Gabriel Brasileiro

Em recente estudo desenvolvido pelo Cedeplar/UFMG, tendo em vista o corte dos benefícios previdenciários decorrente da reforma, foi estimado o impacto das variações de renda das famílias sobre o PIB brasileiro em 10 anos. Em um dos cenários projetados, o investimento privado apenas responde à queda da demanda familiar, o que proporcionaria um efeito recessivo na economia. Já no outro cenário, o corte de despesas do governo é totalmente suprido por investimentos privados, o que evitaria o efeito recessivo, porém, trata-se de um cenário demasiadamente otimista. Desse modo, o estudo demonstrou o risco que envolve a reforma da previdência [1].

Ademais, reforçando o risco de impacto negativo sobre o PIB, as evidência empíricas sobre a economia brasileira demonstram que há evidente relação entre o investimento produtivo (despesas destinadas ao aumento da capacidade produtiva) e a demanda final (despesas que não são destinadas ao aumento da capacidade produtiva). Havendo, aproximadamente, um aumento de 2,4% no investimento produtivo para cada 1% de aumento na demanda final [2].

Isso demonstra que a reforma da previdência, ao contrário do que seus defensores alegam, não garante a salvação da economia do Brasil . Mas, se a retirada do estímulo à demanda agregada não tem potencial de estimular o crescimento das taxas de lucro, qual o interesse da elite econômica ao apoiar a reforma? Ora, nos últimos anos, o Brasil apresentou queda da lucratividade acompanhada da queda do investimento, então, não parece haver sentido em apoiar algo que agrave essa situação [3].

Contudo, o que parece ser uma contradição possui uma lógica historicamente bem definida. Limitar o acesso da classe trabalhadora à renda previdenciária é uma forma enriquecer os cofres públicos para depois espoliá-los através do lobby, a fim de a elite econômica tentar recuperar a lucratividade. Sendo exatamente isso o que ocorreu na história econômica brasileira do século XXI até então, um gigantesco acúmulo de riqueza nos cofres públicos na primeira década (Lula) e um esvaziamento dedicado a grupos de interesse na segunda (Dilma). Simplesmente, não há motivos para confiar na burguesia brasileira e em qualquer projeto vendido como salvação.

Então, com ajuda da mídia e das redes sociais, promove-se o terrorismo psicológico observado, vendendo-se a ideia de que, se essa reforma da previdência não passar, a classe trabalhadora enfrentará o apocalipse. E, assim, a classe trabalhadora torna-se refém da elite econômica, que, junto à classe política, perverte a função conciliadora que a democracia brasileira atribui a si. A prova disso foi a revogação feita pelo Bolsonaro, via decreto nº 9.784, do Fórum de Debates sobre Políticas de Emprego, Trabalho e Renda e de Previdência Social, que foi criado em 2015 com o intuito de debater, analisar e propor ações sobre políticas previdenciária, dentre outro temas [4]. Ou seja, os meios conciliatórios foram revogados e a proposta de reforma é empurrada sem um planejamento junto às categorias mais oneradas.

Dito isso, nunca é tarde demais para lembrarmos que, embora seja positivo buscar meios de amortecimento da classe trabalhadora dentro do capitalismo, toda e qualquer luta é infrutífera sem que haja a perspetiva revolucionária de superação do modelo social vigente. Só assim será possível, de fato, acabar com a situação de grande onerosidade constante da classe trabalhadora e não apenas depender de retalhos.

REFERÊNCIAS

[1] https://www.valor.com.br/brasil/6339249/reforma-traz-risco-recessivo-diz-estudo

[2] http://www.excedente.org/blog/de-onde-vira-a-demanda-que-justificara-a-recuperacao-do-investimento/

[3] https://fomentando.files.wordpress.com/2019/05/dissertac3a7c3a3o-bruno-miller-theodosio-completo-e-correto.pdf

[4] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D9784.htm

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