A física quântica, ao surgir dentro do espaço científico, abriu novas possibilidades não só para a compreensão da realidade, mas para a transformação da mesma. Entretanto, como ela não está desarticulada das relações sociais capitalistas e, portanto, é permeada pelos condicionamentos correspondentes às mesmas, é muito utilizada para fins diferentes de sua importância e magnitude enquanto a parte da física que estuda o mundo atômico e subatômico.

É bem comum encontrarmos links na internet de livros, palestras etc tentando, de alguma forma, relacionar a física quântica aos mais diversos assuntos, como dinheiro, felicidade, sucesso, dentre outros elementos associados ao conceito de prosperidade. Daí surgem os “coachs quânticos“, que apresentam fórmulas que prometem a realização pessoal, os “terapeutas quânticos”, com seus métodos psicológicos de harmonização com o universo, e outras formas que manifestam o modo como a física quântica é considerada em nossa sociedade hoje. Porém, por que algo tão revolucionário e inovador está sendo utilizado de uma forma tão vulgar e arbitrária? Partindo dessa pergunta, dois componentes são fundamentais para entender como isso acontece: (1) A tendência do ser humano em criar concepções misticas e metafísicas para aquilo que não pode explicar e (2) o núcleo que rege a sociedade capitalista, que é o lucro.

(1) Sobre a tendência humana dita acima, ela pode ser conferida desde os primórdios da humanidade. É interessante observar que, a medida em que o homem conhece mais e detém um poder transformador maior sobre a realidade, as concepções dessa natureza se tornam menos presentes e estranhas. Basta lembrarmos do conteúdo das mitologias da antiguidade e do modo como eram concebidas a partir de formulações fantasiosas e que refletiam a criatividade humana para criar história e personagens, e da mudança radical que houve quando surge a filosofia que, apesar de ainda ter mantido diversos elementos da mitologia (como o platonismo, que comporta elementos do orfismo), se tornou um conhecimento rigorosamente mais racional e voltado para os aspectos próprios da realidade, incluindo do próprio ser humano. É algo que foi se tornando cada vez mais lógico, científico e sistemático ao longo da história. No período greco-medieval, que compreende desde os pré-socráticos até os filósofos da baixa idade média, houve um predomínio notável das concepções metafísicas sobre a própria razão, apesar da segunda, obviamente, ter sido um instrumento muito importante para as construções dos sistemas de tais filósofos. Com o surgimento da idade moderna, com as revoluções industrias, renascimento, revolução francesa, iluminismo etc, a razão humana se torna mais valorizada do que os construtos transcendentais, e então a ciência passa a exercer papel mais dominante no conhecimento humano. Porém, as concepções de teor metafísico não cessaram de existir no mundo, pois ainda existem muitas coisas do universo que o ser humano não explica. Com base nisso, a física quântica, sendo uma nova acepção de mundo que abarca diversos aspectos que estão para além da física clássica, foi apropriada pelos representantes do misticismo ainda existente, só que agora, em função das novas condições históricas, o mesmo se traveste de “ciência” justamente por usar de forma oportunista a “nova física”, se aproveitando dela por revelar uma dimensão ainda pouco explorada da realidade (o mundo quântico) e portanto pouco conhecida pela sociedade em geral. Por isso é muito mais fácil de ver os misticistas usando Heisenberg e Schrödinger para tentarem justificar o irracionalismo de suas construções, em vez de Darwin (que apesar de não ser físico, se encaixa no contexto) e Newton, por exemplo.

(2) Nesse sentido, chegamos ao segundo componente, que é o fato da sociedade contemporânea se basear no lucro. Como foi mostrado, o ser humano tende a imaginar criativamente sobre aquilo que não conhece enquanto tal, porém, há também esse imaginário no contexto das próprias dinâmicas da sociedade em que os indivíduos vivem, nesse caso, o capitalismo. Por conta de seu modus operandi, isto é, seu modo de funcionamento, ser direcionado para a acumulação do capital, através da desigualdade e da exploração, muitas pessoas se sentem impotentes frente a sua própria condição social dentro dessa sociedade e, por conta disso, transferem sua confiança à forças misticistas na esperança de que vão ascender socialmente porque estão pensando positivo, com boas vibrações etc.

Assim, em virtude dessa procura pela ascensão social, emergem diversos oportunistas disfarçados de “salvadores”, oferecendo os mais diversos métodos para o alcance da prosperidade. Utilizam principalmente da física quântica para legitimarem suas criações fantásticas como “científicas”. Com base nisso, atraem muitas pessoas cativadas pela retórica convincente de que possuem e ganham muito dinheiro com isso, justamente pela demanda da prosperidade ser muito alta e ser inalcançável para todos, já que, como sabemos, não há como todos serem ricos em uma sociedade. A riqueza exacerbada de uma pessoa significa a miséria de muitos, pois a mesma sempre é obtida através da exploração das camadas oprimidas. Surgem assim os “terapeutas quânticos”, os “coachs quânticos”, dentre outras terminologias criadas por indivíduos que se realizam pessoalmente se fundamentando na própria procura de realização pessoal de outras milhares de pessoas.

A partir dessas duas bases é que se funda o moderno misticismo, que por sua vez só pode se sustentar porque o próprio capitalismo é misticista, isto é, que possui mecanismos ideológicos e culturais para a ocultação e inversão da realidade, de modo que a ordem do capital possa ser perpetuada e desenvolvida. Por essas razões que mesmo os físicos, que possuem autoridade o suficiente para esclarecerem o quão errada é a interpretação misticista referente à física quântica, não conseguem reverter esse processo, pois está enraizado estruturalmente no interior do edifício social contemporâneo.

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