Por Pedro Nogarolli

Marx começa o capítulo “trabalho alienante e propriedade privada” (dos Manuscritos Econômicos-Filosóficos) com um fato das nossas sociedades: o trabalho humano é alienado. Mas o que isso significa? Alienação em sua origem significa – que pertence a outro, mas também significa indiferença ao mundo, á sociedade, ás pessoas. Quando escutamos “Essa pessoa é uma alienada!”, entende-se que é uma pessoa cabeça dura, sem conhecimento, isolada, etc. Bom, para entender esse conceito no pensamento de Marx, o barbudo divide três aspectos da alienação do trabalho alienado:

• O trabalho em si é alienante;
• Os trabalhadores estão alienados dos produtos dos seus trabalhos;
• O trabalhador está por fim alienado de si mesmo e dos outros.

1) O trabalhador não se sente bem no seu trabalho. Pelo contrário, o seu trabalho é desgastante (fisicamente e espiritualmente), ele se estressa, se auto-sacrifica, se esgota. Não se sente em casa no trabalho, mas o oposto: só se sentiria em casa fora do trabalho. Odeia o início da semana, mas adora o fim da semana. Portanto, esse trabalho não é por livre e espontânea vontade, é trabalho forçado.
Esse fato é visível, pois logo que não houvesse coerção ou necessidade, o trabalhador fugiria imediatamente desse trabalho alienante.

2) Logo, se o trabalho é trabalho forçado, então esse trabalho não é trabalho seu, mas trabalho de outra pessoa. O trabalhador não pertence a si próprio, ele pertence a outra pessoa. Assim, o regime salarial e a propriedade privada é uma consequência necessária do trabalho alienado, pois são o que significa pertencer a outra pessoa em sua forma socialmente estabelecida.

3) Por fim, Marx argumenta: O que nos diferencia dos outros animais é a atividade livre e consciente. A vida verdadeiramente humana é a atividade consciente e livre. Entretanto, o trabalho alienado faz do que nos diferencia dos animais um mero meio para subsistirmos – consumo, habitação etc. Trabalhamos para viver, mas não vivemos para trabalhar. O trabalho ganhou significados tão alienantes que naturalmente enxergamos essa frase como absurda. Como assim viver para trabalhar? Mas aquilo que é verdadeiramente humano é nossa liberdade criativa, nossa paixão criadora, nossa atividade. Por isso, o ser humano perde sua identidade com o que lhe faz humano, e sem essa noção, se distancia dos outros (sentimentalmente, espiritualmente, etc). Assim sendo, o trabalhador acaba por se sentindo humano apenas nas suas funções meramente animais – a comida, a bebida, o sexo; e se sentindo um animal na sua ação mais humana – o trabalho.

Recapitulando: o trabalho alienante possui três aspectos – o próprio ato do trabalho é alienante, o trabalhador é alienado dos frutos do seu trabalho e, por fim, o trabalhador é alienado de si mesmo e dos outros. A propriedade privada e o regime salarial são uma consequência lógica do trabalho alienante.

Alguns dados sobre o assunto:

Trabalho alienado: https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap01.htm

O paradoxo da escolha: https://www.ted.com/talks/barry_schwartz_on_the_paradox_of_choice?language=pt-br&fbclid=IwAR0HKROcvXxrnilBP7nTeQ4oWe8lKhQnaA2xQgQy6QcIRlQD4h3fHP4nktA

Sociedade do cansaço – Byung-Chul Ha:

“Do ponto de vista patológico, o incipiente século XXI não é determinado nem por bactérias nem por vírus, mas por neurônios. Doenças neurológicas, como depressão, déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), personalidade limítrofe distúrbio (DBP) e síndrome de burnout marcam o contexto da patologia no início do século vinte e um.”

James Oliver -Selfish Capitalism:

“Taxas de sofrimento quase duplicaram entre as pessoas nascidas em 1946 (trinta e seis anos em 1982) e 1970 (trinta anos em 2000). Para por exemplo, 16% das mulheres de 36 anos em 1982 relatou ter “problemas com os nervos, sentindo-se baixo, deprimido ou triste ‘, enquanto 29 por cento das pessoas de trinta anos relataram isso em 2000 (para os homens foi de 8 por cento em 1982, 13 por cento em 2000)”

Capitalismo Tardio e os Fins do Sono – Jonathan Crar:

“A história tem mostrado que as inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas uma esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou consumidor sem sono. Produtos que tiram o sono, quando agressivamente promovidos pela farmacêutica empresas, seria a primeira opção de estilo de vida e, eventualmente, para muitos, uma necessidade. Mercados 24/7 e uma infraestrutura global para trabalho contínuo e consumo estão em vigor há algum tempo, mas agora um sujeito humano está em construção para coincidir com estes mais intensivamente”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s