Mostra análise estatística: Não há evidência de fraude ou irregularidade nas eleições bolivianas

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Washington, DC – A análise estatística dos retornos e folhas de registro das eleições das eleições da Bolívia em 20 de outubro não mostra evidências de que irregularidades ou fraudes tenham afetado o resultado oficial que deu ao Presidente Evo Morales é uma vitória da primeira rodada, dizem pesquisadores e analistas do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR). Ao contrário de uma narrativa pós-eleitoral que foi apoiada, sem evidências, pela Missão de Observação Eleitoral da OEA, a análise estatística mostra que era previsível que Morales obteria uma vitória no primeiro turno, com base nos resultados dos primeiros 83,85 por cento dos votos em uma rápida votação. contagem que mostrou Morales liderando o vice-campeão Carlos Mesa por menos de 10 pontos.

O novo artigo, “ O que aconteceu na contagem de votos da Bolívia em 2019? O papel da missão de observação eleitoral da OEA ”apresenta um detalhamento passo a passo do que aconteceu com a contagem de votos da Bolívia (tanto a contagem rápida não oficial quanto a contagem oficial mais lenta), buscando dissipar a confusão sobre o processo. O relatório inclui os resultados de 500 simulações que mostram que a vitória de Morales no primeiro turno não era apenas possível, mas provável, com base nos resultados dos 83,85% dos votos iniciais na contagem rápida.

“Simplesmente não há base estatística ou probatória para contestar os resultados da contagem de votos, mostrando que Evo Morales venceu no primeiro turno”, analista sênior de política do CEPR e co-autor do artigo, Guillaume Longdisse. “No final, a contagem oficial, juridicamente vinculativa e completamente transparente, com as fichas de registro disponíveis on-line, coincidiu com os resultados da contagem rápida.”

Mark Weisbrot , co-diretor do CEPR, observou que era muito incomum e altamente questionável, para a OEA emitir uma declaração à imprensa questionando os resultados das eleições sem fornecer nenhuma evidência para fazê-lo. Ele observou que o relatório preliminar da OEA sobre as eleições também não forneceu evidências de que havia algo errado com a contagem de votos.

“O comunicado de imprensa da OEA de 21 de outubro e seu relatório preliminar sobre as eleições bolivianas levantam questões perturbadoras sobre o compromisso da organização com observação eleitoral imparcial, profissional e”, disse Weisbrot. “A OEA deve investigar para descobrir como essas declarações, que podem ter contribuído para o conflito político na Bolívia, foram feitas sem nenhuma evidência.”

O artigo verifica que as tendências históricas de votação a favor de Morales nas áreas de pesquisas posteriores explicam por que a diferença entre Morales e Mesa aumentaram com a contagem dos votos, terminando com um resultado oficial que colocou Morales à frente de Mesa em 10,57 pontos.

O documento também mostra que as respectivas tendências de votação para Morales e Mesa eram consistentes, contrariamente às declarações anteriores da OEA após a eleição: “Nem a contagem rápida nem a contagem oficial exibem mudanças repentinas nas tendências nos resultados finais, e a mesma tendência bem conhecida , explicável pela geografia, é evidente em ambos os aspectos. ”

“ Encorajamos qualquer pessoa interessada no que aconteceu nas eleições da Bolívia a fazer seu próprio exame das folhas de registro e sua própria análise estatística ”, disse Long. “Espero que a missão eleitoral da OEA faça isso. Mas também precisamos lembrar que uma missão eleitoral da OEA derrubou os resultados das eleições no Haiti em 2011 sem nenhuma base estatística ou outra para fazê-lo. ”

Do Equador ao Chile: o povo toma as ruas

Por Vinícius Fontoura

A América Latina vem amanhecendo com ondas cada vez mais fortes de luta popular. Nesse cenário, dois países merecem destaque aqui: Equador e Chile. Ambos os países demonstraram (e demonstram) o poder do povo organizado contra o governo, fazendo surgir e levantar multidões na luta contra medidas de cortes e decretos que prejudicam a população.

Milhares de pessoas foram para as ruas nas últimas semanas. Tanto o Equador quanto o Chile tiveram suas particularidades no que se refere aos motivos que levaram sua população aos protestos, mas todos com a mesma luta — pelo povo.

EQUADOR

Povo equatoriano mostra suas bandeiras em escudos improvisados.

No dia 3 de Outubro tiveram início os protestos no Equador. O “estopim” para as manifestações foi o decreto de medidas econômicas e trabalhistas assinado pelo presidente Lenín Moreno, que tinham como objetivo empréstimos milionários pelo FMI, e como consequências o aumento do preço de combustível em até 123% e ao aumento do preço dos transportes públicos.

O povo equatoriano não deixou por menos e foi às ruas em protestos radicais organizados contra as medidas de Moreno. Os protestos tiveram grande intensidade, demonstrando toda bravura dos povos indígenas e de todos os equatorianos num geral. Os números apontam para 7 mortos, pelo menos 1300 feridos e mais de 1150 presos. Por fim, Moreno suspendeu o projeto no dia 14 de Outubro.

No vídeo abaixo, o relato emocionante de um dos manifestantes no Equador.

CHILE

Chilenos criam barricadas em meio aos protestos.

No Chile, os protestos populares tiveram início após um aumento no preço da tarifa no metrô. Na sexta-feira (dia 18), após duas semanas de manifestações mais calmas, os manifestantes começaram a radicalizar os protestos, levando ao decreto de Estado de Emergência, a instauração de toque de recolher e a entrada do Exército contra o povo nas ruas — fato que não acontecia desde a ditadura de Pinochet.

Pelo sábado (dia 19) o presidente do país, Sebastián Piñera, recuou e suspendeu o aumento no preço. Apesar disso, os protestos continuaram e seguem até hoje, mesmo com as complicações que se sofre com o Exército do lado do governo. Segundo dados, 11 pessoas morreram e mais de 1400 já foram presas durante as manifestações. Em entrevista, o presidente declarou que o país está em guerra [contra seu próprio povo?].

No vídeo abaixo, manifestantes ateiam fogo na sede do jornal El Mercurio, que apoiou a ditadura de Pinochet.

A ONDA DE PROTESTOS

A onda de protestos — que ganha destaque com as fortes manifestações no Equador — impulsiona também outros protestos pela América. Mais países ainda passam por turbulências políticas e pouco a pouco organizam-se nas ruas. Merecem nossa atenção também os recentes acontecimentos no Peru, os constantes protestos no Haiti, os movimentos políticos na Colômbia e todas as outras lutas que se somam.

Para tal, recomendamos também o artigo de Pedro Marin, da Revista Opera, que aborda de forma clara o que vem acontecendo nas últimas semanas. O texto, intitulado de América Latina rebelada: A Projeção Continental do Povo e a geopolítica da força, pode ser acessado aqui.

Um espectro ronda a América Latina — o espectro do Comunismo.
Todos os poderes do velho Estado se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o presidente e os militares, a oposição e o imperialismo, radicais e liberais.
Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não arremessou de volta, tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários reacionários, a acusação de comunismo?
Deste fato concluem-se duas coisas:
(1) O comunismo já é reconhecido por todos os poderes da América Latina como um poder.
(2) Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante a América Latina inteira o seu modo de ver, os seus objetivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.

(Adaptação de trecho do 1º capítulo do Manifesto do Partido Comunista)

México: Zapatistas retomam a ofensiva

Comunicado Oficial do EZLN, com tradução do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

COMUNICADO DO COMITÊ GERAL CLANDESTINO REVOLUCIONÁRIO INDÍGENA – COMANDO GERAL DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.

MÉXICO, 17 de agosto de 2019.

AO POVO DO MÉXICO, AOS POVOS DO MUNDO, AO CONGRESSO NACIONAL INDÍGENA-CONSELHO INDÍGENA DE GOVERNO, À SEXTA NACIONAL E INTERNACIONAL, ÀS REDES DE APOIO E RESISTÊNCIA E REBELDIA

IRMÃOS, IRMÃS, COMPANHEIROS E COMPANHEIRAS:

Aqui trazemos a você nossa palavra que é a mesma de antes, hoje e amanhã, porque é resistência e rebelião.

Em outubro de 2016, há quase três anos, em seu vigésimo aniversário, as cidades irmãs organizadas no Congresso Nacional Indígena, juntamente com o EZLN, se comprometeram a promover a ofensiva em defesa do território e da mãe terra. Perseguidos pelas forças do mau governo, chefes, empresas estrangeiras, criminosos e leis; contando mortos, afrontas e prejuízos, os povos nativos, os guardiões da terra, concordamos em passar para a ofensiva e espalhar a palavra e a ação de resistência e rebelião.

Com a formação do Conselho Indígena de Governo e a designação de sua porta-voz, Marichuy, o Congresso Nacional Indígena recebeu a tarefa de levar a palavra de advertência e organização aos irmãos e irmãs no campo e na cidade. O EZLN também passou à ofensivo em sua luta de palavra, ideia e organização.

Agora chegou a hora de reportarmo-nos ao CNI-CIG e sua porta-voz. Seus povos dirão se temos cumprido. Mas não apenas eles, também temos que lidar com organizações, grupos e indivíduos que, no México e no mundo, se preocupam com os povos zapatistas e, em seu tempo, geografia e modo de vida, sem importar a distância em quilômetros, os muros e fronteiras, ou as cercas que nos colocam, continuam com o coração palpitando junto ao nosso.

A chegada de um novo governo não nos enganou. Sabemos que o Mandón não tem mais Pátria que o dinheiro, que governa no mundo e na maioria dos lugares que eles chamam de “países”.

Também sabemos que a rebelião é proibida, assim como a dignidade e a raiva. Mas, em todo o mundo, em seus cantos mais esquecidos e desprezados, existem seres humanos que resistem a serem comidos pela máquina e não se rendem, não se vendem e não desistem. Muitas cores têm, muitas são suas bandeiras, muitas as línguas que as vestem, e gigantescas são sua resistência e sua rebelião.

O Mandón e seus capatazes constroem muros, fronteiras e cercas para tentar conter o que eles dizem ser um mau exemplo. Mas eles não podem fazê-lo, porque dignidade, coragem, raiva, rebelião não podem ser detidas ou trancadas. Mesmo se eles se esconderem atrás de seus muros, suas fronteiras, suas cercas, seus exércitos e policiais, suas leis e decretos, essa rebelião chegará a lhes cobrar a conta, mais cedo ou mais tarde. E não haverá perdão nem esquecimento.

Sabíamos e sabemos que nossa liberdade será apenas obra de nós mesmos, dos povos originais. Com o novo capataz no México, a perseguição e a morte continuaram: em apenas alguns meses, uma dezena de companheiros do Congresso Nacional Indígena – Conselho Indígena de Governo, combatentes sociais, foram mortos. Entre eles, um irmão muito respeitado pelos povos zapatistas: Samir Flores Soberanes, assassinado após ser apontado pelo capataz que, além disso, continua com os megaprojetos neoliberais para fazer desaparecer aldeias inteiras, destruindo a natureza e convertendo o sangue dos povos originários no lucro dos grandes capitais.

Portanto, em homenagem às irmãs e irmãos que morreram, são perseguidos e estão desaparecidos ou na prisão, decidimos nomear a campanha zapatista que culmina hoje e tornamos pública como “SAMIR FLORES VIVE”!

Após anos de trabalho silencioso, apesar do cerco, apesar das campanhas de mentiras, apesar das difamações, apesar das patrulhas militares, apesar da Guarda Nacional, apesar das campanhas contrainsurgentes disfarçadas de programas sociais, apesar do esquecimento e do desprezo, crescemos e nos tornamos mais fortes.

E rompemos o cerco.

Saímos sem pedir permissão e agora estamos novamente com vocês, irmãs e irmãos, companheiras e companheiros. O cerco do governo foi deixado para trás, não funcionou e nunca funcionará. Seguimos caminhos e rotas que não existem em mapas ou satélites e só são encontrados nos pensamentos dos mais antigos.

Conosco, zapatistas, em nossos corações também caminhou a palavra, a história e o exemplo de nossos povos, de nossos filhos, idosos, homens e mulheres. Lá fora, encontramos casa, comida, audição e palavras. Entendemo-nos como aqueles que compartilham não apenas a dor, mas também a história, a indignação e a raiva.

Entendemos, portanto, não apenas que cercas e muros servem para a morte, mas também que a compra e venda de consciências do governo é cada vez mais inútil. Eles não trapaceiam mais, não convencem, se enfraquecem, quebram, fracassam.

Foi assim que saímos. O Mandón foi deixado para trás, pensando que suas cercas nos detinham. De longe, vimos as tropas da Guarda Nacional, soldados, polícia, projetos, ajudas e mentiras. Fomos e voltamos, entramos e saímos. 10, 100, 1000 vezes o fizemos e o Mandón assistiu sem nos olhar, confiante no medo que seu medo transmitia.

Como uma mancha suja, ficaram para trás os cercadores, cercados em um território agora mais extenso, um território que transmite rebelião.

Irmãos, companheiros:

Aparecemos diante de vocês com novos Caracoles (territórios ocupados) e municípios rebeldes zapatistas autônomos em novas áreas do sudeste do México.

Agora teremos também Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista. Na maioria dos casos, esses centros também abrigam caracóis, conselhos do governo e municípios autônomos rebeldes zapatistas (MAREZ).

Embora lentamente, como deve ser segundo seu nome, os 5 caracóis originais foram reproduzidos após 15 anos de trabalho político e organizacional; e o MAREZ e suas Juntas de Bom Governo também tiveram que aumentar e vê-los crescer. Agora haverá 12 caracóis com suas Juntas de Bom Governo.

Esse crescimento exponencial, que hoje nos permite deixar o cerco novamente, deve-se principalmente a duas coisas:

Uma delas, e a mais importante, é o trabalho político organizacional e o exemplo das bases zapatistas de mulheres, homens, crianças e idosos. De maneira destacada, das mulheres e jovens zapatistas. Companheiros de todas as idades se mobilizaram para conversar com outras irmãs com ou sem organização. Os jovens zapatistas, sem abandonar seus gostos e desejos, aprenderam sobre ciência e artes e, assim, contagiaram cada vez mais jovens. A maioria desses jovens, principalmente mulheres, assumem cargos e os empapam com sua criatividade, engenhosidade e inteligência. Assim, podemos dizer, sem tristeza e com orgulho, que as mulheres zapatistas não apenas avançam, como o pássaro Pujuy, mas marcam o caminho para não que não nos percamos: também para os lados, para que não nos desviemos, e para trás, para que não nos atrasemos.

A outra é a política governamental destrutiva da comunidade e da natureza, particularmente a do atual governo denominado “Quarta Transformação”. As comunidades tradicionalmente partidárias foram feridas pelo desprezo, racismo e voracidade do atual governo e entraram em rebeliões abertas ou ocultas. Quem pensou que, com sua política contrainsurgente de esmolas, dividiria o zapatismo e compraria a lealdade dos não zapatistas, incentivando o confronto e o desânimo, deu os argumentos que faltavam para convencer aqueles irmãos que a terra e a natureza devem ser defendidas.

O mau governo pensou e acha que o que as pessoas esperam e precisam são esmolas monetárias.

Agora, os povos zapatistas e muitos não zapatistas, bem como as cidades irmãs do CNI no sudeste do México e em todo o país, respondem a ele e provam que ele está errado.

Entendemos que o capataz atual foi treinado no PRI e na concepção “indigenista” na qual os nativos desejam vender sua dignidade e deixam de ser o que são, e que o indígena é uma peça de museu, artesanato multicolorido para os poderosos esconderem o cinza do seu coração. É por isso que ele se preocupa com o fato de que seus muros de trem (os do istmo e o mal chamado “Maya”) incorporam as ruínas de uma civilização na paisagem, para que o turista se deleite.

Mas os povos originários estão vivos, rebeldes e resistentes; e o capataz agora pretende relançar um de seus capangas, um advogado que já foi indígena e que agora, como na história mundial, dedica-se a dividir, perseguir e manipular aqueles que já foram seus pares. O titular do INPI é esculpido na consciência cotidiana com pedra-pomes para eliminar qualquer vestígio de dignidade. Ele acha que sua pele está embranquecida e sua razão é a do Mandón. O capataz o felicita e felicita a si mesmo: não há nada melhor para tentar controlar os rebeldes do que um arrependido, transformado em troca de um alto salário, em fantoche do opressor.

Durante esses mais de 25 anos, aprendemos.

Em vez de escalar as posições de mau governo ou nos tornar uma cópia ruim daqueles que nos humilham e oprimem, nossa inteligência e conhecimento foram dedicados ao nosso próprio crescimento e força.

Graças às irmãs e aos irmãos do México e do mundo, que participaram das reuniões e encontros que convocamos neste momento, nossa imaginação e criatividade, assim como nosso conhecimento, se abriram e se tornaram mais universais, ou seja, mais humanos. Aprendemos a olhar, ouvir e falar com o outro sem zombaria, sem condenação, sem etiquetas. Aprendemos que um sonho que não abarque o mundo é um sonho pequeno.

O que é agora conhecido e público foi um longo processo de reflexão e pesquisa. Milhares de assembleias comunitárias zapatistas, nas montanhas do sudeste do México, pensaram e procuraram caminhos, modos, tempos. Desafiando o desprezo dos poderosos, que nos rejeitam como ignorantes e tolos, usamos inteligência, conhecimento e imaginação.

Aqui nomeamos os novos Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista (CRAREZ). Existem 11 novos centros, mais os 5 caracóis originais, 16. Além dos municípios autônomos originais, que são 27, o total de centros zapatistas são 43.

Nomes e localização dos novos Caracoles e Marez:

1- Novo caracol, seu nome: Coletivo coração de sementes rebeldes, em memória do companheiro Galeano. Sua Junta de Bom Governo se chama: Passos da história, pela vida da humanidade. Sua sede é La Unión. Terra recuperada. Ao lado de San Quintin, onde fica o quartel general do mau governo. Município oficial de Ocosingo.

2- Novo município autônomo, é chamado: Esperança da Humanidade. Sua sede é em Santa María. Município oficial de Chicomuselo.

3- Outro novo município autônomo é chamado: Ernesto Che Guevara. Sua sede é em El Belén. Município oficial de Motozintla.

4- Novo Caracol, com o nome Espiral digna tecendo as cores da humanidade em memória dos caídos. Sua Junta de Bom Governo é chamado: Semente que floresce com a consciência daqueles que lutam para sempre. Sua sede fica em Tulan Ka’u, terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

5- Outro novo caracol. O nome dele é: Florescendo a semente da rebeldia. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Novo amanhecer em resistência e rebelião pela vida e pela humanidade. Sua sede fica em Pueblo Patria Nueva, terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

6- Novo município autônomo, é chamado: Semeando consciência para colher revoluções pela vida. Sua sede é em: Tulan Ka’u. Terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

7- Novo caracol. O nome dele é: Em homenagem à memória do companheiro Manuel. Sua Junta de Bom Governo é chamada: O pensamento rebelde dos povos originais. Sua sede é em: Dolores Hidalgo. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

8- Outro novo caracol. Seu nome é: Resistência e rebelião, um novo horizonte. Sua Junta de Bom Governo é chamada: A luz que brilha no mundo. Sua sede fica na vila de Nova Jerusalém. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

9- Novo Caracol, é chamado: Raiz de Resistências e Rebeliões para a humanidade. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Coração de nossas vidas para o novo futuro. Sua sede fica no Jolj’a ejido. Município oficial de Tila.

10- Novo Município Autônomo, é chamado: 21 de dezembro. Sua sede fica na Ranchería K’anal Hulub. Município oficial de Chilón.

11- Novo Caracol, é chamado: Jacinto Canek. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Flor da nossa palavra e luz dos nossos povos que reflete para todos. Sua sede fica na Comunidade do CIDECI-Unitierra. Município oficial de San Cristóbal de las Casas.

Aproveitamos esta oportunidade para convidar a Sexta, as Redes, o CNI e o povo honesto a virem e, juntamente com os povos zapatistas, participarem da construção do CRAREZ, seja na obtenção de materiais e apoio econômico, seja martelando, cortando, carregando, orientando e vivendo com a gente. Ou da forma e modo e como lhes convêm. Nos próximos dias, publicaremos uma carta explicando como, quando e onde podem se registrar para participar.

Irmãos e companheiros:

Através do CNI-CIG, convidamos você a nos encontrar e conhecer o trabalho a que nos comprometemos, compartilhar os problemas, as dificuldades, os golpes, as quedas, mas também as sementes que servem para colher o melhor da luta e as sementes que sabemos que não nos darão uma colheita melhor, que nos leva ao contrário, de modo que não fazemos mais isso. Para encontrar aqueles que realmente querem a luta organizacional, nos encontramos para conversar sobre as boas colheitas e as ruins também. Propomos especificamente a realização conjunta, em um dos Caracóis, do que poderia ser chamado de FÓRUM EM DEFESA DO TERRITÓRIO E DA TERRA MÃE, ou, como você pode ver melhor, aberto a a todas as pessoas, grupos, coletivos e organizações que se empenham nessa luta pela vida.

À SEXTA e às REDES* chamamos a iniciar já a análise e discussão para a formação de uma Rede Internacional de Resistência e Rebeldia, Polo, Núcleo, Federação, Confederação, ou como se chame, baseada na independência e autonomia daqueles que a formem, renunciando explicitamente a hegemonizar e homogeneizar, na qual a solidariedade e o apoio mútuos sejam incondicionais, para que se compartilhem as experiências boas e ruins da luta de cada um e se trabalhe na difusão das histórias de baixo e à esquerda.

Para isto, como zapatistas que somos, convocaremos reuniões bilaterais com os grupos, coletivos e organizações que sim estão trabalhando em suas geografias. Não faremos grandes reuniões. Nos próximos dias daremos a conhecer como, quando e onde acontecerão estas reuniões bilaterais que estamos propondo. Claro, a quem as aceitem e tomando em conta seus calendários e geografias.

ÀQUELES QUE FAZEM ARTE, CIÊNCIA E CRÍTICA PENSAM A SUA VOCAÇÃO E VIDA, convidaremos para festivais, reuniões, festas, trocas ou do que essas ações poderão vir a ser chamadas. Já saberemos como, quando e onde eles poderão ser feitas. Isso inclui o CompArte e o Festival de Cinema “Puy ta Cuxlejaltic”, mas não apenas. Pensamos em criar CompArts especiais de acordo com cada arte. Por exemplo: Teatro, Dança, Artes Plásticas, Literatura, Música, etc. Haverá outra edição do ConCiences, talvez começando pelas Ciências Sociais. Semeadoras de pensamento crítico serão realizadas, talvez começando com o tema da Tormenta.

E, ESPECIALMENTE, PARA OS QUE ANDAM COM DOR E RAIVA, COM RESISTÊNCIA E REBELDIA E SÃO PERSEGUIDOS:

Convocaremos reuniões de parentes dos assassinados, desaparecidos e encarcerados, bem como organizações e grupos que acompanham sua dor, sua raiva e sua busca pela verdade e pela justiça. Terá como único objetivo que eles se conheçam e troquem não apenas dores, mas também e principalmente suas experiências nessa busca. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Os companheiros zapatistas convocam um novo Encontro de Mulheres que lutam, nos tempos, lugares e modalidades que elas decidirem, e os informarão quando e pelos meios que elas disserem. Informarmos de uma vez que será apenas para mulheres, por isso não podemos fornecer mais dados até que elas os digam.

Veremos se há uma maneira de fazer um encontro com as “outras” (LGBTs), com o objetivo de compartilhar, além de suas dores, as injustiças, perseguições e outras ações que lhes são feitas, suas formas de luta e força. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Veremos se é possível uma reunião de grupos, coletivos e organizações que defendem os direitos humanos, na forma e na modalidade que eles decidirem. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Parceiros e irmãos:

Aqui estamos, somos zapatistas. Para os que nos olham, cobrimos nossos rostos; para quem nos nomeou, negamos nosso nome; apostamos no presente para ter um futuro e, para viver, morremos. Nós somos zapatistas, principalmente indígenas com raízes maias, e não nos vendemos, não desistimos.

Somos rebelião e resistência. Somos um dos muitos martelos que quebrarão as paredes, um dos tantos ventos que varrerão a terra e uma das muitas sementes das quais outros mundos nascerão.

Nós somos o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Das montanhas do sudeste mexicano.

Em nome dos homens, mulheres, crianças e idosos, das bases de apoio zapatista e do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Subcomandante Insurgente Moisés.

México, agosto de 2019.

* Sexta e Redes: movimentos sociais organizados em várias regiões do México, a partir de 2012 (nota da tradução).

Fonte:
Comunicado del CCRI-CG del EZLN. Y ROMPIMOS EL CERCO. Subcomandante Insurgente Moisés

O acordo comercial Brasil-UE será bom para nós?

Nelson Marconi

Um acordo comercial será positivo para um país se contribuir para o seu processo de desenvolvimento econômico e aumento da renda per capita. Isso significaria, em outras palavras, exportarmos mais manufaturados para nossos parceiros comerciais, inclusive elevando a participação desse tipo de produtos em nossa pauta de exportações. Ainda não conhecemos muitos detalhes do acordo fechado na última sexta feira entre o Mercosul e a União Europeia (UE) mas, com as informações disponíveis até o momento, não parece que caminharemos na direção desse melhor cenário. Explico a seguir.

Os produtos primários corresponderam a 67% de nossa pauta de exportações para a União Europeia, em média, entre 2014 e 2017 (dados da Unctad, ainda não disponíveis para 2018). O restante é composto de manufaturados. Já estes últimos corresponderam a 86% de nossas importações, na mesma base de comparação. Assim, é muito claro que somos exportadores de primários e importadores de manufaturados para a União Europeia. Aliás, se compararmos apenas o valor das exportações de primários e importações de manufaturados para a UE desde 1995, só não há déficit nessa comparação entre 2003 e 2005, quando nossa taxa de câmbio era bastante competitiva. Esse resultado é mais que esperado, pois sabemos que exportar primários não gera valor suficiente para financiar a importação de manufaturados.

Além disso, o gráfico abaixo deixa muito clara a posição do saldo comercial de manufaturados entre o Brasil e a UE. Conseguimos elevar nossas exportações de manufaturados até 2008, antes da última grande crise mundial, e posteriormente não logramos prosseguir nesse movimento. Em compensação, as importações desse tipo de produto continuaram crescendo, ampliando o respectivo déficit na relação Brasil-UE.

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Detalhando um pouco mais nossa pauta de comércio, podemos observar quais são os grupos de produtos que mais exportamos para a UE: produtos alimentícios industrializados, produtos agrícolas, metalurgia, minérios e celulose (nessa ordem, correspondendo a 66% de nossas exportações no período 2015-18, segundo dados da Funcex). Todos produtos de baixo valor adicionado, com exceção da metalurgia (ferro, alumínio, aço dentre outros), que agrega um pouco mais de valor. E quando olhamos para as importações, são compostas principalmente de produtos químicos, máquinas e equipamentos, farmoquímicos e farmacêuticos, veículos e partes, informática e eletrônicos (65% do total, na mesma base de comparação; estes setores estão entre os que já foi anunciada redução de tarifas no âmbito do Mercosul, inclusive). A desigualdade na composição da pauta de exportações e importações, no tocante à capacidade de gerar valor adicionado, tecnologia e encadeamentos produtivos, é gritante.
Pois bem, a não ser que nosso país opte por realmente desenhar uma estratégia de política macroeconômica e industrial que estimule a exportação de manufaturados, o acordo do Mercosul com a União Europeia poderá nos transformar em uma grande fazendona cercada por minas de ferro e alumínio e pouquíssimas indústrias, reforçando o processo de desindustrialização.

Acordos comerciais podem ser bacanas para os países, pois nos expõe à concorrência e ampliam nossos mercados, mas desde que estejamos em pé de igualdade para competir nas negociações de produtos e serviços com maior valor adicionado. Esse é o ponto. Certaremos venderemos mais como resultado do Acordo Brasil-UE, porém cada vez mais primários, se não fizermos nada. E importaremos cada vez mais manufaturados. Você poderá ficar contente por tomar seu vinho francês mais barato, os europeus agradecerão, mas quando você perder seu emprego não adiantará culpar a “falta de competência do empresário brasileiro”. Acreditar que a abertura forçará o empresariado a se esforçar mais, em um ambiente já totalmente adverso, é estória para boi dormir. O mais impressionante é que tem muita gente, inclusive na CNI e na FIESP, que acredita nisso. Os acordos comerciais só serão benéficos para nós quando juntamente houver toda uma política para estimular nosso setor exportador de manufaturados. Nossa economia não é fechada para importar esse tipo de produtos; apenas para exportá-los. Assim foram todos nossos processos de abertura comercial desde 1990.

Justiça decide, os réus da tragédia de Mariana não serão julgados por homicídio e Mészáros explica o motivo

De forma unânime, os desembargadores do TRF1 decidiram trancar a ação penal de 2016 quanto ao crime de homídio contra o executivos de Vale, Samarco e BHP Billiton devido à tragédia de Mariana. Desse modo, os executivos não serão mais julgados pelo júri popular – que julga crimes contra a vida -, tendo a ação penal para o crime de lesão corporal também sido trancado. Permaneceu apenas o processo para os crimes ambientais e de inundação, que é previsto no Código Penal. Isso significa, que a justiça burguesa retirou do povo a oportunidade de julgar diretamente os executivos, os quais, nessas circunstâncias, seriam julgados culpados.

Tal impunidade ocorre porque o Estado contemporâneo atua como estrutura política responsável pelos defeitos estruturais do Capital. Mészáros elenca os três defeitos primordiais, mas só vale falar sobre um: A extrema oposição entre a produção e o controle.

O Capital, enquanto uma relação social de expansão incessante de riquezas a partir da exploração da mão de obra humana, é incontrolável, e, portanto, todos os agentes econômicos têm que se adaptar às suas exigências de expansão contínua. Nesse sentido, tanto as personificações do trabalho (trabalhadores) quanto as personificações do próprio capital (empresários e suas respectivas empresas) devem se ajustar aos imperativos desses sistema, senão irão se afundar na estratificação social até atingirem a miséria, ou seja, serão engolidos pelo Capital por não terem atendido seus anseios de desenvolvimento.

Nesse defeito em específico, a tragédia de Mariana, o Estado age conforme as dinâmicas mutantes do Capital, mas tem como peculiaridade a proteção legal das relações de poder estabelecidas. Em outras palavras, o Estado garante o direito das empresas explorarem a força de trabalho humana da sociedade, além de impor a ilusão de que há relações livres e voluntárias entre trabalhador e patrão. Ele faz isso a partir de sua estrutura jurídica, por meio da qual assegura a proteção dos meios de produção e dos proprietários desses meios. Sendo assim, ele é exigência absoluta para o exercício da exploração nos locais de trabalho.

Mas o que isso tem a ver com essa tragédia? Ora, sem o aparato jurídico do Estado, as empresas seriam desmanteladas internamente por conta dos desacordos constantes entre as forças antagonicamente estabelecidas (classes sociais conflitantes). Em outras palavras, é o Estado que é o responsável pela seletividade penal, e, como ele serve às dinâmicas do Capital, irá atuar de acordo com a potencialização do seu desenvolvimento.

Isso significa, na prática, que os executivos não podem ser punidos como deveria, uma vez que eles são importantes para o desenvolvimento do Capital. E, nesse sentido, as penas são abrandadas.

Dentro da ordem social do capital, a vida humana só tem valor para uma coisa: produzir e consumir riquezas. Fora isso, ela é descartável e o Estado com a sua estrutura jurídica garante que isso se consolide na prática, bem como tenta, através de medidas paliativas e inefetivas para reparar os estrago, como no caso das indenizações para os familiares dos mortos em brumadinho, resolver esse desacordo entre as vitimas das tragédias e os causadores dela.

Referência do governo Bolsonaro, Japão não vai mais cortar verba de cursos de humanas

Por Helena Borges

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Desde 1995, governo japonês diminuiu o orçamento público dedicado à formação em ciências humanas, mas impacto das mudanças tecnológica e climática na sociedade levou a revisão

RIO — O presidente Jair Bolsonaro reafirmou nesta sexta-feira (26) sua intenção de cortar investimentos nas faculdades brasileiras de ciências humanas , algo que já havia sido defendido pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub .

Segundo o chefe do MEC, o modelo exemplar a ser seguido seria o do Japão, que orientou suas universidades a fecharem ou remodelarem seus departamentos de ciências humanas em 2015.

No entanto, o governo japonês decidiu voltar a promover ciências humanas e sociais — com foco em ética e jurisprudência — em sua nova política de ciência e tecnologia, que será implementada a partir de 2020.

— O Japão, país muito mais rico do que o Brasil, está tirando dinheiro público das faculdades que são tidas como de elite, como filosofia. Pode estudar filosofia? Pode, (mas) com dinheiro próprio. E o Japão reforça: esse dinheiro que iria para faculdades como filosofia, sociologia, se coloca nas que geram retorno de fato: enfermagem, veterinária, engenharia e medicina — afirmou o ministro durante uma transmissão ao vivo no Facebook.

Na manhã desta sexta-feira (26) o presidente voltou a tratar do tema.

Desvalorização das ciências humanas

As ciências humanas e sociais foram excluídas dos programas de promoção científica no Ato Básico de Ciência e Tecnologia japonês, assinado em 1995 .

Vinte anos depois, o ministro japonês da educação, Hakuban Shimomura, enviou uma carta às 86 universidades federais japonesas pedindo que tomassem “passos ativos para abolir as ciências sociais e humanas das organizações ou convertê-las para melhor atender às necessidades da sociedade”.

Cerca de 30 universidades japonesas responderam de imediato, prometendo fechar ou reduziram seus departamentos de ciências humanas e sociais no ano seguinte.

No entanto, as duas maiores universidades japonesas, a de Tóquio e a de Kioto, afirmaram que não iriam atender ao pedido. O movimento chamou a atenção de acadêmicos de todo o mundo, levando muitos a se manifestarem contra a medida.

Com a onda reativa, atualmente a maior parte dos departamentos de ciências humanas permanece funcionando, porém com cada vez menos apoio financeiro.

Pesquisadores dessa área recebem salários mais baixos em comparação aos de colegas que trabalham nas mesmas instituições, porém focados em ciências naturais e tecnológicas.

As empresas que realizam estudos conjuntos com instituições de pesquisa em ciências sociais estão excluídas das isenções fiscais e de outros tipos de incentivos. A Agência de Ciência e Tecnologia do Japão, do Ministério da Educação, não fornece subsídios de ajuda para propostas de estudo que enfocam apenas as ciências humanas ou sociais.

Nos últimos anos, no entanto, pesquisas em áreas como inteligência artificial, mudanças climáticas e ciências biológicas criaram uma necessidade crescente de estudos sobre como esses avanços afetarão a sociedade e as pessoas que nela vivem.

Com isso, o governo japonês decidiu retomar o apoio público às ciências humanas e sociais, revisando sua política para 2020.

Conectando conhecimentos

O mais recente texto da Política Básica japonesa de Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) afirma que “mais do que nunca” é importante reunir especialistas em disciplinas variadas para alcançar os objetivos de inovação.

“É essencial fomentar recursos humanos que possam conectar ciência com política, administração e vários setores dentro e fora do Japão, com perspectivas históricas e internacionais e conhecimento geopolítico”, diz o texto.

Ele já aponta para os próximos passos, que serão definidos no plano a ser divulgado em 2019:

“É importante estimular colaborações entre ciências humanas, sociais e naturais, porque a realização dos ODS poderia ser feita com interações de vários fatores, incluindo sociedade, economia, sistema, modo de vida e valores. (…) O ministério promoverá estratégica e continuamente as medidas de política de CTI para ODS, refletindo apropriadamente essas medidas ao pedido de orçamento a cada ano.”

Os argentinos voltam a comer apenas uma vez por dia

ALEJANDRO REBOSSIO

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3,4 milhões de pessoas sofrem insegurança alimentar em um país que produz 400 milhões. Os afetados são organizados em cozinhas de sopa

Cecilia D. faz parte do grupo de argentinos que começaram a comer uma vez por dia por causa da crise em seu país. Em vez de almoço e jantar, esta mulher de 35 anos da cidade industrial de Campana (80 quilômetros ao norte de Buenos Aires), seu marido deficiente e três filhos mais velhos – ela tem um quarto de cinco meses – unifica a comida diária seis da tarde porque não é suficiente para mais. “Eu nunca tive que comer uma vez por dia … nem na crise de 2001”, Cecilia se lembra da catástrofe socioeconômica e política que a Argentina sofreu no início do século, uma crise de proporções maiores que a atual . Claro, naquela época, ela tinha 18 anos, não era mãe, vivia cuidando de uma menina e, com sua família, eles iam a barganhas para trocar bens básicos.

No centro de saúde do seu bairro, o San Cayetano, Cecilia conseguiu até outubro passado 2 quilos de leite em pó enriquecido para seu bebê, como parte de um plano estadual para menos de dois anos, mas em novembro uma enfermeira pendurou um sinal alertou: “não há leite até novo aviso” e a seca continuou até janeiro. Agora, apenas um quilo por mês é distribuído por criança e não dois, como antes. Em San Cayetano, os moradores abriram suas casas seis cozinhas nos últimos três anos, mas até agora Cecilia conseguiu sem frequentar estes centros segurando com contribuições variadas de Estado e Católica e as igrejas evangélicas para organizações sociais e doações de indivíduos, incluindo alguns moradores do mesmo bairro que são um pouco melhores outros.

O que Cecília e sua família sofrem é o que outros 3,4 milhões de argentinos também sofrem, 7,9% do total, segundo o Barômetro de Dívida Social elaborado pela Universidade Católica Argentina (UCA) . Este percentual enfrenta insegurança alimentar grave, o que tecnicamente significa uma redução involuntária da porção de alimentos ou a percepção da experiência de fome devido a problemas econômicos nos últimos 12 meses. “Em 2018 um aumento significativo na insegurança alimentar grave ocorreu e é principalmente explicada a partir da deterioração da situação das famílias em estratos mais baixos nos subúrbios de Buenos Aires e outras áreas metropolitanas , ” explica o diretor do Observatório sobre dívida social Argentinado UCA, Agustín Salvia. O patamar de 2018 representa o maior da série iniciada em 2010, quando, após sair da última crise mundial, atingiu 7,6% no governo de Cristina Fernández de Kirchner. Em 2015, o último ano de gestão do ex-presidente, caiu para 6,1% e voltou a subir em 2018, terceiro ano da administração de Mauricio Macri.

A fome de 3,4 milhões de pessoas em um país que produz alimentos para 400 milhões de alarme. Carlos Achetoni, presidente da Federação Agrária Argentinatente uma resposta para essa contradição. Representa agricultores considerados médios neste país, a oitava maior área do planeta. Cada um tem 300 ou 400 hectares no pampa úmido ou 1.000 nas zonas áridas: “Não temos uma distribuição eqüitativa dos recursos. Há uma concentração de riqueza em poucas mãos. Existem políticas que deveriam ser um pouco mais reguladoras, ter um estado virtuoso que equilibra a cadeia, porque temos um setor produtivo que percebe valores às vezes abaixo dos custos e, no outro extremo da cadeia, um consumidor que recebe preços abusivo “. No interior da Argentina existem 276.000 unidades produtivas de todos os tamanhos, segundo o último censo de 2008.

Dá-me impotência o que acontece com a Argentina: temos tudo para estar bem, terra, água, mas somos mais pobres

CECILIA, VIZINHA DE CAMPANA

No distrito de San Cayetano, em Campana, alguns vizinhos agrupadas no Movimento Evita – em homenagem a Eva Duarte de Perón, a segunda esposa do ex-presidente Juan Domingo Perón criaram até uma horta comunitária em razão da casa de um deles, Emilce Lumbrera, 50 anos, casado, com filhos maiores de idade, mas que cuida de dois sobrinhos. Eles têm conseguido com a orientação do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA) e o acompanhamento de uma parceria civil, Open House , ea assim – chamado complementar -equivalente salário social a meio salário mínimo, 125 euros mês- organizações sociais como o Evita, eles conseguiram concordar em 2016 com o governo de Macri, no marco de uma lei de emergência social.

Naquele mesmo ano, a sala de jantar também começou no lote da mesma casa em Emilce. “Nós tínhamos os planos (salários complementares) e algo tinha que ser feito (como consideração). Então criamos a lanchonete Los Pollitos del Evita, porque também temos um galinheiro, porque vimos que as necessidades estavam aumentando. Há famílias das quais somos o chefe de família “, diz Emilce, que oferece segunda-feira, quinta e sexta-feira o lanche e às quartas-feiras, almoço para entre 50 e 70 crianças. O Movimento Evita fornece a maior parte da comida das contribuições do estado. Eles também recebem doações de moradores do bairro e da capital argentina.

Na sala de jantar de sua casa, Emilce que recebe muitos que comer apenas uma vez por dia: “Aí vem uma avó com seus quatro netos, mães separadas, uma mulher com 11 filhos, aquele que trabalha por horas (no serviço doméstico) e manda as cinco garotas. Havia famílias que viviam antes de procurar metais e papelão na queima (aterro) e de lá trouxeram carne e legumes, mas em 2018 a fecharam e agora chegam à sala de jantar. Ou eles não têm emprego ou não têm dinheiro (dinheiro). ” O referente do Evita no bairro confessa ter visto a fome: “Vês quando o menino leva o que excede. Então vem com uma mochila ou uma garrafa ou uma jarra para levar o leite “.

Mas Cecilia, mãe de quatro filhos que costumam comer uma vez por dia, consegue sozinha. Ela já realizada com a venda de arroz, macarrão, purê de tomate, sucos, ovos e garrafas em casa, em um bairro sem supermercados, mas as vendas começaram a cair desde 2016. “Eu fui para levar 5.000 pesos (297 euros então) ou 6.000 (356 euros) por mês ou 1.000 (59 euros), eu não podia dar ao luxo de substituir a mercadoria “, lembra ele. No ano seguinte, ele espanou o curso de oito meses que havia tomado como companheiro terapêutico e foi trabalhar como tal. É claro que ele cobrava o equivalente a 358 euros por um dia inteiro e sem que seu empregador cumprisse as contribuições da Previdência Social . Mas em dezembro de 2017 ela pediu demissão porque ficou grávida. Ele começou a vender fraldas em casa.

“Igualmente, a situação está ferida”, lamenta. Em novembro e dezembro, últimos meses do ano escolar na Argentina, seus filhos mais velhos, sete, dez e 15 anos foram os dias para a escola porque não tinham dinheiro para o ônibus que os leva ao centro de Campana. Ele também ficou para trás nas taxas de compra de sua lavadora de roupas. O marido parou de tomar as pílulas por causa de sua pressão alta. Ele mal tem o suficiente para comer. “Carne (vacina) não comemos mais”, conta em um dos países com maior consumo per capita. “Nós sempre comemos frango milanesa. Meu cunhado me dá frutos. Nós comemos ensopado de arroz, macarrão ou lentilhas, ou batatas fritas. Pão, não. Cookies, sim. Quando comemos à tarde, faço um bolo de esponja para passar a manhã. E à noite tomamos chá ou mate ”, diz ele. depois de pedir aos filhos que saiam da sala e ir assistir televisão. E que em seu bairro precário não paga por eletricidade ou água potável. O Estado assume o comando. Mas os 133 euros da pensão de seu marido, os 128 dotarefas para seus quatro filhos e o que você recebe de fraldas.

“Os meninos percebem o que está acontecendo, mas pelo menos estão bem”, renuncia Cecilia. “Os 15 ficam chocados porque seus colegas compram roupas, vão a festas”, diz ele. Indica a casa de um casamento vizinho que está desempregado. Outro que foi demitido de um estaleiro. “Isso me dá impotência o que acontece com a Argentina: temos tudo para estar bem, terra, água, mas somos mais pobres. Me entristece pelos meus filhos. A educação, que é a única coisa que posso lhes dar, diminuiu em relação aos meus tempos ” , diz esta mulher que terminou o ensino médio. “E não é que você saia e trabalhe”, ele esclarece.

Nós não temos uma distribuição equitativa de recursos. Há uma concentração de riqueza em poucas mãos

CARLOS ACHETONI, PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO AGRÁRIA ARGENTINA

“As pessoas pensam que as coisas nos pagam, que somos preguiçosos, que somos choripaneros(Isso é o que aqueles que pensam que supostamente os beneficiários dos planos de bem-estar estão satisfeitos com um choripán, sanduíche de chouriço) estão se referindo de forma pejorativa “, diz Emilce, o líder do Movimento Evita em San Cayetano. “Mas os vizinhos fazem o que podem”, diz ele. É por isso que ele disponibilizou sua casa. “Você sempre aposta no seu bairro, para melhorar a qualidade de vida. Pelo menos você pode aliviar a situação “, luta Emilce, que em 2018 recebeu por um mês os filhos do refeitório da escola do bairro, que ficou sem gasolina e, portanto, sem cozinha. Os vizinhos vêm pedir erva mate, latas de tomate, leite ou milho. As 40 mulheres de sua cooperativa não só colaboram no jardim, no galinheiro ou na sala de jantar, mas também são obrigadas a concluir o ensino médio e receber treinamento emviolência de gênero , economia popular, promoção da saúde ou horta. Eles também são organizados para fazer compras comunitárias de alimentos.

No mesmo bairro, uma sala de jantar é organizada por outro dos movimentos sociais que concordaram com o governo de Macri a emergência social, embora sejam posicionados como adversários: Barrios de Pie. coordenador nacional, Daniel Menendez, analisa o quadro social do seu país: “Em 2018 se estabeleceu novamente na Argentina o problema da fome. É um problema recorrente ao longo da nossa história. Desde a inflação alguns anos juntamente com um abrandamento da actividade económica tem oscilado pobreza entre 20 e 25%, mas em 2018, com a desvalorização (em peso) que vivemos, com um dólar subindo mais de 100%, resultando em disparada dos preços dos alimentos, juntamente com o colapso da economia, repovoar as cozinhas de sopa em todo o nosso país. Então as atribuições e os planos de emprego passam a ser insuficientes, devido à falta de trabalho “. Barrios de Pie mantém 2.000 salas de jantar na Argentina. “Novos problemas como desnutrição começam.

Ministério do Desenvolvimento Social da Argentina foi consultado para este artigo, mas permaneceu em silêncio. O Ministério do Desenvolvimento Social da província de Buenos Aires, onde Campana está localizada e quase quatro em cada dez argentinos vivem, ele afirma que em 2016 ele criou um programa de um copo de leite por dia para 434.000 crianças e mulheres grávidas. Ele acrescenta que aumentou o orçamento do cartão Más Vida para comprar alimentos para 300 mil famílias e o número de cantinas escolares atendidas por 1,7 milhão de estudantes, além de criar apoio para espaços comunitários para fornecer alimentos para cerca de 50 mil famílias. , embora cada um receba apenas 11 euros por mês, enquanto entrega 1,2 milhões de quilos por mês de comida às cantinas. A vida de Cecília e muitas outras pessoas de Buenos Aires mostra que isso não é suficiente.