Por Kayque Souza

Quando Marx decide mostrar o capitalismo surgindo na história a partir de um processo de acumulação primitiva no qual expropria camponeses, servos, a igreja, etc, além de passar a limpo a ideia de um progresso na história ou de uma universalidade de interesses humanos que teriam um “acordo comum”, ele também passa a limpo a versão abstrata e quase mítica do pecado original, só que não do ponto de vista da teologia, mas da economia, não tendo a origem da corrupção, mas da pobreza. A alegoria se desenvolve mais ou menos assim:

Se na teologia Adão comeu o fruto proibido e por isso o homem foi condenado a viver do próprio suor para se alimentar, na economia algo parecido acontece. O bom burguês, ou a elite laboriosa, absteve-se do consumo imediato, guardou ou poupou parte do que rendia em seu trabalho e como prêmio acabou acumulando cada vez mais e, por essa acumulação, a sua riqueza aparece a ponto de não necessitar tanto trabalho ou trabalho algum diante do tanto acumulado, havendo a possibilidade de delegar estas tarefas a outros; esses outros, as quais as tarefas são delegadas, são pressupostos como sujeitos que não têm possibilidade alguma de sobreviver a não ser se vendendo enquanto força de trabalho.

Mas, para que cheguem a essa condição, algo foi necessário ocorrer. Este algo que a versão econômica do pecado original conta é que estes outros, ou “súcia de vagabundos”, como diz Marx, de forma mais escrachada a despeito de tradução ou edição, não se torna despossuída por razão nenhuma a não ser pelo fato de ter consumido tudo de maneira desenfreada, da forma mais animalesca possível até esgotar tudo. O pecado deste é uma radicalização da versão bíblica. Se por um lado comer do fruto proibido condenou Adão e os homens, por outro, o consumo desenfreado reduziu os produtos dos seus trabalhos a nada, e os condenou a miséria a não ser que se vendessem aos heróis burgueses que se deram ao trabalho de poupar seu consumo.

Assim o cenário está pintado. O dono do capital só é dono do capital porque ao invés de consumir, capitalizou; e o trabalhador consumiu tudo e por isso não enriqueceu. Ou como diria nosso excelentíssimo ministro e açougueiro: ‘‘Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo”. Toda a história da economia-política se desenvolve em cima deste mito. Mas Marx, fazendo o papel do historiador que nada contra a corrente, escova a história a contrapelo, mostra que não é este conto da teologia adaptado ao mundo dos homens ou as escolhas de vida mal feitas que deixaram ao trabalhador essa condição de mero consumo desenfreado. Foi a pilhagem, os assassinatos, as expropriações e o horror que tiveram um papel fundamental. O trabalhador torna-se trabalhador pois ele é literalmente forçado a isso, saqueado, despossuído, liberto de tudo a não ser da própria pele para ser vendida enquanto força de trabalho.

A sua força de trabalho é sua sobrevivência e o salário é a verdade disso e, segundo sua lógica, somente paga a própria sobrevivência. Não é de assustar que o trabalhador consuma tudo, já que o seu ganho é justamente para sobreviver e, no dia seguinte, repetir o maçante processo de trabalho. A poupança torna-se impossível e toda a vida torna-se um jogo de cartas marcadas. O que nos causa revolta, porém, é que a versão fantasiada revisitada da religião, passada para a economia-política do pecado original se repete como a farsa do capitalismo que, na figura do capitalista, acumula de forma cega e, por isso, não enxerga os limites.

Nós sabemos que o horror do trabalhador e de quem é oprimido todos os dias é na verdade a própria realidade deste, a sua expropriação, o seu assassinato, o seu saqueamento. Essas palavras tornam-se o belo discurso na boca de Guedes e retornam no nosso tempo, pois a Ideologia se radicaliza tanto a ponto de perder a mão no cinismo que lhe acompanha, e o choque no qual este horror causa aos trabalhadores torna-os uma massa desorientada enquanto o rolo compressor os esmaga. Estas palavras só podem ser repetidas como farsa sob esta condição, a da naturalização do cinismo vindo da ideologia radical de um capitalismo que não enxerga limite algum.

Ao mesmo tempo em que reproduz a sua própria (des)ordem, a convulsão do próprio sistema é criada a partir dele mesmo e, como diria Marx: A hora derradeira da propriedade privada capitalista chega onde os expropriadores serão expropriados e os propagadores do horror estarão horrorizados com a sua queda produzida vinda de si mesmo. O convite está aberto e anuncia-se o tempo todo. E esta é a urgência do nosso tempo que nos berra dia após dia, mas não exigindo uma liberação de pura negatividade, mas a objetividade dos anseios por uma libertação que se possibilita todo tempo e a cada disparate destes senhores, que por ter o monopólio do horror julgam-se inatingíveis, mas mal sabem que dão a possibilidade da sua derrocada que precisa ganhar forma, já que seu potencial negativo está aí.

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