Muito se pergunta: “Existem verdades absolutas?” E esse questionamento abre a possibilidade de diversas respostas com variadas formas de interpretação da realidade. Aqui, apresentaremos essa questão partindo do ponto de vista materialista marxista.

Primeiro devemos compreender o que é ‘verdade’. Verdade é simplesmente aquilo que é real, ou seja, que existe enquanto tal, tem sua própria quantidade de presença na existência. Uma cadeira é real, não à toa que podemos experienciá-la com nossas sensações. Desse modo, o primeiro pilar da verdade é que ela não pode ser um conceito vazio, não pode ser “verdade” por si só enquanto uma palavra constituída por símbolos linguísticos e que pode ser proferida verbalmente. A verdade sempre é “a verdade de”, como “a verdade da cadeira”, “a verdade do livro”, “a verdade da casa” etc. E, portanto, nada mais é do que uma definição para indicar algo que existe.

Muitos acreditam que a verdade absoluta não existe e que toda verdade é relativa. O grande problema não é considerar a verdade como relativa, mas sim confundi-la com relativismo, tal como os sofistas acreditavam, ao submeterem a constatação daquilo que é verdadeiro à um mero jogo de palavras — no sentido de que o convencimento através da retórica é a única verdade que pode de fato existir. Porém, a verdade não pode ser reduzida ao relativismo, pois como mostrado, ela existe por si só. A diferença entre o relativismo e a verdade relativa é que o primeiro não reconhece a objetividade das coisas, enquanto a segunda reconhece; ou seja, todo o peso ontológico da verdade (isto é, da verdade em si) é rechaçado e a mesma se torna uma simples abstração da mente dos indivíduos, o que revoga “a verdade de” e se transforma na subjetiva e vazia “verdade”. Mas afinal, o que exatamente é verdade relativa?

A verdade relativa nada mais é do que aquela verdade que é relativa a algo. Ou seja, algo só pode ser tomado como verdade em determinadas condições bem estabelecidas que possibilitam a existência daquilo que é verdade. Podemos afirmar, usando a etiologia aristotélica (isto é, do estudo das causas), que a cadeira é verdade, por exemplo, relativa às suas quatro causas (causa material, causa formal, causa eficiente e causa final), ou seja, sem que exista a matéria que a constitui, a forma que recebe, o objetivo pela qual foi feita e a entidade que a fez, ela não poderia ser como é, pois jamais existiriam as causas de sua existência, que nada mais é do que o resultado dos efeitos gerados pelas mesmas. Dessa forma, a concepção de causalidade é fundamental para dar uma relatividade à verdade, sem incorrer num relativismo, e para ainda assim constatar sua objetividade própria.

No entanto, pode-se pensar “Ora, mas e a verdade absoluta? Você até agora só explicou o que é e o que não é a verdade relativa“. De fato, sobre a relatividade da verdade há um consenso, mesmo que consideremos a definição que os relativistas dão. Nesse sentido, a verdade absoluta existe? A resposta pode parecer mais simples do que parece. Ora, se foi afirmado que a relatividade da verdade não é o mesmo que relativismo justamente porque ela se refere a uma objetividade própria e particular, então evidentemente que ela existe. A verdade absoluta nada mais é do que o caráter próprio que cada coisa do real assume tendo como base nas quatro causas. O problema é que assim como se confunde relativismo com relativo a algo, se confunde também algo absoluto com algo imutável. De fato, dependendo do ponto de vista, podemos igualar algo que é absoluto com algo que é imutável, pois o absoluto também pode concernir ao eterno, ao que não é transitório, como seria Deus. No entanto, é muito superficial visualizar apenas dessa forma, pois absoluto também é algo completo, acabado, pleno. O “completo” não quer dizer sem movimento ou eterno, mas sim simplesmente que, para aquilo ser o que é, objetividade que esse algo possui, engendrada pelas quatro causas, é o suficiente para isso. A cadeira, por exemplo, pode ser destruída, pode ser reestruturada em outro objeto alterando certas condições que constituem a mesma e o simples processo de deterioração inerente ao movimento temporal irá mudá-la gradativamente, no entanto ela jamais deixará de ser cadeira por causa disso, pois se ela receber os mesmos elementos essenciais que a faz ser chamada de “cadeira”, não de “banco”, “madeira”, ou qualquer outra coisa, poderá ser novamente cadeira, mesmo que isso implique na construção de outros “objetos-cadeiras”.

Nesse sentido, a verdade absoluta não só existe, como ela deve se interconectar numa relação irrevogável com a verdade relativa, pois ambas fazem parte de um mesmo universo, apenas se distinguem pelos processos que representam dentro de cada objeto. Se, por um lado, toda verdade relativa sempre tem de resultar em algo, já que a relatividade é sempre relatividade de algo, toda verdade absoluta sempre tem de ser relativa a algo. Nesse sentido, a existência não faria nenhum sentido se houvessem apenas as condições, apenas aquilo que constitui, sem que aquilo que fosse constituído existisse. É inconcebível acreditar que podemos alterar a realidade com as quatro causas sem que ela adquira alguma objetividade específica, mesmo que esta não seja nomeada especificamente e seja chamada de “informe”, até porque o próprio informe é o que é por não ser nada em específico, ou seja, existem condições que o torna desse modo, caótico em sua essência. Por outro lado, também é igualmente inconcebível pensar em algo já existente, em seu modo de ser específico, sem que consideremos as condições que a torna tal como é, como o próprio “informe” que é como é por não ser algo específico nomeado por nós, ser simplesmente caos sem forma.

É por isso que Lukács faz questão de definir a realidade como “complexo de complexos”, ou seja, constituída por complexos globais e parciais de diferentes naturezas e ocupando diversas posições hierárquicas dentro dos complexos. Ela não pode ser reduzida nem à verdades relativas e nem à verdades absolutas, mas, sim, só pode ser compreendida profundamente quando entendemos a unidade entre ambas e no modo como se manifestam e se articulam nos vários objetos da existência.

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