É muito comum observar indivíduos que se afirmam “apartidários” ou “isentos ideologicamente” frente a diversas questões que existem em nossa sociedade. Normalmente querem apenas tentar mostrar que estão sempre abertos para novas perspectivas e que, portanto, não se encaixam em nenhum tipo de espectro ideológico acerca da realidade. Nesse texto, será elucidado o porquê disso ser impossível e de como isso pode prejudicar, de muitos modos, o progresso da humanidade.

Tal como apresenta o método de análises sociais do materialismo histórico, o ser precede as ideias. Precisamente isso significa que a realidade, aquilo que é objetivo, sempre terá prioridade existencial sobre aquilo que está confinado à subjetividade do indivíduo, às suas projeções acerca de como o mundo funciona. Desse modo, as ideias sempre serão secundárias com relação à objetividade externa, e é exatamente em função disso que ideias podem estar erradas ou não. Com base nisso, as ideias têm como função a reflexão do mundo dentro dos seus limites históricos, ou seja, reproduzem-o abstratamente de determinadas formas. Essas reproduções podem ser correspondentes ao funcionamento do mesmo ou não, isso vai depender, primariamente, das próprias dinâmicas do funcionamento, mas também do modo como o indivíduo capta as categorias do mesmo. Apenas a partir disso que tudo que é real pode ser interpretado e transformado humanamente, pois, sem ideias, conceitos, concepções e abstrações da razão em geral acerca do que existe, o mundo não poderia ser entendido ou tampouco alterado dentro da peculiaridade que a humanidade tem perante os outros animais que existem, peculiaridade esta que tem sua expressão externa primordialmente realizada pelo trabalho. No entanto, como o trabalho, apesar de ser a categoria elementar do homem, não é o suficiente para abarcar toda a complexidade da realidade social, então as concepções também ultrapassam os limites do mesmo e assumem uma posição mais “socializada”, que representam as formas ideais mais desenvolvidas do ser humano. 

Nesse sentido, surgem diversas noções de como o mundo é e de como ele deve ser. Paralelamente, diversas ideologias começam a existir com um único e exclusivo objetivo: Representar e atender determinados interesses. A quem essas ideologias servem pode ter um caráter diversificado de um ponto de vista mais específico (Movimento Negro, Feminismo, Ambientalismo etc), bem como elas podem convergir em diversos pontos, divergirem em certos aspectos ou radicalmente, lutarem por uma mesma causa mas com princípios distintos. Enfim, há diversas possibilidades. Entretanto, do ponto de vista mais essencial e geral da estrutura social vigente, as ideologias representam os interesses dos oprimidos ou opressores. Sendo assim, quando se adota uma forma de enxergar o mundo, essa forma pode estar enquadrada, mesmo que o indivíduo que aderiu não saiba, em algum desses dois eixos, e, portanto, ele vai determinar como o sujeito vai agir e em favor de quem.

Cena do filme “Eles vivem”, de John Carpenter, que retrata o papel da ideologia na sociedade.

Quando as pessoas são defrontadas com problemáticas sociais, muitas hesitam em tomar determinada posição de forma clara e direta. No caso específico dos oprimidos, isso pode ocorrer por dois motivos: Ou não conhecem o suficiente para adotarem algum lado, ou então acham que nenhum dos lados servem e que deve-se tomar um “caminho do meio”. O grande problema é que desconhecer a realidade leva a uma transformação cega da mesma, bem como tentar esse caminho do meio confunde ser crítico e aberto com ecletismo. Como foi elucidado, essencialmente existem dois eixos, o do oprimido e o do opressor, apesar de diversas ramificações possíveis dentro dos diversos grupos sociais. No  entanto, esses grupos são constituídos no interior dessa divisão fundamental, e portanto eles próprios, independentemente do assunto que abordem, estarão dentro algum dos dois espectros. Mao Tsé Tung oferece uma compreensão baseada na contradição sobre isso, mostrando que existe a contradição primária e as contradições secundárias, sendo as segundas derivadas da primeira, mesmo que possam ter uma autonomia relativa. Nesse sentido, não é uma questão meramente ideal, mas também de funcionamento da própria realidade.

Como supracitado, a ideia de “neutralidade” advém de duas possibilidades com relação a realidade dos oprimidos, que é o desconhecimento ou a tentativa de oferecer uma alternativa distinta de qualquer um dos lados. A questão é que, por as ideias não serem isoladas, refletirem o real, elas jamais podem ser neutras. O indivíduo que desconhece e prefere ficar “isento”, por exemplo, não está tomando uma atitude neutra sobre a realidade, tentando ficar no famoso “em cima do muro”. Ele está apenas suspendendo seu juízo de valor, ou seja, não está defendendo nada sobre nada. Porém, como do mesmo modo ele se insere nessa realidade, querendo ou não, ele vai estar submisso à esta lógica de oprimidos e opressores, sendo, portanto, concretamente enquadrado em um dos dois lados. Ou seja, idealmente, não há uma defesa de algo, mas concretamente se está agindo em relação a algo que é sistematizado ideologicamente em forma de defesa desse mesmo algo. Em última instância, há uma transformação cega da realidade em favor de determinados interesses, mesmo que se tente negar que isso está ocorrendo. Já no caso de quem tenta ir por uma via diferente de tudo, em geral, como supracitado, se torna uma pessoa extremamente eclética e confusa, e por isso estará passível a defender interesses de uma classe contrária sem saber que está fazendo isso, e, de uma forma ou de outra, estará dentro dos limites daquilo que propõe “superar” com uma nova via ideológica desfigurada.  Ora, é plenamente possível ser anti-dogmático, adotando uma postura intelectual de crítica e autocrítica, corrigindo e complementando no que for necessário, sabendo que existem lados a serem defendidos.

No caso dos opressores, apesar de ainda haver essa narrativa, a particularidade dos opressores é que, pelo fato de serem os dominadores, a princípio são mais conscientes das dinâmicas da estrutura social do que os dominados. Sendo assim, quando um burguês se afirma “isento” ou que está tentando tomar um caminho do meio, que não é “nem de direita nem de esquerda”, usando uma linguagem mais simplista, ele não está realmente sendo o que está tentando transmitir, está na verdade dissimulando seus interesses justamente para legitima-los de forma que aqueles prejudicados por ele não percebam e sejam iludidos com seus discursos. Desse modo, as possibilidades de posições supostamente novas ou neutras por parte da classe dominante costumam ser praticamente nulas, visto que eles têm uma noção de mundo que, a princípio, os explorados não têm, e, portanto, tendem à confusão e ecletismo. Os primeiros têm plena compreensão do papel que exercem no mantimento da sociedade atual, enquanto os segundos não têm consciência de como suplanta-la, mesmo que sintam os males que ela provoca. Caso o contrário, a revolução já teria acontecido e a construção de consciência de classe seria desnecessária. 

Nesse sentido, não há como nenhum individuo ser “nem isso nem aquilo” quanto ao funcionamento social, pois o fator principal da existência não é o discurso ou as ideias no que se refere a como a sociabilidade funciona. Se pode até, mentalmente, afirmar tais coisas, mas concreta e historicamente existe uma estrutura independente de qualquer afirmação ou negação intelectual, e é ela que encaixa os indivíduos em certos postos sociais, dependendo do status quo de cada um. É essa objetividade que vai determinar a quem se está servindo. Compreendendo isso, pode-se desmascarar os grupos que discursam a favor dos oprimidos mas servem aos opressores, bem como conscientizar  aqueles que estão confusos e superficiais acerca da realidade e não têm uma noção coerente para uma mudança social significativa alicerçada na emancipação humana.

Referências:

CHASIN, José. Método Dialético.

LUKÁCS, Gyorgy. Para Uma Ontologia do Ser Social.

MAO TSE TUNG. Sobre a Contradição.

MARX, Karl. Ideologia Alemã.

MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia.

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