Produção Humana: por um trabalho não-alienado

Por Pedro Nogarolli

[Este texto é a continuação/resolução do texto Propriedade privada e alienação]

Marx, em seus manuscritos de Paris, no capítulo “produção humana” faz a seguinte hipótese: suponha que produzíssemos como seres humanos, isto é, produzíssemos de forma não-alienada. Como isso seria? Em homologia direta ao trabalho alienado, partiremos para três aspectos desse trabalho não alienado:

• A relação do trabalhador com sua atividade.
• A relação do trabalhador com os frutos de seu trabalho.
• A relação do trabalhador consigo e com o outro.

1) Na minha produção, ao contemplar minhas criações, confirmaria minha própria personalidade como um poder real. Isso é, sentiria a felicidade de provar minha própria individualidade, ou aquilo que me faz especial no mundo.

2) No consumo do meu produto por outro, sentiria a alegria espiritual espontânea de saciar uma necessidade humana, de fornecer a outro aquilo que ele precisa.

3) Por último, eu seria reconhecido como complemento do seu ser, uma parte necessária da sua vida, portanto realizaria a mediação entre os indivíduos e o próprio gênero humano. Sintetizando tudo, temos: na manifestação da minha individualidade, me contemplando naquilo que me torna especial, ao mesmo tempo também me alegro por satisfazer uma necessidade humana e sirvo de realização da sua vida.

“Nossas produções seriam como que tantos espelhos que irradiariam a nossa essência entre nós”.

• Mas, sob a propriedade privada, o trabalho é alienação das nossas vidas, é um borrão nesses espelhos, pois o trabalho serve apenas de um meio para viver, e não como realização de nossas vidas. Meu trabalho não é minha vida. Além disso, o trabalho se tornou tão alienado que minha produção é detestável, uma causa de sofrimento, que me é imposta a força por uma casualidade, um constrangimento desnecessário. Meu trabalho sob a propriedade privada é a perda de mim mesmo.

Referência:

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm

RAP e Consciência de Classe

O rap, historicamente, é um estilo musical muito voltado para a crítica aos problemas sociais, como desigualdade, racismo, criminalidade etc. De fato, no início, ele foi criado para animar festas em bairros jamaicanos, contudo, já nessa mesma época, os chamados “toasters” (mestres de cerimônia dessas festas) já abordavam assuntos relacionados a problemas sociais.

Após a emigração de muitos jamaicanos para os EUA, devido a uma grave crise econômica e social que atingiu a Jamaica, o rap começou a se propagar nos EUA, e foi aí que os temas relacionados à pobreza e problemas sociais em geral se tornaram maioria dentre os compositores.

Como se sabe, o mundo está imerso em uma ordem societária extremamente exploratória e desigual, e, portanto, o rap nada mais é do que o reflexo dessa sociedade. Marx e outros autores comunistas já falavam que as ideias, de uma forma bem genérica, são reflexo das relações materiais existentes nas quais os indivíduos estão inseridos. Ou seja, as condições materiais da sociedade condicionam os indivíduos a pensarem e agirem de determinadas formas. E, incluso em uma dessas formas de pensar e agir, dentre outras várias espalhadas pela literatura, música, arte, e da cultura de uma forma geral, está o rap, que passa a ser a simbolização abstrata dessa sociedade no sentido crítico, isto é, passa a ser uma espécie de instrumento cultural e musical que relata o que há de pior na sociedade regida pela lógica reprodutiva do capital, mergulhada em contradições sociais.

Nos EUA, grupos e artistas autônomos de rap representavam nos anos 80/90 e representam até hoje essa manifestação muito bem, como Public Enemy, NWA, Wu Tang Clan etc. No resto do mundo também existem muitos artistas com conteúdos líricos voltados para problemas sociais, como Keny Arkana na França, Valete em Portugal, entre outros. De fato, há outros temas tratados no rap, porém, o que domina é o relacionado às mazelas sociais. No Brasil, também há muitos rappers e grupos que compõe letras associadas à violência, tráfico, pobreza etc, sendo o mais notório deles o Racionais MC’s, mas tendo também Facção Central, A286, RZO, Atitude Consciente, MPC 288, dentre vários outros.

Eduardo Taddeo (ex-Facção Central) e Mano Brown (Racionais MC’s)

Alguns desses grupos são extremamente “cruéis” e realistas em suas respectivas letras, como é o caso do grupo “Facção Central”, que chegou a ter o clipe “Isso aqui é uma Guerra” censurado há alguns anos atrás, acusado de fazer apologia ao crime, sendo que apenas mostrava artisticamente a sociedade tal como ela é nas favelas e em outras regiões onde impera a pobreza, fome e a falta de saúde e educação de qualidade. Um ex-integrante do grupo, Eduardo Taddeo, ao ser questionado em uma entrevista sobre o pouco investimento que há no rap periférico brasileiro, respondeu: “Representamos o perigo para o sistema. Nós estamos falando justamente aquilo que a sociedade não quer ouvir”. Ele também possui dois livros, “A Guerra Não Declarada Na Visão De Um Favelado” parte 1 e parte 2.

É evidente que esses rappers e grupos de rap não possuem muita notoriedade no campo midiático, visto que a mídia se configura como um dos principais instrumentos burgueses de dominação ideológica, já que para a burguesia manter sua ordem sócio-econômica e sua dominação de classe sobre os trabalhadores, precisa criar concepções de mundo que correspondam a tal mantimento, de modo que mistifique a realidade social e faça com que a população explorada fique anestesiada e inerte perante a sua própria exploração. Por conta disso músicas com letras vulgares e superficiais (não há a necessidade de citação de estilos musicais, já que isso é relativo, uma vez que praticamente todos os estilos, inclusive o rap, possuem músicas do tipo) são bem mais divulgadas do que letras críticas e profundas sobre a situação que o Brasil e o mundo se encontram há décadas.

Um exemplo disso é visto no interior do próprio rap. Nos últimos tempos se tornou um estilo musical mais conhecido simplesmente por ser constituído por rimas (que muitas vezes são vazias), flow e beat, como se congregar palavras semelhantes de diferentes significados, em uma música completamente desprovida de nexo e descontextualizada, representasse o que o rap é em sua essência. Ou seja, o rap, na maioria, apesar de ainda haver muitos rappers da época mais antiga, se tornou justamente um estilo musical que condiz com os interesses burgueses, no sentido de que não procura demonstrar através da música uma perspectiva crítica da sociedade regida pelos interesses dos grandes capitalistas, mesmo que indiretamente.

Atualmente muitos grupos de rap, com músicas extremamente realistas, são desconhecidos entre a população, mesmo que relatem de forma precisa e crítica a realidade social produto da lógica do capital. As mulheres também estão intensivamente presentes nesse gênero de rap, como o grupo “Atitude Feminina”, a “Karol Colombiana”, ex integrante do grupo “Realidade Cruel”, a já falecida “Dina Di”, considerada a maior rapper brasileira que já existiu, dentre várias outras. Infelizmente, também são igualmente ignoradas no cenário midiático, que é repleto de músicas que mais parecem uma espécie de patologia cultural.

Assim como há essas manifestações críticas da realidade social, há também aqueles que, além de serem críticos, possuem uma consciência de classe mais avançada, e propagam a superação do capitalismo, como no caso de Pablo Hasel, um rapper comunista espanhol que há alguns anos foi condenado a vários anos de prisão, acusado de enaltecer o terrorismo e fazer injúrias e calúnias contra as instituições burguesas. No Brasil, grupos como Gíria Vermelha, Ameaça Vermelha, Liberdade e Revolução etc, são exemplos de casos constituídos por marxistas conscientes do funcionamento da sociedade brasileira e do capital de uma forma geral. Obviamente, como foi comentado acima, poucas pessoas conhecem esse tipo de manifestação artística e artistas associados a mesma, visto que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Assim, como o rap com essa qualidade musical expressa justamente o oposto dos interesses burgueses, acabam não sendo tão divulgados, pelo contrário, até combatidos.

Dessa maneira, o rap que exprime esse conteúdo lírico deve ser considerado um instrumento crítico e verdadeiro da realidade. Da mesma forma, deve ser visto como um conscientizador das massas oprimidas, contrapondo assim as concepções mistificadas das ideias burgueses, que sempre têm como objetivo último mascarar a luta de classes e a exploração inerente para a acumulação do capital por parte da classe reacionária dominante. Por fim, deixamos aqui algumas sugestões de músicas de grupos e rappers autônomos que demonstram a união de Rap e Consciência de Classe.

Arma da Crítica — Amarildos:
https://m.youtube.com/watch?v=n9pAZFVE1ZA

A286 — Enquanto houver motivo:
https://www.youtube.com/watch?v=qYvEwoBR64Q

Atitude Feminina — Dia de Finados:
https://www.youtube.com/watch?v=P4CddSfBNmI

MV Bill — Brado Retumbante:
https://www.youtube.com/watch?v=tM9vFzz8TI0

Liberdade e Revolução — Fim de Festa:
https://www.youtube.com/watch?v=PNLq5zmmMx0

Ameaça Vermelha — Resposta à Chacina de Pau D’Arco:
https://www.youtube.com/watch?v=z5e7muLMQPA

Gíria Vermelha — Não mais:
https://www.youtube.com/watch?v=mJFHTz1LY3Q

Eduardo — Substância Venenosa:
https://www.youtube.com/watch?v=CAE-_DPaG0E

Facção Central — Isso aqui é uma Guerra:
https://www.youtube.com/watch?v=dXbpOiEHQhA

Total Drama — Rato Cinza:
https://www.youtube.com/watch?v=DtLnayD1Q9g

Realidade Cruel — Censuras:
https://www.youtube.com/watch?v=0gpw-OOWGJA

Thiagão part. Atitude Consciente — Perigo Constante:
https://www.youtube.com/watch?v=4vDZAH9Ko2A

Do Equador ao Chile: o povo toma as ruas

Por Vinícius Fontoura

A América Latina vem amanhecendo com ondas cada vez mais fortes de luta popular. Nesse cenário, dois países merecem destaque aqui: Equador e Chile. Ambos os países demonstraram (e demonstram) o poder do povo organizado contra o governo, fazendo surgir e levantar multidões na luta contra medidas de cortes e decretos que prejudicam a população.

Milhares de pessoas foram para as ruas nas últimas semanas. Tanto o Equador quanto o Chile tiveram suas particularidades no que se refere aos motivos que levaram sua população aos protestos, mas todos com a mesma luta — pelo povo.

EQUADOR

Povo equatoriano mostra suas bandeiras em escudos improvisados.

No dia 3 de Outubro tiveram início os protestos no Equador. O “estopim” para as manifestações foi o decreto de medidas econômicas e trabalhistas assinado pelo presidente Lenín Moreno, que tinham como objetivo empréstimos milionários pelo FMI, e como consequências o aumento do preço de combustível em até 123% e ao aumento do preço dos transportes públicos.

O povo equatoriano não deixou por menos e foi às ruas em protestos radicais organizados contra as medidas de Moreno. Os protestos tiveram grande intensidade, demonstrando toda bravura dos povos indígenas e de todos os equatorianos num geral. Os números apontam para 7 mortos, pelo menos 1300 feridos e mais de 1150 presos. Por fim, Moreno suspendeu o projeto no dia 14 de Outubro.

No vídeo abaixo, o relato emocionante de um dos manifestantes no Equador.

CHILE

Chilenos criam barricadas em meio aos protestos.

No Chile, os protestos populares tiveram início após um aumento no preço da tarifa no metrô. Na sexta-feira (dia 18), após duas semanas de manifestações mais calmas, os manifestantes começaram a radicalizar os protestos, levando ao decreto de Estado de Emergência, a instauração de toque de recolher e a entrada do Exército contra o povo nas ruas — fato que não acontecia desde a ditadura de Pinochet.

Pelo sábado (dia 19) o presidente do país, Sebastián Piñera, recuou e suspendeu o aumento no preço. Apesar disso, os protestos continuaram e seguem até hoje, mesmo com as complicações que se sofre com o Exército do lado do governo. Segundo dados, 11 pessoas morreram e mais de 1400 já foram presas durante as manifestações. Em entrevista, o presidente declarou que o país está em guerra [contra seu próprio povo?].

No vídeo abaixo, manifestantes ateiam fogo na sede do jornal El Mercurio, que apoiou a ditadura de Pinochet.

A ONDA DE PROTESTOS

A onda de protestos — que ganha destaque com as fortes manifestações no Equador — impulsiona também outros protestos pela América. Mais países ainda passam por turbulências políticas e pouco a pouco organizam-se nas ruas. Merecem nossa atenção também os recentes acontecimentos no Peru, os constantes protestos no Haiti, os movimentos políticos na Colômbia e todas as outras lutas que se somam.

Para tal, recomendamos também o artigo de Pedro Marin, da Revista Opera, que aborda de forma clara o que vem acontecendo nas últimas semanas. O texto, intitulado de América Latina rebelada: A Projeção Continental do Povo e a geopolítica da força, pode ser acessado aqui.

Um espectro ronda a América Latina — o espectro do Comunismo.
Todos os poderes do velho Estado se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o presidente e os militares, a oposição e o imperialismo, radicais e liberais.
Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não arremessou de volta, tanto contra os oposicionistas mais progressistas como contra os seus adversários reacionários, a acusação de comunismo?
Deste fato concluem-se duas coisas:
(1) O comunismo já é reconhecido por todos os poderes da América Latina como um poder.
(2) Já é tempo de os comunistas exporem abertamente perante a América Latina inteira o seu modo de ver, os seus objetivos, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto do próprio partido.

(Adaptação de trecho do 1º capítulo do Manifesto do Partido Comunista)

Socialista pode ter iPhone?

Por Vinícius Fontoura

Dos smartphones, serviços de streaming e os mais diversos aplicativos e facilidades para nosso cotidiano, o modo capitalismo trouxe muitos avanços, e Marx inclusive ressalta isso tratando do alto desenvolvimento das forças produtivas que este modo trouxe. Por outro lado, encontramos nas mais fracas argumentações o ponto de que “É socialista, mas tem iPhone” ou qualquer outra coisa envolvendo comunismo e possuir determinado bem. Qual a contradição nisso?

A resposta é curta e direta: nenhuma.

Não há absolutamente nada que diga respeito a alguém defender um modo de produção diferente enquanto utiliza de algum bem produzido >em< determinada sociedade. E ressaltamos o “em” porque esse mesmo bem também poderia ser produzido, por exemplo, em uma sociedade socialista.
Outro aspecto citado é o de que o “Fetichismo da Mercadoria” trataria justamente disso, já que o iPhone seria um smartphone mais caro que os demais, então a pessoa estaria colocando um “fetiche” sobre ele, o que implicaria em uma contradição para os comunistas.

Isso está absolutamente errado.

O Fetichismo da Mercadoria não trata de consumo, nem é uma crítica a este. Esse conceito trata da >produção< sob o modo capitalista. O Fetichismo é a ilusão que esconde o processo de exploração capitalista e as relações envolvidas na produção através da expressão da Mercadoria enquanto preço. É a substituição da essência (de todo trabalho gasto na produção) pela aparência (a simples expressão de determinada quantos de dinheiro).

Do mesmo modo, seria também estupidez contra-argumentar, por exemplo, um servo medieval que criticaria o modo servil porque este estaria utilizando de roupas e alimentos produzidos por este modo. Tal qual seria estupidez fazer o mesmo com um escravizado que se rebelasse contra o modo escravista por este estar usando ferramentas e roupas produzidas por este modo.

A crítica de Marx não é pautada em como um comunista deve ou não viver no capitalismo, mas sobre o modo de produção em sua totalidade, muito além do indivíduo.

México: Zapatistas retomam a ofensiva

Comunicado Oficial do EZLN, com tradução do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

COMUNICADO DO COMITÊ GERAL CLANDESTINO REVOLUCIONÁRIO INDÍGENA – COMANDO GERAL DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.

MÉXICO, 17 de agosto de 2019.

AO POVO DO MÉXICO, AOS POVOS DO MUNDO, AO CONGRESSO NACIONAL INDÍGENA-CONSELHO INDÍGENA DE GOVERNO, À SEXTA NACIONAL E INTERNACIONAL, ÀS REDES DE APOIO E RESISTÊNCIA E REBELDIA

IRMÃOS, IRMÃS, COMPANHEIROS E COMPANHEIRAS:

Aqui trazemos a você nossa palavra que é a mesma de antes, hoje e amanhã, porque é resistência e rebelião.

Em outubro de 2016, há quase três anos, em seu vigésimo aniversário, as cidades irmãs organizadas no Congresso Nacional Indígena, juntamente com o EZLN, se comprometeram a promover a ofensiva em defesa do território e da mãe terra. Perseguidos pelas forças do mau governo, chefes, empresas estrangeiras, criminosos e leis; contando mortos, afrontas e prejuízos, os povos nativos, os guardiões da terra, concordamos em passar para a ofensiva e espalhar a palavra e a ação de resistência e rebelião.

Com a formação do Conselho Indígena de Governo e a designação de sua porta-voz, Marichuy, o Congresso Nacional Indígena recebeu a tarefa de levar a palavra de advertência e organização aos irmãos e irmãs no campo e na cidade. O EZLN também passou à ofensivo em sua luta de palavra, ideia e organização.

Agora chegou a hora de reportarmo-nos ao CNI-CIG e sua porta-voz. Seus povos dirão se temos cumprido. Mas não apenas eles, também temos que lidar com organizações, grupos e indivíduos que, no México e no mundo, se preocupam com os povos zapatistas e, em seu tempo, geografia e modo de vida, sem importar a distância em quilômetros, os muros e fronteiras, ou as cercas que nos colocam, continuam com o coração palpitando junto ao nosso.

A chegada de um novo governo não nos enganou. Sabemos que o Mandón não tem mais Pátria que o dinheiro, que governa no mundo e na maioria dos lugares que eles chamam de “países”.

Também sabemos que a rebelião é proibida, assim como a dignidade e a raiva. Mas, em todo o mundo, em seus cantos mais esquecidos e desprezados, existem seres humanos que resistem a serem comidos pela máquina e não se rendem, não se vendem e não desistem. Muitas cores têm, muitas são suas bandeiras, muitas as línguas que as vestem, e gigantescas são sua resistência e sua rebelião.

O Mandón e seus capatazes constroem muros, fronteiras e cercas para tentar conter o que eles dizem ser um mau exemplo. Mas eles não podem fazê-lo, porque dignidade, coragem, raiva, rebelião não podem ser detidas ou trancadas. Mesmo se eles se esconderem atrás de seus muros, suas fronteiras, suas cercas, seus exércitos e policiais, suas leis e decretos, essa rebelião chegará a lhes cobrar a conta, mais cedo ou mais tarde. E não haverá perdão nem esquecimento.

Sabíamos e sabemos que nossa liberdade será apenas obra de nós mesmos, dos povos originais. Com o novo capataz no México, a perseguição e a morte continuaram: em apenas alguns meses, uma dezena de companheiros do Congresso Nacional Indígena – Conselho Indígena de Governo, combatentes sociais, foram mortos. Entre eles, um irmão muito respeitado pelos povos zapatistas: Samir Flores Soberanes, assassinado após ser apontado pelo capataz que, além disso, continua com os megaprojetos neoliberais para fazer desaparecer aldeias inteiras, destruindo a natureza e convertendo o sangue dos povos originários no lucro dos grandes capitais.

Portanto, em homenagem às irmãs e irmãos que morreram, são perseguidos e estão desaparecidos ou na prisão, decidimos nomear a campanha zapatista que culmina hoje e tornamos pública como “SAMIR FLORES VIVE”!

Após anos de trabalho silencioso, apesar do cerco, apesar das campanhas de mentiras, apesar das difamações, apesar das patrulhas militares, apesar da Guarda Nacional, apesar das campanhas contrainsurgentes disfarçadas de programas sociais, apesar do esquecimento e do desprezo, crescemos e nos tornamos mais fortes.

E rompemos o cerco.

Saímos sem pedir permissão e agora estamos novamente com vocês, irmãs e irmãos, companheiras e companheiros. O cerco do governo foi deixado para trás, não funcionou e nunca funcionará. Seguimos caminhos e rotas que não existem em mapas ou satélites e só são encontrados nos pensamentos dos mais antigos.

Conosco, zapatistas, em nossos corações também caminhou a palavra, a história e o exemplo de nossos povos, de nossos filhos, idosos, homens e mulheres. Lá fora, encontramos casa, comida, audição e palavras. Entendemo-nos como aqueles que compartilham não apenas a dor, mas também a história, a indignação e a raiva.

Entendemos, portanto, não apenas que cercas e muros servem para a morte, mas também que a compra e venda de consciências do governo é cada vez mais inútil. Eles não trapaceiam mais, não convencem, se enfraquecem, quebram, fracassam.

Foi assim que saímos. O Mandón foi deixado para trás, pensando que suas cercas nos detinham. De longe, vimos as tropas da Guarda Nacional, soldados, polícia, projetos, ajudas e mentiras. Fomos e voltamos, entramos e saímos. 10, 100, 1000 vezes o fizemos e o Mandón assistiu sem nos olhar, confiante no medo que seu medo transmitia.

Como uma mancha suja, ficaram para trás os cercadores, cercados em um território agora mais extenso, um território que transmite rebelião.

Irmãos, companheiros:

Aparecemos diante de vocês com novos Caracoles (territórios ocupados) e municípios rebeldes zapatistas autônomos em novas áreas do sudeste do México.

Agora teremos também Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista. Na maioria dos casos, esses centros também abrigam caracóis, conselhos do governo e municípios autônomos rebeldes zapatistas (MAREZ).

Embora lentamente, como deve ser segundo seu nome, os 5 caracóis originais foram reproduzidos após 15 anos de trabalho político e organizacional; e o MAREZ e suas Juntas de Bom Governo também tiveram que aumentar e vê-los crescer. Agora haverá 12 caracóis com suas Juntas de Bom Governo.

Esse crescimento exponencial, que hoje nos permite deixar o cerco novamente, deve-se principalmente a duas coisas:

Uma delas, e a mais importante, é o trabalho político organizacional e o exemplo das bases zapatistas de mulheres, homens, crianças e idosos. De maneira destacada, das mulheres e jovens zapatistas. Companheiros de todas as idades se mobilizaram para conversar com outras irmãs com ou sem organização. Os jovens zapatistas, sem abandonar seus gostos e desejos, aprenderam sobre ciência e artes e, assim, contagiaram cada vez mais jovens. A maioria desses jovens, principalmente mulheres, assumem cargos e os empapam com sua criatividade, engenhosidade e inteligência. Assim, podemos dizer, sem tristeza e com orgulho, que as mulheres zapatistas não apenas avançam, como o pássaro Pujuy, mas marcam o caminho para não que não nos percamos: também para os lados, para que não nos desviemos, e para trás, para que não nos atrasemos.

A outra é a política governamental destrutiva da comunidade e da natureza, particularmente a do atual governo denominado “Quarta Transformação”. As comunidades tradicionalmente partidárias foram feridas pelo desprezo, racismo e voracidade do atual governo e entraram em rebeliões abertas ou ocultas. Quem pensou que, com sua política contrainsurgente de esmolas, dividiria o zapatismo e compraria a lealdade dos não zapatistas, incentivando o confronto e o desânimo, deu os argumentos que faltavam para convencer aqueles irmãos que a terra e a natureza devem ser defendidas.

O mau governo pensou e acha que o que as pessoas esperam e precisam são esmolas monetárias.

Agora, os povos zapatistas e muitos não zapatistas, bem como as cidades irmãs do CNI no sudeste do México e em todo o país, respondem a ele e provam que ele está errado.

Entendemos que o capataz atual foi treinado no PRI e na concepção “indigenista” na qual os nativos desejam vender sua dignidade e deixam de ser o que são, e que o indígena é uma peça de museu, artesanato multicolorido para os poderosos esconderem o cinza do seu coração. É por isso que ele se preocupa com o fato de que seus muros de trem (os do istmo e o mal chamado “Maya”) incorporam as ruínas de uma civilização na paisagem, para que o turista se deleite.

Mas os povos originários estão vivos, rebeldes e resistentes; e o capataz agora pretende relançar um de seus capangas, um advogado que já foi indígena e que agora, como na história mundial, dedica-se a dividir, perseguir e manipular aqueles que já foram seus pares. O titular do INPI é esculpido na consciência cotidiana com pedra-pomes para eliminar qualquer vestígio de dignidade. Ele acha que sua pele está embranquecida e sua razão é a do Mandón. O capataz o felicita e felicita a si mesmo: não há nada melhor para tentar controlar os rebeldes do que um arrependido, transformado em troca de um alto salário, em fantoche do opressor.

Durante esses mais de 25 anos, aprendemos.

Em vez de escalar as posições de mau governo ou nos tornar uma cópia ruim daqueles que nos humilham e oprimem, nossa inteligência e conhecimento foram dedicados ao nosso próprio crescimento e força.

Graças às irmãs e aos irmãos do México e do mundo, que participaram das reuniões e encontros que convocamos neste momento, nossa imaginação e criatividade, assim como nosso conhecimento, se abriram e se tornaram mais universais, ou seja, mais humanos. Aprendemos a olhar, ouvir e falar com o outro sem zombaria, sem condenação, sem etiquetas. Aprendemos que um sonho que não abarque o mundo é um sonho pequeno.

O que é agora conhecido e público foi um longo processo de reflexão e pesquisa. Milhares de assembleias comunitárias zapatistas, nas montanhas do sudeste do México, pensaram e procuraram caminhos, modos, tempos. Desafiando o desprezo dos poderosos, que nos rejeitam como ignorantes e tolos, usamos inteligência, conhecimento e imaginação.

Aqui nomeamos os novos Centros de Resistência Autônoma e Rebelião Zapatista (CRAREZ). Existem 11 novos centros, mais os 5 caracóis originais, 16. Além dos municípios autônomos originais, que são 27, o total de centros zapatistas são 43.

Nomes e localização dos novos Caracoles e Marez:

1- Novo caracol, seu nome: Coletivo coração de sementes rebeldes, em memória do companheiro Galeano. Sua Junta de Bom Governo se chama: Passos da história, pela vida da humanidade. Sua sede é La Unión. Terra recuperada. Ao lado de San Quintin, onde fica o quartel general do mau governo. Município oficial de Ocosingo.

2- Novo município autônomo, é chamado: Esperança da Humanidade. Sua sede é em Santa María. Município oficial de Chicomuselo.

3- Outro novo município autônomo é chamado: Ernesto Che Guevara. Sua sede é em El Belén. Município oficial de Motozintla.

4- Novo Caracol, com o nome Espiral digna tecendo as cores da humanidade em memória dos caídos. Sua Junta de Bom Governo é chamado: Semente que floresce com a consciência daqueles que lutam para sempre. Sua sede fica em Tulan Ka’u, terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

5- Outro novo caracol. O nome dele é: Florescendo a semente da rebeldia. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Novo amanhecer em resistência e rebelião pela vida e pela humanidade. Sua sede fica em Pueblo Patria Nueva, terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

6- Novo município autônomo, é chamado: Semeando consciência para colher revoluções pela vida. Sua sede é em: Tulan Ka’u. Terra recuperada. Município oficial de Amatenango del Valle.

7- Novo caracol. O nome dele é: Em homenagem à memória do companheiro Manuel. Sua Junta de Bom Governo é chamada: O pensamento rebelde dos povos originais. Sua sede é em: Dolores Hidalgo. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

8- Outro novo caracol. Seu nome é: Resistência e rebelião, um novo horizonte. Sua Junta de Bom Governo é chamada: A luz que brilha no mundo. Sua sede fica na vila de Nova Jerusalém. Terra recuperada. Município oficial de Ocosingo.

9- Novo Caracol, é chamado: Raiz de Resistências e Rebeliões para a humanidade. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Coração de nossas vidas para o novo futuro. Sua sede fica no Jolj’a ejido. Município oficial de Tila.

10- Novo Município Autônomo, é chamado: 21 de dezembro. Sua sede fica na Ranchería K’anal Hulub. Município oficial de Chilón.

11- Novo Caracol, é chamado: Jacinto Canek. Sua Junta de Bom Governo é chamada: Flor da nossa palavra e luz dos nossos povos que reflete para todos. Sua sede fica na Comunidade do CIDECI-Unitierra. Município oficial de San Cristóbal de las Casas.

Aproveitamos esta oportunidade para convidar a Sexta, as Redes, o CNI e o povo honesto a virem e, juntamente com os povos zapatistas, participarem da construção do CRAREZ, seja na obtenção de materiais e apoio econômico, seja martelando, cortando, carregando, orientando e vivendo com a gente. Ou da forma e modo e como lhes convêm. Nos próximos dias, publicaremos uma carta explicando como, quando e onde podem se registrar para participar.

Irmãos e companheiros:

Através do CNI-CIG, convidamos você a nos encontrar e conhecer o trabalho a que nos comprometemos, compartilhar os problemas, as dificuldades, os golpes, as quedas, mas também as sementes que servem para colher o melhor da luta e as sementes que sabemos que não nos darão uma colheita melhor, que nos leva ao contrário, de modo que não fazemos mais isso. Para encontrar aqueles que realmente querem a luta organizacional, nos encontramos para conversar sobre as boas colheitas e as ruins também. Propomos especificamente a realização conjunta, em um dos Caracóis, do que poderia ser chamado de FÓRUM EM DEFESA DO TERRITÓRIO E DA TERRA MÃE, ou, como você pode ver melhor, aberto a a todas as pessoas, grupos, coletivos e organizações que se empenham nessa luta pela vida.

À SEXTA e às REDES* chamamos a iniciar já a análise e discussão para a formação de uma Rede Internacional de Resistência e Rebeldia, Polo, Núcleo, Federação, Confederação, ou como se chame, baseada na independência e autonomia daqueles que a formem, renunciando explicitamente a hegemonizar e homogeneizar, na qual a solidariedade e o apoio mútuos sejam incondicionais, para que se compartilhem as experiências boas e ruins da luta de cada um e se trabalhe na difusão das histórias de baixo e à esquerda.

Para isto, como zapatistas que somos, convocaremos reuniões bilaterais com os grupos, coletivos e organizações que sim estão trabalhando em suas geografias. Não faremos grandes reuniões. Nos próximos dias daremos a conhecer como, quando e onde acontecerão estas reuniões bilaterais que estamos propondo. Claro, a quem as aceitem e tomando em conta seus calendários e geografias.

ÀQUELES QUE FAZEM ARTE, CIÊNCIA E CRÍTICA PENSAM A SUA VOCAÇÃO E VIDA, convidaremos para festivais, reuniões, festas, trocas ou do que essas ações poderão vir a ser chamadas. Já saberemos como, quando e onde eles poderão ser feitas. Isso inclui o CompArte e o Festival de Cinema “Puy ta Cuxlejaltic”, mas não apenas. Pensamos em criar CompArts especiais de acordo com cada arte. Por exemplo: Teatro, Dança, Artes Plásticas, Literatura, Música, etc. Haverá outra edição do ConCiences, talvez começando pelas Ciências Sociais. Semeadoras de pensamento crítico serão realizadas, talvez começando com o tema da Tormenta.

E, ESPECIALMENTE, PARA OS QUE ANDAM COM DOR E RAIVA, COM RESISTÊNCIA E REBELDIA E SÃO PERSEGUIDOS:

Convocaremos reuniões de parentes dos assassinados, desaparecidos e encarcerados, bem como organizações e grupos que acompanham sua dor, sua raiva e sua busca pela verdade e pela justiça. Terá como único objetivo que eles se conheçam e troquem não apenas dores, mas também e principalmente suas experiências nessa busca. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Os companheiros zapatistas convocam um novo Encontro de Mulheres que lutam, nos tempos, lugares e modalidades que elas decidirem, e os informarão quando e pelos meios que elas disserem. Informarmos de uma vez que será apenas para mulheres, por isso não podemos fornecer mais dados até que elas os digam.

Veremos se há uma maneira de fazer um encontro com as “outras” (LGBTs), com o objetivo de compartilhar, além de suas dores, as injustiças, perseguições e outras ações que lhes são feitas, suas formas de luta e força. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Veremos se é possível uma reunião de grupos, coletivos e organizações que defendem os direitos humanos, na forma e na modalidade que eles decidirem. Os povos zapatistas se limitarão a ser anfitriões.

Parceiros e irmãos:

Aqui estamos, somos zapatistas. Para os que nos olham, cobrimos nossos rostos; para quem nos nomeou, negamos nosso nome; apostamos no presente para ter um futuro e, para viver, morremos. Nós somos zapatistas, principalmente indígenas com raízes maias, e não nos vendemos, não desistimos.

Somos rebelião e resistência. Somos um dos muitos martelos que quebrarão as paredes, um dos tantos ventos que varrerão a terra e uma das muitas sementes das quais outros mundos nascerão.

Nós somos o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Das montanhas do sudeste mexicano.

Em nome dos homens, mulheres, crianças e idosos, das bases de apoio zapatista e do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Subcomandante Insurgente Moisés.

México, agosto de 2019.

* Sexta e Redes: movimentos sociais organizados em várias regiões do México, a partir de 2012 (nota da tradução).

Fonte:
Comunicado del CCRI-CG del EZLN. Y ROMPIMOS EL CERCO. Subcomandante Insurgente Moisés

Por que é impossível ser neutro ideologicamente?

É muito comum observar indivíduos que se afirmam “apartidários” ou “isentos ideologicamente” frente a diversas questões que existem em nossa sociedade. Normalmente querem apenas tentar mostrar que estão sempre abertos para novas perspectivas e que, portanto, não se encaixam em nenhum tipo de espectro ideológico acerca da realidade. Nesse texto, será elucidado o porquê disso ser impossível e de como isso pode prejudicar, de muitos modos, o progresso da humanidade.

Tal como apresenta o método de análises sociais do materialismo histórico, o ser precede as ideias. Precisamente isso significa que a realidade, aquilo que é objetivo, sempre terá prioridade existencial sobre aquilo que está confinado à subjetividade do indivíduo, às suas projeções acerca de como o mundo funciona. Desse modo, as ideias sempre serão secundárias com relação à objetividade externa, e é exatamente em função disso que ideias podem estar erradas ou não. Com base nisso, as ideias têm como função a reflexão do mundo dentro dos seus limites históricos, ou seja, reproduzem-o abstratamente de determinadas formas. Essas reproduções podem ser correspondentes ao funcionamento do mesmo ou não, isso vai depender, primariamente, das próprias dinâmicas do funcionamento, mas também do modo como o indivíduo capta as categorias do mesmo. Apenas a partir disso que tudo que é real pode ser interpretado e transformado humanamente, pois, sem ideias, conceitos, concepções e abstrações da razão em geral acerca do que existe, o mundo não poderia ser entendido ou tampouco alterado dentro da peculiaridade que a humanidade tem perante os outros animais que existem, peculiaridade esta que tem sua expressão externa primordialmente realizada pelo trabalho. No entanto, como o trabalho, apesar de ser a categoria elementar do homem, não é o suficiente para abarcar toda a complexidade da realidade social, então as concepções também ultrapassam os limites do mesmo e assumem uma posição mais “socializada”, que representam as formas ideais mais desenvolvidas do ser humano. 

Nesse sentido, surgem diversas noções de como o mundo é e de como ele deve ser. Paralelamente, diversas ideologias começam a existir com um único e exclusivo objetivo: Representar e atender determinados interesses. A quem essas ideologias servem pode ter um caráter diversificado de um ponto de vista mais específico (Movimento Negro, Feminismo, Ambientalismo etc), bem como elas podem convergir em diversos pontos, divergirem em certos aspectos ou radicalmente, lutarem por uma mesma causa mas com princípios distintos. Enfim, há diversas possibilidades. Entretanto, do ponto de vista mais essencial e geral da estrutura social vigente, as ideologias representam os interesses dos oprimidos ou opressores. Sendo assim, quando se adota uma forma de enxergar o mundo, essa forma pode estar enquadrada, mesmo que o indivíduo que aderiu não saiba, em algum desses dois eixos, e, portanto, ele vai determinar como o sujeito vai agir e em favor de quem.

Cena do filme “Eles vivem”, de John Carpenter, que retrata o papel da ideologia na sociedade.

Quando as pessoas são defrontadas com problemáticas sociais, muitas hesitam em tomar determinada posição de forma clara e direta. No caso específico dos oprimidos, isso pode ocorrer por dois motivos: Ou não conhecem o suficiente para adotarem algum lado, ou então acham que nenhum dos lados servem e que deve-se tomar um “caminho do meio”. O grande problema é que desconhecer a realidade leva a uma transformação cega da mesma, bem como tentar esse caminho do meio confunde ser crítico e aberto com ecletismo. Como foi elucidado, essencialmente existem dois eixos, o do oprimido e o do opressor, apesar de diversas ramificações possíveis dentro dos diversos grupos sociais. No  entanto, esses grupos são constituídos no interior dessa divisão fundamental, e portanto eles próprios, independentemente do assunto que abordem, estarão dentro algum dos dois espectros. Mao Tsé Tung oferece uma compreensão baseada na contradição sobre isso, mostrando que existe a contradição primária e as contradições secundárias, sendo as segundas derivadas da primeira, mesmo que possam ter uma autonomia relativa. Nesse sentido, não é uma questão meramente ideal, mas também de funcionamento da própria realidade.

Como supracitado, a ideia de “neutralidade” advém de duas possibilidades com relação a realidade dos oprimidos, que é o desconhecimento ou a tentativa de oferecer uma alternativa distinta de qualquer um dos lados. A questão é que, por as ideias não serem isoladas, refletirem o real, elas jamais podem ser neutras. O indivíduo que desconhece e prefere ficar “isento”, por exemplo, não está tomando uma atitude neutra sobre a realidade, tentando ficar no famoso “em cima do muro”. Ele está apenas suspendendo seu juízo de valor, ou seja, não está defendendo nada sobre nada. Porém, como do mesmo modo ele se insere nessa realidade, querendo ou não, ele vai estar submisso à esta lógica de oprimidos e opressores, sendo, portanto, concretamente enquadrado em um dos dois lados. Ou seja, idealmente, não há uma defesa de algo, mas concretamente se está agindo em relação a algo que é sistematizado ideologicamente em forma de defesa desse mesmo algo. Em última instância, há uma transformação cega da realidade em favor de determinados interesses, mesmo que se tente negar que isso está ocorrendo. Já no caso de quem tenta ir por uma via diferente de tudo, em geral, como supracitado, se torna uma pessoa extremamente eclética e confusa, e por isso estará passível a defender interesses de uma classe contrária sem saber que está fazendo isso, e, de uma forma ou de outra, estará dentro dos limites daquilo que propõe “superar” com uma nova via ideológica desfigurada.  Ora, é plenamente possível ser anti-dogmático, adotando uma postura intelectual de crítica e autocrítica, corrigindo e complementando no que for necessário, sabendo que existem lados a serem defendidos.

No caso dos opressores, apesar de ainda haver essa narrativa, a particularidade dos opressores é que, pelo fato de serem os dominadores, a princípio são mais conscientes das dinâmicas da estrutura social do que os dominados. Sendo assim, quando um burguês se afirma “isento” ou que está tentando tomar um caminho do meio, que não é “nem de direita nem de esquerda”, usando uma linguagem mais simplista, ele não está realmente sendo o que está tentando transmitir, está na verdade dissimulando seus interesses justamente para legitima-los de forma que aqueles prejudicados por ele não percebam e sejam iludidos com seus discursos. Desse modo, as possibilidades de posições supostamente novas ou neutras por parte da classe dominante costumam ser praticamente nulas, visto que eles têm uma noção de mundo que, a princípio, os explorados não têm, e, portanto, tendem à confusão e ecletismo. Os primeiros têm plena compreensão do papel que exercem no mantimento da sociedade atual, enquanto os segundos não têm consciência de como suplanta-la, mesmo que sintam os males que ela provoca. Caso o contrário, a revolução já teria acontecido e a construção de consciência de classe seria desnecessária. 

Nesse sentido, não há como nenhum individuo ser “nem isso nem aquilo” quanto ao funcionamento social, pois o fator principal da existência não é o discurso ou as ideias no que se refere a como a sociabilidade funciona. Se pode até, mentalmente, afirmar tais coisas, mas concreta e historicamente existe uma estrutura independente de qualquer afirmação ou negação intelectual, e é ela que encaixa os indivíduos em certos postos sociais, dependendo do status quo de cada um. É essa objetividade que vai determinar a quem se está servindo. Compreendendo isso, pode-se desmascarar os grupos que discursam a favor dos oprimidos mas servem aos opressores, bem como conscientizar  aqueles que estão confusos e superficiais acerca da realidade e não têm uma noção coerente para uma mudança social significativa alicerçada na emancipação humana.

Referências:

CHASIN, José. Método Dialético.

LUKÁCS, Gyorgy. Para Uma Ontologia do Ser Social.

MAO TSE TUNG. Sobre a Contradição.

MARX, Karl. Ideologia Alemã.

MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia.

Conheça 16 revolucionários e revolucionárias não-europeus!

Por Vinícius Fontoura

A fim de reforçar mais uma vez o fato de que o marxismo ou o comunismo não se constituem num “ideal eurocêntrico” ou algo do tipo, elaboramos uma lista com 16 comunistas não-europeus. Pretendemos, assim, apresentar revolucionários e revolucionárias da África, América e Ásia que estiveram (ou ainda estão) envolvidos em processos de luta pela emancipação do povo em seus respectivos continentes.

A construção de cada uma das mini-biografias tiveram também como referência e apoio os textos linkados ao final de cada um dos nomes apresentados.

ÁFRICA

1. THOMAS SANKARA

Thomas Sankara (1949-1987) nasceu em Yako, em Alto Volta, a atual Burkina Faso. Iniciou sua carreira militar aos 19 anos, em 1968, e foi nesse ambiente onde teve contato com a teoria marxista pela primeira vez. Em 1970, Sankara viaja para Madasgar para treinamento em escola militar e estuda Sociologia, Ciência Política e Economia Política durante sua estadia, além de acompanhar um Levante Popular que ocorreu enquanto estava lá, levando a uma ainda maior radicalização de seu pensamento.

Com o passar dos anos, seu país se envolve em uma sequência de golpes militares, corrupção e instabilidade política. Durante um dos governos, em janeiro de 1983, Sankara é promovido a um posto em que obtém mais contato internacional, conhecendo líderes do bloco não-alinhado, como Fidel Castro e Samora Machel. Nesses encontros, os discursos de Sankara atacam o imperialismo e denunciam a corrupção em seu país. Assim, ele é destituído do cargo e preso por isso. Porém, devido a sua popularidade, os protestos por sua liberdade se intensificam, até que enfim em agosto de 1983 Sankara é liberto com apoio da PAI (Partido Africano de Independência) e ULC-R (União das Lutas Comunistas Reconstruídas) e conseguem derrubar o governo.

Sankara torna-se o presidente de Alto Volta e faz uma série de mudanças grandes no país. Logo no primeiro ano de mandato é determinada a distribuição de terras para habitação popular e 10 milhões de árvores são plantadas com o objetivo de conter a desertificação. No ano de aniversário da revolução, o país tem seu nome, bandeira e hino alterados, passando a se chamar Burkina Faso (que significa terra de homens íntegros nas línguas nativas). Na questão da mulher, foram proibidas a mutilação genital e o casamento forçado, bem como houve grande inclusão de mulheres nos postos do governo. Da mesma forma, a taxa de alfabetização cresceu por conta de um programa que envolveu mais de 35 mil instrutores. Aboliu-se todas as restrições que existiam para contraceptivos, tornando Burquina Fasso a primeira nação africana a reconhecer a epidemia de Aids como uma ameaça ao continente. Além disso, em 15 dias mais de 2,5 milhões de crianças foram vacinadas contra diversas doenças, incluindo sarampo e febre amarela. Fatos que levaram a uma melhora significativa da qualidade de vida do país.
Em 15 de outubro de 1987 a sede da presidência é invadida com apoio de líderes da França e Costa do Marfim, levando ao covarde assassinato de Sankara e de outros oficiais.

Para conhecer mais sobre Thomas Sankara, clique aqui (leitura em espanhol).

2. AMÍLCAR CABRAL

Amílcar Cabral (1924-1973) nasceu em Bafatá, na Guiné-Portuguesa (atualmente Guiné-Bissau), mas ainda na infância se mudou para Cabo Verde, num período de seca e fome. Seu pai, que era professor, era de Cabo Verde e sua mãe, da Guiné-Bisseu.

Cabral consegue uma bolsa de estudos em 1945 e estuda Agronomia em Lisboa, sendo o único estudante negro de sua turma. Em 1955, Amílcar Cabral participa de uma conferência e toma consciência da questão africana e asiática. Em 1959 funda, clandestinamente, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Alguns anos depois, já em 1963, tem início a luta armada contra o colonialismo. Nesse contexto, seu Partido sofre dura perseguição do governo português, que determina a captura ou eliminação dos membros do PAIGC. Em janeiro de 1973 Cabral é traído e assassinado por membros do próprio Partido, sem conseguir ver a independência de seu país de origem.
A luta armada se intensifica ainda mais após a sua morte, e em setembro do mesmo ano a Guiné-Bissau finalmente conquista sua independência.

Para conhecer mais sobre Amílcar Cabral, clique aqui.

3. SAMORA MACHEL

Samora Moisés Machel (1933-1986) nasceu na província de Gaza, em Moçambique. Era filho de pequenos agricultures, e começou a estudar aos 9 anos, na época em que o governo português (então colonizador de Moçambique) definiu a igreja católica como prestadora da educação. Samora terminou seus estudos aos 18 anos, mas quis continuar estudando, porém, naquele lugar só tendo como opção a Teologia. Parte, então, para outra cidade, onde arranja trabalho em um Hospital e começa a estudar enfermagem, já em 1952, onde fica por anos.

Desde cedo com tendências nacionalistas, Samora Machel também acompanhava os acontecimentos no mundo, como a revolução popular na China, em 1949 e a independência de vários outros países africanos na década de 1950. Porém, é em 1961 que, após um encontro com Eduardo Modlane (um dos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO), Samora decide se juntar ao grupo e partir para a luta de independência. Assim, deixando Moçambique em 1963 e partindo para a Tanzânia, onde encontraria o restante do grupo.

Mais tarde, Machel vai para Argélia e recebe treinamento militar de guerra e, ao retornar, começa a adquirir postos mais altos no FRELIMO. Em 1969, casa-se com a também guerrilheira Josina Muthemba, com quem participa ativamente não só da luta pela libertação de Moçambique, mas também da luta pela inclusão e igualdade da mulher. Infelizmente, sua companheira adoece e acaba falecendo ainda jovem devido a Leucemia, em 1973, no dia que mais tarde foi definido como Dia da Mulher Moçambicana. Antes disso, em 1969, o então presidente do FRELIMO, Eduardo Modlane, é assassinado e assumem três nomes para a presidência do Comitê Central, sendo um deles Samora Machel. A partir disso, o FRELIMO parte para ações ainda mais ofensivas, avançando e organizando seu exército pelo território. Machel organiza também ações diplomáticas, tendo apoio de aliados socialistas e de outros países no entorno de Moçambique.

Em 1975, após longo período de luta armada, discussões com Portugal e ações, a independência de Moçambique é enfim declarada. Depois, Samora Machel assume a presidência e começa uma série de medidas de nacionalização da saúde, educação e habitação, bem como reforma agrária, que promove um bem-estar e melhora da qualidade de vida em seu país. Por fim, já em 1986, Machel acaba morrendo após um acidente de avião, quando retonrava da União Soviética.

Para conhecer mais sobre Samora Machel, clique aqui.

4. JOSINA MACHEL

Josina Abiathar Muthemba (1945-1971) nasceu em Inhambane, no Moçambique, sendo a terceira de cinco filhos. Josina estuda na infância e adolescência, mudando mais tarde para a capital, em 1958, a fim de continuar seus estudos. Em 1960, em meio a seus estudos, Josina se envolve com movimentos estudantis secundaristas, e tem contato mais forte com pensamentos de indentidade cultural e conscientização política.

Em 1964, ela e outros membros do movimento estudantil viajam para a Tanzânia com a finalidade de se integrar a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Após isso, o grupo de estudantes passa por um processo constante de perseguições, prisões e viagens até finalmente conseguir se estabelecer na Tanzânia, junto da FRELIMO. Assim, com 20 anos, em 1965, Josina passa a estar ativamente ligada as atividades da Frente, criando o Destacamento Feminino, que tinha como objetivo o treinamento político e militar para que as mulheres também pudessem estar plenamente envolvidas com as questões do Partido. Mais tarde, Josina e outras 25 mulheres partem para o treinamento militar com orientação da guerrilha de Moçambique, em que tinha como treinador Samora Machel, seu futuro esposo e futuro presidente de Moçambique.

Em 1968, o Destacamento Feminino organiza ações em áreas liberadas visando questões sociais, como centros de cuidados médicos, escolas e assistência infantil, bem como ajuda no apoio a famílias desestruturadas por conta da guerra. É Josina quem percebe a necessidade do centro de assistência infantil devido ao número de crianças que perdiam seus pais em combate. No mesmo ano, Josina é nomeada uma das delegadas do II Congresso da FRELIMO, onde tem grande papel também na inclusão de outras mulheres na entrada de posições mais altas. Em 1969, no ano seguinte, Josina se casa com Samora Machel e passa a adotar seu sobrenome também. Entretanto, a partir de 1970, Josina começa a sofrer com fortes dores no estômago e gradualmente vai ficando mais doente, mas ainda continua ativa nas lutas pelo FRELIMO. Até que em 1971, com apenas 25 anos, enquanto comandava um exército de mais de mil soldados, Josina pede para retornar devido a doença que estava cada vez mais a prejudicando. O adoecimento acaba levando a sua morte nesse mesmo ano, sem que ela pudesse ver a independência do país, que só viria 4 anos mais tarde. O legado de Josina Machel é grande e nobre, e seu papel na luta pela independência e na ativa participação de mulheres em todas as atividades contribuiu também para as futuras políticas de Moçambique.

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AMÉRICA

5. CARLOS MARIGHELLA

Carlos Marighella (1911-1969) nasceu em Salvador, na Bahia, sendo um de sete irmãos. Seu pai havia vindo da Itália e tinha sido operário, mecânico e motorista de caminhão do lixo. Sua mãe era filha livre de escravos africanos do Sudão e empregada doméstica.

Por incentivo do pai, Marighella adquiriu hábito pela leitura desde muito cedo, sendo alfabetizado logo aos quatro anos. Assim, segue seus estudos primários, médios e chega a ingressar na faculdade, cursando Engenharia Civil. Mais tarde, porém, Marighella deixa a faculdade e se junta ao Partido Comunista do Brasil, logo aos 23 anos. Participa de manifestações durante a Era Vargas e chega a ser preso por conta de uma poema crítico publicado. Mais tarde foi preso e torturado durante diversas outras vezes, como em 1936, 1939 e 1964. Após o Golpe Militar-empresarial, já em 1967, Marighella deixa o PCB e funda a Ação de Libertação Nacional, a ALN, depois de seu retorno ao Brasil vindo de uma conferência em Cuba.

Marighella chega a ser considerado o inimigo número um da ditadura militar, organizando guerrilhas, agitação política e diversas ações contra o governo ditatorial, até enfim ser covardemente assassinado em 1969, por policiais do DOPS.

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6. CARLOS LAMARCA

Carlos Lamarca, durante treinamento de tiro

Carlos Lamarca (1937-1971) nasceu no Rio de Janeiro, na favela Morro de São Carlos. Era filho de sapateiro e sua mãe era dona de casa. Desde cedo Lamarca já se interessava por assuntos ligados a política, tendo participado de manifestações em favor do petróleo nacional, ainda aos 16 anos. Em 1955, aos 18 anos, ingressa na carreira militar e mais tarde vai para a Academia Militar dos Agulhas Negras, onde se forma em 1960, sendo o melhor atirador de seu regimento.

Em 1962 vai para Gaza, na Palestina, em serviço da ONU, onde encontra uma realidade cruel e de extrema pobreza, afirmando em carta para amigos que se fosse para lutar em combate, estaria do lado dos palestinos. É nessa mesma época, após retornar o Brasil, em 1963, que seus ideais se aproximam do socialismo e Lamarca começa a ler os clássicos do marxismo. Em 1964, acontece o golpe militar e no ano seguinte Lamarca volta para seu local de atuação, sendo promovido a capitão em 1967, onde encontra um velho amigo que havia sido preso durante o golpe por formação política, mas depois reintegrado às forças armadas. Assim, Lamarca e seu colega se dedicam a leitura de Lenin e Mao Tse Tung, fato que daria mais impulso a sua associação com grupos socialistas que pretendiam derrubar a ditadura. Lamarca começa a organizar um grupo comunista dentro de seu próprio regimento. E em 1968, consegue se encontrar com Carlos Marighella, líder da ALN, que o ajuda a refugiar sua mulher e filhos para fora do país, transferido-os para Cuba. Dessa forma, Lamarca deixa o exército em 1969 e parte para a luta armada contra a ditadura.

São anos de luta, que têm como acontecimentos esconderijos na mata, encontros com colegas, confrontos diretos com exército, mudanças de localização, prisões e assassinatos de companheiros, bem como sequestros e negociações por presos políticos. Até que em 1971, após uma série de descuidos de seus companheiros, a localização de Lamarca (então escondido na Bahia) começa a ficar mais clara para o exército. E em setembro do mesmo ano, em uma operação que envolve mais de 215 homens, os militares descobrem o esconderijo, mas Lamarca (já em péssimas condições físicas) e seu colega conseguem fugir. Lamarca é carregado nas costas durante boa parte do percurso, e os dois andam por mais de trezentos quilômetros, até enfim serem encontrados novamente pelos militares, que disparam dezenas de tiros quando avistam os dois, levando a morte de ambos.

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7. FIDEL CASTRO

Fidel Castro (1926-2016) nasceu em Holguín, em Cuba. Seu pai era um fazendeiro rico e Fidel nasceu de um relacionamento fora do casamento, sendo sua mãe empregada doméstica. Mas, logo aos 6 anos, foi enviado para para viver com seu professor.

Em 1945, Fidel estuda Direito na Universidade de Havana e começa e se envolver com ativismo político, demonstrando opiniões anti-imperialistas. Com o tempo, se envolve com Partidos de cunho socialista. Primeiro, sendo membro do Partido Socialista do Povo Cubano, em 1947, e mais tarde, do Partido do Povo Cubano, em 1952, onde esteve até o golpe de Fulgêncio Batista, fato que o fez pensar em novas formas de combate contra o governo e o imperialismo que assolava seu país por meio dos Estados Unidos.

Fidel se reúne com um jornal clandestino e publica críticas a ditadura de Fulgêncio juntamente com esse grupo de editores. E é dele que surge o grupo com o qual ele contará para a primeira ação armada, em 1953, e mais tarde ao Movimento Revolucionário 26 de Julho. Nesse contexto, Fidel é preso neste mesmo ano após a ação do grupo, e é condenado a 15 anos de prisão, tendo cumprido 2 e depois sendo absolvido por pressão popular. Fidel se exila temporariamente no México, e lá tenta reunir braços para a revolução, onde conhece também Che Guevara. Em 1955, no mesmo ano, buscou ainda ajuda de outros imigrantes cubanos que estavam nos EUA, para constituir um grupo maior para a revolução. Retornam para Cuba em 1956 e lá iniciam a luta armada com amplo apoio popular contra a ditadura de Fulgêncio Batista.

Em 1° de Janeiro de 1959 tem vitória a revolução cubana, derrubando o governo de Fulgêncio Batista. Fidel visita primeiro os EUA durante o pós-revolução, mas é da URSS que recebe grande apoio econômico e militar. A partir disso, os EUA enxergam uma possível tendência socialista que a revolução cubana, de caráter mais nacionalista, ainda não tinha bem desenvolvida. E, justamente por conta do apoio da União Soviética, os Estados Unidos impõe um embargo a Cuba (que dura até hoje). Assim, Cuba se volta para medidas de estatização de empresas, reforma agrária e diversas outras ações que levam o país aos menores índices de desnutrição, aos melhores índices de educação e a melhor medicina da América Latina.

Fidel sofre com milhares de tentativas de assassinato por parte dos EUA. Desde bombas até charutos explosivos, mas só vem a falecer por causas naturais em 2016, aos 90 anos.

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8. CHE GUEVARA

Ernesto Guevara (1928-1967), conhecido popularmente como Che Guevara, nasceu numa família de classe média na província de Santa Fé, na Argentina. Estudou medicina na faculdade e durante esse período viajou por vários países da América Latina, onde presenciou fome e pobreza generalizada, levando a sua radicalização de pensamento, entendendo que tais condições só seriam superadas com a derrubada do capitalismo.

Durante suas viagens, no México, Che conhece Raul e Fidel Castro, e se junta ao movimento para a derrubada do ditador Fulgencio Batista, em Cuba. Enquanto se organizavam no país, o próprio Che, após observar as condições precárias do lugar, monta fábricas, clínicas de saúde, oficinas militares e organiza escolas para ensinar os camponeses analfabetos a ler e escrever. Enfim, após confrontos e diversas ações de luta contra o governo, se dá a vitória da revolução em primeiro de janeiro de 1959, e faz com que o movimento revolucionário fique ainda mais ativo na América Latina.

Após tomar medidas referentes a economia, reforma agrária e alfabetização no país, Guevara deixa Cuba, em 1965, e parte para apoiar as revoluções no exterior. Primeiro sem sucesso no Congo-Kinshasa e por fim na Bolívia, onde foi capturado por forças bolivianas apoiadas pela CIA, sendo covardemente executado em 1967.

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9. HUEY NEWTON

Huey Percy Newton (1942-1989) nasceu em Luisiana, nos Estados Unidos e era o mais novo de outros sete irmãos. Newton se mudou para a Califórnia logo aos 3 anos, e passou por experiências e percepções fortes a respeito da questão racial e de pobreza. Mais tarde, já durante seus estudos enquanto ainda jovem, Newton tem contato, através da Associação Afro-Americana, com as obras de Marx, Lenin, Mao, Malcom X e Che Guevara.

A partir disso, junto de seu colega Bobby Seale e inspirados nos pensadores que haviam lido, em outubro de 1966, criam o Partido dos Panteras Negras para Auto-defesa, que mais tarde viria a ganhar reconhecimento nacional e internacional, no qual Newton assumiu as funções de Ministro da Defesa, enquanto Seale era a de presidente.

Os Panteras Negras organizaram diversas ações positivas nos bairros em que atuavam, como a criação de clínicas populares e programas de alimentação, bem como ações armadas organizadas contra a violência policial e o governo. Infelizmente sofreram dura perseguição do FBI, que chegou a considerar o grupo como a maior ameaça interna do país, fazendo com que sofressem constantemente com ataques e sabotagens. Newton chega a visitar a China e Cuba durante a vida, encontrando com Fidel Castro e outros líderes. Mas, em 1989, Huey Newton acaba sendo assassinado a tiros.

Para conhecer mais sobre Huey Newton, clique aqui

10. ANGELA DAVIS

Angela Yvonne Davis (1944) nasceu no Alabama, um dos estados mais racistas dos EUA naquela época. Aos 14 anos participou de um programa que levava estudantes negros do Sul para o Norte do país, onde teve contato com comunismo pela primeira vez, levando a sua integração a uma organização socialista de estudantes. Na década de 1960 começa a participar mais ativamente dos movimentos do Partido e se envolve também com o movimento Black Power e com os Panteras Negras.

Em 1970, Angela Davis passa para a lista dos 10 fugitivos mais procurados do FBI, e tem sua busca constantemente divulgada pela mídia, até enfim ser presa nesse mesmo ano. Sua prisão e processo de divulgação tornam-se um grande evento, e Davis aproveita as sessões no julgamento para discursar sobre a questão racial no país. Após os mais de 18 meses de julgamento, Davis é enfim absolvida. Após sua libertação, viaja para Cuba atrás de seus companheiros dos Panteras Negras (como Huey Newton), onde se encontra também com Fidel Castro.

Por fim, a atividade dos Panteras Negras é cada vez mais reprimida pelo FBI e Angela Davis retorna aos Estados Unidos, agora seguindo sua carreira como ativista política, tratando de temas como o abolicionismo penal, a questão de classe, a questão de raça e a questão da mulher.

Para conhecer mais sobre Angela Davis, clique aqui (somente em inglês).

11. SUB-COMANDANTE MARCOS

Sub-comandante Marcos (1957) é o nome utilizado pelo porta-voz dos Zapatistas, os revolucionários mexicanos e indígenas que formam o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

O movimento tem seu nome inspirado em Emiliano Zapata, ícone da luta contra a ditadura no México. E é com os dizeres de “Já basta!”, em 1° de janeiro de 1994, de capuzes pretos e armados, que os revolucionários surgiram defendendo princípios de autonomia econômica e defesa das terras contra o governo e os latifundiários do México. Sofrendo duras repressões e invasões por parte do exército mexicano durante décadas, os zapatistas resistem até hoje e estão em várias regiões do México.

O sub-comandante Marcos era professor de Filosofia na UAM e, apesar de não se considerar marxista, admite suas influências em Mao Tse Tung e Gramsci, bem como a própria organização dos Zapatistas, que possui um caráter comunal (de influência tanto anarquista como socialista).

Para conhecer mais mais sobre os Zapatistas, clique aqui.

12. PRESIDENTE GONZALO

Manuel Rubén Abimael Guzmán Reynoso (1934), conhecido popularmente como Presidente Gonzalo, nasceu em Arequipa, no Peru. Gonzalo entrou na faculdade ainda cedo, aos 19 anos, e já tinha certo interesse em marxismo. Teve seu pensamento político influenciado pelo livro “Sete ensaios sobre a interpretação da realidade peruana”, de José Carlos Mariátegui, o fundador do Partido Comunista Peruano. Mais tarde, Gonzalo se graduou em Filosofia e Direito.

Nos anos 1960, Guzmán lecionou Filosofia na Universidade San Cristóbal de Huamanga, onde encontrou também outros colegas da academia que compartilhavam de seu pensamento sobre a necessidade de uma revolução no Peru. Nesse sentido, o Sendero Luminoso é criado na mesma década, sendo um Partido de orientação maoísta (em contraste com o Partido Comunista Peruano, de orientação soviética da época) que almejava a revolução e emancipação popular tendo como forte princípio a questão camponesa.

O Sendero Luminoso organiza-se primeiro em Ayacucho, onde se consolida e então ganha força em outras regiões do Peru, sendo considerado a maior ameaça ao governo do Peru. O Partido ganha mais popularidade e apoio com o passar dos anos, tendo dado início a Guerra Popular nos anos 1980, organizando diversas revoltas e ações contra o governo da época.

Enfim, Gonzalo é preso em 1992 depois de meses de armação para sua captura. Durante esse período, outros líderes do Sendero também foram presos, o que fez com que o Partido perdesse certa força, tendo sua atividade diminuída. O Presidente Gonzalo segue preso até hoje, mas o Partido e a Guerra Popular no Peru permanecessem vivos, bem como o desejo de emancipação do povo peruano.

Para conhecer mais sobre o Presidente Gonzalo, clique aqui.

ÁSIA

13. MAO TSE TUNG

Mao Tse Tung (1893-1976) nasceu na província de Hunan, no antigo Império Qing. Mao era filho de camponeses e inicialmente só pôde estudar até os 13 anos, tendo que trabalhar no campo depois disso. Mais tarde, deixa sua casa e parte para a capital (Changsha na época) com o intuito de retomar estudos, onde acaba conhecendo ideias de caráter nacionalista.

Aos 18 anos, em 1911, Mao se alista ao exército revolucionário em meio a revolução pela derrubado do Império, que acontece em 1912. Depois disso, Mao se muda para Pequim e inicia seus estudos em Filosofia e Pedagogia. Participa do movimento contra a entrega de regiões da China de domínio alemão para o Japão, em 1919, e a partir daí adere ao leninismo como pensamento político. Já em 1921, Mao ajuda na fundação do Partido Comunista da Chinês e levanta pontos importantes sobre o potencial revolucionário dos camponeses. Entretanto, com a chegada de um novo governador na China, em 1927, o Partido Comunista passa a ser perseguido, sofrendo inúmeros ataques, como o Massacre de Xangai, em que vários comunistas foram executados com o objetivo de destruir a influência do Partido. A partir disso, Mao organiza o movimento revolucionário e tem sucesso com táticas de defesa e guerrilha. Em 1934, parte do exército do Partido Comunista, liderado por Mao, consegue romper com o cerco militar do governo, levando a chamada Grande Marcha, uma manobra de recuada do exército comunista que estava em desvantagem enorme numericamente contra o exército nacionalista (aproximadamente 700mil contra 100mil). Dessa maneira, os soldados comunistas marcham por mais de 10mil quilômetros em 368 dias até Shensi, no noroeste da China, fato que faz com que Mao ganhe grande reconhecimento popular e no Partido.

Em 1937 o Japão ataca a China e o Partido Comunista e o Partido nacionalista unem forças contra o imperialismo japonês e durante toda a Segunda Guerra Mundial que estava por vir. Porém, após o fim da guerra, já em 1946, os ataques do Partido nacionalista iniciam novamente contra o Partido Comunista, mas dessa vez é o Partido Comunista, contando com mais de 1 milhão de membros, quem obtém a vitória, em 1949. Assim, se proclama a República Popular da China e Mao torna-se presidente, iniciando uma série de medidas de industrialização, de reforma agrária e de cooperativas associadas de produção, além de ideias como as do Grande Salto Adiante e de Revolução Cultural, elevando significativamente os níveis de qualidade de vida na China.

Por fim, Mao adoece e acaba falecendo em 1976, deixando um imenso legado e de grande influência nos movimentos revolucionários até hoje.

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14. KIM IL SUNG

Kim Il Sung (1912-1994) nasceu em Chŏnju, na Coreia, em uma família religiosa, protestante, enquanto o país ainda estava sob domínio colonialista. Interessou-se pelo marxismo quando era estudante do ensino médio e com apenas 17 anos já participava de um grupo clandestino marxista, tendo, por isso, sido preso por vários meses.

Em 1935, aos 23 anos, ingressou nas tropas anti-japonesas lideradas pelo Partido Comunista no norte da China. Com 24 anos já era Comandante de Divisão, tendo obtido uma vitória sobre os japoneses, o que lhe garantiu notoriedade entre os chineses. Em 1940 recebeu treinamento militar na União Soviética, tendo retornado à Coréia em 1945 junto com as tropas soviéticas e assim assumindo o cargo de Chefe do Comitê Popular Provisório. Criou o Exército do Povo da Coreia.

Com o início do conflito entre a Coreia do Norte a do Sul (apoiada pelos EUA), assumiu o cargo de Primeiro Ministro da República Popular Democrática da Coréia e tornou-se vice-presidente do Partido dos Trabalhadores da Coréia do Norte. Organizou a economia da Coreia do Norte com base nos princípios do “Juche”, uma interpretação do socialismo para realidade e identidade coreana.

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15. HO CHI MINH

Ho Chi Minh (1890-1969), de nome verdadeiro Nguyen Tat Thanh, nasceu na vila de Kimlien, em Anã, no Vietnã central, que ainda estava sob o domínio francês. Era filho de um oficial que se demitiu em protesto contra o domínio francês de seu país.

Em 1920 ajuda a fundar o Partido Comunista Francês e alguns anos depois recebe treinamento de guerrilha em Moscou. Em 1941 o Japão invade o Vietnã e Ho Chi Min organiza a criação de um novo Partido de independência e com orientação comunista, o Vietminh. Quando o Japão se rende, em 1945, é declarada a criação da República Democrática do Vietnã, em que Ho Chi Minh se torna presidente.

A França não aceita a independência de sua antiga colônia e inicia uma guerra que dura 8 anos, até enfim a derrota das tropas francesas para os guerrilheiros vietnamitas. Por outro lado, o Vietnã tem seu território dividido em dois até a morte de Ho Chi Minh, em 1969, que não chega a ver a unificação de seu país, em 1975, por meio de nova guerra contra o Sul (que era apoiado pelos EUA).

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16. LEILA KHALED

Leila Khaled (1944) nasceu em Haifa, então parte do Mandato Britânico da Palestina. Ainda antes da adolescência, Leila e sua família tornaram-se refugiados junto com outros 750.000 palestinos quando o Estado de Israel foi fundado, em 1948.

Aos 15 anos Khaled se juntou ao Movimento Nacionalista Árabe. Frequentou a Universidade Americana de Beirute, onde ajudou a organizar manifestações da militância em apoio à libertação da Palestina. Após sua formação, Khaled se juntou à Frente Popular marxista para a Libertação da Palestina. Ela tornou-se uma grande revolucionária comunista, professando admiração por Lênin, Fidel Castro e Che, Ho Chi Minh e Kim II Sung, entre outros.

Khaled atualmente vive com o marido e dois filhos em Amã, na Jordânia. Ela não perdeu seu espírito revolucionário e continuou seu ativismo político com dedicação. Segundo Khaled, “a luta dos palestinos tomou muitas faces. Luta armada, intifada e agora ambos. O que significa que enquanto houver ocupação em nosso país, o conflito continuará.”

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