O rap, historicamente, é um estilo musical muito voltado para a crítica aos problemas sociais, como desigualdade, racismo, criminalidade etc. De fato, no início, ele foi criado para animar festas em bairros jamaicanos, contudo, já nessa mesma época, os chamados “toasters” (mestres de cerimônia dessas festas) já abordavam assuntos relacionados a problemas sociais.

Após a emigração de muitos jamaicanos para os EUA, devido a uma grave crise econômica e social que atingiu a Jamaica, o rap começou a se propagar nos EUA, e foi aí que os temas relacionados à pobreza e problemas sociais em geral se tornaram maioria dentre os compositores.

Como se sabe, o mundo está imerso em uma ordem societária extremamente exploratória e desigual, e, portanto, o rap nada mais é do que o reflexo dessa sociedade. Marx e outros autores comunistas já falavam que as ideias, de uma forma bem genérica, são reflexo das relações materiais existentes nas quais os indivíduos estão inseridos. Ou seja, as condições materiais da sociedade condicionam os indivíduos a pensarem e agirem de determinadas formas. E, incluso em uma dessas formas de pensar e agir, dentre outras várias espalhadas pela literatura, música, arte, e da cultura de uma forma geral, está o rap, que passa a ser a simbolização abstrata dessa sociedade no sentido crítico, isto é, passa a ser uma espécie de instrumento cultural e musical que relata o que há de pior na sociedade regida pela lógica reprodutiva do capital, mergulhada em contradições sociais.

Nos EUA, grupos e artistas autônomos de rap representavam nos anos 80/90 e representam até hoje essa manifestação muito bem, como Public Enemy, NWA, Wu Tang Clan etc. No resto do mundo também existem muitos artistas com conteúdos líricos voltados para problemas sociais, como Keny Arkana na França, Valete em Portugal, entre outros. De fato, há outros temas tratados no rap, porém, o que domina é o relacionado às mazelas sociais. No Brasil, também há muitos rappers e grupos que compõe letras associadas à violência, tráfico, pobreza etc, sendo o mais notório deles o Racionais MC’s, mas tendo também Facção Central, A286, RZO, Atitude Consciente, MPC 288, dentre vários outros.

Eduardo Taddeo (ex-Facção Central) e Mano Brown (Racionais MC’s)

Alguns desses grupos são extremamente “cruéis” e realistas em suas respectivas letras, como é o caso do grupo “Facção Central”, que chegou a ter o clipe “Isso aqui é uma Guerra” censurado há alguns anos atrás, acusado de fazer apologia ao crime, sendo que apenas mostrava artisticamente a sociedade tal como ela é nas favelas e em outras regiões onde impera a pobreza, fome e a falta de saúde e educação de qualidade. Um ex-integrante do grupo, Eduardo Taddeo, ao ser questionado em uma entrevista sobre o pouco investimento que há no rap periférico brasileiro, respondeu: “Representamos o perigo para o sistema. Nós estamos falando justamente aquilo que a sociedade não quer ouvir”. Ele também possui dois livros, “A Guerra Não Declarada Na Visão De Um Favelado” parte 1 e parte 2.

É evidente que esses rappers e grupos de rap não possuem muita notoriedade no campo midiático, visto que a mídia se configura como um dos principais instrumentos burgueses de dominação ideológica, já que para a burguesia manter sua ordem sócio-econômica e sua dominação de classe sobre os trabalhadores, precisa criar concepções de mundo que correspondam a tal mantimento, de modo que mistifique a realidade social e faça com que a população explorada fique anestesiada e inerte perante a sua própria exploração. Por conta disso músicas com letras vulgares e superficiais (não há a necessidade de citação de estilos musicais, já que isso é relativo, uma vez que praticamente todos os estilos, inclusive o rap, possuem músicas do tipo) são bem mais divulgadas do que letras críticas e profundas sobre a situação que o Brasil e o mundo se encontram há décadas.

Um exemplo disso é visto no interior do próprio rap. Nos últimos tempos se tornou um estilo musical mais conhecido simplesmente por ser constituído por rimas (que muitas vezes são vazias), flow e beat, como se congregar palavras semelhantes de diferentes significados, em uma música completamente desprovida de nexo e descontextualizada, representasse o que o rap é em sua essência. Ou seja, o rap, na maioria, apesar de ainda haver muitos rappers da época mais antiga, se tornou justamente um estilo musical que condiz com os interesses burgueses, no sentido de que não procura demonstrar através da música uma perspectiva crítica da sociedade regida pelos interesses dos grandes capitalistas, mesmo que indiretamente.

Atualmente muitos grupos de rap, com músicas extremamente realistas, são desconhecidos entre a população, mesmo que relatem de forma precisa e crítica a realidade social produto da lógica do capital. As mulheres também estão intensivamente presentes nesse gênero de rap, como o grupo “Atitude Feminina”, a “Karol Colombiana”, ex integrante do grupo “Realidade Cruel”, a já falecida “Dina Di”, considerada a maior rapper brasileira que já existiu, dentre várias outras. Infelizmente, também são igualmente ignoradas no cenário midiático, que é repleto de músicas que mais parecem uma espécie de patologia cultural.

Assim como há essas manifestações críticas da realidade social, há também aqueles que, além de serem críticos, possuem uma consciência de classe mais avançada, e propagam a superação do capitalismo, como no caso de Pablo Hasel, um rapper comunista espanhol que há alguns anos foi condenado a vários anos de prisão, acusado de enaltecer o terrorismo e fazer injúrias e calúnias contra as instituições burguesas. No Brasil, grupos como Gíria Vermelha, Ameaça Vermelha, Liberdade e Revolução etc, são exemplos de casos constituídos por marxistas conscientes do funcionamento da sociedade brasileira e do capital de uma forma geral. Obviamente, como foi comentado acima, poucas pessoas conhecem esse tipo de manifestação artística e artistas associados a mesma, visto que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Assim, como o rap com essa qualidade musical expressa justamente o oposto dos interesses burgueses, acabam não sendo tão divulgados, pelo contrário, até combatidos.

Dessa maneira, o rap que exprime esse conteúdo lírico deve ser considerado um instrumento crítico e verdadeiro da realidade. Da mesma forma, deve ser visto como um conscientizador das massas oprimidas, contrapondo assim as concepções mistificadas das ideias burgueses, que sempre têm como objetivo último mascarar a luta de classes e a exploração inerente para a acumulação do capital por parte da classe reacionária dominante. Por fim, deixamos aqui algumas sugestões de músicas de grupos e rappers autônomos que demonstram a união de Rap e Consciência de Classe.

Arma da Crítica — Amarildos:
https://m.youtube.com/watch?v=n9pAZFVE1ZA

A286 — Enquanto houver motivo:
https://www.youtube.com/watch?v=qYvEwoBR64Q

Atitude Feminina — Dia de Finados:
https://www.youtube.com/watch?v=P4CddSfBNmI

MV Bill — Brado Retumbante:
https://www.youtube.com/watch?v=tM9vFzz8TI0

Liberdade e Revolução — Fim de Festa:
https://www.youtube.com/watch?v=PNLq5zmmMx0

Ameaça Vermelha — Resposta à Chacina de Pau D’Arco:
https://www.youtube.com/watch?v=z5e7muLMQPA

Gíria Vermelha — Não mais:
https://www.youtube.com/watch?v=mJFHTz1LY3Q

Eduardo — Substância Venenosa:
https://www.youtube.com/watch?v=CAE-_DPaG0E

Facção Central — Isso aqui é uma Guerra:
https://www.youtube.com/watch?v=dXbpOiEHQhA

Total Drama — Rato Cinza:
https://www.youtube.com/watch?v=DtLnayD1Q9g

Realidade Cruel — Censuras:
https://www.youtube.com/watch?v=0gpw-OOWGJA

Thiagão part. Atitude Consciente — Perigo Constante:
https://www.youtube.com/watch?v=4vDZAH9Ko2A

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