O cinismo de Paulo Guedes e o pecado original

Por Kayque Souza

Quando Marx decide mostrar o capitalismo surgindo na história a partir de um processo de acumulação primitiva no qual expropria camponeses, servos, a igreja, etc, além de passar a limpo a ideia de um progresso na história ou de uma universalidade de interesses humanos que teriam um “acordo comum”, ele também passa a limpo a versão abstrata e quase mítica do pecado original, só que não do ponto de vista da teologia, mas da economia, não tendo a origem da corrupção, mas da pobreza. A alegoria se desenvolve mais ou menos assim:

Se na teologia Adão comeu o fruto proibido e por isso o homem foi condenado a viver do próprio suor para se alimentar, na economia algo parecido acontece. O bom burguês, ou a elite laboriosa, absteve-se do consumo imediato, guardou ou poupou parte do que rendia em seu trabalho e como prêmio acabou acumulando cada vez mais e, por essa acumulação, a sua riqueza aparece a ponto de não necessitar tanto trabalho ou trabalho algum diante do tanto acumulado, havendo a possibilidade de delegar estas tarefas a outros; esses outros, as quais as tarefas são delegadas, são pressupostos como sujeitos que não têm possibilidade alguma de sobreviver a não ser se vendendo enquanto força de trabalho.

Mas, para que cheguem a essa condição, algo foi necessário ocorrer. Este algo que a versão econômica do pecado original conta é que estes outros, ou “súcia de vagabundos”, como diz Marx, de forma mais escrachada a despeito de tradução ou edição, não se torna despossuída por razão nenhuma a não ser pelo fato de ter consumido tudo de maneira desenfreada, da forma mais animalesca possível até esgotar tudo. O pecado deste é uma radicalização da versão bíblica. Se por um lado comer do fruto proibido condenou Adão e os homens, por outro, o consumo desenfreado reduziu os produtos dos seus trabalhos a nada, e os condenou a miséria a não ser que se vendessem aos heróis burgueses que se deram ao trabalho de poupar seu consumo.

Assim o cenário está pintado. O dono do capital só é dono do capital porque ao invés de consumir, capitalizou; e o trabalhador consumiu tudo e por isso não enriqueceu. Ou como diria nosso excelentíssimo ministro e açougueiro: ‘‘Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo”. Toda a história da economia-política se desenvolve em cima deste mito. Mas Marx, fazendo o papel do historiador que nada contra a corrente, escova a história a contrapelo, mostra que não é este conto da teologia adaptado ao mundo dos homens ou as escolhas de vida mal feitas que deixaram ao trabalhador essa condição de mero consumo desenfreado. Foi a pilhagem, os assassinatos, as expropriações e o horror que tiveram um papel fundamental. O trabalhador torna-se trabalhador pois ele é literalmente forçado a isso, saqueado, despossuído, liberto de tudo a não ser da própria pele para ser vendida enquanto força de trabalho.

A sua força de trabalho é sua sobrevivência e o salário é a verdade disso e, segundo sua lógica, somente paga a própria sobrevivência. Não é de assustar que o trabalhador consuma tudo, já que o seu ganho é justamente para sobreviver e, no dia seguinte, repetir o maçante processo de trabalho. A poupança torna-se impossível e toda a vida torna-se um jogo de cartas marcadas. O que nos causa revolta, porém, é que a versão fantasiada revisitada da religião, passada para a economia-política do pecado original se repete como a farsa do capitalismo que, na figura do capitalista, acumula de forma cega e, por isso, não enxerga os limites.

Nós sabemos que o horror do trabalhador e de quem é oprimido todos os dias é na verdade a própria realidade deste, a sua expropriação, o seu assassinato, o seu saqueamento. Essas palavras tornam-se o belo discurso na boca de Guedes e retornam no nosso tempo, pois a Ideologia se radicaliza tanto a ponto de perder a mão no cinismo que lhe acompanha, e o choque no qual este horror causa aos trabalhadores torna-os uma massa desorientada enquanto o rolo compressor os esmaga. Estas palavras só podem ser repetidas como farsa sob esta condição, a da naturalização do cinismo vindo da ideologia radical de um capitalismo que não enxerga limite algum.

Ao mesmo tempo em que reproduz a sua própria (des)ordem, a convulsão do próprio sistema é criada a partir dele mesmo e, como diria Marx: A hora derradeira da propriedade privada capitalista chega onde os expropriadores serão expropriados e os propagadores do horror estarão horrorizados com a sua queda produzida vinda de si mesmo. O convite está aberto e anuncia-se o tempo todo. E esta é a urgência do nosso tempo que nos berra dia após dia, mas não exigindo uma liberação de pura negatividade, mas a objetividade dos anseios por uma libertação que se possibilita todo tempo e a cada disparate destes senhores, que por ter o monopólio do horror julgam-se inatingíveis, mas mal sabem que dão a possibilidade da sua derrocada que precisa ganhar forma, já que seu potencial negativo está aí.

Produção Humana: por um trabalho não-alienado

Por Pedro Nogarolli

[Este texto é a continuação/resolução do texto Propriedade privada e alienação]

Marx, em seus manuscritos de Paris, no capítulo “produção humana” faz a seguinte hipótese: suponha que produzíssemos como seres humanos, isto é, produzíssemos de forma não-alienada. Como isso seria? Em homologia direta ao trabalho alienado, partiremos para três aspectos desse trabalho não alienado:

• A relação do trabalhador com sua atividade.
• A relação do trabalhador com os frutos de seu trabalho.
• A relação do trabalhador consigo e com o outro.

1) Na minha produção, ao contemplar minhas criações, confirmaria minha própria personalidade como um poder real. Isso é, sentiria a felicidade de provar minha própria individualidade, ou aquilo que me faz especial no mundo.

2) No consumo do meu produto por outro, sentiria a alegria espiritual espontânea de saciar uma necessidade humana, de fornecer a outro aquilo que ele precisa.

3) Por último, eu seria reconhecido como complemento do seu ser, uma parte necessária da sua vida, portanto realizaria a mediação entre os indivíduos e o próprio gênero humano. Sintetizando tudo, temos: na manifestação da minha individualidade, me contemplando naquilo que me torna especial, ao mesmo tempo também me alegro por satisfazer uma necessidade humana e sirvo de realização da sua vida.

“Nossas produções seriam como que tantos espelhos que irradiariam a nossa essência entre nós”.

• Mas, sob a propriedade privada, o trabalho é alienação das nossas vidas, é um borrão nesses espelhos, pois o trabalho serve apenas de um meio para viver, e não como realização de nossas vidas. Meu trabalho não é minha vida. Além disso, o trabalho se tornou tão alienado que minha produção é detestável, uma causa de sofrimento, que me é imposta a força por uma casualidade, um constrangimento desnecessário. Meu trabalho sob a propriedade privada é a perda de mim mesmo.

Referência:

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm

Socialista pode ter iPhone?

Por Vinícius Fontoura

Dos smartphones, serviços de streaming e os mais diversos aplicativos e facilidades para nosso cotidiano, o modo capitalismo trouxe muitos avanços, e Marx inclusive ressalta isso tratando do alto desenvolvimento das forças produtivas que este modo trouxe. Por outro lado, encontramos nas mais fracas argumentações o ponto de que “É socialista, mas tem iPhone” ou qualquer outra coisa envolvendo comunismo e possuir determinado bem. Qual a contradição nisso?

A resposta é curta e direta: nenhuma.

Não há absolutamente nada que diga respeito a alguém defender um modo de produção diferente enquanto utiliza de algum bem produzido >em< determinada sociedade. E ressaltamos o “em” porque esse mesmo bem também poderia ser produzido, por exemplo, em uma sociedade socialista.
Outro aspecto citado é o de que o “Fetichismo da Mercadoria” trataria justamente disso, já que o iPhone seria um smartphone mais caro que os demais, então a pessoa estaria colocando um “fetiche” sobre ele, o que implicaria em uma contradição para os comunistas.

Isso está absolutamente errado.

O Fetichismo da Mercadoria não trata de consumo, nem é uma crítica a este. Esse conceito trata da >produção< sob o modo capitalista. O Fetichismo é a ilusão que esconde o processo de exploração capitalista e as relações envolvidas na produção através da expressão da Mercadoria enquanto preço. É a substituição da essência (de todo trabalho gasto na produção) pela aparência (a simples expressão de determinada quantos de dinheiro).

Do mesmo modo, seria também estupidez contra-argumentar, por exemplo, um servo medieval que criticaria o modo servil porque este estaria utilizando de roupas e alimentos produzidos por este modo. Tal qual seria estupidez fazer o mesmo com um escravizado que se rebelasse contra o modo escravista por este estar usando ferramentas e roupas produzidas por este modo.

A crítica de Marx não é pautada em como um comunista deve ou não viver no capitalismo, mas sobre o modo de produção em sua totalidade, muito além do indivíduo.

Marx está morto? Resposta ao Terraço Econômico

Por João Neto Pitta

A página Terraço Econômico, pela autoria do Sr. Paulo André Silveira, agraciou-nos com um artigo cheio de equívocos sobre Marx [1]. O texto logo serviu de abrigo para os variados difamadores e inimigos do barbudo alemão, que o celebraram como a prova cabal de que não é apenas o corpo físico do mouro que está desintegrado em um caixão, mas também todo o corpo teórico que ele produziu em vida.

Resta saber se, ao cavar o buraco pra enterrar as ideias do barbudo, o autor do artigo não terminou caindo nele por descuido. É isso que estamos prontos pra defender neste texto.

O artigo começa dizendo que a única importância em se estudar  Marx é como forma de compreender “as raízes da disciplina’’ (suponho que ele esteja falando da economia política), mas que usá-lo pra compreender o mundo atual é “regredir no conhecimento’’, pois o marxismo não teria ferramentas teóricas sofisticadas pra explicar, por exemplo, a crise de 2008. 

Indo de encontro a essa percepção frágil, indicamos o artigo do aclamado economista marxista Andrew Kliman, “A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx’’[2], em que ele destrincha justamente sobre o que o Sr. Paulo André julga impossível. Cockshott, Cottrell [3] e Shaikh [4] também são exemplos de marxistas com produção empírica acerca de variados assuntos da atualidade.

Nesta parte introdutória do artigo, há muitas afirmações panfletárias e pouquíssimas justificações, o que torna desnecessário responder a cada uma delas. Vamos agora rebater o que há de substancial em sua crítica.

Paul Cockshott durante fala em palestra.

A primeira alegação do autor do artigo alvo de nossa resposta é: Marx teria, como defensor da Teoria do Valor-Trabalho (daqui em diante chamaremos de TVT), deixado de lado casos específicos que supostamente colapsariam o seu sistema teórico. O vinho é uma dessas especificidades que o autor alega que Marx teria omitido, pois “o valor de troca do vinho é acrescido depois de anos de armazenamento’’. No entanto, essa afirmação é drasticamente mentirosa. No segundo volume d’o Capital, mais especificamente no capítulo “Tempo de Produção’’, Marx ilustra o exemplo do vinho como algo que está completamente de acordo com seu arcabouço teórico. Diz o barbudo:

Mas o próprio processo de produção pode exigir interrupções no processo de trabalho e portanto no tempo de trabalho, intervalos durante os quais o objeto de trabalho é exposto ao efeito de processos físicos, sem colaboração adicional de trabalho humano. O processo de produção e portanto a função dos meios de produção, continua, nesse caso, embora o processo de trabalho, e portanto a função dos meios de produção enquanto meios de trabalho, esteja interrompido. Assim, por exemplo, o grão que é semeado, o vinho que fermenta na adega, o material de trabalho de muitas manufaturas, como curtumes, sujeito a processos químicos. O tempo de produção é aqui maior que o tempo de trabalho. A diferença entre ambos consiste num excedente do tempo de produção sobre o tempo de trabalho. Esse excedente sempre se baseia no fato de que o capital produtivo se encontra latente na esfera da produção, sem funcionar no próprio processo de produção, ou que funciona no processo de produção sem se encontrar no processo de trabalho […]” (p. 90) [5] (grifo nosso)

Ou seja, o tempo sob o qual os processos físicos atuam, ainda que não diretamente manuseados pelo trabalho, são também parte do processo de produção e, portanto, condições para efetivação do trabalho socialmente necessário. Como podemos perceber, tal caso, longe de ser omitido pelo barbudo alemão – como o Sr. Paulo André falsamente alegou – foi citado por Marx como exemplo de como, no seu sistema teórico, funciona a produção de valor. Tal erro não me parece muito escusável pra quem se julga habilitado a enterrar um pensador tão relevante. Mas prossigamos.

Desenvolvendo sobre a mais-valia, o Sr. Paulo André diz: “Em última instância, a mais-valia é o lucro do capitalista’’. Em primeiro lugar, essa afirmação não é absolutamente errada, mas ela supõe um grau de abstração que, se não for devidamente contextualizada, poderá causar erros no futuro. Em suma, há uma diferença entre mais-valia e mais-valia realizada na circulação, em que só a segunda se confunde diretamente com o lucro. Por exemplo, no caso citado em que se trabalha por 12 horas, sendo 6 destas de trabalho excedente. Percebe-se que a mais-valia é realizada na esfera da produção (as 6 horas já foram tomadas), mas ela não necessariamente será realizada durante a venda de determinada mercadoria (enquanto lucro). Feitas as correções, vamos ver qual é de fato a crítica do autor acerca deste tema. Ele diz:

“Só há um problema: a mais-valia é uma falácia. Assim como aponta Russel, não há como provar que o trabalho é o único denominador comum de uma série de coisas distintas. Tampouco se pode provar como isso se traduz em relevância’’

Em nenhum lugar do artigo ele explicita que série de coisas são essas que Marx deriva a partir do trabalho e nem o motivo de isso ser uma falácia. Não há qualquer fundamento, só uma divagação vaga e solta, aguardando um leitor desinformado. Mas, ainda sim é importante deixar claro que valor em Marx é medido pela seguinte equação:

m= c + v + s, onde

m: Valor

c: Capital Constante

v: Capital Variável

s: Mais-valia

Em que os fatores de produção (c+v), ou seja, capital constante (maquinaria) e capital variável (salários) – que naturalmente são as instâncias causadoras do valor – são advindos direta ou indiretamente do trabalho.

Marx foi suficientemente honesto para traçar as exceções pontuais, dentre elas: objetos que possuem valor de uso, mas não possuem valor – no sentido de trabalho empregado (como as terras virgens, o ar, o oxigênio) e também os casos em que algo pode assumir a forma-mercadoria, e ser precificado, mesmo sem ter um valor (como a honestidade, o amor, etc).

Por outro lado, tratando ainda da relevância do trabalho como denominador comum de mercadorias – e não algum outro tipo de coisa – chegamos a duas abordagens diferentes: uma histórica e outra sociológica. Da primeira parte, em um brevíssimo resumo do desenvolvimento humano, notamos o trabalho (a interação do homem com a natureza) como a ferramenta que permite ao ser humano, pela primeira vez, produzir seus meios de subsistência e satisfação. Fato que permite também sua reprodução e sobrevivência aos milênios que passam. Da parte sociológica, entendemos que é a partir do trabalho social, isto é, do trabalho para produzir uma mercadoria em determinada condição, com uma intensidade média e habilidade média de trabalho, que se percebe algumas características sobre a produção em determinada sociedade, como o nível de desenvolvimento de suas forças produtivas. Outro aspecto (de uma mescla entre o social e o histórico) é o de que, justamente por ser o trabalho a categoria fundamental da reprodução humana, também é fundamental a forma que em que ele está organizado em sociedade para definir as relações sociais desta.

Onde está a falácia aqui, Sr. Paulo André? Gostaríamos de ler os seus fundamentos.

Monumento de Karl Marx, em Karlovy, na República Tcheca.

O crítico de Marx diz em seguida:

“Além disso, considerando o sistema de livre concorrência admitido por Marx, o que impediria um capitalista de abrir mão da própria parcela de valor apropriado pra vender um preço menor do que a concorrência.’’

Nada impediria isso enquanto escolha puramente isolada, entretanto, isso impede a realização de seu lucro, uma vez que, para lucrar, ele precisa realizar, além dos valores referentes ao preço dos fatores de produção (c + v), valor da mais-valia (s), ou, caso contrário poderá ter sua taxa de lucro (r) comprometida, levando em conta que r= s/(c + v). Em outras palavras, ele não pode simplesmente deixar de apropriar e/ou realizar parte de seu valor sem sofrer fortes custos por conta disso.

Prosseguindo no texto, o próximo parágrafo já traz uma nova crítica:

“Dado que o valor seria determinado pelo trabalho humano indiferenciável, o que explicaria um caso típico da Inglaterra do século XIX: por que há diferenças de remuneração entre um advogado conselheiro da rainha e um advogado qualquer?’’

Aqui o Sr. Paulo André faz uma confusão entre a determinação do valor e a determinação da remuneração. O fato de o valor ser determinado pelo trabalho abstrato (indiferenciável) não significa que todos os trabalhadores que possuem a mesma função receberão o mesmo salário, mas que existe um fator unificador entre as diferentes qualidades especificas de cada trabalho, esse fator é o dispêndio de nervos e músculos necessário para a realização do labor (isso é o que chamamos de trabalho abstrato e indiferenciável).

A remuneração do trabalho de um advogado, como trabalho autônomo, depende de inúmeras circunstâncias sociais, como sua visibilidade e o custo de suas causas processuais. Isso em nada refuta a teoria marxista do valor. Deixarei pra explicitar mais sobre o que determina a remuneração do trabalho logo a seguir.

Vamos agora a um dos erros mais absurdos cometidos em todo o texto:

“A respeito dos salários, caso eles sejam iguais ao tempo necessários para produzir as condições mínimas de sobrevivência, a mera existência de um assalariado num nível diferente de remuneração invalida o argumento inicial.’’

Ainda sobre isso:

“Isso acontece porque as ditas ‘condições mínimas’ são decorrentes de fatos históricos. Não se trata de lógica, dado que reivindicações sindicais, por exemplo, poderiam melhorar a remuneração dos trabalhadores. A mais-valia, porém, foi descoberta e demonstrada por Marx a partir de evidências contábeis. Esses registros corroboram a tese de que parte do valor produzido é destinado aos salários e o restante aos lucros. Entretanto, a ausência de evidência não é a evidência de ausência.”

Estamos diante da prova mais concreta de que Sr. Paulo André não leu Marx, pois ele acaba de usar justamente os argumentos do próprio Marx para refutar esse frágil espantalho oriundo de sua cabeça ao qual ele deu o nome de Marx. Para alguém que se mostra arrogante em diversos trechos do texto, isso é no mínimo irônico. Vou embasar o que estou dizendo, porque tenho respeito aos meus leitores. Vamos lá.

Primeiro: “A respeito dos salários, caso eles sejam iguais ao tempo necessário para produzir as condições mínimas de sobrevivência’’ Está errado. Para Marx, esse é apenas o limite inferior que o salário pode ter no capitalismo, uma vez que: se os salários forem menores do que o necessário para a subsistência fisiológica do trabalhador, não haverá mais força de trabalho (pois o trabalho depende da energia bioquímica que advém das propriedades qualitativas dos alimentos consumidos). Você não precisa ser marxista pra concordar com isso.

Ao julgar que para Marx o salário será necessariamente sempre igual ao mínimo fisiológico para a sobrevivência do trabalhador, o Sr. Paulo André está o acusando de defender a lei de bronze dos salários; a grande ironia em questão, é que tal lei foi refutada na época pelo próprio Marx em suas críticas a Lassalle no livro “Critica ao Programa de Gotha’’.

Engels sobre o assunto, de uma carta a August Bebel:

Em terceiro lugar, a nossa gente deixou que lhe impusessem a «lei de bronze do salário» lassalliana, baseada numa concepção económica inteiramente caduca, a saber: que o trabalhador não recebe, em média, mais do que um salário mínimo e isto porque, segundo a teoria malthusiana da população, há sempre trabalhadores de sobra (era esta a argumentação de Lassalle). Ora bem: Marx demonstrou, minuciosamente, em O CAPITAL, que as leis que regulam os salários são muito complexas, que tão depressa predomina um fator como outro, segundo as circunstâncias; que, portanto, esta lei não é, de modo algum, de bronze, mas, pelo contrário, muito elástica, e que o problema não pode ser resolvido assim, em duas palavras, como pensava Lassalle. A fundamentação que Malthus dá da lei de Ricardo (falseando este último), tal como pode ver-se, por exemplo, citada noutro folheto de Lassalle, no «Manual do trabalhador», página 5, foi refutada exaustivamente por Marx, no capítulo sobre «a acumulação do Capital». Assim, pois, ao adotar a «lei de bronze» de Lassalle, pronunciaram-se a favor dum princípio falso e duma demonstração falaciosa […]”. [6]

Como diz Engels, para Marx, as leis que regulam o salário são demasiadamente elásticas e complexas, isto porque tal determinação depende de fatores exógenos e sociopolíticos que envolvem, em certa medida, a disputa das duas classes antagônicas do processo produtivo pelo excedente.  Exógena porque ela dependerá das flutuações entre vitórias e derrotas no meio político (ou seja, fora do processo produtivo). Reivindicações sindicais, portanto, fazem parte desse processo de luta pelo excedente, aliás, ela revela a profunda luta pelo excedente entre as classes, pois, no meio político, há forças que atuam justamente para baixar tais “encargos trabalhistas’’, o estado/desenvolvimento dessa luta varia geograficamente e historicamente em cada país (isso Marx reconhece no primeiro volume d’o Capital).

O Sr. Paulo André, em sua inglória tentativa de refutar Marx, terminou confirmando a luta de classes.

Friedrich Engels e Karl Marx discutindo, pintura de G. Goron.

Sigamos.

“Isso levou a um erro de dedução, que se desdobra numa proposição absurda: a participação do empresário no processo produtivo não envolve trabalho e tampouco acrescenta valor à mercadoria’’.

Aqui temos mais um erro fruto de uma leitura extremamente pobre de Marx (eu estou convencido de que nem sequer houve leitura).  A participação do empresário, em termos marxianos, não acrescenta diretamente valor às mercadorias, mas indiretamente, por exemplo: ao organizar os fatores de produção capital e trabalho para garantir a maior produtividade, ao usar métodos normativo/gerenciais pra tentar extrair a maior eficiência possível de seus trabalhadores (o que depende de métodos organizacionais e administrativos) etc. Fora isso, os empresários também usam métodos de Marketing necessários para transformar o m’ (mercadoria produzida) em d’ (dinheiro da venda), e, portanto, realizar o valor potencial criado no processo de produção.

Mas quem de fato assume o maior custo social no processo de produção, quem produz diretamente o valor, é o trabalhador, no entanto, é quem recebe em troca a menor remuneração dentro da cadeia produtiva. Portanto existe sim uma função social que é assumida pelo capitalista, Marx a reconhece.

Na segunda parte do artigo do Sr. Paulo André, a crítica é direcionada para a concentração de capital, ele começa dizendo:

“No conjunto de ideias em questão, a concentração de capital é praticamente uma lei. Após o fim do artesão, proprietário (detentor) das ferramentas matérias e intelectuais (meios de produção) necessárias para a produção econômica, restam dois papéis a serem desempenhados numa sociedade: o capitalista, detentor exclusivo desses meios, e o proletário, desapropriado dos mesmos.’’

Mais um erro grotesco para a nossa lista. Em momento algum Marx reduz, o papel que os indivíduos podem ocupar em sociedade, a dois. Há uma série de trabalhos que estão fora do âmbito produtivo. Além de Marx reconhecer a existência de inúmeras outras classes no “18 de Brumário’’ [7]. A questão, porém, é que há um protagonismo destas duas classes na produção MATERIAL de riqueza, naquilo que constitui a essência do que Marx chama de forças produtivas. Fica claro, portanto, que tal critica é só mais uma das inúmeras vulgarizações presentes neste artigo. Vamos para o próximo ponto.

“Mas há uma inconsistência: a tendência à concentração de capital contradiz a teoria marxiana do valor. Se a produção em escala leva ao barateamento da produção, horas de trabalho não determinam os custos de maneira exclusiva […]”

A confusão feita aqui é em relação à natureza do valor tal como entendido pelo barbudo. O valor possui uma substância (trabalho), uma medida de magnitude (tempo de trabalho) e uma forma (wertform), tais elementos funcionam em um conjunto operativo (é impossível a teoria do valor ser entendida sem isso). O Sr. Paulo André critica Marx levando em conta apenas a magnitude do valor e cai, por isso, em um erro crasso. Vamos desenvolver isso um pouco mais.

O valor não é uma propriedade simplesmente aderida às coisas pelo trabalho, porque todo trabalho é dispendido em um arranjo societário em que ele é necessariamente comparado a outros trabalhos no processo de troca.  Dessa forma, a magnitude do valor (tempo socialmente necessário) vai variar conforme a diminuição do trabalho abstrato necessário; o que, por sua vez, é justificado pela diminuição do trabalho concreto fruto do desenvolvimento técnico-material na produção (aumento de produtividade). Assim os custos são diminuídos. Entenda que esse exemplo, mais uma vez, ao invés de refutar Marx, confirma.

Em geral, a magnitude do trabalho depende do tempo médio necessário que uma sociedade, com seu grau médio de tecnologia, leva para produzir riqueza. Na prática, em uma situação de concorrência, temos três possibilidades nas quais cada firma pode se enquadrar individualmente, elas podem: 1) produzir em um tempo superior a esta média social; 2) produzir mais ou menos próximo a essa média de tempo; 3) produzir em um tempo inferior a esta média de tempo (são as que geralmente conseguem a partir de um aumento de produtividade). O resultado óbvio disso é que as firmas que estão situadas no terceiro caso vão conseguir reduzir custos, cobrar preços mais baratos e vender mais, aumentando, por isso, a sua concentração de capital.

Contudo, algo que não é nem mencionado pelo Sr. Paulo André, é que a tendência à concentração de capital em Marx depende de certas circunstâncias sociais plenamente delimitadas, ela não se dá meramente ‘ipso facto’ como algo determinado pela natureza. Existe um capítulo do curso de economia política de Paul Singer em que ele inclusive mostra como a tendência a concentração de capital pode explicar a concentração de capital no Brasil a partir de 1962. [8]

Portanto, Sr. Paulo André, diferente do que você disse, nem a mais-valia e nem a teoria do valor são refutadas por isso. Aliás, parece mesmo que o Sr. só conhece a mais-valia absoluta, nem sequer leva em conta a mais-valia relativa e a extraordinária, que são as expressões mais comuns em que a exploração do trabalho é expressada nos casos de aumento da composição orgânica de capital e de concentração de capital.

Levantando a bandeira, pintura de Gely Mikhailovich Korzhev-Chuvelev .

Certa vez, sendo questionado sobre as constantes distorções e adulterações feitas em suas obras, Marx ironizou que, se fosse pra responder cada uma delas, precisaria de ao menos uns 20 funcionários.  Esse artigo é mais uma resposta às inúmeras distorções sobre Marx que inundam a internet.

Para encerrar deixo um questionamento: Se Marx é um teórico tão fraco assim, e de ideias tão atrasadas, por que vocês precisam metamorfoseá-lo a simplificações tão torpes e drasticamente erradas?  

“É nesse quadro de referências que deve ser feito com todas as letras o registro de que o capital celebra na atualidade a morte de Marx e o enterro da esquerda, e interrogado também porque o faz incansável e reiteradamente. Se não restam senão cadáveres, por que da intranquilidade do capital e de seus vozeiros? Por que têm eles que praticar diariamente o assassinato do velho filósofo alemão e proclamar sem descanso a extinção da perspectiva de esquerda? Desconfiam, decerto, que tudo não passa de mais uma de suas ilusões voluntárias. De fato, a morte de Marx é uma missa cotidiana no altar do medo’’ (José Chasin). [9]

Referências:

[1] SILVEIRA Jr, P. A. Marx está morto. Disponível em: https://terracoeconomico.com.br/karl-marx-esta-morto/

[2] KLIMAN, Andrew. A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx. Disponível em: http://outubrorevista.com.br/wp-content/uploads/2015/11/3_Andrew-Kliman.pdf

[3] COCKSHOTT, Paul; COTTRELL, Allin. The Scientific Status of the Labour Theory of Value. Disponível em: http://users.wfu.edu/cottrell/eea97.pdf?fbclid=IwAR2h5Uitx3gPTY1QwJPYyZIcM9cU6HhaHdnPMRMB9kPYupUS_ArmMkbfpeg

[4] SHAIKH, Anwar M. The Empirical Strength of the Labour Theory of Value. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/0BxvNb6ewL7kOdWhYSEI4OVJHTkk

[5] MARX, Karl. O Capital (volume 2). Disponível em: https://cursosobreocapital.files.wordpress.com/2017/06/marx-o-capital-livro-2-os-economistas-nova-cultural.pdf

[6] ENGELS, Friedrich. Carta a August Bebel, em 1875. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1875/03/28.htm

[7] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luis Bonaparte. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/index.htm

[8] SINGER, Paul. Curso de Introdução a Economia Política. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/857921/mod_resource/content/1/Singer%2C%20Paul%20-%20Curso%20de%20introducao%20a%20economia%20politica.pdf

[9] CHASIN, José. A morte da esquerda e o neoliberalismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/chasin/1989/mes/morte.pdf

Os lucros estão encolhendo e é você quem está pagando a conta

Gabriel Brasileiro

Análises dialéticas do capitalismo são capazes de evidenciar as mais diversas contradições vigentes nas entranhas desse sistema. Estando dentre tais contradições a lei da queda tendencial da taxa de lucro (LQTTL), esta, apontada por Marx, cuja validade expressa para muitos o fundamento da derrocada do capitalismo. Contudo, ao contrário do que talvez se imagine, Marx não foi o precursor teórico dessa lei. Certo que, como expõe Andrew Kliman [1], Adam Smith e David Ricardo já defendiam sua validade. Tendo cada um explicado à sua maneira esse fenômeno [2]. De acordo com Adam Smith, a queda ocorre devido ao excesso de capital empregado. Já David Ricardo, desenvolveu sua explicação utilizando sua noção de lei dos rendimentos decrescentes aplicada à agricultura. E, finalmente, Karl Marx teorizou que a tendência de queda da taxa de lucro é resultado da mecanização, que diminui a participação do trabalho humano na produção, a fonte concreta do lucro por meio da mais-valia. No entanto, independente de qual explicação seja a correta e diante de críticas à LQTTL, a averiguação empírica do fato histórico prevalece: As taxas de lucro demonstram tendência à queda em vários momentos da história; como será demonstrado adiante. 

Contudo, antes de mais nada, faz-se necessário expor a definição de taxa de lucro. Segundo Esteban E. Maito [3]:

“Em termos marxistas, a taxa de lucro é calculada a partir da razão entre lucros e, do outro lado, capital investido em maquinaria, infra-estrutura (capital constante fixo, FCC), insumos (capital circulante constante, CCC) e salários (capital variável, VC).”

Tendo em seu estudo constatado que a taxa de lucro em países tomados como centrais do capitalismo (Alemanha, EUA, Holanda, Japão, Reino Unido e Suécia), desde o século XIX, vem a apresentando uma tendência ao decaimento. Enquanto os países tomados como periféricos (Argentina, Austrália, Brasil, Chile, China, Coréia, Espanha e México), com dados datados a partir da metade do século XX, também vêm apresentando a mesma tendência.

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Andrew Kliman, também considerando a taxa de lucro como a razão entre o lucro e o capital investido, chegou a conclusões semelhantes analisando o histórico da taxa de lucro americana. Em seu caso, Kliman utilizou quatro definições distintas de lucro, os rendimentos de propriedade, o excedente operacional líquido, os lucros pré-impostos e os lucros pós-impostos, explicados a seguir [4]: 

“A medida mais inclusiva dos lucros é a que eu chamo de ‘rendimentos de propriedade’ (property income), o valor adicionado bruto menos a depreciação e as remunerações dos empregados. O excedente operacional líquido exclui, adicionalmente, impostos indiretos sobre os negócios líquidos (impostos sobre vendas, etc). Lucros pré-impostos são o excedente operacional líquido menos juros, transferências e pagamentos diversos, e os lucros pós-impostos também excluem a parcela do lucro pré-impostos direcionada ao pagamento do imposto de renda das corporações.”

Considerando todas os conceitos de lucro, constatou que para cada uma das definições houve, nos Estados Unidos, queda da taxa de lucro, com dados datados desde a metade do século XX até 2007.

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Nota-se, portanto, que historicamente é possível observar em economias capitalistas uma tendência ao decaimento das taxas de lucro. Todavia, é importante ressaltar que Marx não trata a LQTTL como uma tendência constante durante todo o capitalismo, a qual escatologicamente levaria ao seu colapso. O ponto de Marx, diferente dos demais clássicos — que acreditavam que haveria uma constante declinação da taxa de lucro até se alcançar um estado estacionário — é tão somente argumentar que a tendência de queda da taxa de lucro é um fator que gera ciclos econômicos, de crescimento e queda. Segundo Kliman, nada nos escritos do comunista alemão sugere que ele acreditava que a LQTTL era um lei de colapso iminente do capitalismo. Ao contrário disso, Marx pretendia apenas demonstrar que há períodos de queda da taxa de lucro, causados por evoluções técnicas capazes de diminuir a rentabilidade de setores da economia, que tornam o ambiente econômico propício a crises, devido à propensão à superprodução e especulação excessiva nesses períodos com o objetivo de preservar os lucros [5]. Crises estas que, quando superadas, permitem que as taxas retomem o crescimento, voltando a economia a se expandir até que em algum momento volte se retrair. A teoria de Marx, portanto, descreve cenários cíclicos, não um cenário de estagnação de longo prazo da economia que persiste durante toda vida do capitalismo[6]. A partir disso, é possível inferir que, mesmo que a economia capitalista estivesse apresentando aumento da taxa de lucro ao longo da história, tal aumento ainda estaria sujeito a momentos de tendência de queda da taxa de lucro, que eventualmente voltariam a crescer devido a algum aprimoramento técnico etc. Por exemplo, mesmo que o controverso estudo de Michel Husson, que propõe que a partir do final de 1960 até 2007 as taxas de lucro americanas tiveram uma tendência ascendente [7], esteja correto, seu modelo não consegue erradicar a existência de momentos de decaimento da taxa de lucro que depois se recuperaram. Cuja queda de rentabilidade natural ao mercado pode ser um fator contribuidor para tal.

Curiosamente, Kliman oferece uma explicação para a LQTTL sob uma ótica que desconsidera a teoria do valor de Marx, mas que demonstra que o aperfeiçoamento técnico substituidor de trabalho humano realmente tem o potencial de fazer taxas de lucro decaírem. Mesmo que a teoria do valor de Marx esteja errada, ainda é possível entender a LQTTL tão somente a partir da crescente produtividade observada no capitalismo, que barateia os custos de produção de mercadorias através da disponibilidade crescente de equipamentos substituidores de trabalho, pressionando os capitalistas a diminuírem os preços de venda a fim de se manterem competitivos, o que faz com que a lucratividade de vários setores decaiam. Citando Alan Greenspan, ex-presidente do FED e ótimo representante do neoliberalismo financeiro, que reconhece a recorrência desse fenômeno — “perda do poder de precificação dos negócios”, em suas palavras — [8], Kliman demonstra, portanto, como a conclusão de Marx estaria certa mesmo que sua teoria do valor estivesse errada. “Porque as novas tecnologias economizam trabalho, elas tenderão a reduzir o valor das mercadorias e (tudo mais sendo igual) reduzir preços por toda a economia.”, diz Kliman em outro artigo chamado “O Teorema de Okishio” [9]. Onde ele argumenta que Nobuo Okishio, um grande economista marxista e crítico da LQTTL, ao partir do pressuposto de que uma economia mais produtiva é necessariamente a mais rentável, ignorou os efeitos de longo prazo descritos acima que fazem as rentabilidades decaírem. No curto prazo, inovações tecnológicas têm, de fato, o potencial de proporcionar maior lucratividade, mas a médio e longo prazo o barateamento de produtos fazem essa tendência se inverter em vários setores.

Esclarecido isso, não parece mais haver grandes polêmicas envolvendo a concretude da LQTTL. Sendo agora necessário esclarecer como os capitalistas podem combater a tendência de decaimento de suas remunerações. Marx sugere no mínimo seis ações contra-tendenciais colocadas em prática pelos capitalistas [10]. Sendo a de maior relevância, para a compreensão da contrariedade dos interesses das classes, a supressão dos salários, esta que também pode ser constatada empiricamente. O que se observa é que, em países desenvolvidos, está havendo uma disparidade entre o crescimento da produtividade do trabalho e o crescimento dos salários, este que cresce em um ritmo menor que aquele. Isso significa que os ganhos de produtividade não estão sendo repassados aos trabalhadores, que se beneficiam menos com os ganhos do trabalho. Segundo a OIT, em seu “Relatório Global sobre os Salários 2016/17” [11]:

“Como referido em edições anteriores do Relatório Global sobre os Salários, o crescimento dos salários médios ficou atrás do crescimento médio da produtividade do trabalho desde o início dos anos 1980 em várias grandes economias desenvolvidas, incluindo a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos, onde além disso a parte do trabalho no PIB diminuiu”

É, portanto, uma tendência observada desde o século passado, o que pode ser ilustrada por este gráfico presente no referido relatório que toma o período entre 1999 e 2015 como referência.

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Especificamente nos EUA essa tendência passou a ser observada a partir da década de 70.

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Como bem descreve o Economic Policy Institute [12]: 

“De 1973 a 2017, a produtividade líquida aumentou 77,0%, enquanto a remuneração horária dos trabalhadores típicos essencialmente estagnou – aumentando apenas 12,4% em 44 anos (após o ajuste da inflação). Isso significa que, embora os americanos estejam trabalhando de maneira mais produtiva do que nunca, os frutos de seus trabalhos foram principalmente atribuídos aos que estão no topo e aos lucros corporativos, especialmente nos últimos anos.”

Isso permite presumir que a supressão dos níveis salariais frente à produtividade é uma maneira de preservar a taxa de lucro dos capitalistas, que temem mais do que tudo a queda de suas taxas de lucro. Ademais, uma possível explicação para essa diminuição no ritmo de crescimento dos salários é a automatização do capital. Pois, como constatou o recente estudo do Brookings Instituion sobre o assunto, o qual analisou 28 indústrias em 18 países da OCDE, de 1970 a 2018, a automatização está sendo responsável por manter os salários baixos, devido ao crescimento lento [13]. Dado que a automatização diminuiu a parcela do trabalho humano no valor agregado da produção. 

Sendo assim, observa-se que, além de a LQTTL ser válida, há um conflito entre as classes de empregadores e empregados. Logo, é inevitável concluir que o sistema capitalista, de fato, passa por grandes contradições. Enquanto a taxa daquilo que movimenta o sistema, o lucro, vem experimentando quedas, os trabalhadores de países cujo capitalismo está maduro não experimentam maiores ganhos salariais, que poderiam ser proporcionados pelo avanço tecnológico. Ao contrário, isso propiciou o aumento lento dos salários ao longo dos anos frente ao aumento da produtividade do trabalho, cujo maior ganho vai para os lucros dos capitalistas, a fim de não haver maiores quedas da taxa de seus lucro. Diante de tudo isso, fica o questionamento, até que ponto o capitalismo persistirá sem gerar o ambiente insuportável de descontentamento generalizado que irá revolucioná-lo?

REFERÊNCIAS:

[1] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 10

[2] http://www.sbpcnet.org.br/livro/62ra/resumos/resumos/3074.htm

[3] https://thenextrecession.files.wordpress.com/2014/04/maito-esteban-the-historical-transience-of-capital-the-downward-tren-in-the-rate-of-profit-since-xix-century.pdf

[4] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 16

[5] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 14

[6] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 14-15

[7] https://www.marxists.org/portugues/harman/2009/10/19.htm

[8] A Grande Recessão e a teoria da crise de Marx, pág. 13

[9] O Teorema de Okishio, pág. 1 

[10] https://blog.esquerdaonline.com/?p=7789

[11] http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/rel_global_salarios_2016_pt_web.pdf

[12] https://www.epi.org/productivity-pay-gap/

[13] https://www.brookings.edu/bpea-articles/is-automation-labor-displacing-productivity-growth-employment-and-the-labor-share/

Não, amigo liberal, a reforma da previdência não irá salvar o Brasil

Gabriel Brasileiro

Em recente estudo desenvolvido pelo Cedeplar/UFMG, tendo em vista o corte dos benefícios previdenciários decorrente da reforma, foi estimado o impacto das variações de renda das famílias sobre o PIB brasileiro em 10 anos. Em um dos cenários projetados, o investimento privado apenas responde à queda da demanda familiar, o que proporcionaria um efeito recessivo na economia. Já no outro cenário, o corte de despesas do governo é totalmente suprido por investimentos privados, o que evitaria o efeito recessivo, porém, trata-se de um cenário demasiadamente otimista. Desse modo, o estudo demonstrou o risco que envolve a reforma da previdência [1].

Ademais, reforçando o risco de impacto negativo sobre o PIB, as evidência empíricas sobre a economia brasileira demonstram que há evidente relação entre o investimento produtivo (despesas destinadas ao aumento da capacidade produtiva) e a demanda final (despesas que não são destinadas ao aumento da capacidade produtiva). Havendo, aproximadamente, um aumento de 2,4% no investimento produtivo para cada 1% de aumento na demanda final [2].

Isso demonstra que a reforma da previdência, ao contrário do que seus defensores alegam, não garante a salvação da economia do Brasil . Mas, se a retirada do estímulo à demanda agregada não tem potencial de estimular o crescimento das taxas de lucro, qual o interesse da elite econômica ao apoiar a reforma? Ora, nos últimos anos, o Brasil apresentou queda da lucratividade acompanhada da queda do investimento, então, não parece haver sentido em apoiar algo que agrave essa situação [3].

Contudo, o que parece ser uma contradição possui uma lógica historicamente bem definida. Limitar o acesso da classe trabalhadora à renda previdenciária é uma forma enriquecer os cofres públicos para depois espoliá-los através do lobby, a fim de a elite econômica tentar recuperar a lucratividade. Sendo exatamente isso o que ocorreu na história econômica brasileira do século XXI até então, um gigantesco acúmulo de riqueza nos cofres públicos na primeira década (Lula) e um esvaziamento dedicado a grupos de interesse na segunda (Dilma). Simplesmente, não há motivos para confiar na burguesia brasileira e em qualquer projeto vendido como salvação.

Então, com ajuda da mídia e das redes sociais, promove-se o terrorismo psicológico observado, vendendo-se a ideia de que, se essa reforma da previdência não passar, a classe trabalhadora enfrentará o apocalipse. E, assim, a classe trabalhadora torna-se refém da elite econômica, que, junto à classe política, perverte a função conciliadora que a democracia brasileira atribui a si. A prova disso foi a revogação feita pelo Bolsonaro, via decreto nº 9.784, do Fórum de Debates sobre Políticas de Emprego, Trabalho e Renda e de Previdência Social, que foi criado em 2015 com o intuito de debater, analisar e propor ações sobre políticas previdenciária, dentre outro temas [4]. Ou seja, os meios conciliatórios foram revogados e a proposta de reforma é empurrada sem um planejamento junto às categorias mais oneradas.

Dito isso, nunca é tarde demais para lembrarmos que, embora seja positivo buscar meios de amortecimento da classe trabalhadora dentro do capitalismo, toda e qualquer luta é infrutífera sem que haja a perspetiva revolucionária de superação do modelo social vigente. Só assim será possível, de fato, acabar com a situação de grande onerosidade constante da classe trabalhadora e não apenas depender de retalhos.

REFERÊNCIAS

[1] https://www.valor.com.br/brasil/6339249/reforma-traz-risco-recessivo-diz-estudo

[2] http://www.excedente.org/blog/de-onde-vira-a-demanda-que-justificara-a-recuperacao-do-investimento/

[3] https://fomentando.files.wordpress.com/2019/05/dissertac3a7c3a3o-bruno-miller-theodosio-completo-e-correto.pdf

[4] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D9784.htm

Previdência: Pare de falar em reforma, defenda a revolução

Gabriel Brasileiro e Arthur D’Elia

O debate entre reformistas e não-reformistas previdenciários sequer faz cócegas na ordem histórica do Capital. Pois, ambos os lados servem ao seu continuísmo, não à sua superação. Certo que ambos estão fincados na proposta de discutir qual é o melhor arranjo do capitalismo que “gera as condições de uma velhice potencialmente confortável, com reservas sociais adequadas, para sacrificá-las aos interesses de sua infernal maquinaria de guerra”, como bem disse Mészáros [1].

Primeiramente é importante entender a situação econômica global na qual a reforma da previdência toma contexto; a situação da crise estrutural do capitalismo global. O que é isso? Quando começa? Bem, começa por volta da segunda metade do século XX, na década de 70. Trata-se de uma crise irremediável de superprodução, a qual é ocasionada pela incessante necessidade do capital de expandir-se, levando a uma permanente ultrapassagem da oferta em relação ao consumo que faz a lucratividade global apresentar queda. É uma crise permanente que, ao contrário da cíclica, não é superada. Para tanto, como recorda Sérgio Lessa [2]:

“A nova qualidade da crise, de cíclica a estrutural, se expressa imediatamente em que a sobrevivência das empresas requer que se aumente a produção com cada vez menos força de trabalho. A contradição do sistema se agudiza: com maior desemprego, o consumo cai, a superprodução se mantém e a crise não é superada. A produção e o consumo tornam-se frenéticos: é preciso fazer quem ainda consome, consumir cada vez mais e, para isso, deve-se produzir cada vez mais e mais barato com cada vez menos trabalhadores.”

Dito isso, parece que o capitalismo está cada vez mais em um beco sem saída. Ademais, corroborando as considerações acerca do momento do capitalismo em sua totalidade desde a década de 70, vale a pena olhar com atenção para o atual momento do mundo. Conforme indica o relatório do FMI “Perspectivas Econômicas Globais” [3]:

“Em poucas palavras, o crescimento enfraqueceu, as tensões comerciais continuam altas, várias economias experimentaram estresse financeiro, e riscos para as perspectivas aumentaram.”

Ou seja, a economia global está debilitada, o que explica o rebaixamento da previsão de crescimento global de 2019 para 3,5%, na ocasião do Fórum Econômico Mundial realizado em Davos (Suíça) [4]. E a atual tentativa de reforma da previdência é um fato que se liga a esse contexto global, certo que o Brasil também enfrenta debilidade econômica, o que é representada pela queda da taxa de lucro brasileira de 2007 em diante [5]:

Contudo, enquanto a lucratividade apresentava declínio, vale ressaltar que, nesse período, a parcela salarial da renda subia [6]:

Isso demonstra que a tendência à debilidade do capitalismo global também atingiu o Brasil, afetando, desse modo, a lucratividade da burguesia brasileira. Esta que, observando o aumento da parcela salarial na renda nacional em contraste à diminuição da parcela do lucro, necessitou de meios para reverter a situação. Sendo a reforma da previdência um desses meios, certo que limita o acesso da classe trabalhadora à renda a fim de promover o enriquecimento do setor público e a consequente recuperação da lucratividade da elite brasileira, através da histórica transferência da riqueza pública para o setor privado. Desse modo, a reforma funciona como um remendo no contexto da debilidade do capitalismo global, que onera a classe trabalhadora de forma mais intensa.

Diante disso, os não-reformistas, ao invés de denunciarem a reforma da previdência como um sintoma de debilidade do capitalismo que indica a necessidade de sua superação, tratam a reforma apenas como uma alternativa não preferível diante de alternativas preferíveis dentro do próprio mecanismo capitalista. “Há outros meios capitalistas menos capitalistas de fazer capitalismo”, dizem eles. E, assim, ao tolerarem a existência de uma previdência capitalista sem qualquer perspectiva de superação do modelo atual de organização social, tornam-se igualmente reformistas. Afinal, tolerar a perpetuação desse sistema previdenciário significa tolerar a não superação do trabalho assalariado e, portanto, das relações de produção capitalistas.

Falar que a saída está fora parece redundante. Porém, a obviedade precisa ser dita ao lembrar-se que a saída para o capitalismo não está no capitalismo; está fora dele. Única saída é sua superação. Isto é, a superação do trabalho assalariado, que permitirá que a parcela da humanidade que hoje depende de migalhas asseguradas pelo governo não mais necessite. E isso não virá com reforma, mas sim com revolução


REFERÊNCIAS:

[1] https://nupese.fe.ufg.br/up/208/o/para-alem-do-capital.pdf?1350933922

[2] http://sergiolessa.com.br/uploads/7/1/3/3/71338853/crise_estrutural_e_ofensiva_socialista_final.docx

[3] https://www.worldbank.org/pt/news/press-release/2019/01/08/darkening-prospects-global-economy-to-slow-to-29-percent-in-2019-as-trade-investment-weaken

[4] https://www.efe.com/efe/brasil/economia/fmi-rebaixa-para-3-5-previs-o-de-crescimento-global-2019/50000240-3873629

[5] https://fomentando.files.wordpress.com/2019/05/dissertac3a7c3a3o-bruno-miller-theodosio-completo-e-correto.pdf

[6] Idem