A doença quântica da modernidade

A física quântica, ao surgir dentro do espaço científico, abriu novas possibilidades não só para a compreensão da realidade, mas para a transformação da mesma. Entretanto, como ela não está desarticulada das relações sociais capitalistas e, portanto, é permeada pelos condicionamentos correspondentes às mesmas, é muito utilizada para fins diferentes de sua importância e magnitude enquanto a parte da física que estuda o mundo atômico e subatômico.

É bem comum encontrarmos links na internet de livros, palestras etc tentando, de alguma forma, relacionar a física quântica aos mais diversos assuntos, como dinheiro, felicidade, sucesso, dentre outros elementos associados ao conceito de prosperidade. Daí surgem os “coachs quânticos“, que apresentam fórmulas que prometem a realização pessoal, os “terapeutas quânticos”, com seus métodos psicológicos de harmonização com o universo, e outras formas que manifestam o modo como a física quântica é considerada em nossa sociedade hoje. Porém, por que algo tão revolucionário e inovador está sendo utilizado de uma forma tão vulgar e arbitrária? Partindo dessa pergunta, dois componentes são fundamentais para entender como isso acontece: (1) A tendência do ser humano em criar concepções misticas e metafísicas para aquilo que não pode explicar e (2) o núcleo que rege a sociedade capitalista, que é o lucro.

(1) Sobre a tendência humana dita acima, ela pode ser conferida desde os primórdios da humanidade. É interessante observar que, a medida em que o homem conhece mais e detém um poder transformador maior sobre a realidade, as concepções dessa natureza se tornam menos presentes e estranhas. Basta lembrarmos do conteúdo das mitologias da antiguidade e do modo como eram concebidas a partir de formulações fantasiosas e que refletiam a criatividade humana para criar história e personagens, e da mudança radical que houve quando surge a filosofia que, apesar de ainda ter mantido diversos elementos da mitologia (como o platonismo, que comporta elementos do orfismo), se tornou um conhecimento rigorosamente mais racional e voltado para os aspectos próprios da realidade, incluindo do próprio ser humano. É algo que foi se tornando cada vez mais lógico, científico e sistemático ao longo da história. No período greco-medieval, que compreende desde os pré-socráticos até os filósofos da baixa idade média, houve um predomínio notável das concepções metafísicas sobre a própria razão, apesar da segunda, obviamente, ter sido um instrumento muito importante para as construções dos sistemas de tais filósofos. Com o surgimento da idade moderna, com as revoluções industrias, renascimento, revolução francesa, iluminismo etc, a razão humana se torna mais valorizada do que os construtos transcendentais, e então a ciência passa a exercer papel mais dominante no conhecimento humano. Porém, as concepções de teor metafísico não cessaram de existir no mundo, pois ainda existem muitas coisas do universo que o ser humano não explica. Com base nisso, a física quântica, sendo uma nova acepção de mundo que abarca diversos aspectos que estão para além da física clássica, foi apropriada pelos representantes do misticismo ainda existente, só que agora, em função das novas condições históricas, o mesmo se traveste de “ciência” justamente por usar de forma oportunista a “nova física”, se aproveitando dela por revelar uma dimensão ainda pouco explorada da realidade (o mundo quântico) e portanto pouco conhecida pela sociedade em geral. Por isso é muito mais fácil de ver os misticistas usando Heisenberg e Schrödinger para tentarem justificar o irracionalismo de suas construções, em vez de Darwin (que apesar de não ser físico, se encaixa no contexto) e Newton, por exemplo.

(2) Nesse sentido, chegamos ao segundo componente, que é o fato da sociedade contemporânea se basear no lucro. Como foi mostrado, o ser humano tende a imaginar criativamente sobre aquilo que não conhece enquanto tal, porém, há também esse imaginário no contexto das próprias dinâmicas da sociedade em que os indivíduos vivem, nesse caso, o capitalismo. Por conta de seu modus operandi, isto é, seu modo de funcionamento, ser direcionado para a acumulação do capital, através da desigualdade e da exploração, muitas pessoas se sentem impotentes frente a sua própria condição social dentro dessa sociedade e, por conta disso, transferem sua confiança à forças misticistas na esperança de que vão ascender socialmente porque estão pensando positivo, com boas vibrações etc.

Assim, em virtude dessa procura pela ascensão social, emergem diversos oportunistas disfarçados de “salvadores”, oferecendo os mais diversos métodos para o alcance da prosperidade. Utilizam principalmente da física quântica para legitimarem suas criações fantásticas como “científicas”. Com base nisso, atraem muitas pessoas cativadas pela retórica convincente de que possuem e ganham muito dinheiro com isso, justamente pela demanda da prosperidade ser muito alta e ser inalcançável para todos, já que, como sabemos, não há como todos serem ricos em uma sociedade. A riqueza exacerbada de uma pessoa significa a miséria de muitos, pois a mesma sempre é obtida através da exploração das camadas oprimidas. Surgem assim os “terapeutas quânticos”, os “coachs quânticos”, dentre outras terminologias criadas por indivíduos que se realizam pessoalmente se fundamentando na própria procura de realização pessoal de outras milhares de pessoas.

A partir dessas duas bases é que se funda o moderno misticismo, que por sua vez só pode se sustentar porque o próprio capitalismo é misticista, isto é, que possui mecanismos ideológicos e culturais para a ocultação e inversão da realidade, de modo que a ordem do capital possa ser perpetuada e desenvolvida. Por essas razões que mesmo os físicos, que possuem autoridade o suficiente para esclarecerem o quão errada é a interpretação misticista referente à física quântica, não conseguem reverter esse processo, pois está enraizado estruturalmente no interior do edifício social contemporâneo.

RAP e Consciência de Classe

O rap, historicamente, é um estilo musical muito voltado para a crítica aos problemas sociais, como desigualdade, racismo, criminalidade etc. De fato, no início, ele foi criado para animar festas em bairros jamaicanos, contudo, já nessa mesma época, os chamados “toasters” (mestres de cerimônia dessas festas) já abordavam assuntos relacionados a problemas sociais.

Após a emigração de muitos jamaicanos para os EUA, devido a uma grave crise econômica e social que atingiu a Jamaica, o rap começou a se propagar nos EUA, e foi aí que os temas relacionados à pobreza e problemas sociais em geral se tornaram maioria dentre os compositores.

Como se sabe, o mundo está imerso em uma ordem societária extremamente exploratória e desigual, e, portanto, o rap nada mais é do que o reflexo dessa sociedade. Marx e outros autores comunistas já falavam que as ideias, de uma forma bem genérica, são reflexo das relações materiais existentes nas quais os indivíduos estão inseridos. Ou seja, as condições materiais da sociedade condicionam os indivíduos a pensarem e agirem de determinadas formas. E, incluso em uma dessas formas de pensar e agir, dentre outras várias espalhadas pela literatura, música, arte, e da cultura de uma forma geral, está o rap, que passa a ser a simbolização abstrata dessa sociedade no sentido crítico, isto é, passa a ser uma espécie de instrumento cultural e musical que relata o que há de pior na sociedade regida pela lógica reprodutiva do capital, mergulhada em contradições sociais.

Nos EUA, grupos e artistas autônomos de rap representavam nos anos 80/90 e representam até hoje essa manifestação muito bem, como Public Enemy, NWA, Wu Tang Clan etc. No resto do mundo também existem muitos artistas com conteúdos líricos voltados para problemas sociais, como Keny Arkana na França, Valete em Portugal, entre outros. De fato, há outros temas tratados no rap, porém, o que domina é o relacionado às mazelas sociais. No Brasil, também há muitos rappers e grupos que compõe letras associadas à violência, tráfico, pobreza etc, sendo o mais notório deles o Racionais MC’s, mas tendo também Facção Central, A286, RZO, Atitude Consciente, MPC 288, dentre vários outros.

Eduardo Taddeo (ex-Facção Central) e Mano Brown (Racionais MC’s)

Alguns desses grupos são extremamente “cruéis” e realistas em suas respectivas letras, como é o caso do grupo “Facção Central”, que chegou a ter o clipe “Isso aqui é uma Guerra” censurado há alguns anos atrás, acusado de fazer apologia ao crime, sendo que apenas mostrava artisticamente a sociedade tal como ela é nas favelas e em outras regiões onde impera a pobreza, fome e a falta de saúde e educação de qualidade. Um ex-integrante do grupo, Eduardo Taddeo, ao ser questionado em uma entrevista sobre o pouco investimento que há no rap periférico brasileiro, respondeu: “Representamos o perigo para o sistema. Nós estamos falando justamente aquilo que a sociedade não quer ouvir”. Ele também possui dois livros, “A Guerra Não Declarada Na Visão De Um Favelado” parte 1 e parte 2.

É evidente que esses rappers e grupos de rap não possuem muita notoriedade no campo midiático, visto que a mídia se configura como um dos principais instrumentos burgueses de dominação ideológica, já que para a burguesia manter sua ordem sócio-econômica e sua dominação de classe sobre os trabalhadores, precisa criar concepções de mundo que correspondam a tal mantimento, de modo que mistifique a realidade social e faça com que a população explorada fique anestesiada e inerte perante a sua própria exploração. Por conta disso músicas com letras vulgares e superficiais (não há a necessidade de citação de estilos musicais, já que isso é relativo, uma vez que praticamente todos os estilos, inclusive o rap, possuem músicas do tipo) são bem mais divulgadas do que letras críticas e profundas sobre a situação que o Brasil e o mundo se encontram há décadas.

Um exemplo disso é visto no interior do próprio rap. Nos últimos tempos se tornou um estilo musical mais conhecido simplesmente por ser constituído por rimas (que muitas vezes são vazias), flow e beat, como se congregar palavras semelhantes de diferentes significados, em uma música completamente desprovida de nexo e descontextualizada, representasse o que o rap é em sua essência. Ou seja, o rap, na maioria, apesar de ainda haver muitos rappers da época mais antiga, se tornou justamente um estilo musical que condiz com os interesses burgueses, no sentido de que não procura demonstrar através da música uma perspectiva crítica da sociedade regida pelos interesses dos grandes capitalistas, mesmo que indiretamente.

Atualmente muitos grupos de rap, com músicas extremamente realistas, são desconhecidos entre a população, mesmo que relatem de forma precisa e crítica a realidade social produto da lógica do capital. As mulheres também estão intensivamente presentes nesse gênero de rap, como o grupo “Atitude Feminina”, a “Karol Colombiana”, ex integrante do grupo “Realidade Cruel”, a já falecida “Dina Di”, considerada a maior rapper brasileira que já existiu, dentre várias outras. Infelizmente, também são igualmente ignoradas no cenário midiático, que é repleto de músicas que mais parecem uma espécie de patologia cultural.

Assim como há essas manifestações críticas da realidade social, há também aqueles que, além de serem críticos, possuem uma consciência de classe mais avançada, e propagam a superação do capitalismo, como no caso de Pablo Hasel, um rapper comunista espanhol que há alguns anos foi condenado a vários anos de prisão, acusado de enaltecer o terrorismo e fazer injúrias e calúnias contra as instituições burguesas. No Brasil, grupos como Gíria Vermelha, Ameaça Vermelha, Liberdade e Revolução etc, são exemplos de casos constituídos por marxistas conscientes do funcionamento da sociedade brasileira e do capital de uma forma geral. Obviamente, como foi comentado acima, poucas pessoas conhecem esse tipo de manifestação artística e artistas associados a mesma, visto que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Assim, como o rap com essa qualidade musical expressa justamente o oposto dos interesses burgueses, acabam não sendo tão divulgados, pelo contrário, até combatidos.

Dessa maneira, o rap que exprime esse conteúdo lírico deve ser considerado um instrumento crítico e verdadeiro da realidade. Da mesma forma, deve ser visto como um conscientizador das massas oprimidas, contrapondo assim as concepções mistificadas das ideias burgueses, que sempre têm como objetivo último mascarar a luta de classes e a exploração inerente para a acumulação do capital por parte da classe reacionária dominante. Por fim, deixamos aqui algumas sugestões de músicas de grupos e rappers autônomos que demonstram a união de Rap e Consciência de Classe.

Arma da Crítica — Amarildos:
https://m.youtube.com/watch?v=n9pAZFVE1ZA

A286 — Enquanto houver motivo:
https://www.youtube.com/watch?v=qYvEwoBR64Q

Atitude Feminina — Dia de Finados:
https://www.youtube.com/watch?v=P4CddSfBNmI

MV Bill — Brado Retumbante:
https://www.youtube.com/watch?v=tM9vFzz8TI0

Liberdade e Revolução — Fim de Festa:
https://www.youtube.com/watch?v=PNLq5zmmMx0

Ameaça Vermelha — Resposta à Chacina de Pau D’Arco:
https://www.youtube.com/watch?v=z5e7muLMQPA

Gíria Vermelha — Não mais:
https://www.youtube.com/watch?v=mJFHTz1LY3Q

Eduardo — Substância Venenosa:
https://www.youtube.com/watch?v=CAE-_DPaG0E

Facção Central — Isso aqui é uma Guerra:
https://www.youtube.com/watch?v=dXbpOiEHQhA

Total Drama — Rato Cinza:
https://www.youtube.com/watch?v=DtLnayD1Q9g

Realidade Cruel — Censuras:
https://www.youtube.com/watch?v=0gpw-OOWGJA

Thiagão part. Atitude Consciente — Perigo Constante:
https://www.youtube.com/watch?v=4vDZAH9Ko2A

Mulher, o feminismo não quer sua liberdade, o comunismo sim

Tradução: Yatahaze

A polêmica constante entre o marxismo e o feminismo não se reduz a questões teóricas, embora essas questões sejam fundamentais; por trás deles há um processo histórico, sem o qual é impossível entender profundamente a natureza reformista-burguesa do feminismo.

Vamos começar pelo inicio. Qual é o ponto de partida marxista (científico) para o estudo da sociedade? O materialismo histórico. Em sua “Contribuição à crítica da economia política” (1859), Marx simplesmente sintetiza essa concepção materialista da história:

“relações jurídicas, tal como formas de Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do século XVIII, resume sob o nome de”sociedade civil”, e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porém, na economia política.”

(…)

“A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social.”

(…)

“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência.”

A chave é que a sociedade não muda pelo aquele “suposto desenvolvimento geral do espírito humano”; a humanidade não avança porque se torna melhor, mais “tolerante” ou “progressista”, mas porque as condições materiais da vida (relações econômicas) a transformam constantemente. (É claro que ideias podem transformar e mudar o mundo, mas, do ponto de vista mais geral e universal, na verdade, é o ser social que, em última instância, determina a consciência.)

Isso é expresso hoje, seguindo Marx, como uma contradição entre sociedade civil e sociedade política; ou, como dizemos agora, na dialética do Estado de massa. Se o capitalismo quer evitar a desintegração social, tem que ordenar as massas através do Estado.

Através de um longo processo histórico, o capitalismo criou as condições para a emancipação das mulheres. A indústria padronizou os trabalhos que costumavam ser qualitativamente diferente, o que permitiu a reincorporação das mulheres à produção social:

“Como no capitalismo, quando são dadas as condições materiais para a emancipação das mulheres, não é uma coincidência que seja também no capitalismo quando há uma consciência da necessidade dessa emancipação. Com efeito, o primeiro movimento que reivindica uma mudança nas condições sociais das mulheres, sufragistas, nasceu no final do século XIX, quando a indústria mecanizada já havia assumido as esferas mais importantes da economia. Naturalmente, é um movimento burguês cujo objetivo não saiu dos canais da ordem burguesa, mas é a primeira forma política (mistificada, é claro) na qual se manifestou um fato objetivo: a incorporação, mais ou menos limitada, mas incorporação afinal de contas, de mulheres na mão de capital.” (1)

E, como é óbvio, diante das contradições criadas pelo capitalismo, existem apenas duas alternativas: a revolução social integral (proletária) ou o reformismo burguês. Não há meio termo. O feminismo, como movimento de mulheres burguesas, representa o segundo caminho:

“De fato, quando as sufragistas começaram a reivindicar o direito de voto da mulher burguesa, as trabalhadoras já vinham produzindo mais-valia para seus maridos há anos.”

“a luta econômica ou sindical da classe trabalhadora se expressa politicamente em termos burgueses e seus representantes são políticos burgueses, embora travestidos como os trabalhadores (oportunismo), quando essa luta não é dirigida por um partido comunista rumo a objetivos revolucionários;”

“Porque, como vimos o primeiro passo para a emancipação das mulheres consiste na sua incorporação à produção, e neste passo a mulher não dá, nem pode dar, como uma mulher abstrata, mas como trabalhadora, como operária. E essa é a principal contradição da primeira onda do feminismo, do sufragismo, que herdou todo o movimento feminista posterior e atual: que faz abstração da mulher e a despersonalização de sua condição de classe.”

Mesmo assim, devemos ver esse problema em seu contexto histórico geral. Durante o século XIX e (aproximadamente) a primeira metade do século XX, a distinção entre feminismo e marxismo era clara para as mulheres proletárias. O primeiro era, claramente, o movimento das mulheres burguesas; o segundo, o comunismo, foi o movimento geral do proletariado revolucionário, que incluía o movimento proletário de mulheres, isto é, as massas de mulheres trabalhadoras organizadas pela e para a revolução socialista.

É por isso que Kollontai, Zetkin ou Luxemburgo sentiam um ódio de classe contra o feminismo: sem ignorar a situação miserável específica das mulheres, elas sabiam que só poderiam emancipar-se com o resto da humanidade através da revolução. O resto estava perpetuando o capitalismo.

Portanto, a verdadeira relação entre o marxismo e o feminismo é o antagonismo absoluto entre o proletariado e a burguesia. Quando se fala de “casamento mal arranjado” estamos na verdade falando sobre a relação entre o revisionismo e o feminismo. Por quê?

Já no final do século XIX, os setores de movimento dos trabalhadores mais relutantes à incorporação das mulheres nas organizações proletárias eram, precisamente, os assalariados sindicalizados mais bem remunerados e com melhores condições de trabalho: os mesmos que comporiam a aristocracia operária.

Isso, no entanto, não pode ser reduzido ao “machismo” dos trabalhadores: era uma política de classes bem definida (embora não revolucionária), que queria evitar a pressão descendente sobre os salários que a incorporação de uma força de trabalho barata implicava para o mercado de trabalho.

Durante o século XX vemos o mesmo problema se desenvolver: o feminismo (lembre-se: movimento feminino burguês) é desenvolvido no Ocidente, precisamente onde os partidos dos trabalhadores logo passam para o campo da burguesia para defender os interesses da aristocracia operária.

É por isso que o “casamento mal arranjado” entre feminismo e revisionismo é a tensão entre o movimento de mulheres burguesas (que se desenvolve quando o sufragismo e atrai mulheres social-democratas) e o movimento operário burguês (defensor daquela aristocracia operária, principalmente masculino).

Por sua vez, o marxismo revolucionário soube incorporar as massas de mulheres à revolução socialista, rompendo radicalmente com sua opressão milenarista, enquanto o sufragismo e a social-democracia nada mais fizeram do que perpetuá-la.

Onde quer que tenha havido uma revolução proletária (Rússia, China ou Peru), a burguesia teve o feminismo ao lado contra os proletários; Ao mesmo tempo, os proletários sempre souberam que as feministas (burguesas por status ou posição política) eram inimigas de classe.

É por isso que nenhum Partido Comunista real reivindica o feminismo. Não é um problema temporário (“que Kollontai hoje seria feminista …”), porque mesmo o mais recente maoismo revolucionário (nas últimas 3 ou 4 décadas) luta contra o feminismo e pela emancipação das mulheres.

Mas por que a ascensão contemporânea do feminismo? Como explicar essa aparente “revolução” em um senso comum burguês de um modo materialista histórico?

Isso não pode ser entendido sem enquadrá-lo, novamente, no contexto histórico geral da luta de classes. Duas ideias:

A) Com o fim do ciclo de outubro (1917–1989), o horizonte revolucionário do comunismo deixou de ser a referência da emancipação. Resta atomização.

B) A existência da URSS e condições após a Segunda Guerra Mundial levou a esses 30 gloriosos anos do Estado de bem-estar. A aristocracia operária tinha um lugar seguro na gestão dos benefícios da exploração.

Já nos anos 70, esses dois fatores começam a vacilar como uma represa aos interesses do grande capital. Aqui começa a “ofensiva neoliberal”, que nada mais é do que o ataque à aristocracia operária, suas posições econômicas (na produção) e políticas (no Estado).

Com menos necessidade de assegurar sua posição à aristocracia operária (a ameaça da revolução parece cada vez mais distante), seu trabalho qualificado (caro) é cada vez mais dispensável. Realocação e novo ciclo de incorporação das mulheres ao trabalho produtivo.

Na questão da emancipação das mulheres, vemos claramente a unidade contraditória entre lógica e história. De um ponto de vista estritamente teórico e radicalmente abstrato, o capitalismo não precisaria oprimir especialmente as mulheres. Bastaria ter à sua disposição indivíduos explorados de qualquer condição. Mas, historicamente, o capitalismo não nasce “ex novo”, mas herda e recicla as relações sociais do passado. A opressão familiar e feminina são realidades seculares que só podem ser destruídas com uma revolução total.

“Em outras palavras, embora a lei burguesa nos mostre o contrato de trabalho como o resultado de um acordo entre dois indivíduos de direitos iguais (o capitalista e o trabalhador) e o salário como o pagamento pelo valor de um trabalho realizado, na realidade o que está sendo pago é o valor da força de trabalho do trabalhador e os custos de sua reprodução, ou seja, sua família.“ (2)

“o valor do salário na sociedade é muito menor se partirmos da família e não do indivíduo, isto é, se conseguirmos organizar todos os indivíduos da sociedade em grupos familiares, para que sua reprodução exija menos custos. O capital herda essa forma de organização da história, apenas para preservá-la.”

O importante aqui é entender, como foi dito no início do texto que são as condições da vida material que moldam a consciência social. E essa ofensiva burguesa contra a aristocracia operária, que envolve a lenta, mas constante incorporação das mulheres ao trabalho produtivo (desde que seja necessário, veremos por quanto tempo), é o que está por trás das últimas décadas do feminismo. Nem é o seu “boom” na última década. O que a crise fez senão aprofundar essa destruição das posições na aristocracia operária?

Notemos que este mesmo problema está por trás da “diferença salarial” mistificado pelo feminismo. A mulher não cobra menos pelo mesmo trabalho, mas ela se une à produção em condições piores. Assim, o capitalismo lança as bases para a emancipação das mulheres enquanto perpetua sua opressão. É por isso que é absurdo (e impossível) separar essa emancipação da causa geral do proletariado:

“Ou seja, sob as condições do capital, a incorporação da mulher ao trabalho não apenas não nega a família monogâmica, mas a pressupõe e a exige como premissa. A organização do proletariado em famílias que trabalham alarga o campo da exploração do capital e reduz o valor de salários proporcionalmente da classe trabalhadora (para não mencionar o papel desempenhado pela família como um amortecedor contra conflitos sociais causados ​​pelo desemprego e outros ataques do capital). Por esta razão, dizemos que, embora seja verdade que o desenvolvimento das forças produtivas, durante a história das classes da sociedade, colocaram no pelourinho a economia doméstica e esse capital, graças ao maquinismo, usou isto para começar a incorporar as mulheres no mundo do trabalho, e isso tudo significa o primeiro passo para a sua emancipação, dizemos também que é insuficiente e que é necessário dar o segundo passo, que consiste em destruir a família monogâmica. Como a família proletária expressa um novo conteúdo nas relações sexuais, conteúdo que já carrega os elementos desse tipo de família, resta apenas terminar com o que ainda a mantém: capitalismo.”

Por isso, também, não se pode lutar pela emancipação das mulheres sem denunciar o feminismo (oportunismo) e o revisionismo (aristocracia operária “radicalizada”):

“Por tudo isso, os comunistas dizem que a emancipação da mulher não será alcançada sem dar o segundo passo, ela não será alcançada até a completa destruição do capitalismo, que é o sistema que se opõe às últimas barreiras a essa emancipação através da família. Por que os comunistas dizem que não há plena emancipação das mulheres sem revolução proletária, e devemos denunciar e desmascarar o reformismo e revisionismo, porque isso reduz as condições da libertação das mulheres o primeiro passo, exagerando o seu real significado e liquidação completar a “grande conquista” da incorporação das mulheres ao trabalho (que, na realidade, é uma concessão de capital) com a atração da igualdade legal de direitos entre os sexos. É por isso que devemos lutar contra essa manifestação de oportunismo na Frente das Mulheres, porque a emancipação da mulher ultrapassa os limites da democracia burguesa e só pode ser plenamente realizada desde a Revolução Proletária.”

Algumas conclusões

I) O marxismo, desde o seu principio fundamental, tanto na teoria como na prática, preocupou-se com a emancipação das mulheres e tomou essa libertação mais do que qualquer outro movimento.

II) No que diz respeito ao comunismo, a emancipação das mulheres sempre foi correlacionada com o estado geral da revolução. Quando ela ganhou posições, o mesmo aconteceu com a mulher; quando estagnou ou recuou, também aconteceu o mesmo com a metade feminina da humanidade .

III) A atual ascensão do feminismo é possível devido a dois fatores. Por um lado, a derrota do ciclo revolucionário de outubro que acabou temporariamente com a última certeza universalista: o comunismo como horizonte de emancipação social, como a construção de uma humanidade livre; Por outro lado, nessas condições, a incorporação das mulheres ao trabalho nas últimas décadas só poderia ser expressa especialmente como movimentos da burguesia, liderada pelo burguês que instrumentalizou a opressão multiforme dos proletários como “argumento” para acumular poder e mais-valia. Assim como a espontaneidade legítima do movimento operário acaba sendo conduzida pela aristocracia operária (oportunismo, social-democracia …), a espontaneidade legítima das mulheres contestatórias é dirigida por suas “irmãs mais velhas” burguesas, o feminismo.

IV) O feminismo sempre foi a ideologia burguesa que tenta adaptar o capitalismo às novas realidades das mulheres. Da mesma forma que a social-democracia tem sido a força motriz do “estado social” como uma adaptação do capitalismo à domesticação dos trabalhadores.

V) Todo o aparente radicalismo do feminismo é reduzido a isso: tentar fazer com que as mulheres oprimidas encontrem “seu lugar” neste mundo de miséria; promover aspirações pequeno-burguesas nelas; esforçar-se para “representá-las” nas instituições da burguesia para se conformar. Isso, por sua vez, colide com o anterior “senso comum” burguês, efetivamente machista. Mas esse machismo era também o reflexo cultural da subordinação das mulheres, o preconceito nascido das relações sociais que fazia das mulheres presa absoluta no lar.

VI) O capitalismo, como a história, não é linear, mas cíclico. Assim incorpora as mulheres ao trabalho, e não seria difícil relacionar as “ondas” ou os “vertentes” do feminismo com esses ciclos econômicos:

“Como efeito, o capital inaugura a entrada das mulheres no mundo do trabalho, mas ao mesmo tempo as restringe em termos de oscilações econômicas, de acordo com seus ciclos, suas crises e suas necessidades de acumulação. Com toda a probabilidade, um estudo histórico sobre a entrada das mulheres no mundo do trabalho durante a era do capitalismo revelaria que essa renda não é gradual e progressiva, mas flutuante, de modo que, para períodos de incorporação relativamente maciça, períodos de retiro e libertação da mulher para a reclusão em casa. Provavelmente, também, essas flutuações seriam determinadas pelos ciclos do capital e por suas crises. Esta hipótese é cumprida para a primeira grande reestruturação econômica do capitalismo, quando ou a usinagem da indústria, entre o final do século XVIII e grande parte do século XIX para a maioria dos países europeus e da América do Norte, mudou completamente sua base de acumulação, e quando, como vimos, a mulher foi incorporada como força de trabalho em escala importante. Mas sabe-se que, mais tarde, uma vez que o capital tenha se acumulado o suficiente para fazer o que tem sido chamado de “decolagem” da industrialização, as mulheres não continuaram a participar da produção social em escala igual ou superior, se não todo o contrário”

VII) A emancipação das mulheres só pode ser alcançada se a Revolução Proletária for alcançada. E, como vimos, em nosso contexto histórico, a primeira tarefa dos comunistas é recuperar o horizonte da revolução: o comunismo deve ser reconstituído ideologicamente.

“Com o socialismo, ao mesmo tempo em que as mulheres são incorporadas em massa ao trabalho, começa a luta para dissolver os organismos que articulam a sociedade em classes, incluindo a família; até que, no comunismo, toda a mediação entre os indivíduos desapareça definitivamente e a associação e a livre cooperação entre eles possam reinar.”

Por esta razão, o lugar da mulher proletária é, junto ao homem proletário, nas tarefas atuais da revolução. O feminismo faz das mulheres uma “ativista de gênero” reformista com aspirações pequeno-burguesas, mas o comunismo a chama para ser estrategista da revolução.

Somente trabalhando juntos nesses termos as mulheres podem romper com a subordinação e a humilhação que o capitalismo lhes impôs; somente assim, também, o homem pode aprender a respeitar plenamente sua parceira como igual na luta pelo comunismo.

Portanto, até mesmo se distinguindo, “entre partidos burgueses, a “partidos dos trabalhadores social democratas “ou os partidos revisionistas que enganam o trabalhar com um falso comunismo” que sempre está em conluio junto às frações burguesas. Com o feminismo acontece o mesmo: suas “correntes” (a ideia espúria de “feminismos”) respondem a diferentes frações e políticas de classe, mas todas são burguesas. Elas não renunciam ao ponto de partida reformista (movimento de mulheres burguesas), eles só disputam “visibilidade”.

Mas, como em todas as esperanças reformistas, é óbvio que o grande capital possui as ferramentas e a capacidade de impor sua agenda. Assim como “o petismo” ou e outras organizações da pseudo esquerda são o caminho mais curto para jogar as massas ao domínio da burguesia (embora alguns acreditem que estão “disputando a hegemonia” com “as elites”), “feminismo de classe “,” marxista “ou” socialista “é o caminho mais curto para jogar as mulheres nas garras do Estado, legitimá-las e impedir qualquer perspectiva revolucionária.

Em resumo: o feminismo é a ideologia da integração das mulheres no capitalismo; suas correntes, concordando com esse objetivo reacionário, representam apenas a proposta concreta de cada fração da classe burguesa diante dessa integração. Nada mais.

Democracia Em Vertigem (Netflix) | CRÍTICA: Cuidado com a propaganda conciliadora de classes

Gabriel Pinheiro

Crítica audiovisual

Temo que a nossa democracia tenha sido um sonho efêmero”, diz a diretora Petra Costa em um voice over melancólico, enquanto a câmera passeia vagarosamente em um plano sequência pelo palácio da alvorada, em Brasília. Aqui, a realizadora dos aclamados Vidas Cinzas e Elena nos convida para uma reconstituição dos fatos, desde a vitória do ex presidente Lula, em 2002, que, para ela, é o momento onde o Brasil respirou o melhor de uma democracia, devido ao fato de um operário, alguém que saiu do seio da classe trabalhadora, ter ganhado uma eleição para a presidência, com massivo apoio popular, passando então pelo período do golpe jurídico-midiático-parlamentar em 2016, até a vitória de Jair Bolsonaro, sendo esse o resultado de uma virada autoritária, que leva ao fim do breve período democrático. No processo, a diretora também traz aspectos de sua vida pessoal, pelo fato de seus pais terem sido opositores da ditadura empresarial-militar, que lutaram por uma alternativa revolucionária e posteriormente, pela redemocratização do país, após os 21 anos de regime militar. O roteiro aqui, dividido em desenvolvimento dos fatos e narração, foca no desenrolar do processo de impeachment da ex presidenta Dilma e de investigação, condenação e prisão de Lula, visto que há bem mais detalhamento nesses fatos, do que nos períodos de governabilidade dos dois ex presidentes, onde tudo é passado de forma resumida, destacando os principais pontos, como os programas sociais de combate à fome, que tirou 40 milhões de brasileiros da miséria, a conciliação com setores políticos burgueses (representados pelo PMDB) e as tenções no governo Dilma, afetado pela crise econômica e as manifestações iniciadas em 2013, fato esse também bastante resumido. Mas não há imparcialidade (e nem é obrigatório ter), pois a diretora deixa claro quais os seus posicionamentos diante os fatos, onde ela denuncia um golpe, mas de forma alguma, pode-se dizer que houve manipulação dos mesmos. As imagens de arquivo e as que ela mesma registrou, são verídicos. Ou seja, ela usa a realidade concreta como argumento de suas opiniões. O texto de narração é eficientemente melancólico. Até o mais frio dos espectadores, é capaz de sentir tal abatimento, principalmente sendo um brasileiro que acompanhou tudo, tendo consciência do que acontecia. Os problemas que se podem destacar são uma certa verbalização de certas informações que poderiam ser substituídas por imagens de arquivo, que até poderiam sustentar as observações da diretora, como por exemplo, as declarações preconceituosas e proto-fascistas de Bolsonaro, que reforçariam o perigo que ele representa, principalmente por ter um plano de poder.

No trabalho de direção em si, há um excelente uso de planos abertos, sejam aéreos ou em solo firme, mostrando a arquitetura de Brasília, como uma cidade cujo centro do poder é afastado e isolado das massas, destacando a concretização da polarização política, com muitos planos longos vagarosos, cirurgicamente pensados. Em outras sequências, são usados movimentos circulares situando a ambientação e focos em figuras públicas, muitas vezes reagindo a certos acontecimentos. Há muitas entrevistas com muitas pessoas envolvidas no processo em tempo real desses acontecimentos, que até saem do modelo convencional dos documentários. Vale também destacar as imagens de arquivo, muito bem editadas, em perfeita sincronia com o que é comentado. O único ponto fraco dessa direção, é o ritmo que, no final do segundo ato, fica um tanto lento, mas que se recupera na conclusão.

Em aspectos técnicos. A cinematografia é realista, registrando as sombras de certas ambientações, reforçando um aspecto de algo sombrio que toma Brasília. Mas o destaque aqui é para a trilha sonora, a base de composições orquestrais que ditam muito bem um tom tenso, caótico e quase apocalíptico, mas dosado, para que não fique apelativo demais.

Democracia em Vertigem é um filme de tom consistente, com um excelente trabalho de direção e roteiro, que apesar de alguns problemas pontuais, não perde seu valor, como uma obra cinematográfica forte e impactante, que provavelmente vai ficar na memória de muitos brasileiros. Nota 9 (nove).

Crítica política

Avaliado o filme como produto audiovisual, vamos a análise política. Diferente de outras produções originais da Netflix, não foi, de fato, produzido pelo serviço de streaming, mas sim pela sua realizadora, Petra Costa. Logo, o papel aqui é de distribuidora do filme. Em outras palavras, não houve nenhuma participação da Netflix, nem como empresa que demanda um projeto artístico e nem que se oferece para bancar a produção. Somado a isso, recentemente, a Netflix, também como distribuidora, exibiu a série O Mecanismo, criada por José Padilha, que, através da ficção, reconstrói o processo da Lava-Jato manipulando alguns fatos, como por exemplo, o ex presidente Lula dizendo falas de Romero Jucá sobre estancar a sangria, e pode-se entender que, o fato do serviço de streaming exibir duas produções audiovisuais sobre os mesmos assuntos, mas ideologicamente opostas, é uma tentativa de alegar imparcialidade diante do assunto e não perder clientes de ambos os lados do espectro político. Mas como todos sabem, empresas não são isentas, ainda mais uma como a Netflix, que se tornou o maior serviço de streaming do mundo, conseguindo superar até a TV por assinatura. Logo, é de se entender o duplo papel desse documentário, e todo o seu sucesso. Ele existe para que uma grande empresa capitalista não perca metade dos seus consumidores no Brasil – mas é importante frisar que, se o conteúdo tivesse um teor mais radical a esquerda, provavelmente não seria exibido pelo serviço – e um papel político de tentar dialogar com o público que também acompanhou o processo, muitas vezes enviesado pela opinião moldada pela mídia, informar o público estrangeiro a partir de uma perspectiva igualmente alternativa aos veículos de comunicação tradicionais, apresentando a visão assertiva de que vimos um processo de golpe e que a democracia (burguesa – e isso vai ser considerado mais à frente no texto) sofre ameaça no atual cenário de ascensão de Bolsonaro, mas o que temos aqui é uma narrativa que, apesar de flertar com uma crítica a estrutura do sistema, continua presa ao tipo de visão de conjuntura equivocada, mais baseada em apego partidário do que em análise concreta da realidade. A ideia de democracia aqui trabalhada é a democracia burguesa, e só. A diretora reconhece em dado momento que os períodos democráticos existem por concessão da classe burguesa, quando o sistema capitalista não está com suas contradições expostas, mas parece achar que só a democracia burguesa é o ideal para a sociedade e que vivemos seu pleno funcionamento durante os governos petistas, apesar da conciliação com as velhas elites. Nisso, Petra Costa também deixa passar em branco certos elementos muito presentes no governo Lula, que apesar de também existirem em outros governos, não foram combatidos pelo PT, nesse período de respiro democrático apontado por ela.

O primeiro que podemos citar é o genocídio praticado pela polícia militar nas periferias do Brasil, com a desculpa do combate as drogas, que teve como resultado, a intervenção militar no Rio de Janeiro, e é responsável pela grande maioria dos homicídios no Brasil, onde os corpos são pessoas negras e pobres, independente do gênero ou da idade. Basicamente, uma grande parte da população do país, aqueles que, teoricamente, decidem o processo democrático durante as eleições, está sendo morta pouco a pouco. Se o Estado burguês dar, ampliando o direito ao voto, tirando a necessidade de ter escolaridade (para uma população de maioria analfabeta), também tira, matando os que gozam desse direito. No governo Lula, que ostentava maioria no congresso e 80% de aprovação popular, não houveram políticas como descriminalização das drogas ou desmilitarização da polícia, que poderiam, ao menos, reduzir o banho de sangue.

O segundo foi a “Missão de Paz” do governo Lula no Haiti. Afinal, como o PT pode representar a chama democrática no Brasil se pratica imperialismo em outros países? Caso você, nobre leitor, não saiba do que falo, leia a matéria do site Esquerda Diário, cujo link ficará no final do texto, pois há muitas informações e não dar para resumir.

O terceiro elemento é a lei antiterrorismo, aprovada pelo governo Dilma, que é usada como desculpa para reprimir movimentos sociais voltados para a causa dos trabalhadores, de negros, mulheres e lgbts, muitos com orientação política marxista ou anarquista, que normalmente é quem faz oposição de esquerda ao petismo e também é visto como ameaça em potencial pelo Estado burguês, principalmente em períodos de crise do sistema capitalista.

Tudo isso, aparentemente, serve para suavizar os governos petistas, ignorando seus piores pontos e, talvez inconscientemente, vendendo a democracia burguesa como algo que, apesar de ser frágil (pois dura até onde a burguesia permite, e por isso, ineficiente) é o melhor que há. A ideia de uma insurreição popular, onde o povo de fato conduza o processo político, é tratado como um sonho antigo, pelo qual seus pais lutaram no passado, e só. Nisso, há o destaque messiânico do discurso de Lula, onde ele diz acreditar na justiça burguesa, e que por isso não fez uma revolução.

Como obra audiovisual, o documentário é quase perfeito, mas como comentário político, é acuado, e até bastante ingênuo. Dentro do atual caráter da luta de classes, onde uma real virada autoritária no mundo se mostra uma realidade, onde o sistema capitalista novamente busca precarizar o trabalho e reduzir a qualidade de vida dos trabalhadores para não terem que pagar a conta da crise do sistema, um saudosismo pela democracia burguesa não cumpre um papel eficiente em politizar as massas.

Machismo: Gênese histórica e combate

Atualmente, muito se debate acerca do machismo, considerado um dos principais males sociais contemporâneos. No entanto, apesar de todo o debate envolvendo o machismo, na maioria das vezes, os indivíduos têm uma visão demasiadamente imprecisa e pautada no senso comum do que ele é; em função disso, esse texto intenta transparecer qual a gênese do machismo, isto é, a qual estrutura social está atrelada historicamente.

Como já é notório, a economia em Marx tem “prioridade ontológica” sobre as demais esferas da sociedade, ou seja, ela é a dimensão mais importante que uma ordem social pode ter, visto que é ela quem permite a manutenção e perpetuação de todas as outras. Porém, a economia ser a anatomia da sociedade civil não pode ser confundida com uma espécie de economicismo, como se todos os fenômenos e complexos sociais pudessem ser abordados, mecanicamente, a partir de uma analise da economia. Obviamente que cada complexo social possui suas determinações próprias de existência, o seu modo de ser específico e suas mediações próprias com outros complexos, no entanto, direta ou indiretamente, tudo aquilo que é socialmente determinado possui sua estrutura imanente na forma como a sociedade se organiza economicamente, no sentido de existir, prioritariamente, para atender as necessidades e exigências dessa economia, mesmo não tendo tão somente essa função.

Nesse sentido, o machismo, racismo, etc, dentre outros problemas sociais estão articulados em uma relação necessária com a estrutura econômica na qual foram originados, a qual é a propriedade privada dos meios de produção e divisão de classes. Porém, como supracitado, o machismo tem suas mediações e processos sociais próprios que motivaram sua origem, e é exatamente sobre essa problemática que o texto irá tratar a seguir.

Na sociedade primitiva, onde não havia propriedade privada, a espécie humana era tão incipiente em seu desenvolvimento que se organizava em tribos e hordas coletoras e caçadoras para manter sua sobrevivência, visto que não era capaz de acumular riquezas para assegurar uma organização social e econômica mais complexa. Segundo estudos publicados na renomada revista “Nature”, nesse período da história humana, os homens e as mulheres viviam sob uma relativa igualdade social, no sentido que, tanto um quanto o outro tinham autoridade para decidirem quais as tarefas que seriam feitas, não sendo, desse modo, estabelecida uma espécie de divisão sexual do trabalho a rigor.

Certamente havia uma certa hierarquia por questões biológicas, porém, em termos gerais, os homens e as mulheres eram responsáveis pela produção social e pelos trabalhos domésticos, não havendo assim uma distinção nítida entre a divisão dos sexos. Além disso, a mulher era considerada mais importante para a sobrevivência humana, visto que a falta de uma mulher em uma tribo ou horda era muito mais impactante, para a taxa de fertilidade da espécie, do que a morte de um homem, na medida em que a mulher exercia e ainda exerce papel mais fundamental para a reprodução biológica.

“Segundo informou o antropólogo que liderou o estudo, Mark Dyble, ao jornal inglês “The Guardian”, a igualdade entre os sexos pode ter surgido como uma vantagem de sobrevivência. “A igualdade entre os sexos foi importante para as mudanças de organização social, incluindo o crescimento do cérebro e o desenvolvimento da linguagem, que distinguem os humanos (…) Os cientistas analisaram dados de duas populações de caçadores e coletores, um no Congo e outro nas Filipinas, que viviam em grupos de 20 pessoas, mudavam de lugar a cada dez dias e viviam de caça, peixe e frutas, vegetais e mel. Nas Filipinas, por exemplo, as mulheres caçavam e eram responsáveis por coletar o mel, e os homens atuavam significativamente no cuidado das crianças.” [1]

No entanto, com o definhamento da sociedade primitiva e passagem da mesma para a sociedade escravista, há uma profunda transformação para a sociedade na questão da diferenciação sexual. A passagem de uma sociedade pra outra foi marcada por muitas guerras, sendo os homens, por serem biologicamente mais fortes, isto é, terem uma estrutura muscular mais resistente, os indivíduos predominantes nessas guerras – como foi citado ao longo do texto, havia sim uma certa hierarquia, no entanto, era biologicamente determinada, não socialmente determinada. Além do mais, não era o suficiente para ser, efetivamente, uma divisão sexual do trabalho radical, tal como vai se deflagrar posteriormente – e isso fez com que, ao final das guerras que constituíram essa transição, os homens tivessem um poder sobre as propriedades muito maior do que as mulheres.

Desse modo, já na sociedade escravista, agora não mais caracterizada pela propriedade coletiva mas sim pela propriedade privada, visto que o patamar social já permitia isso, a totalidade social se organizava de tal forma em que o homem, predominantemente, tinha o poder da propriedade privada e portanto dos aspectos econômicos. Nesse sentido, as mulheres se conectavam á sociedade como subordinadas, sendo uma forma típica dessa subordinação a família monogâmica patriarcal – vale ressaltar que é patriarcal pois a família monogâmica em si não produz o machismo, mas sim ela com um teor patriarcal, isto é, dominada pelo sexo masculino – mas não tão somente ela.

Sendo assim, com a emersão do patriarcado e da família monogâmica compatível com o mesmo, houve uma divisão sexual do trabalho drástica. Isso porque, diferentemente da sociedade primitiva, surge a agricultura e a possibilidade de acumulação de recursos, a qual é protegida pela propriedade privada. Como a dimensão material da sociedade muda, a ideológica também, portanto os homens, detentores da propriedade privada, tinham em mente não apenas produzir o suficiente para o bem comum de toda a coletividade, mas sim, acumular riquezas como uma forma de adquirir cada vez mais poder econômico e político.

Com isso, as mulheres foram rebaixadas a tal ponto que, para o homem, agora munido de ideais egoístas característicos da propriedade privada, ela só servia apenas para gerar o herdeiro que seria responsável pela continuação da acumulação de riquezas. Isso explica porque, durante a história, as pessoas com maior poder aquisitivo e político sempre eram e são os homens, com exceção de rainhas e princesas, que eram privilegiadas, mas ainda assim submetidas às vontades dos homens. A partir disso, a mulher foi restringida de sua liberdade, sendo proibida de estudar, tomar decisões importantes, etc, sendo lançada apenas para os trabalhos domésticos.

Dessa forma, a mulher, que era importante para a reprodução biológica da sociedade primitiva de forma que a atividade coletiva de caça e coleta pudesse ser continuada e, com isso, garantisse o mantimento da espécie, permaneceu sendo importante para a reprodução biológica na sociedade escravista, porém, foi secundarizada porque agora não era mais tão somente a sobrevivência da espécie em jogo, mas também e principalmente a reprodução de riquezas e perpetuação da propriedade privada. Ou seja, a gênese dessa radical divisão sexual, na qual o homem subordina a mulher, está na forma como a sociedade passou a se organizar economicamente e socialmente na sociedade escravista, conforme as novas condições historicamente determinadas.

Com o tempo, o machismo foi se consolidando cada vez mais na consciência social e coletiva, de tal forma que muitas mulheres, mesmo que não todas, passaram a aceitar esse papel determinado á elas, isto é, corroboraram com o próprio machismo. Porém, com o desenvolvimento social, as mulheres através de organizações de luta, conquistaram vários direitos que não possuíam antigamente, mesmo que a subordinação tenha permanecido intensa e prevaleça até hoje, Direitos como votar, estudar, trabalhar onde quiser, não ser obrigada a ter filhos, etc, são exemplos do que a luta feminina pôde proporcionar, porém, a despeito disso, o preconceito contra o sexo feminino ainda é corriqueiro não só na sociedade brasileira, mas no mundo todo, em maiores ou menores proporções de acordo com cada região. Como o machismo não se restringiu a esfera econômica e se disseminou por toda cotidianidade da vida social, se tornou cada vez mais explicito e comum. Na sociedade moderna capitalista o machismo aparece na forma como os homens exigem que as mulheres se vistam, no modo como quer que elas se comportem, no assédio sexual verbal e físico, na desigualdade salarial, no mercado de trabalho em geral, etc. Todas esses atributos machistas têm origem, diametralmente, na economia da sociedade, e portanto, a sua matriz histórica se encontra nesse horizonte.

Nesse sentido, para que o machismo possa ser superado, há a necessidade de superar a propriedade privada e divisão de classes, pois senão, apenas medidas paliativas dentro dessa estrutura podem ser aplicadas, mas nunca em um sentido de erradicação do problema. Devido a isso, a luta pela emancipação da mulher deve ser, necessariamente, a luta pela superação de toda estruturalidade tipicamente classicista, sobretudo, do capitalismo, que é a sua fase histórica mais moderna e a vigente.

Referências:

[1] UOL, Portal. Homens e Mulheres pré-históricos tinham princípios igualitários diz estudo. Disponível em: https://bit.ly/2I6YvME

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/

GALILEU, Revista. Ciência comprova que igualdade de gênero existiu na pré-história. Disponível em: https://glo.bo/2Mh1Eil

Uma reflexão para o dia do trabalho: Um gráfico que expõe a insatisfação do mundo com os empregos

Gabriel Brasileiro

A Gallup, uma empresa de opinião americana, buscando compreender mais a fundo atitudes e comportamentos dos funcionários, constatou, em seu relatório mais recente sobre o estado do local de trabalho global, que o engajamento psicológico dos empregados em seus trabalhos é baixíssimo em escala mundial. Certo que, considerando os engajados — aqueles psicologicamente comprometidos com seus empregos —, os não engajados — aqueles que não têm motivações e que são menos propensos a investir esforços — e os fortemente não engajados — aqueles que são infelizes e improdutivos —, a porcentagem dos dois últimos tipos de funcionários no mundo é largamento superior ao primeiro tipo. Vejamos:

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Embora o objetivo da Gallup seja buscar formas de assessorar empresas capitalistas a melhorarem o engajamento dos funcionários, uma perspectiva marxista sabe bem que esses esforços são inúteis, mesmo que possam servir como paliativos. Certo que, como bem explica Marx, o problema está no próprio modelo produtivo, não nos funcionários em si. O capitalismo é um modo de produção alienador e vicioso, em que as pessoas se veem constrangidas a contraírem relações de produção repetitivas que não representam as suas verdadeiras vontades. Isto é, não representam a prática de suas potencialidades que lhes proporcionaria uma verdadeira satisfação. Isso faz com que os trabalhadores não se vejam realizados com seu trabalho, sentindo-se estranhos, alheios, ao que estão fazendo. Contudo, é importante salientar que Marx, desde o Manifesto, não negava o poder do consumo sob o capitalismo, que, com bens barateados e abundantes, podem com certeza propiciar uma maior margem de engajamento psicológico dos empregados que desejam conquistar seus objetivos de consumo. Mas, o que se observa é que, mesmo assim, países que melhor representam o capitalismo em sua forma mais desenvolvidas, como os EUA e os países da Europa Ocidental, ainda possuem forte desengajamento psicológico. Ou seja, como bem descreve Marx, o comprometimento não seria resultado do prazer de praticar a atividade laboriosa em si, mas sim da projeção dos resultados remuneratórios, que representam o verdadeiro fim, o verdadeiro objeto de felicidade, que no capitalismo é provisório. Desse modo, o trabalhador é tomado como uma engrenagem que se submete a um emprego que odeia para conseguir a felicidade instantânea, esta que muitas vezes sequer é mais conquistada quando também vira rotina ou quando não há poder de compra suficiente para investir em novas atividades de lazer.

Ademais, como constata a Gallup, trabalhos intelectuais, típicos de burgueses ou de pessoas que preenchem cargos de maior nível hierárquico dentro da cadeia produtiva, são os que menos enfrentam o desengajamento psicológico. Ficando evidente que há uma assimetria de poder em que os mais hierarquicamente superiores são detentores de maior capacidade de tomada de decisões relevantes quanto ao os rumos dos recursos empresariais. Enquanto os mais subordinados e sem participação mais direta nas decisões referentes ao rumo dos produtos de seus trabalhos sofrem de maior desengajamento psicológico. E, mais uma vez, Marx acerta, pois esse é outro sintoma de alienação, em que o produtor não vê sua marca de realização no produto de seu trabalho, sentindo-se apenas uma engrenagem desumanizada que não toma grandes decisões quanto ao que produz.

Portanto, a fim de buscar a plena realização da humanidade no intercâmbio com a natureza, Marx propõe o comunismo, uma realidade social na qual, possuindo uma abundância de recursos sem precedentes, automatização plena do trabalho e livre acesso ao abundante, a humanidade tenha liberdade para contrair relações com a natureza e com outros seres humanos que representem, em si mesmas, a verdadeira manifestação de sua vontade.

A era do coaching, uma patologia do neoliberalismo

Igor Teo

Texto original aqui

Ser coach está na moda. Há coach para esportes, nutrição, carreira, finanças e até — pasmem — questões psicológicas. Neste texto vamos entender qual o verdadeiro problema (e perigo!) do coaching.

Em primeiro lugar, qualquer coisa pode ser interessante à primeira vista. O coaching também. Se você vê o Tonny Robbins, por exemplo, por mais forçado que pareça o seu espetáculo de transformação pessoal, é possível ainda extrair dele uma ou duas coisas bacanas.

Mas infelizmente não muito mais que isso.

O real problema por trás do coaching não está em sua formação extra-acadêmica, nos seus termos em inglês fora de contexto ou no seu conteúdo que se aplica redutivamente a uma classe média. O problema do coach está em sua precária visão de mundo.

Uma Weltanschauung neoliberal

O coaching não dispõe de uma rica psicologia. Ele não é uma psicologia junguiana que flerta com um mundo espiritual, nem uma psicanálise oriunda da alta filosofia alemã. Não chega a ser nem uma psicologia cognitiva com seu cientificismo biológico contemporâneo.

coach é aquilo que a própria palavra diz. Em inglês, é o técnico da equipe ou o treinador do atleta que precisa vencer uma partida. E afinal, é isso que todo coach nos enjoa de repetir de todas as maneiras possíveis: superação, vitória, desenvolvimento, expandir o seu potencial etc.

Weltanschauung do coaching — esta belíssima palavra que os alemães criariam para cosmovisão — é de que a vida é feita de superação. Todos nós temos um sentimento interior de incapacidade, uma autosabotagem por conta de nossas crenças limitantes, e que precisamos vencer nossas barreiras pessoais para alcançar nosso verdadeiro potencial, liberando o campeão que realmente somos.

Isso funciona bem nos esportes. E pode ser facilmente adaptado ao mundo corporativo em que os negócios são vistos como o campo de batalha moderno.

Mas no mundo neoliberal, em que nos dizem que devemos ser os empreendedores de nós mesmos, em que nossas escolhas são medidas como investimentos, e que nossa vida precisa ser gerida como uma empresa que não pode deixar nunca de crescer, o coaching é a cereja do bolo.

Neste universo, a vida se esvazia de qualquer outra possibilidade de sentido. Tudo se torna uma oportunidade de crescimento, superação, despertar de potencial, ou qualquer coisa mais piega.

E numa sociedade tão preocupada com esses termos, não é de se estranhar como as pessoas tanto se queixam de culpa em autorecriminação, ansiedade diante dos seus desejos, depressão por se verem distantes de seus ideais.

Quanto a isso, o coaching nunca vai resolver a vida de ninguém. Porque ele não é a solução. Ele é parte do problema.

Qual é a vida dos vencedores?

O coaching faz parte do discurso de que a vida é uma batalha e que precisamos sair vencedores dela. Por trás da ideia de que não devemos nos conformar com as limitações e que podemos superá-las, o coaching promove um sentimento de inadequação.

Isto é, nunca produzimos o suciente com nosso trabalho, o dinheiro que eu ganho não basta para aquilo que eu quero comprar, meu corpo necessita de dietas e exercícios especiais para ser bonito como o pessoal do Instagram, e por aí vai.

Não é curioso que as promessas do coaching geralmente estão em torno de questões de consumo, produtividade e ostentação?

Ao invés de questionar a origem desses estranhos ideais — e talvez pensar que não é a forma mais saudável ou sábia de viver — o coaching e o mercado neoliberal se alimentam do sentimento de insatisfação com nossas vidas, relações, economias, corpos etc. Um mercado que lucra com o inadequado, o insuficiente.

Diria o discurso raso de um coach que o problema não é a sociedade ou esse modelo de pensamento… é você que não está trabalhando bem o seu potencial.

Não há nenhuma inconformidade romântica aí, digna de um Nietzsche, questionando a moral e a sociedade. O discurso do coaching é um imperativo para que nos adequemos a uma sociedade que padece e por conta disso mesmo assiste o crescimento dos transtornos mentais.

Diante disso, a resposta é: Supere seus limites. Seja uma engrenagem melhor — produzindo e consumindo mais — nesse sistema que também lhe faz sofrer. Quem sabe ganhando mais ou postando no Instagram suas vitórias você se sentirá feliz. Afinal, aparentemente a culpa é sua por não conseguir.

Encontrar suas vitórias

Não estou dizendo que não hajam dificuldades na vida e que cai bem superá-las. São coisas que desejamos e não fazemos apenas por medo, doenças que queremos nos recuperar, ou inclusive sair de uma situação socialmente/economicamente desfavorável.

Há coisas realmente complicadas na vida e que faz sentido nos sentirmos orgulhosos em superá-las. Por exemplo, eu acredito que qualquer um que supere um câncer é um verdadeiro vencedor.

Há muitas formas de “vencer na vida”. Mas ainda assim não podemos medir a vida inteira com apenas esta régua.

Na vida há lugar tanto para a vitória quanto para a derrota. Muitas vezes iremos perder: para uma doença, uma situação fora do nosso controle ou qualquer tipo limite. Fato é que você perderá algumas vezes na vida. E tudo bem!

Não há nada errado em descobrir alguns limites para algumas coisas. Há um certo tipo mimado em pensar que tudo é possível, que jamais perderemos ou que existirem limitações nos fazem pior.

Aceitarmos as derrotas é importante para descobrir também nossas vitórias. E a obsessão com tudo “superar” é ela mesmo uma patologia do derrotado.

O que não lhe podem vender

Vivemos como se sempre faltasse algo para sermos realmente felizes. E é verdade, essa falta não vai embora. Se conquistamos algo, vamos querer um pouquinho mais.

Mas ao invés de transformar isso numa eterna batalha de limites e possibilidades, prefiro pensar que há uma ética mais simples para viver bem, mesmo que ainda falte algumas coisas depois disso. Uma ética para que aquilo que falte não mate o que já temos.

Em geral, viver é apenas aprender a estar.

Quero dizer: estar bem com algumas coisas que são muito difíceis de lidar e não haverá soluções fáceis como seu coach poderá propor. Refiro-me ao enigma da morte, ao nosso eterno desconforto com o tempo das coisas, a estranheza da sexualidade e os paradoxos do amor, a difícil sustentação dos laços familiares, os aprendizados para uma boa amizade, a incompreensão do outro, dentre tantas coisas.

Aí estão os “impossíveis” da existência. Para lidar com eles, as pessoas são capazes de encontrarem para si as mais diversas respostas e visões de mundo que nenhuma fórmula pronta consegue substituir. E se você consegue lidar suficientemente bem com esses impossíveis, sua vida já é um tanto sofisticada para se preocupar com ideais estranhos de realização.


Igor Teo é psicanalista. Formado em Psicologia e Mestre em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para mais conteúdo e contato, acesse o seu site.