Marxismo facilitado – Parte 1: Materialismo Histórico

Christopher Williams

Texto original
aqui

“A história chama aqueles homens os maiores que se enobreceram trabalhando pelo bem comum; A experiência aclama como mais feliz o homem que tornou feliz o maior número de pessoas. ”-  Karl Marx, Reflexões de um jovem (1835)

Você já pensou em por que as pessoas acreditam nas coisas que fazem? De onde vêm as ideias? Onde as ideias estão localizadas? Esse é um argumento muito antigo no campo da filosofia que aborda essas questões e tem conseqüências muito importantes, como veremos a seguir.

Você provavelmente já ouviu opiniões como

“As ideias moldam o curso da história.”  - John Maynard Keynes

ou

“Você pode matar um homem, mas não pode matar uma ideia.”  - Medgar Evars

Estas declarações, se tomadas literalmente, incorporam uma tendência filosófica muito antiga e comum chamada idealismo. Esta é a visão de que nossas idéias têm uma existência separada do nosso mundo material, e que essas idéias são o que realmente moldam a nós e a nossa realidade. Alguns idealistas chegam a dizer que as idéias são as únicas coisas que realmente existem, e a realidade material é incognoscível ou inteiramente uma questão de opinião.

Este é um modo de pensar mágico e irrealista. Acreditar nesse tipo de filosofia significa ignorar o que realmente experimentamos, ignorando nosso conhecimento da ciência em geral e da neurologia, química e sociologia, em particular.

Em contraste com os idealistas, os marxistas acreditam que nossas ideias não existem separadamente de nós, e que o conhecimento não vem apenas direta e exclusivamente de nossos sentidos, como acreditavam os empiristas, mas através de nossa experiência social vivida, através de nossas reais condições materiais. Marx disse:

“Não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sua existência social que determina sua consciência.”

Nós recebemos dados através de nossos sentidos sim, mas a forma que os dados tomam, as conexões e o sentido que fazemos desses dados, é um processo contínuo em nossa vida diária, não apenas como indivíduos isolados, mas principalmente como seres sociais produtivos.

Nossas idéias, nossas visões de mundo, nossas filosofias e nossa cultura, então, estão enraizadas em nossas situações física e socialmente determinadas. É por isso que as opiniões dos banqueiros ricos serão muito diferentes das dos sem-teto. Isso também explica por que, normalmente, quando a estação de alguém muda de vida, também muda de opinião.

Além disso, herdamos nossas situações em nossas vidas de nossos pais e junto com muitos dos seus pontos de vista. Também recebemos muitas das nossas visões de interagir com outras pessoas que existem em uma situação social semelhante a nós mesmos.

Essas situações física e socialmente determinadas em que vivemos são o que Marx chamou de condições materiais. Ele tomou essa visão de uma humanidade moldada pelas condições materiais e a aplicou à história humana. Essa aplicação é o que Marx chama de materialismo histórico, a teoria de que a história é moldada, não por idéias, mas por condições materiais.

E qual é o principal, embora não o único, fator determinante de nossas condições materiais? Como nos relacionamos com os meios de produção em nossa sociedade. Os meios de produção referem-se às ferramentas e materiais que usamos para fazer a sociedade funcionar, e a maneira como nos relacionamos com os meios de produção é uma questão de poder e controle. Alguns membros da sociedade possuem os meios de produção e outros não.

Nós chamamos aqueles que possuem e controlam os meios de produção da classe dominante de nossa sociedade. Aqueles que não possuem nem controlam esses meios estão sujeitos àqueles que o fazem. Toda a história humana é guiada e definida por essa luta entre os interesses das classes dominantes e seus súditos. As forças materiais de produção moldam a natureza das classes que lutam pelo controle sobre elas.

Armado com essa compreensão clara e realista, a história pode ser analisada cientificamente examinando o modo dominante de produção em uso dentro de uma sociedade. Pode-se até usar essa informação para fazer previsões precisas sobre o desenvolvimento da sociedade.

Então, para resumir:

1. As idéias não vêm do nada, elas vêm de nossas condições materiais. 
2. Nossas condições materiais são definidas pelas situações sociais em que vivemos. 
3. Nossas situações sociais são determinadas principalmente pela forma como nos relacionamos com os meios de produção em nossa sociedade. 
4. Toda a história é governada por esses princípios e é definida pela luta constante pelo controle sobre os meios de produção.

Se você ama a humanidade, seja comunista

Arthur D’Elia (publicado originalmente em 05/01/2019)

“Se escolhermos a posição na vida a qual podemos trabalhar pela humanidade, nenhum encardo irá nos pôr para baixo, pois esses encargos são sacrifícios pelo bem de todos, então não experimentaremos alegria mesquinha, limitada e egoísta, mas nossa felicidade irá pertencer à milhões, viveremos de ações silenciosas mas em constante trabalho, e sobre nossas cinzas serão derramadas quentes lágrimas de pessoas nobres.” (MARX) [1]

Já em um texto de quando tinha apenas  17 anos, é possível constatar a preocupação que o jovem Marx tinha com a humanidade, visando tão somente a generalidade e não alguma forma de particularidade (raça, classe etc). Posteriormente em um outro texto seu, intitulado de ‘A Ideologia Alemã’, o autor ressalta que numa sociedade comunista não 
haveriam distinções de raça, classe, pode-se colocar aqui também o gênero etc [2].

Por conseguinte, em uma carta aos seus filhos, Lamarca demonstra ter apreendido corretamente a ideia:

“Vivo falando de vocês com meus companheiros, eles estão longe dos filhos também e falam nos filhos deles. Um só é o desejo de todos nós, é que nossos filhos sejam revolucionários. O que é um revolucionário? É toda a pessoa que ama todos os povos, ama a Humanidade, tem uma imensa capacidade de amar, ama a justiça, a Igualdade. Mas ele tem de odiar também, odiar os que impedem que o revolucionário ame, porque é uma necessidade amar. Odiar aos que odeiam o povo, a Humanidade, a Justiça social. Odiar aos que dominam e exploram o povo, odiar aos que corrompem, ameaçam e alienam as mentes, aos que degradam a Humanidade, aos injustos, falsos, demagogos, covardes.” (LAMARCA,1969).[3]

Levando em consideração as palavras do revolucionário brasileiro, é notável a sua abdicação de sua própria família (esta é uma forma de particularidade) para servir ao gênero humano ou à humanidade. Importante notar neste fato a tendência à generidade que está para além da particularidade, o “bem comum” colocado acima. Esta relação com a humanidade foi também uma preocupação de um dos maiores filósofos do século XX, chamado Gyorgy Lukács; o húngaro argumenta que o ir para além da mera particularidade constitui plenamente o desenvolvimento de sua personalidade, individualidade, e isso ocorre porque o homem enquanto exemplar do gênero só se realiza justamente neste. Desta forma, singular (um exemplar do gênero, um indivíduo) só se realiza no universal e o universal pelo singular [4].

Isto posto, neste mesmo texto, o renomado filósofo cita aquele que numa outra oportunidade considerou como o grande manifestante do que seria a ética real [5], que é Jesus. Para o húngaro, Jesus compreendeu autenticamente como deve ser a relação do indivíduo com o gênero e inclusive esta consideração era o pressuposto das seitas criadas pelos primeiros cristãos. Para demonstrar isso presente no próprio Cristo:
“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.” [6]

Para efeitos de compreensão: A ética é um complexo valorativo que se refere à relação do indivíduo com a comunidade [7]. Mas não é objetivo deste texto alongar esta problemática, visto que não constitui o seu propósito. Tampouco aqui está se entendendo Jesus como um comunista. Importante afirmar que essa relação entre singular-universal só seria possível ocorrer plenamente numa sociedade sem classes, exploração do homem pelo homem, propriedade e etc. 

Portanto, com base no que fora exposto até então, pode-se considerar monumental e extremamente antológica esta preocupação para com a humanidade e principalmente deixar claro que esta deve e deverá sempre ser a preocupação de todo comunista no decorrer de sua existência enquanto um revolucionário que luta por aquilo que melhor desenvolveria e elevasse o gênero humano, ou seja, o modo de produção comunista, somente nele é possível as individualidades e personalidades se desenvolverem plenamente e à ética real de fato existir. O portador ou sujeito da “essência humana” não é o indivíduo isolado, mas a sociedade humana apreendida na continuidade de sua mudança histórica e desenvolvimento [8].

“Se tu amas sem despertar amor recíproco, isto é, se teu amar, enquanto amar, não produz o amor recíproco, se mediante tua externação de vida como homem amante não te tornas homem amado, então teu amor é impotente, é uma infelicidade” (MARX, 2010, pág. 161)

REFERÊNCIAS:

[1] MARX, Karl. Reflexões de um Jovem sobre a Escolha de uma Profissão. Disponível em:https://www.marxists.org/portugues/marx/1835/08/16.htm
[2] MARX, Karl. A Ideologia Alemã.
[3] LAMARCA, Carlos. Carta para os filhos. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lamarca/1969/07/26-1.htm
[4] LUKÁCS, Gyorgy. Para uma ontologia do ser social II.
[5] LUKÁCS, Gyorgy. Notas para uma ética.
[6] BÍBLIA. João, 15, 12.
[7] LESSA, Sérgio. Ética: uma enorme imprecisão. I simpósio nacional sobre política.
[8] MÁRKUS, Gyorgy. Marxismo e antropologia: O concito de “essência humana” na filosofia de Marx.
[9] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos.

Uma brevíssima introdução ao materialismo histórico

Vinícius Fontoura (publicado originalmente em 27/11/2018)

Muito se fala sobre a base principal de análise e crítica marxista da sociedade, o materialismo histórico – em Marx e Engels chamado de concepção materialista da história. Mas o que é e para o que serve?
A principal obra a tratar do materialismo histórico é A Ideologia Alemã, livro em que se expressa pela primeira vez com consistência as bases dessa abordagem da sociedade. A respeito da nova concepção, Marx diz o seguinte:

“Esta concepção da história baseia-se, portanto, no desenvolvimento do processo real da produção, partindo logo da produção material da vida imediata, e na concepção da forma de intercâmbio intimamente ligada a este modo de produção e por ele produzida, ou seja, a sociedade civil nos seus diversos estágios, como base de toda a história, e bem assim na representação da sua ação como Estado, explicando a partir dela todos os diferentes produtos teóricos e formas da consciência – a religião, a filosofia, a moral, etc – e estudando a partir destas o seu nascimento”. (Capítulo I, parte II)

A primeira vista, a leitura desse parágrafo pode ser complicada ou confusa, portanto, é bom separarmos termos específicos que nos ajudem a compreender o que está sendo dito. Quando Marx diz que essa nova concepção (o materialismo histórico) se baseia no “desenvolvimento do processo real da produção, partindo logo da produção material da vida imediata”, precisamos pegar o ponto de partida dessa mesma concepção, ou seja, entender o que é chamado de “produção da vida material”.

Antes de explicar o que é produção da vida material, é necessário fazer uma rápida contextualização: Na história da humanidade, nós precisávamos criar (produzir) os meios que nos permitissem sobreviver. Para criá-los, precisamos interagir com a natureza, modificando-a de maneira que nos permita produzir e reproduzir esses meios, de um jeito que nos beneficiasse e ajudasse no nosso desenvolvimento em geral. Durante essa interação com a natureza, adquirimos relações não só com a natureza, mas também com outros indivíduos e objetos. A esse processo de interação entre o homem e a natureza nós damos o nome de trabalho. É ele a condição direta e fundamental do desenvolvimento da humanidade.

Agora, retornando a nossa pergunta central: O que é a produção da vida material? Marx nos responde no mesmo livro quando diz: “[…] e a produção desta vida material, o trabalho […]” (Capítulo I, parte IV), ou seja, definimos a produção da vida material como o trabalho. E como foi mostrado na contextualização, adquirem-se também relações durante o trabalho. Nisso, entendemos que vida material é a totalidade do processo do trabalho, ou seja, além da própria interação do homem com a natureza, também as outras relações que são adquiridas com isso.

Mas o que isso tudo quer dizer? Para que serve o materialismo histórico?

A partir dessas explicações, nós podemos definir assim: o materialismo histórico é uma forma de analisar a realidade partindo do trabalho e das relações que se adquirem com ele. Ou seja, nós usamos o materialismo histórico para perceber que a grande crítica que deve ser feita está bem na base; na totalidade do trabalho, isto é, em como se produz.

No modo capitalista de se produzir procura-se o lucro e os grandes meios para se produzir estão sob controle de poucas pessoas. Dessa maneira, todas as outras relações que os diversos trabalhadores irão adquirir serão influenciadas pelo modo que se está produzindo essas coisas. É por isso que defende-se uma mudança de estrutura geral da sociedade, já que mudanças na superfície jamais acabarão com o real problema: a forma de se produzir.

“A revolução não é necessária só porque de nenhum outro modo a classe dominante pode ser derrubada, mas também porque a classe que a derruba só numa revolução consegue sacudir dos ombros toda a velha porcaria e tornar-se capaz de uma nova fundação da sociedade”. (Capítulo I, parte II)

Referência:

MARX, Karl. A Ideologia Alemã. Capítulo I disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/index.htm