levava estudantes negros do Sul para o Norte do país, onde teve contato com comunismo pela primeira vez, levando a sua integração a uma organização socialista de estudantes. Na década de 1960 começa a participar mais ativamente dos movimentos do Partido e se envolve também com o movimento Black Power e com os Panteras Negras.

Em 1970, Angela Davis passa para a lista dos 10 fugitivos mais procurados do FBI, e tem sua busca constantemente divulgada pela mídia, até enfim ser presa nesse mesmo ano. Sua prisão e processo de divulgação tornam-se um grande evento, e Davis aproveita as sessões no julgamento para discursar sobre a questão racial no país. Após os mais de 18 meses de julgamento, Davis é enfim absolvida. Após sua libertação, viaja para Cuba atrás de seus companheiros dos Panteras Negras (como Huey Newton), onde se encontra também com Fidel Castro.

Por fim, a atividade dos Panteras Negras é cada vez mais reprimida pelo FBI e Angela Davis retorna aos Estados Unidos, agora seguindo sua carreira como ativista política, tratando de temas como o abolicionismo penal, a questão de classe, a questão de raça e a questão da mulher.

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11. SUB-COMANDANTE MARCOS

Sub-comandante Marcos (1957) é o nome utilizado pelo porta-voz dos Zapatistas, os revolucionários mexicanos e indígenas que formam o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

O movimento tem seu nome inspirado em Emiliano Zapata, ícone da luta contra a ditadura no México. E é com os dizeres de “Já basta!”, em 1° de janeiro de 1994, de capuzes pretos e armados, que os revolucionários surgiram defendendo princípios de autonomia econômica e defesa das terras contra o governo e os latifundiários do México. Sofrendo duras repressões e invasões por parte do exército mexicano durante décadas, os zapatistas resistem até hoje e estão em várias regiões do México.

O sub-comandante Marcos era professor de Filosofia na UAM e, apesar de não se considerar marxista, admite suas influências em Mao Tse Tung e Gramsci, bem como a própria organização dos Zapatistas, que possui um caráter comunal (de influência tanto anarquista como socialista).

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12. PRESIDENTE GONZALO

Manuel Rubén Abimael Guzmán Reynoso (1934), conhecido popularmente como Presidente Gonzalo, nasceu em Arequipa, no Peru. Gonzalo entrou na faculdade ainda cedo, aos 19 anos, e já tinha certo interesse em marxismo. Teve seu pensamento político influenciado pelo livro “Sete ensaios sobre a interpretação da realidade peruana”, de José Carlos Mariátegui, o fundador do Partido Comunista Peruano. Mais tarde, Gonzalo se graduou em Filosofia e Direito.

Nos anos 1960, Guzmán lecionou Filosofia na Universidade San Cristóbal de Huamanga, onde encontrou também outros colegas da academia que compartilhavam de seu pensamento sobre a necessidade de uma revolução no Peru. Nesse sentido, o Sendero Luminoso é criado na mesma década, sendo um Partido de orientação maoísta (em contraste com o Partido Comunista Peruano, de orientação soviética da época) que almejava a revolução e emancipação popular tendo como forte princípio a questão camponesa.

O Sendero Luminoso organiza-se primeiro em Ayacucho, onde se consolida e então ganha força em outras regiões do Peru, sendo considerado a maior ameaça ao governo do Peru. O Partido ganha mais popularidade e apoio com o passar dos anos, tendo dado início a Guerra Popular nos anos 1980, organizando diversas revoltas e ações contra o governo da época.

Enfim, Gonzalo é preso em 1992 depois de meses de armação para sua captura. Durante esse período, outros líderes do Sendero também foram presos, o que fez com que o Partido perdesse certa força, tendo sua atividade diminuída. O Presidente Gonzalo segue preso até hoje, mas o Partido e a Guerra Popular no Peru permanecessem vivos, bem como o desejo de emancipação do povo peruano.

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ÁSIA

13. MAO TSE TUNG

Mao Tse Tung (1893-1976) nasceu na província de Hunan, no antigo Império Qing. Mao era filho de camponeses e inicialmente só pôde estudar até os 13 anos, tendo que trabalhar no campo depois disso. Mais tarde, deixa sua casa e parte para a capital (Changsha na época) com o intuito de retomar estudos, onde acaba conhecendo ideias de caráter nacionalista.

Aos 18 anos, em 1911, Mao se alista ao exército revolucionário em meio a revolução pela derrubado do Império, que acontece em 1912. Depois disso, Mao se muda para Pequim e inicia seus estudos em Filosofia e Pedagogia. Participa do movimento contra a entrega de regiões da China de domínio alemão para o Japão, em 1919, e a partir daí adere ao leninismo como pensamento político. Já em 1921, Mao ajuda na fundação do Partido Comunista da Chinês e levanta pontos importantes sobre o potencial revolucionário dos camponeses. Entretanto, com a chegada de um novo governador na China, em 1927, o Partido Comunista passa a ser perseguido, sofrendo inúmeros ataques, como o Massacre de Xangai, em que vários comunistas foram executados com o objetivo de destruir a influência do Partido. A partir disso, Mao organiza o movimento revolucionário e tem sucesso com táticas de defesa e guerrilha. Em 1934, parte do exército do Partido Comunista, liderado por Mao, consegue romper com o cerco militar do governo, levando a chamada Grande Marcha, uma manobra de recuada do exército comunista que estava em desvantagem enorme numericamente contra o exército nacionalista (aproximadamente 700mil contra 100mil). Dessa maneira, os soldados comunistas marcham por mais de 10mil quilômetros em 368 dias até Shensi, no noroeste da China, fato que faz com que Mao ganhe grande reconhecimento popular e no Partido.

Em 1937 o Japão ataca a China e o Partido Comunista e o Partido nacionalista unem forças contra o imperialismo japonês e durante toda a Segunda Guerra Mundial que estava por vir. Porém, após o fim da guerra, já em 1946, os ataques do Partido nacionalista iniciam novamente contra o Partido Comunista, mas dessa vez é o Partido Comunista, contando com mais de 1 milhão de membros, quem obtém a vitória, em 1949. Assim, se proclama a República Popular da China e Mao torna-se presidente, iniciando uma série de medidas de industrialização, de reforma agrária e de cooperativas associadas de produção, além de ideias como as do Grande Salto Adiante e de Revolução Cultural, elevando significativamente os níveis de qualidade de vida na China.

Por fim, Mao adoece e acaba falecendo em 1976, deixando um imenso legado e de grande influência nos movimentos revolucionários até hoje.

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14. KIM IL SUNG

Kim Il Sung (1912-1994) nasceu em Chŏnju, na Coreia, em uma família religiosa, protestante, enquanto o país ainda estava sob domínio colonialista. Interessou-se pelo marxismo quando era estudante do ensino médio e com apenas 17 anos já participava de um grupo clandestino marxista, tendo, por isso, sido preso por vários meses.

Em 1935, aos 23 anos, ingressou nas tropas anti-japonesas lideradas pelo Partido Comunista no norte da China. Com 24 anos já era Comandante de Divisão, tendo obtido uma vitória sobre os japoneses, o que lhe garantiu notoriedade entre os chineses. Em 1940 recebeu treinamento militar na União Soviética, tendo retornado à Coréia em 1945 junto com as tropas soviéticas e assim assumindo o cargo de Chefe do Comitê Popular Provisório. Criou o Exército do Povo da Coreia.

Com o início do conflito entre a Coreia do Norte a do Sul (apoiada pelos EUA), assumiu o cargo de Primeiro Ministro da República Popular Democrática da Coréia e tornou-se vice-presidente do Partido dos Trabalhadores da Coréia do Norte. Organizou a economia da Coreia do Norte com base nos princípios do “Juche”, uma interpretação do socialismo para realidade e identidade coreana.

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15. HO CHI MINH

Ho Chi Minh (1890-1969), de nome verdadeiro Nguyen Tat Thanh, nasceu na vila de Kimlien, em Anã, no Vietnã central, que ainda estava sob o domínio francês. Era filho de um oficial que se demitiu em protesto contra o domínio francês de seu país.

Em 1920 ajuda a fundar o Partido Comunista Francês e alguns anos depois recebe treinamento de guerrilha em Moscou. Em 1941 o Japão invade o Vietnã e Ho Chi Min organiza a criação de um novo Partido de independência e com orientação comunista, o Vietminh. Quando o Japão se rende, em 1945, é declarada a criação da República Democrática do Vietnã, em que Ho Chi Minh se torna presidente.

A França não aceita a independência de sua antiga colônia e inicia uma guerra que dura 8 anos, até enfim a derrota das tropas francesas para os guerrilheiros vietnamitas. Por outro lado, o Vietnã tem seu território dividido em dois até a morte de Ho Chi Minh, em 1969, que não chega a ver a unificação de seu país, em 1975, por meio de nova guerra contra o Sul (que era apoiado pelos EUA).

Para conhecer mais sobre Ho Chi Minh, clique aqui.

16. LEILA KHALED

Leila Khaled (1944) nasceu em Haifa, então parte do Mandato Britânico da Palestina. Ainda antes da adolescência, Leila e sua família tornaram-se refugiados junto com outros 750.000 palestinos quando o Estado de Israel foi fundado, em 1948.

Aos 15 anos Khaled se juntou ao Movimento Nacionalista Árabe. Frequentou a Universidade Americana de Beirute, onde ajudou a organizar manifestações da militância em apoio à libertação da Palestina. Após sua formação, Khaled se juntou à Frente Popular marxista para a Libertação da Palestina. Ela tornou-se uma grande revolucionária comunista, professando admiração por Lênin, Fidel Castro e Che, Ho Chi Minh e Kim II Sung, entre outros.

Khaled atualmente vive com o marido e dois filhos em Amã, na Jordânia. Ela não perdeu seu espírito revolucionário e continuou seu ativismo político com dedicação. Segundo Khaled, “a luta dos palestinos tomou muitas faces. Luta armada, intifada e agora ambos. O que significa que enquanto houver ocupação em nosso país, o conflito continuará.”

Para conhecer mais sobre Leila Khaled, clique aqui.

O 11 de Setembro: Do Chile aos Estados Unidos

É preciso compreender a tragédia do atentado que causou a morte de centenas de civis, ao passo em que faz-se necessário entender também o “primeiro” 11 de Setembro, normalmente “despercebido” pela mídia geral. O primeiro acontece no Chile, por meio de um golpe militar apoiado e financiado pelos Estado Unidos e a CIA contra o então presidente Salvador Allende, levando a instauração da ditadura de Pinochet, que resulta em perseguições e mortes. O segundo, a tragédia marcada pelo ataque às torres gêmeas, que resulta na morte de centenas de civis e desencadeia numa série de guerras causadas pelos EUA no Oriente Médio.

O texto a seguir é a reprodução do trecho de um artigo de Noam Chosmky, em que o 11 de Setembro é analisado sob duas perspectivas.

“Em ’11-9′, citei a conclusão de Robert Fisk de que ‘o crime horrendo’ de 11/9 foi cometido ‘com maldade e crueldade impressionante,’ um juízo exato. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponham, por exemplo, que o ataque tivesse ido tão longe ao ponto de bombardear a Casa Branca, matando o presidente, de impor uma ditadura militar brutal que matasse milhares e torturasse dezenas de milhares, instalando ao mesmo tempo um centro de terror internacional que ajudasse a impor estados similares de tortura-e-terror noutros países, e executando uma campanha internacional de assassinato; e como um incentivo suplementar, tivesse trazido uma equipa de economistas – chamemos-lhes de ‘os Kandahar boys’ – que rapidamente conduzissem a economia a uma das piores depressões da sua história. Claramente, teria sido muito pior do que o 11/9.

Infelizmente, nada disto é especulação. Aconteceu. A única inexatidão neste breve relato é que os números devem ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida apropriada. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é frequentemente chamado de ‘o primeiro 11/9’: o 11 de Setembro de 1973, quando os Estados Unidos culminaram com sucesso os seus esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende, no Chile, com um golpe militar que levou ao poder o regime brutal do general Pinochet. O objetivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o ‘vírus’ que poderia estimular todos esses ‘estrangeiros [que] andam a querer tramar-nos’ e que queriam assumir o controle dos seus próprios recursos e aplicar uma política intolerável de desenvolvimento independente. A apoiar esta política estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional que, se os EUA não conseguiam controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem realizar a sua Ordem ‘em qualquer outro lugar no mundo’.”

Texto extraído de: hwww.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Havia-alternativa-Chomsky-revisita-o-11-de-Setembro/6/17637

Destruindo as fake news da direita sobre MARX | Parte 1

Allefy M.

”A verdade é sempre revolucionária.” – Vladimir Itilich Ulianov, mais conhecido como Lênin.

 Os estudos teóricos e a observação de sua realidade prática proporcionam àqueles oprimidos no modo de produção capitalista uma compreensão cada vez maior dos mecanismos que causam (e mantém) suas condições de subjugação e reforçam em suas mentes a necessidade de substituir esse sistema pelo socialismo, a fim de que possam libertar a si próprios; nesse processo de evolução da consciência, é normal que criem afeição e respeito por aqueles que dedicaram suas vidas, com todas as dificuldades possíveis, pela causa dos mesmos. Isso é especialmente verdade em se tratando de um daqueles que mais contribuiu para os movimentos de libertação da era moderna: Karl Marx. 

 A direita como um todo – de fascistas a conservadores mais moderados, passando pelos liberais (desde aqueles que apoiam o liberalismo político, econômico e moral àqueles que só se importam com o segundo, como os economistas que auxiliaram o ditador Pinochet no Chile)* – esforça-se constantemente para jogar sua monumental figura na lata de lixo da História, seja jactando-se de ter refutado a teoria econômica deste e desenvolvido algo muito melhor (enquanto a realidade mostra o contrário)[1], seja tentando convencer a população de que o mesmo era moralmente nojento, totalitário, sanguinário, escravista ou algo similar. Tratarei aqui de alguns dos ataques do segundo tipo.

 Em 1846, um pensador francês chamado Pierre-Joseph Proudhon publicou o livro ”Filosofia da Miséria”, na qual expunha suas ideias econômicas e políticas. Marx irritou-se com tal livro, que além de utilizar uma dialética esdrúxula e muito abaixo daquela de Hegel, ao mesmo tempo em que mantinha o idealismo filosófico (isto é, a ideia de que os fenômenos materiais, históricos, são só encarnações de categorias filosóficas), tentava convencer os trabalhadores a não promover ação política para melhoramento das próprias condições de vida e, como consequência de sua própria dialética (baseada na noção simplória de oposição entre ”bem” e ”mal”, onde os fenômenos deveriam ter seu lado bom mantido e o mau eliminado), pregava uma espécie de ”capitalismo equilibrado”. O alemão escreveu então, às pressas e em francês, o livro ”Miséria da Filosofia”, no qual criticava e buscava refutar as ideias de Proudhon.

 Um escritor russo que Marx encontrara em Paris chamado Pavel Vassilievitch Annenkov (e que a pedido do primeiro participara do comitê de correspondência comunista de Bruxelas) pediu ao primeiro que lhe falasse sobre o livro de Proudhon. Numa carta de 1846 (que pode ser lida aqui), Marx disse-lhe, entre outras coisas, que

”(…) assim o sr. Proudhon, principalmente por falta de conhecimentos históricos, não viu: que os homens, ao desenvolverem as suas faculdades produtivas, isto é, ao viverem, desenvolvem certas relações entre eles, e que o modo dessas relações muda necessariamente com a modificação e o crescimento dessas faculdades produtivas. Ele não viu que as categorias econômicas são apenas abstrações dessas relações reais, que só são verdades na medida em que subsistam essas relações. Assim, ele cai no erro dos economistas burgueses que vêem nessas categorias econômicas leis eternas e não leis históricas, as quais só são leis para um certo desenvolvimento histórico, para um desenvolvimento determinado das forças produtivas. Assim, em vez de considerar as categorias político-econômicas como abstrações feitas [a partir] das relações sociais reais, transitórias, históricas, o sr. Proudhon, por uma inversão mística, não vê nas relações reais senão encarnações [incorporations] dessas abstrações. Estas mesmas abstrações são fórmulas que dormitaram no seio de Deus-pai desde o começo do mundo.

Mas, aqui, o bom do sr. Proudhon cai em grandes convulsões intelectuais. Se todas estas categorias são emanações do coração de Deus, se são a vida oculta e eterna dos homens, como é que então, em primeiro lugar, há desenvolvimento e, em segundo lugar, como é que o sr. Proudhon não é conservador? Explica-nos estas contradições evidentes por todo um sistema do antagonismo.

Para esclarecer esse sistema de antagonismo, tomemos um exemplo.

O monopólio é bom porque é uma categoria econômica. Mas o que não é bom é a realidade do monopólio e a realidade da concorrência. O que é ainda pior, é que o monopólio e a concorrência se devoram mutuamente. Que se deve fazer neste caso? Como estes dois pensamentos eternos de Deus se contradizem, parece-lhe evidente que há no seio de Deus igualmente uma síntese entre esses dois pensamentos, na qual os males do monopólio são equilibrados pela concorrência, e vice-versa. A luta entre as duas ideias terá por efeito deixar-lhes aparecer só o lado bom. Há que arrancar a Deus esse pensamento secreto e depois aplicá-lo, e tudo correrá pelo melhor; há que revelar a fórmula sintética escondida na noite da razão impessoal da humanidade. O sr. Proudhon não hesita um só momento em fazer-se o revelador.

Mas lancemos por um momento o olhar sobre a vida real. Na vida econômica atual, não apenas encontramos a concorrência e o monopólio, mas também a sua síntese, que não é uma fórmula, mas um movimento. O monopólio produz a concorrência; a concorrência produz o monopólio. No entanto, esta equação, longe de remover as dificuldades da situação atual, como imaginam os economistas burgueses, tem por resultado uma situação mais difícil e mais baralhada. Assim, mudando a base sobre a qual se fundam as relações econômicas atuais, destruindo o modo atual de produção, destrói-se não só a concorrência, o monopólio e o seu antagonismo, mas também a sua unidade, a sua síntese, o movimento que é a equilibração real da concorrência e do monopólio.

Agora vou dar-lhe um exemplo da dialética do sr. Proudhon.

A liberdade e a escravatura formam um antagonismo. Não preciso falar dos lados bons nem dos lados maus da liberdade.

Quanto à escravatura, não preciso falar dos seus lados maus. A única coisa que é preciso explicar é o lado belo da escravatura. Não se trata da escravatura indireta, da escravatura do proletário, trata-se da escravatura direta, da escravatura dos Negros no Suriname, no Brasil, nas regiões meridionais da América do Norte.

A escravatura directa é o eixo do nosso industrialismo actual, tal como as máquinas, o crédito, etc. Sem escravatura, não temos algodão; sem algodão, não temos indústria moderna. Foi a escravatura que deu valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, o comércio mundial é que é a condição necessária da grande indústria mecânica. Por isso, antes do tráfico dos negros, as colônias só davam ao velho mundo muito poucos produtos e não alteravam visivelmente a face do mundo. Assim, a escravatura é uma categoria econômica da mais alta importância. Sem a escravatura, a América do Norte, o povo mais progressivo, transformar-se-ia num país patriarcal. Risque-se apenas a América do Norte do mapa dos povos e ter-se-á a anarquia, a decadência completa do comércio e da civilização modernos. Mas fazer desaparecer a escravatura seria riscar a América do mapa dos povos. Por isso a escravatura, sendo uma categoria econômica, se encontra desde o começo do mundo em todos os povos. Os povos modernos só souberam disfarçar a escravatura no seu próprio seio e importá-la abertamente no Novo Mundo. Como abordará isto o bom do sr. Proudhon depois destas reflexões sobre a escravatura? Procurará a síntese da liberdade e da escravatura, o verdadeiro meio termo; por outras palavras: o equilíbrio da escravatura e da liberdade.

O sr. Proudhon compreendeu muito bem que os homens fazem o pano, a tela, os tecidos de seda; que grande mérito ter compreendido tão pouca coisa! O que o sr. Proudhon não compreendeu é que os homens, segundo as suas faculdades, produzem também as relações sociais em que produzem o pano e a tela. Menos ainda compreendeu o sr. Proudhon que os homens, que produzem as relações sociais em conformidade com a sua produtividade material, produzem também as ideias, as categorias, isto é, as expressões abstratas ideais dessas mesmas relações sociais. Assim, as categorias são tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios. Para o sr. Proudhon, muito pelo contrário, a causa primitiva são as abstrações, as categorias. Segundo ele, são elas e não os homens que produzem a História. A abstração, a categoria tomada como tal, isto é, separada dos homens e da sua ação material, é naturalmente imortal, inalterável, impassível; é apenas um ser da razão pura, o que só quer dizer que a abstração tomada como tal é abstrata. Tautologia admirável!” (MARX, 2011, p.53-56)

 Fica óbvio aqui que Marx não estava em sentindo algum fazendo um julgamento elogioso da escravidão. O que ele fez foi aplicar a dialética torpe de Proudhon, que implicava em não buscar a liberdade absoluta, mas sim um equilíbrio entre liberdade e escravidão, uma vez que a última proporcionou grande progresso à indústria dos Estados Unidos da América. A opinião do próprio Marx quanto à escravidão direta (em oposição à escravidão assalariada) pode ser vista em trechos como esses:

“A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produção capitalista. Esses processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva.

[…] na Inglaterra, no fim do século XVII, esses momentos foram combinados de modo sistêmico, dando origem ao sistema colonial, ao sistema da dívida pública, ao moderno sistema tributário e ao sistema protecionista. Tais métodos, como por exemplo, o sistema colonial, baseiam-se, em parte, na violência mais brutal.”(MARX, 2013, p. 820)

 Completa ele, com relação aos povos nativos americanos:

“O tratamento dispensado aos nativos era, naturalmente, o mais terrível nas plantações destinadas exclusivamente à exportação, como nas Índias Ocidentais e nos países ricos e densamente povoados, entregues à matança e ao saqueio, como o México e as Índias Orientais” (MARX, 2013, p. 823)

 E continua ironizando a ética cristã e puritana que discursava sobre o amor a Deus ao mesmo tempo que, na sua contribuição ao processo de dominação colonial, matava índios – homens, mulheres e crianças, indiscriminadamente.

 Mais à frente, diz:

“Com o desenvolvimento da produção capitalista durante o período manufatureiro, a opinião pública europeia perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consciência. As nações se jactavam cinicamente de toda a infâmia que constituísse um meio para a acumulação de capital.” (MARX, 2013, p. 824)

 Marx reforça na continuação do texto – denunciando o cinismo europeu – o fato dos europeus terem seu crescimento baseado na exploração do tráfico negreiro e na destruição da África, ao mesmo tempo em que associavam isso à sua suposta sabedoria política. E diz ainda:

“Enquanto introduzia a escravidão infantil na Inglaterra, a indústria do algodão dava, ao mesmo tempo, o impulso para a transformação da economia escravista dos Estados Unidos, antes mais ou menos patriarcal, num sistema comercial de exploração. Em geral, a escravidão disfarçada dos assalariados na Europa necessitava, como pedestal, da escravidão sem rebuços do Novo Mundo.” (MARX, 2013, p.829)

 Percebam os adjetivos e expressões que Marx usa em toda essa parte que se encontra no capítulo 24 do livro I d’O Capital: ”o extermínio, a escravização e o soterramento”; ”a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-negras que caracterizam a aurora da era da produção capitalista”; ”violência mais brutal”; ”perdeu o que ainda lhe restava de pudor e consciência”; ”as nações se jactavam cinicamente de toda a infâmia”.

Ele faz isso pra demonstrar toda a brutalidade e violência com que nasce o capital, expropriando os camponeses na Europa, exterminando os indígenas na América, escravizando e matando os africanos na África. Para dar conta desse fenômeno extremamente violento, Marx não poupa adjetivos depreciativos para caracterizar os atos europeus e as formas de consciência e discurso que os europeus ainda buscavam justificar tais atos. Usa de intensa ironia, como é característico em toda a usa obra, para analisar o processo de acumulação de capital e as justificativas infames dos europeus. Por acaso seria tal coisa do feitio de alguém que apoia a escravidão?

 O caso acima não se trata sequer de uma citação retirada de contexto e editada, como a anterior; trata-se pura e simplesmente de forja, e você, por mais que se esforce e leia TODA a obra de Marx e Engels, incluindo cartas e artigos escritos a jornais e revistas, jamais a achará. Se, porém, adquirir O Manifesto do Partido Comunista, edição da coleção ”A obra-prima de cada autor”, da editora Martin Claret, encontrará entre os textos anexos aquele conhecido como ”Manifesto de lançamento da Associação Internacional de Trabalhadores” – de 1864 – , no qual lerá o seguinte:

”Se a emancipação do proletariado requer sua união fraternal, como poderão realizar essa grande missão com uma política exterior voltada para propósitos criminosos, tirando partido dos preconceitos nacionais e malbarateando o sangue e a riqueza do povo em guerras de pirataria? Não foi a prudência das classes dominantes, e sim a resistência histórica à sua loucura por parte do operariado da Inglaterra o que salvou a Europa ocidental de ser lançada em uma cruzada infame pela perpetuação e propagação da escravidão do outro lado do Atlântico.[2] A aprovação descarada, a compaixão fingida ou a indiferença idiota com que as classes dominantes da Europa têm presenciado a fortaleza montanhosa do Cáucaso ser subjugada e a heroica Polônia ser assassinada pela Rússia [3]; as imensas invasões, perpetradas sem resistência, por aquela potência bárbara, cuja cabeça está em São Petersburgo e cujas mãos se encontram em todos os gabinetes da Europa, ensinaram ao operariado o dever de dominarem eles próprios os mistérios da política internacional; de observarem a atuação diplomática de seus respectivos governos; de combaterem esta atuação, quando necessário, por todos os meios ao seu alcance; e quando impossibilitados de impedi-la, de se unirem em denúncias simultâneas, e afirmarem as leis simples da moral e da justiça. que devem governar as relações dos indivíduos, como as regras principais do intercâmbio entre as nações. A luta por uma tal política externa faz parte da luta geral pela emancipação do proletariado.

 Proletários de todo o mundo, uni-vos!” (É possível ler o texto na íntegra aqui)

 Somado aos trechos destacados d’O Capital na seção anterior, fica óbvio que Marx jamais acreditou que ”para o advento do verdadeiro socialismo será necessário exterminar povos e nações inteiras”, ao contrário: o socialismo necessitaria (e necessita!) do respeito à autodeterminação dos povos.

 A figura coloca “na boca” do teórico comunista uma frase que ele nunca falou. Segundo a forjada citação, ele teria determinado que as lutas dos comunistas promovessem um “holocausto revolucionário” e, com ele, iniciassem o extermínio de determinadas classes e raças. Induz-se aqueles que leem tal ditado a crer que ele foi um inspirador dos nazistas.

 Na verdade, a frase em questão é uma adulteração maliciosa de um trecho de um texto escrito por Marx em março de 1853 e publicado no New York Daily Tribune e no People’s Paper algumas semanas depois – ele pode ser acessado no site marxists.org. O artigo, intitulado Forced Emigration (Emigração forçada), descreve como o avanço do capitalismo industrial nas Ilhas Britânicas forçou a migração de milhares de ingleses, escoceses e irlandeses para outras partes do mundo em meados do século 19.

 No texto, Marx faz a seguinte declaração:

”Society is undergoing a silent revolution, which must be submitted to, and which takes no more notice of the human existences it breaks down than an earthquake regards the houses it subverts. The classes and the races, too weak to master the new conditions of life, must give way. But can there be anything more puerile, more short-sighted, than the views of those Economists who believe in all earnest that this woeful transitory state means nothing but adapting society to the acquisitive propensities of capitalists, both landlords and money-lords?”

Eis a tradução:

 ”A sociedade está passando por uma revolução silenciosa, à qual é obrigada a se submeter e que leva em conta as existências humanas que ela fragmenta tanto quanto um terremoto se importa com as casas que subverte. As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, são obrigadas a ceder. Mas pode haver alguma coisa mais pueril, mais visão estreita, do que as visões daqueles economistas que acreditam com toda sinceridade que esse lastimável estado transitório não significa nada além de adaptar a sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas, tanto senhores de terra como senhores de dinheiro?”

 A “revolução silenciosa” que ele menciona não era comunista ou socialista, mas sim a altamente capitalista Revolução Industrial, que estava promovendo na Europa e nos Estados Unidos uma configuração social, econômica e tecnológica muito diferente da que existia até o século 18. Era “silenciosa” porque, ao contrário das revoluções burguesas do século 18, não consistia em promover guerras contra o poder vigente. Nenhuma revolução socialista ou comunista vitoriosa havia acontecido até então, apesar dos levantes de 1848.

 E o trecho adulterado e transformado na falsa frase “protonazista” diz: “As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, são obrigadas a ceder [must give way].” As “classes e raças” citadas não estavam sendo exterminadas, nem sendo vitimadas por nenhum “holocausto revolucionário”. O que acontecia é que elas estavam sendo tolhidas de seu modo original de vida e forçadas ou a se adaptar à nova tradição econômica, social e cultural, geralmente de maneira sofrível, ou a emigrar para outros países, nos casos em que a vida no seu país de origem havia se tornado insuportável.

 Ou seja, a suposta menção de Marx a “raças fracas” e “holocausto revolucionário” é falsa. É uma distorção, feita com fins escusos de manipulação política, de um trecho de um artigo dele sobre o que o capitalismo estava fazendo com pessoas de diversas classes e culturas nos países britânicos de sua época.

Curioso é que os conservadores, em sua maracutaia, ainda tentam misturar a citação falsa com um suposto racismo de Marx contra os povos eslavos [Veja o url da imagem abaixo e descobrirá um ”judeo-bolchevism discovered” (”o bolchevismo judaico descoberto”), uma forte sugestão de que a direita nunca perdeu seu antissemitismo, cuja expressão máxima foi o nazismo de Hitler. Aqui vai uma coleção de citações sobre o marxismo na famosa obra de Hitler, ”Minha Luta”]:

 Como vimos, não há nenhuma menção sequer a um ”holocausto revolucionário” no artigo de Marx para o People’s Paper, e ainda menos contra eslavos; trata-se de outra forja mal-feita da direita, que foi explicada aqui. Não nos esqueçamos, aliás, que Marx, a propósito da aprovação pelos liberais do ”Règlement Organique” – o código legislativo proclamado pelo general Kisselew em 1831 para regular o trabalho dos camponeses russos (eslavos) nas terras dos boiardos (antes pertencentes aos próprios camponeses), que praticamente legalizava a servidão –, não teve dúvidas em tratá-los pela carinhosa alcunha de ”cretinos”. [4] Lembremos ainda que, no final de sua vida, Marx depositava suas esperanças numa revolução na Rússia, país onde suas ideias haviam conseguido mais adeptos.

Conclusão

 A direita, na intenção de manter o poderoso escopo teórico de Marx longe das massas, não faz a mínima cerimônia em forjar ou manipular citações do pensador alemão, de forma que este apareça àquelas como algum tipo de psicopata totalitário e/ou racista; a verdade é que estão simplesmente acusando-o do que eles próprios são.

Notas

[1] Para ver as deficiências da economia burguesa — aquela que enxerga o modo capitalista de produção como a melhor formação socioeconômica possível, dedicando-se portanto a defendê-lo –, veja os artigos do blog Critique of Crisis Theory, Austrian economics vs MarxismThe ideas of John Maynard Keynes ( 12345 e 6) e Are Marx and Keynes compatible? ( 123456789).

[2] Referência à campanha enérgica desenvolvida pelos operários ingleses durante a Guerra Civil Americana, campanha essa dirigida contra as tentativas da burguesia inglesa e francesa de organizar uma intervenção a favor dos estados sulistas que sustentavam a escravidão. Mais tarde, no livro I d’O Capital, ele se refere à G.C.A. desta forma:

”Nos Estados Unidos, todo o impulso de independência dos trabalhadores ficou paralisado enquanto a escravatura desfigurava uma parte da república. O trabalhador branco não pode se emancipar onde se ferreteia o trabalhador negro.” (MARX, 2014, p. 346)

[3] Marx se refere à conquista do Cáucaso pela Rússia czarista, que resultou na submissão e no empobrecimento das nacionalidades, bem como à repressão, pelo governo czarista, do levante revolucionário ocorrido na Polônia em 1863-1864. Engels dirá, no prefácio à edição de 1892 d’O Manifesto, que

 ”A criação de uma Polônia forte e independente não interessa apenas aos poloneses, mas a todos nós. Uma sincera colaboração internacional entre as nações europeias é possível somente se cada uma delas for plenamente autônoma em sua própria casa. (…) A nobreza não foi capaz nem de conservar nem de reconquistar  a independência polonesa; à burguesia ela é hoje pelo menos indiferente.  No entanto, tal independência é uma necessidade para a colaboração entre as nações europeias. Ela só poderá ser reconquistada pelo jovem proletariado polonês, e em suas mãos estará bem garantida. Os operários de toda a Europa têm tanta necessidade da independência da Polônia quanto os próprios operários poloneses (disponível na íntegra aqui)”.

[4] Trecho da seção 2ª do capítulo VII do livro I d’O Capital:

”No caso do capitalista, a avidez por sobretrabalho aparece no ímpeto de prolongar sem medida o dia de trabalho; no caso do boiardo, mais simplesmente na caça imediata a dias de trabalho servil

Nos principados do Danúbio, o trabalho servil estava ligado a rendas em géneros e outros pertences da servidão; constituía porém o tributo decisivo [pago] à classe dominante. Onde isto aconteceu, o trabalho servil raramente brotou da servidão; inversamente, foi sim a servidão que na maioria dos casos brotou do trabalho servil. Aconteceu assim nas províncias romenas. O seu modo de produção originário estava fundado na propriedade comum, mas não na propriedade comum em forma eslava ou mesmo indiana. Uma parte das terras era autonomamente administrada pelos membros da comuna como propriedade privada livre, uma outra parte — o ager publicus — era lavrada por eles em comum. Os produtos deste trabalho comum serviam em parte como fundo de reserva para más colheitas e outras casualidades, em parte como tesouro de Estado para cobertura dos custos de guerra, religião e outras despesas da comuna. No decurso do tempo, dignitários guerreiros e eclesiásticos usurparam, com a propriedade comum, as prestações à mesma. O trabalho dos camponeses livres na sua terra comunal transformou-se em trabalho servil a favor dos ladrões da terra comunal. Com isso, desenvolveram-se simultaneamente relações de servidão, porém apenas de facto, não de direito, até que a Rússia, libertadora do mundo, sob o pretexto de abolir a servidão, a elevou a lei. O código do trabalho servil, que o general russo Kisselev proclamou em 1831, foi naturalmente ditado pelos próprios boiardos. A Rússia conquistou assim de uma assentada os magnatas dos principados do Danúbio e o aplauso dos cretinos liberais de toda a Europa.

Segundo o Règlement organique — assim se chama aquele código de trabalho servil — cada camponês valáquio deve ao chamado proprietário fundiário, para além de uma massa de pormenorizadas contribuições em géneros: 1. doze dias de trabalho, em geral; 2. um dia de trabalho no campo; 3. um dia de carregamento de lenha. Summa summarum), 14 dias no ano. Com profunda inteligência da economia política, o dia de trabalho não é contudo tomado no seu sentido ordinário, mas sim no de dia de trabalho necessário para a fabricação de um produto médio diário, e o produto médio diário está tão manhosamente determinado que nenhum ciclope em 24 horas o teria concluído. Nas palavras secas de autêntica ironia russa, o próprio Règlement explica assim que por 12 dias de trabalho se deve entender o produto de um trabalho manual de 36 dias; por um dia de trabalho no campo, três dias, e por um dia de carregamento de lenha, igualmente o triplo. Summa: 42 dias de trabalho servil. Acrescenta-se porém a chamada Jobagie, prestações de serviço devidas ao senhor fundiário para necessidades extraordinárias da produção. Na proporção da magnitude da sua população, cada aldeia tem de fornecer anualmente um determinado contingente para a Jobagie. Este trabalho servil suplementar é avaliado em 14 dias para cada camponês valáquio. Assim, o trabalho servil prescrito ascende anualmente a 56 dias de trabalho. O ano agrícola na Valáquia só conta porém 210 dias, devido ao mau clima, dos quais 40 para domingos e feriados, 30 em média para mau tempo, em conjunto não entram 70 dias. Ficam 140 dias de trabalho. A relação entre trabalho servil e trabalho necessário, 56/84 ou 66 2/3 por cento, exprime uma taxa muito mais pequena de mais-valia do que a que regula o trabalho do operário agrícola ou fabril inglês. Isto é, porém, apenas o trabalho servil legalmente prescrito. E num espírito ainda «mais liberal» do que a legislação fabril inglesa, o Règlement organique soube facilitar o seu próprio torneamento. Depois de, a partir de 12 dias, fazer 56, o trabalho diário nominal de cada um dos 56 dias de trabalho servil é novamente determinado de tal modo que um suplemento tem de passar para os dias seguintes. Em um dia, p. ex., deve ser mondada uma extensão de terreno que para esta operação, nomeadamente nas plantações de milho, requer o dobro do tempo. O trabalho diário legal para trabalhos agrícolas singulares é interpretável de tal modo que o dia começa no mês de Maio e acaba no mês de Outubro. Para a Moldávia, as determinações são ainda mais duras.

‘Os doze dias de trabalho forçado do Règlement organique’, exclamou um boiardo enebriado pela vitória, ‘elevam-se a 365 dias no ano!’ ”

* Sobre a aplicação do neoliberalismo na América Latina durante o século passado, que ocorreu no contexto de ditaduras civis-militares, veja o vídeo abaixo (atenção especial para o trecho entre 8:25 e 9:21):

 Bibliografia:

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I – o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I – o processo de produção do capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

MARX, Karl. Miséria da filosofia. São Paulo: Martin Claret, 2011.

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista. São Paulo: Martin Claret, 2011.

EUROCÊNTRICO É CHAMAR O MARXISMO DE EUROCÊNTRICO!

Línik Sued Carvalho da Mota

Publicação original aqui

No ano passado, durante as campanhas de Fernando Haddad no segundo turno contra Jair Bolsonaro, fomos, para tentar impedir a eleição do fascista, obrigados e obrigadas a forjar uma frente ampla. Vários movimentos de esquerda e centro-esquerda uniram-se em panfletagens e comícios e foi em um destes, numa certa sexta feira, que escutei algo que ficou na minha cabeça da parte de um militante do movimento negro liberal:

Eles não tem medo de socialismo, mas da descolonialidade.


Isso sendo dito em um palco por alguém quem se afirma de esquerda e recebendo aplausos me preocupou e continua a preocupar, afinal a vitória dos Estados Unidos da América na guerra fria resultou em uma domesticação de boa parte da esquerda, que abandonou as pautas revolucionárias e passou a tentar achar seu espaço dentro dos sistemas de governo burgueses, renegando seu passado e contribuindo com a retórica neocolonial, fenômeno que o camarada Domenico Losurdo, falecido no ano passado, chamava de “Autofagia”.

Enfim, a fala do companheiro liberal, cujo nome e movimento manterei anônimos, está completamente errada de todos os pontos de vista. Primeiro, a burguesia tem seu poder pela força material resultante da propriedade privada dos meios de produção, que lhes dá poder de definir, na prática, quem vive e quem morre e se apropriar da mais-valia gerada pelo trabalho de milhões, uma opressão de classe que possui suas complexidades e formas de dominação que servem para baratear ainda mais a mão de obra e gerar separação entre os trabalhadores, como o racismo e o sexismo (Sem os quais é impossível entender a luta de classes no Brasil); Segundo, a burguesia, a partir de seu poder material constrói aparelhos de hegemonia, que são propagadores da Ideologia que naturaliza tais relações que são, na verdade, sociais e históricas (Dialética: Forma e conteúdo, a ideologia se propaga através, também, de genocídio cultural, logo Conteúdo é a Ideologia burguesa, sua forma é o genocídio cultural). Os burgueses não são, porém, figuras caricatas e maquiavélicas que planejam isso friamente, são, como os trabalhadores, reprodutoras do sistema e de estruturas anteriores a sua própria existência enquanto pessoas. O que dá aos burgueses seu caráter de opressores não é sua cor, gênero, sua boa ou má vontade, mas sim a estrutura e complexo de relações sobre os quais se firma o seu poder. Logo, a fala do rapaz desloca a “descolonialidade” de sua potencialidade prática e revolucionária para o campo do puro idealismo, onde esta torna-se apenas um belo conceito, uma palavra de ordem a mais. “Descolonialidade” só faz sentido e só é possível em uma perspectiva socialista (Sendo ela marxista ou não, inclusive, embora eu, como marxista, vá sempre preferir e defender essa forma).

A afirmação feita no palanque pelo companheiro não é, porém, um fato isolado, vemos certas tendências por parte de movimentos negros de afirmarem que o marxismo é “eurocêntrico” e que não deve servir para a luta dos movimentos sociais. Bem, afirmarei aqui que isso é pura HIPOCRISIA! É o eurocentrismo, colonialidade, desses próprios movimentos que exportam pautas e idolatram divas pop dos Estados Unidos da América que os leva a afirmar tal coisa. Afirmar que o marxismo é eurocêntrico é não conhecer a história das independências da Argélia, Burkina Faso, Moçambique, Cabo Verde, da revolução Chinesa, Coreana ou mesmo conhecer os Panteras Negras, profundos admirados de Mao Tsé-Tung. O pensamento Marxista é defensor da práxis, do conhecimento que se constrói na luta, logo é perfeitamente adaptável as mais diversas realidades onde o capitalismo oprima, mesmo em sua forma colonial, como afirma o próprio Marx (2016):

A hipocrisia profunda e a bárbarie inerente à civilização burguesa se difunde sem véus diante de nossos olhos, passando da sua fornalha natal, onde ela assume formas respeitáveis, às colônias onde ela assume suas formas sem véus.


O imperialismo do Século XIX foi movido por interesses econômicos das classes dominantes burguesas da Europa, que justificavam sua dominação através das teses racistas de darwinismo social e “fardo do homem branco”, não foram tais ideias que levaram a dominação e divisão da África e Ásia, são, pelo contrário, consequências destas. O racismo é a ideologia da escravidão, justifica a dominação europeia com interesses de expansão dos mercados. Não havia estranhamento entre europeus e africanos antes? Sim, é natural que haja estranhamento entre uma cultura e outra completamente diversa, porém, através dos séculos, as classes dominantes deram forma a percepção do “estranho” com a Ideologia para as outras classes de sua sociedade, na Idade Média o “outro” era o “Pagão sem alma”, na Idade Contemporânea, porém, o “pagão” tornou-se “raça inferior” por explicações pseudocientíficas. Mas não sem uma “Razão” que beneficiasse os imperialistas. Assim, a “colonialidade”, a “imposição cultural” são frutos, na Idade Moderna, do interesse da expansão dos mercados europeus e norte-americanos, logo uma crítica da colonialismo é impossível sem o recorte de classe e sem a crítica ao modelo de produção capitalista. Hobsbawm (1988, p. 386) coloca:

No período que nos interessa, este era plenamente o caso de todas as áreas da biologia que atingiam diretamente o homem social, e de todas as que podiam ser vinculadas ao conceito de “evolução” e ao nome cada vez mais carregado de conotações políticas de Charles Darwin. Ambos tinham um conteúdo ideológico forte. Sob a forma de racismo, cujo papel central no século XIX nunca será demais ressaltar, a biologia era essencial para uma ideologia burguesa teoricamente igualitária, pois deslocava a culpa das evidentes desigualdades das sociedades humanas para a natureza.”

E completa (p. 387):

(..) as vinculações entre biologia e ideologia são, de fato, particularmente evidentes no intercâmbio entre eugenia e a nova ciência da genética.

Como coloca Hobsbawm, o racismo e as formas que este assume no Século XIX não são causadoras da opressão imperialista burguesa, mas consequências desta, são justificadoras ideológicas, cujo objetivo é naturalizar uma experiência histórica. Assim, a crítica do próprio racismo, como o conhecemos hoje, também não pode ser feita sem colocar o recorte de classe a crítica ao capital.

Assim, não existe uma crítica descolonial sem um filtro socialista. Isso simplesmente é impossível e historicamente errôneo, da mesma forma também é a afirmação de que “marxismo é eurocêntrico”, ela mesma, eurocêntrica, pois só é verdadeira olhando para o Norte de costas viradas para o Sul. Afirmar isso é silenciar diversos movimentos anticoloniais em África e na Ásia que levantaram a bandeira do materialismo Histórico Dialético contra a opressão imperialista que, como vimos, é filha preferida do capitalismo.

Marxismo surgiu sim, na Europa, mas ganhou outros contornos, desdobrou-se em novas potencialidades com o poder criativo dos povos que com ele tinham contato. Isso não pode ser dispensado, nem silenciado.

Não sejamos hipócritas! Falo isso enquanto historiadora latina-americana!

Citados:HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. 18º ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 2014.MARX. Karl. Os Resultados Eventuais da Dominação Britânica na India in <https://www.marxists.org/portugues/marx/1853/07/22.htm> acesso em 01/07/2019.

Como o capitalismo precisou da escravidão para prosperar

A relação entre capitalismo e escravidão pode parecer contraditória quando se entende que nosso modo de produção atual depende da “liberdade” do trabalhador assalariado na negociação com o capitalista e, portanto, seria inverso ao encontrado na servidão do modo escravista. Por outro lado, é observando o desenvolvimento do capitalismo que entendemos a notável e necessária interrelação entre o triunfo deste modo de produção na Europa e a existência de uma escravidão conectada ao mercado na América e África.

Para tratar de forma mais específica desta questão, tomaremos como exemplo o proletariado inglês e os povos africanos e indígenas escravizados no Brasil durante o século XIX. E, com isso, teremos como base de análise o conceito de subsunção formal, de Marx. Citando o sociólogo brasileiro Antônio Mazzeo:


“O capitalismo, em seu processo de desenvolvimento, apropria-se das formas de trabalho e de produção dos modos de produção que o antecederam ou, como no caso das colônias americanas, cria novas formas de apropriação de mais-valia que não as tipicamente de conteúdo capitalista da Europa. […] Como exemplo, temos a incorporação do trabalho artesanal feudal ou do tipo de agricultura que corresponde à pequena economia camponesa. Marx chamará esse processo de ‘subsunção formal do trabalho ao capital’, isto é, o capital incorpora, em sua estrutura orgânica, formas produtivas que não lhe pertencem dando a essas formas pré-capitalistas conteúdos capitalistas.” [1]

Assim, compreendemos que subsunção formal refere-se a situação em que, neste caso, o modo escravista em funcionamento no Brasil é diferente do capitalista inglês (não possui trabalho livre ou assalariamento), mas está inserido na lógica deste modo. Isto é, a mercadoria produzida pelos escravizados entra na circulação do mercado mundial capitalista, apesar de ser produzida de modo diferente. E durante séculos foi uma necessidade para o capitalismo europeu a existência desse modo escravista na América e África, e, explicando mais especificamente o caso que tratamos, no Brasil.

No século XIX, os trabalhadores ingleses tinham jornadas de trabalho de 12, 14 ou mais horas diárias, e mal tinham suas necessidades energéticas compensadas, ao mesmo tempo em que trabalhavam na indústria que se desenvolvia progressivamente. Dentro disso, um exemplo que pode ser claramente compreendido é o da produção escravista em monocultura do café, pelo Brasil, para a venda na Inglaterra, isto é, com o propósito de suprir a energia dos operários ingleses, já que o café funciona como um energético e, por conta de sua produção ser feita pelos escravizados, o custo era bem menor. Dessa forma, compreendemos que o café não era produzido no Brasil por acaso (assim como outros produtos primários em outras economias escravistas da época), mas porque a Inglaterra demandava esse café de um país com as condições geográficas para tal e, igualmente, com um custo mais baixo de produção, isto é, que possuísse uma economia baseada no modo escravista.

Apesar de citarmos como exemplo o café, o mesmo processo aconteceu anteriormente com outros ciclos de monocultura escravista no Brasil para outros motivos, como o século XVII para cana-de-açucar e o século XVIII para o ouro, assim como também em outros países da América e da África. Dessa forma, a escravidão não tem fim por um ideal de libertação por parte de alguma figura bondosa da monarquia, mas principalmente devido a dois grandes fatores: as revoltas de indígenas e africanos por sua libertação; e a recém surgida necessidade de um mercado consumidor por parte dos países capitalistas mais desenvolvidos. Ou seja, tornava-se necessário abolir a escravidão para dar lugar ao trabalho assalariado e consequentemente o surgimento de um novo mercado consumidor, o recém formado proletariado das antigas economias escravistas.

“Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras.” [2]

Por Vinícius Fontoura

Referências:

[1] MAZZEO, Antonio Carlos. Burguesia e Capitalismo no Brasil. Editora Ática S.A., 1995, p. 9.

[2] PRADO Jr., Caio. História Econômica do Brasil. Editora Brasiliense, 1979, p. 14.

Não, nem Hitler nem o nazismo são de esquerda.

Por Vinícius Fontoura

Em meio a nova bizarra discussão sobre a orientação política do nazismo – que já é definido como de extrema-direita desde a Alemanha [1] até mesmo a Israel [2] – a CPL traz um texto reformulado que desmistifica um dos principais artigos que coloca Hitler como uma espécie de marxista e o nazismo como de esquerda [3].

O autor do artigo, George Watson, faz uma associação mentirosa sobre Hitler e o marxismo, e além de pontos falsos, ausência de fontes diretas e distorções de discurso, o autor do artigo aparentemente esquece-se da prática da Alemanha Nazista e do livro mais importante de Hitler, o ‘Mein Kampf’, ou “Minha Luta” na tradução. Portanto, iremos desmascarar e desmembrar este artigo ponto a ponto.
Após a introdução, no terceiro parágrafo do texto já temos este trecho: “Lendo estes materiais, fica claro, sem sombra de dúvidas, que Hitler e seus aliados se consideravam socialistas e que outros também acreditavam nisso.” Primeiro vamos aos questionamentos que o artigo simplesmente ignora (de maneira oportunista) a respeito do socialismo. É preciso saber de quê socialismo se trata, é preciso ser bem claro em afirmar algo tão geral, visto que o socialismo marxista (defendido pela esquerda) é extremamente repudiado por Hitler, e isso é comprovado em alguns trechos do ‘Mein Kampf’, como o seguinte:

“Nesse tempo abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.” (P.22)

Como já dito, o socialismo não é exclusivo de Marx, visto que há ainda ‘direitistas socialistas’, tais como Werner Sombart e Oswald Splenger, o primeiro um alemão e que elaborou um conceito de ‘socialismo nacional’, bem oposto ao do socialismo marxista. O segundo, Splenger, elaborou um conceito de ‘socialismo prussiano’, que seria um socialismo livre do marxismo. Ambos eram contra ideia de abolição da propriedade privada, um aspecto fundamental do marxismo. E o socialismo internacionalista, de Marx e da esquerda, era completamente repudiado por Hitler.
No quarto parágrafo ainda contamos com essa afirmação no artigo: “De acordo com Hermann Rauschning, um nazista que conheceu Hitler antes de sua ascensão ao poder em 1933 e publicou as conversas que teve com o ditador, Hitler afirmava que ‘havia aprendido muito com o marxismo’. Ele se orgulhava de ter se aprofundado na lógica marxista quando era um estudante, antes da Primeira Guerra Mundial, e posteriormente na prisão em 1924, para onde foi levado quando sua tentativa de golpe (o Putsch de Munique) falhou.” Afirmação que sem dúvidas pode ser motivo de risada, primeiro porque já vimos que Hitler nega o marxismo, segundo pelo próprio ‘nazista’ citado no texto, e terceiro, pela sua distorção oportunista dos fatos. Começaremos com o primeiro ponto.

Já sabemos que Hitler nega o marxismo, e além da passagem já citada acima, contamos com mais dezenas de outros trechos a respeito de comunismo, marxismo e bolchevismo, tais como:

“Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos  o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo” (P. 43)
     “No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.” (P. 51)
      ”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.” (P. 53)
     “Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo” (P. 116)


O segundo ponto é do nazista Herman Rauschning e suas supostas conversas privadas com Hitler, e como bem afirma o historiador suíço Wolfgang Haenel, que ficou por mais de cinco anos cuidadosamente investigando essas conversas e o próprio Hitler antes de anunciar suas revelações, em 1983 em uma conferência de história revisionista na Alemanha Ocidental, a famosa “Conversas com Hitler”, ele declarou, “é uma fraude total”. O livro não tem valor “exceto como um documento da propaganda de guerra Aliada”, há ainda outros trechos sobre as revelações de Haenel, tal como: “As palavras atribuídas para Hitler, segundo ele, foram simplesmente inventadas ou levantadas de muitas outras diferentes fontes, incluindo escritos de Junger e Friedrich Nietzsche. Um relato de Hitler ouvindo vozes, andando a noite com gritos convulsivos e, aterrorizado, apontando para um canto vazio enquanto gritava “lá, lá no canto!” foi tomada de um conto do escritor francês Guy de Maupassant.” [4]

O terceiro ponto é justamente o da distorção de fatos, em que o autor coloca que ‘Hitler estava orgulhoso de seus anos estudando marxismo’, como se o nazista sentisse orgulho de conhecer o marxismo, quando, na verdade, e interpretado da maneira correta, podemos compreender que é apenas uma forma de Hitler dizer que já conhecia o dito ‘perigo na Alemanha’, segundo ele.

“No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao meu pequeno círculo de meus conhecidos, bem como a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época – o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos – tendo-se em vista a intenção do marxismo – tinham de ser um dia terríveis. (P. 116)

O artigo ainda segue recheado de outras mentiras, tais como “Foi a questão da raça, acima de todas as outras, que tem evitado que o nacional-socialismo fosse classificado como socialismo.”Ora, qualquer um que já tenha estudado marxismo sabe de suas extremas diferenças com o nazismo, a começar pela discordância da própria abolição da propriedade privada, que é citada no próprio artigo como algo que Hitler não exatamente condenava, “como Hitler afirmou a seu conselheiro econômico, Otto Wagener, em 1930: o socialismo do futuro seria baseado na ‘comunidade do povo’, não no internacionalismo, e sua tarefa era ‘transformar o povo alemão em socialista sem matar os antigos individualistas’, ou seja, os empreendedores e gestores da era liberal.”, ou seja, o próprio artigo se contradiz aqui. Há ainda mais diferenças cruciais entre as duas ideologias completamente distintas, tais como o anti-comunismo de Hitler, que é fundamentado em diversos trechos de suas obras (dos quais já citados aqui), a visão de desigualdade como algo natural, e a definição hierárquica entre as pessoas, no caso de Hitler, segundo as raças.
Por fim, concluímos que, além de anti-comunista, anti-marxista, além de tratar a desigualdade como natural e acreditar numa hierarquia de raças, o nazismo era definitivamente de extrema-direita, tanto por seu discurso como prática, como afirmam os próprios artigos alemães sobre os partidos da época [5]. E como se não bastasse todo o jogo desonesto que o artigo nos mostra, e que já foi desmascarado aqui, o autor ainda tem a audácia de finalizar o texto com o seguinte trecho: “Com tudo o que sabemos sobre Hitler hoje, podemos afirmar, sem dúvidas: Hitler era um marxista heterodoxo que conhecia as fontes de suas ideias e como elas eram manipuladas por ele de forma heterodoxa.”, afirmação que pode ser facilmente desmentida com ainda mais trechos do Mein Kampf:

“O fato de ter o nosso soldado outrora lutado com ardor é a prova mais evidente de que não estava ainda contaminado pela loucura marxista. À proporção, porém, que o soldado e o operário alemão, com o decorrer da Guerra, iam caindo nas garras do marxismo, eram elementos perdidos para a Pátria.” (P. 503)
      “No ano de 1923 estávamos em face de uma situação idêntica à de 1918. Qualquer que fosse a maneira de resistir que se escolhesse, a condição indispensável seria livrar primeiro, o nosso povo do marxismo corruptor.” (p. 503)
      “No dia em que, na Alemanha, for destruído o marxismo, romper-se-ão, na verdade, para sempre, os nossos grilhões”. (P. 505)

Algumas observações finais para evitarmos comentários desnecessários colocando “nacional-SOCIALISMO”, a foto de uma moeda da antiga Alemanha ou uma frase falsa de Hitler.

  • 1- O conceito de nacional-socialismo é diferente do de socialismo, não se trata apenas de nome. Muitos dos trechos que citei exemplificam isso, além, é claro, do que foi dito no início sobre as formas de socialismo (que são anteriores a Marx).
  • 2- O símbolo da foice e do martelo representa os trabalhadores do campo e da cidade, respectivamente. O uso deles servia também oportunamente como objeto de populismo, pois remetiam a união dos trabalhadores.
  • 3- Não se preocupem em citar aquela velha frase “Nós somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista…”. Ela não é de Hitler, mas sim de Gregor Strasser, que foi assassinado a mando de Hitler na noite das facas longas [6]

Referências:
HITLER, Adolf. Main Kempf. Edição original de 1924.

[1] EL PAÍS. Fremdschämen, a constrangedora ‘aula’ sobre nazismo dos brasileiros aos alemães. Disponível em: https://bit.ly/2MGwXxC

[2] G1. Nazismo é de direita, define museu do Holocausto visitado por Bolsonaro. Disponível em: https://glo.bo/2WGkFuB

[3] WATSON, George. Hitler: o marxista heterodoxo que tentou implantar a utopia socialista. Tradução de Marcelo Faria, publicado pelo ILISP.

[4] WEBER, Mark. Swiss Historian Exposes Anti-Hitler Rauschning Memoir as Fraudulent, texto de ‘The Journal of Historical Review, Fall 1983 (Vol. 4, No. 3), pages 378-380.’

[5] The political parties in the Weimar Republic. Administration of the German Bundestag, Research Section WS ‘, Março de 2016.

[6] KASPRAK, Alex. Did Adolf Hitler Say That Nazis Are ‘Mortal Enemies of the Present Capitalist Economic System’?. Disponível em: https://bit.ly/2BmWMlY