O ex-presidente Lula, que estava preso por conta do caso do Triplex, teve seu alvará de soltura expedido hoje, por conta de uma decisão do STF em considerar culpados apenas aqueles que estão na fase “Trânsito Em Julgado“, que é quando não cabe mais recursos.

Nesse sentido, emergiu em massa uma grande euforia e entusiasmo por parte da esquerda porque a pauta “Lula Livre” foi concretizada (pelo menos por enquanto). No entanto, a pergunta principal é: Com Lula solto, como o cenário do país irá se desenrolar daqui pra frente? A resposta para isso, de acordo com uma perspectiva marxista, pode ser decepcionante para muitos, mas também uma tendência inegável para outros. A questão principal é compreender que a soltura de Lula, diferente das expectativas que estão sendo impostas, não irá resolver os problemas do país com relação ao domínio do conservadorismo e neoliberalismo. Isso porque — apesar de Lula estar indicando que o objetivo principal dele é uma reestruturação na oposição — caso não haja uma autocrítica radical e uma mudança na organização e programática do PT dessa mesma natureza (o que dificilmente vai acontecer), os mesmos erros serão cometidos e o máximo que pode ocorrer é um enfraquecimento parcial do governo Bolsonaro, mas nada que concretize algo realmente significativo para o futuro do Brasil.

É bom acentuar que sua soltura, primeiramente, foi determinada pelo próprio poder judiciário, por um setor do Estado Burguês. Isso mostra que a burguesia não é um todo uniformizado que tem os mesmos interesses, mas que dentro de si própria pode ser conflituosa em função de interesses distintos mais imediatos e diretos, apesar do objetivo principal ser o mesmo, que é o de fazer a manutenção do lucro para a conservação da ordem capitalista. Assim sendo, não foi a pressão da base popular que levou a libertação de Lula, pois se realmente fosse, o que permitiu a soltura dele não abriria precedentes para a soltura de outros diversos elementos, vários deles extremamente corruptos. É por esse motivo que a saída dele propriamente dita não representou nada de extraordinário, apenas uma mudança de mecanismo na forma de lidar com certos processos penais da justiça burguesa. Isso ocorreu porque as circunstâncias que a totalidade da classe dominante tinha de se defrontar desapareceu, isto é, uma possível eleição de Lula em 2018, que, caso acontecesse, dificilmente permitiria que o entreguismo neoliberal do governo atual fosse da intensidade que os grupos dominantes desejam.

O que com toda certeza irá ocorrer é um aguçamento dos conflitos entre a “direita” e a “esquerda”, pois esse fato terá uma grande repercussão ideológica e consequentemente prática, o que evidentemente causará (e já está causando) um abalo muito grande tanto naqueles que estava sendo sufocados organizacionalmente com a prisão do Lula, quanto naqueles que são anti-petistas e estavam se regojizando com o fato do mesmo estar preso. No entanto, como não podemos nos limitar apenas a isso, devemos considerar o cenário global e não apenas o nacional, isto é, a crise que permeia o sistema global do capital, não apenas o que ocorre aqui dentro. Tal como explica Mészáros, o capital entrou na sua fase de maturação (tal como o escravismo e o feudalismo também entraram em determinado período) e portanto ativou seus limites máximos. Nesse sentido, os problemas como o desemprego, a informalidade, a superprodução, o aumento da extrema pobreza, dentre outros fatores, são uma tendência não apenas no Brasil, mas no mundo todo.

Sendo assim, a qualidade dessa crise vai para muito além do que o Lula pode fazer dentro do que ele já mostrou ideologicamente. É uma ilusão ter a esperança de que o ex-presidente, com uma mesma dinâmica governamental que teve nos seus dois mandatos, baseadas em políticas compensatórias para os trabalhadores e na manutenção do exorbitante lucro para a burguesia, será capaz de “salvar a pátria”. Porém, isso é ir muito longe, só que indo a fundo no que está dentro das possibilidades dele atualmente, isto é, uma reorganização da esquerda no sentido de fortificá-la para combater o reacionarismo vigente, ainda assim podemos observar uma mesma perspectiva ilusória por parte dos reformistas, que pelo saudosismo e emocionalismo, estão considerando ainda em suas bases uma programática neodesenvolvimentista para tentar superar os problemas da crise brasileira.

A questão fundamental, desse modo, não é negar que Lula foi preso injustamente ou que o governo dele trouxe benefícios para a classe trabalhadora, mas sim lembrar de que o cenário daquela época não é o mesmo da atualidade e que, mesmo com os “pontos positivos” do governo dele, muitas questões típicas de uma nação capitalista semi-colonial e periférica (ausência de reforma agrária, beneficiamento dos banqueiros e latifundiários, falta de desenvolvimento de uma indústria nacional de alto valor agregado, domínio das multinacionais etc) ficaram completamente intocadas.

O “toque” que esse texto quer dar é para que não haja uma uma grande expectativa sobre o que Lula e o reformismo podem fazer para o país, pois independente do que seja, se estiver no interior desses limites, será ineficiente e estará longe de derrubar as condições negativas e contraditórias que são parte constitutiva da crise brasileira e da estagnação global.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s