Tradução: Yatahaze

A polêmica constante entre o marxismo e o feminismo não se reduz a questões teóricas, embora essas questões sejam fundamentais; por trás deles há um processo histórico, sem o qual é impossível entender profundamente a natureza reformista-burguesa do feminismo.

Vamos começar pelo inicio. Qual é o ponto de partida marxista (científico) para o estudo da sociedade? O materialismo histórico. Em sua “Contribuição à crítica da economia política” (1859), Marx simplesmente sintetiza essa concepção materialista da história:

“relações jurídicas, tal como formas de Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do século XVIII, resume sob o nome de”sociedade civil”, e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porém, na economia política.”

(…)

“A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social.”

(…)

“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência.”

A chave é que a sociedade não muda pelo aquele “suposto desenvolvimento geral do espírito humano”; a humanidade não avança porque se torna melhor, mais “tolerante” ou “progressista”, mas porque as condições materiais da vida (relações econômicas) a transformam constantemente. (É claro que ideias podem transformar e mudar o mundo, mas, do ponto de vista mais geral e universal, na verdade, é o ser social que, em última instância, determina a consciência.)

Isso é expresso hoje, seguindo Marx, como uma contradição entre sociedade civil e sociedade política; ou, como dizemos agora, na dialética do Estado de massa. Se o capitalismo quer evitar a desintegração social, tem que ordenar as massas através do Estado.

Através de um longo processo histórico, o capitalismo criou as condições para a emancipação das mulheres. A indústria padronizou os trabalhos que costumavam ser qualitativamente diferente, o que permitiu a reincorporação das mulheres à produção social:

“Como no capitalismo, quando são dadas as condições materiais para a emancipação das mulheres, não é uma coincidência que seja também no capitalismo quando há uma consciência da necessidade dessa emancipação. Com efeito, o primeiro movimento que reivindica uma mudança nas condições sociais das mulheres, sufragistas, nasceu no final do século XIX, quando a indústria mecanizada já havia assumido as esferas mais importantes da economia. Naturalmente, é um movimento burguês cujo objetivo não saiu dos canais da ordem burguesa, mas é a primeira forma política (mistificada, é claro) na qual se manifestou um fato objetivo: a incorporação, mais ou menos limitada, mas incorporação afinal de contas, de mulheres na mão de capital.” (1)

E, como é óbvio, diante das contradições criadas pelo capitalismo, existem apenas duas alternativas: a revolução social integral (proletária) ou o reformismo burguês. Não há meio termo. O feminismo, como movimento de mulheres burguesas, representa o segundo caminho:

“De fato, quando as sufragistas começaram a reivindicar o direito de voto da mulher burguesa, as trabalhadoras já vinham produzindo mais-valia para seus maridos há anos.”

“a luta econômica ou sindical da classe trabalhadora se expressa politicamente em termos burgueses e seus representantes são políticos burgueses, embora travestidos como os trabalhadores (oportunismo), quando essa luta não é dirigida por um partido comunista rumo a objetivos revolucionários;”

“Porque, como vimos o primeiro passo para a emancipação das mulheres consiste na sua incorporação à produção, e neste passo a mulher não dá, nem pode dar, como uma mulher abstrata, mas como trabalhadora, como operária. E essa é a principal contradição da primeira onda do feminismo, do sufragismo, que herdou todo o movimento feminista posterior e atual: que faz abstração da mulher e a despersonalização de sua condição de classe.”

Mesmo assim, devemos ver esse problema em seu contexto histórico geral. Durante o século XIX e (aproximadamente) a primeira metade do século XX, a distinção entre feminismo e marxismo era clara para as mulheres proletárias. O primeiro era, claramente, o movimento das mulheres burguesas; o segundo, o comunismo, foi o movimento geral do proletariado revolucionário, que incluía o movimento proletário de mulheres, isto é, as massas de mulheres trabalhadoras organizadas pela e para a revolução socialista.

É por isso que Kollontai, Zetkin ou Luxemburgo sentiam um ódio de classe contra o feminismo: sem ignorar a situação miserável específica das mulheres, elas sabiam que só poderiam emancipar-se com o resto da humanidade através da revolução. O resto estava perpetuando o capitalismo.

Portanto, a verdadeira relação entre o marxismo e o feminismo é o antagonismo absoluto entre o proletariado e a burguesia. Quando se fala de “casamento mal arranjado” estamos na verdade falando sobre a relação entre o revisionismo e o feminismo. Por quê?

Já no final do século XIX, os setores de movimento dos trabalhadores mais relutantes à incorporação das mulheres nas organizações proletárias eram, precisamente, os assalariados sindicalizados mais bem remunerados e com melhores condições de trabalho: os mesmos que comporiam a aristocracia operária.

Isso, no entanto, não pode ser reduzido ao “machismo” dos trabalhadores: era uma política de classes bem definida (embora não revolucionária), que queria evitar a pressão descendente sobre os salários que a incorporação de uma força de trabalho barata implicava para o mercado de trabalho.

Durante o século XX vemos o mesmo problema se desenvolver: o feminismo (lembre-se: movimento feminino burguês) é desenvolvido no Ocidente, precisamente onde os partidos dos trabalhadores logo passam para o campo da burguesia para defender os interesses da aristocracia operária.

É por isso que o “casamento mal arranjado” entre feminismo e revisionismo é a tensão entre o movimento de mulheres burguesas (que se desenvolve quando o sufragismo e atrai mulheres social-democratas) e o movimento operário burguês (defensor daquela aristocracia operária, principalmente masculino).

Por sua vez, o marxismo revolucionário soube incorporar as massas de mulheres à revolução socialista, rompendo radicalmente com sua opressão milenarista, enquanto o sufragismo e a social-democracia nada mais fizeram do que perpetuá-la.

Onde quer que tenha havido uma revolução proletária (Rússia, China ou Peru), a burguesia teve o feminismo ao lado contra os proletários; Ao mesmo tempo, os proletários sempre souberam que as feministas (burguesas por status ou posição política) eram inimigas de classe.

É por isso que nenhum Partido Comunista real reivindica o feminismo. Não é um problema temporário (“que Kollontai hoje seria feminista …”), porque mesmo o mais recente maoismo revolucionário (nas últimas 3 ou 4 décadas) luta contra o feminismo e pela emancipação das mulheres.

Mas por que a ascensão contemporânea do feminismo? Como explicar essa aparente “revolução” em um senso comum burguês de um modo materialista histórico?

Isso não pode ser entendido sem enquadrá-lo, novamente, no contexto histórico geral da luta de classes. Duas ideias:

A) Com o fim do ciclo de outubro (1917–1989), o horizonte revolucionário do comunismo deixou de ser a referência da emancipação. Resta atomização.

B) A existência da URSS e condições após a Segunda Guerra Mundial levou a esses 30 gloriosos anos do Estado de bem-estar. A aristocracia operária tinha um lugar seguro na gestão dos benefícios da exploração.

Já nos anos 70, esses dois fatores começam a vacilar como uma represa aos interesses do grande capital. Aqui começa a “ofensiva neoliberal”, que nada mais é do que o ataque à aristocracia operária, suas posições econômicas (na produção) e políticas (no Estado).

Com menos necessidade de assegurar sua posição à aristocracia operária (a ameaça da revolução parece cada vez mais distante), seu trabalho qualificado (caro) é cada vez mais dispensável. Realocação e novo ciclo de incorporação das mulheres ao trabalho produtivo.

Na questão da emancipação das mulheres, vemos claramente a unidade contraditória entre lógica e história. De um ponto de vista estritamente teórico e radicalmente abstrato, o capitalismo não precisaria oprimir especialmente as mulheres. Bastaria ter à sua disposição indivíduos explorados de qualquer condição. Mas, historicamente, o capitalismo não nasce “ex novo”, mas herda e recicla as relações sociais do passado. A opressão familiar e feminina são realidades seculares que só podem ser destruídas com uma revolução total.

“Em outras palavras, embora a lei burguesa nos mostre o contrato de trabalho como o resultado de um acordo entre dois indivíduos de direitos iguais (o capitalista e o trabalhador) e o salário como o pagamento pelo valor de um trabalho realizado, na realidade o que está sendo pago é o valor da força de trabalho do trabalhador e os custos de sua reprodução, ou seja, sua família.“ (2)

“o valor do salário na sociedade é muito menor se partirmos da família e não do indivíduo, isto é, se conseguirmos organizar todos os indivíduos da sociedade em grupos familiares, para que sua reprodução exija menos custos. O capital herda essa forma de organização da história, apenas para preservá-la.”

O importante aqui é entender, como foi dito no início do texto que são as condições da vida material que moldam a consciência social. E essa ofensiva burguesa contra a aristocracia operária, que envolve a lenta, mas constante incorporação das mulheres ao trabalho produtivo (desde que seja necessário, veremos por quanto tempo), é o que está por trás das últimas décadas do feminismo. Nem é o seu “boom” na última década. O que a crise fez senão aprofundar essa destruição das posições na aristocracia operária?

Notemos que este mesmo problema está por trás da “diferença salarial” mistificado pelo feminismo. A mulher não cobra menos pelo mesmo trabalho, mas ela se une à produção em condições piores. Assim, o capitalismo lança as bases para a emancipação das mulheres enquanto perpetua sua opressão. É por isso que é absurdo (e impossível) separar essa emancipação da causa geral do proletariado:

“Ou seja, sob as condições do capital, a incorporação da mulher ao trabalho não apenas não nega a família monogâmica, mas a pressupõe e a exige como premissa. A organização do proletariado em famílias que trabalham alarga o campo da exploração do capital e reduz o valor de salários proporcionalmente da classe trabalhadora (para não mencionar o papel desempenhado pela família como um amortecedor contra conflitos sociais causados ​​pelo desemprego e outros ataques do capital). Por esta razão, dizemos que, embora seja verdade que o desenvolvimento das forças produtivas, durante a história das classes da sociedade, colocaram no pelourinho a economia doméstica e esse capital, graças ao maquinismo, usou isto para começar a incorporar as mulheres no mundo do trabalho, e isso tudo significa o primeiro passo para a sua emancipação, dizemos também que é insuficiente e que é necessário dar o segundo passo, que consiste em destruir a família monogâmica. Como a família proletária expressa um novo conteúdo nas relações sexuais, conteúdo que já carrega os elementos desse tipo de família, resta apenas terminar com o que ainda a mantém: capitalismo.”

Por isso, também, não se pode lutar pela emancipação das mulheres sem denunciar o feminismo (oportunismo) e o revisionismo (aristocracia operária “radicalizada”):

“Por tudo isso, os comunistas dizem que a emancipação da mulher não será alcançada sem dar o segundo passo, ela não será alcançada até a completa destruição do capitalismo, que é o sistema que se opõe às últimas barreiras a essa emancipação através da família. Por que os comunistas dizem que não há plena emancipação das mulheres sem revolução proletária, e devemos denunciar e desmascarar o reformismo e revisionismo, porque isso reduz as condições da libertação das mulheres o primeiro passo, exagerando o seu real significado e liquidação completar a “grande conquista” da incorporação das mulheres ao trabalho (que, na realidade, é uma concessão de capital) com a atração da igualdade legal de direitos entre os sexos. É por isso que devemos lutar contra essa manifestação de oportunismo na Frente das Mulheres, porque a emancipação da mulher ultrapassa os limites da democracia burguesa e só pode ser plenamente realizada desde a Revolução Proletária.”

Algumas conclusões

I) O marxismo, desde o seu principio fundamental, tanto na teoria como na prática, preocupou-se com a emancipação das mulheres e tomou essa libertação mais do que qualquer outro movimento.

II) No que diz respeito ao comunismo, a emancipação das mulheres sempre foi correlacionada com o estado geral da revolução. Quando ela ganhou posições, o mesmo aconteceu com a mulher; quando estagnou ou recuou, também aconteceu o mesmo com a metade feminina da humanidade .

III) A atual ascensão do feminismo é possível devido a dois fatores. Por um lado, a derrota do ciclo revolucionário de outubro que acabou temporariamente com a última certeza universalista: o comunismo como horizonte de emancipação social, como a construção de uma humanidade livre; Por outro lado, nessas condições, a incorporação das mulheres ao trabalho nas últimas décadas só poderia ser expressa especialmente como movimentos da burguesia, liderada pelo burguês que instrumentalizou a opressão multiforme dos proletários como “argumento” para acumular poder e mais-valia. Assim como a espontaneidade legítima do movimento operário acaba sendo conduzida pela aristocracia operária (oportunismo, social-democracia …), a espontaneidade legítima das mulheres contestatórias é dirigida por suas “irmãs mais velhas” burguesas, o feminismo.

IV) O feminismo sempre foi a ideologia burguesa que tenta adaptar o capitalismo às novas realidades das mulheres. Da mesma forma que a social-democracia tem sido a força motriz do “estado social” como uma adaptação do capitalismo à domesticação dos trabalhadores.

V) Todo o aparente radicalismo do feminismo é reduzido a isso: tentar fazer com que as mulheres oprimidas encontrem “seu lugar” neste mundo de miséria; promover aspirações pequeno-burguesas nelas; esforçar-se para “representá-las” nas instituições da burguesia para se conformar. Isso, por sua vez, colide com o anterior “senso comum” burguês, efetivamente machista. Mas esse machismo era também o reflexo cultural da subordinação das mulheres, o preconceito nascido das relações sociais que fazia das mulheres presa absoluta no lar.

VI) O capitalismo, como a história, não é linear, mas cíclico. Assim incorpora as mulheres ao trabalho, e não seria difícil relacionar as “ondas” ou os “vertentes” do feminismo com esses ciclos econômicos:

“Como efeito, o capital inaugura a entrada das mulheres no mundo do trabalho, mas ao mesmo tempo as restringe em termos de oscilações econômicas, de acordo com seus ciclos, suas crises e suas necessidades de acumulação. Com toda a probabilidade, um estudo histórico sobre a entrada das mulheres no mundo do trabalho durante a era do capitalismo revelaria que essa renda não é gradual e progressiva, mas flutuante, de modo que, para períodos de incorporação relativamente maciça, períodos de retiro e libertação da mulher para a reclusão em casa. Provavelmente, também, essas flutuações seriam determinadas pelos ciclos do capital e por suas crises. Esta hipótese é cumprida para a primeira grande reestruturação econômica do capitalismo, quando ou a usinagem da indústria, entre o final do século XVIII e grande parte do século XIX para a maioria dos países europeus e da América do Norte, mudou completamente sua base de acumulação, e quando, como vimos, a mulher foi incorporada como força de trabalho em escala importante. Mas sabe-se que, mais tarde, uma vez que o capital tenha se acumulado o suficiente para fazer o que tem sido chamado de “decolagem” da industrialização, as mulheres não continuaram a participar da produção social em escala igual ou superior, se não todo o contrário”

VII) A emancipação das mulheres só pode ser alcançada se a Revolução Proletária for alcançada. E, como vimos, em nosso contexto histórico, a primeira tarefa dos comunistas é recuperar o horizonte da revolução: o comunismo deve ser reconstituído ideologicamente.

“Com o socialismo, ao mesmo tempo em que as mulheres são incorporadas em massa ao trabalho, começa a luta para dissolver os organismos que articulam a sociedade em classes, incluindo a família; até que, no comunismo, toda a mediação entre os indivíduos desapareça definitivamente e a associação e a livre cooperação entre eles possam reinar.”

Por esta razão, o lugar da mulher proletária é, junto ao homem proletário, nas tarefas atuais da revolução. O feminismo faz das mulheres uma “ativista de gênero” reformista com aspirações pequeno-burguesas, mas o comunismo a chama para ser estrategista da revolução.

Somente trabalhando juntos nesses termos as mulheres podem romper com a subordinação e a humilhação que o capitalismo lhes impôs; somente assim, também, o homem pode aprender a respeitar plenamente sua parceira como igual na luta pelo comunismo.

Portanto, até mesmo se distinguindo, “entre partidos burgueses, a “partidos dos trabalhadores social democratas “ou os partidos revisionistas que enganam o trabalhar com um falso comunismo” que sempre está em conluio junto às frações burguesas. Com o feminismo acontece o mesmo: suas “correntes” (a ideia espúria de “feminismos”) respondem a diferentes frações e políticas de classe, mas todas são burguesas. Elas não renunciam ao ponto de partida reformista (movimento de mulheres burguesas), eles só disputam “visibilidade”.

Mas, como em todas as esperanças reformistas, é óbvio que o grande capital possui as ferramentas e a capacidade de impor sua agenda. Assim como “o petismo” ou e outras organizações da pseudo esquerda são o caminho mais curto para jogar as massas ao domínio da burguesia (embora alguns acreditem que estão “disputando a hegemonia” com “as elites”), “feminismo de classe “,” marxista “ou” socialista “é o caminho mais curto para jogar as mulheres nas garras do Estado, legitimá-las e impedir qualquer perspectiva revolucionária.

Em resumo: o feminismo é a ideologia da integração das mulheres no capitalismo; suas correntes, concordando com esse objetivo reacionário, representam apenas a proposta concreta de cada fração da classe burguesa diante dessa integração. Nada mais.

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