Atualmente, muito se debate acerca do machismo, considerado um dos principais males sociais contemporâneos. No entanto, apesar de todo o debate envolvendo o machismo, na maioria das vezes, os indivíduos têm uma visão demasiadamente imprecisa e pautada no senso comum do que ele é; em função disso, esse texto intenta transparecer qual a gênese do machismo, isto é, a qual estrutura social está atrelada historicamente.

Como já é notório, a economia em Marx tem “prioridade ontológica” sobre as demais esferas da sociedade, ou seja, ela é a dimensão mais importante que uma ordem social pode ter, visto que é ela quem permite a manutenção e perpetuação de todas as outras. Porém, a economia ser a anatomia da sociedade civil não pode ser confundida com uma espécie de economicismo, como se todos os fenômenos e complexos sociais pudessem ser abordados, mecanicamente, a partir de uma analise da economia. Obviamente que cada complexo social possui suas determinações próprias de existência, o seu modo de ser específico e suas mediações próprias com outros complexos, no entanto, direta ou indiretamente, tudo aquilo que é socialmente determinado possui sua estrutura imanente na forma como a sociedade se organiza economicamente, no sentido de existir, prioritariamente, para atender as necessidades e exigências dessa economia, mesmo não tendo tão somente essa função.

Nesse sentido, o machismo, racismo, etc, dentre outros problemas sociais estão articulados em uma relação necessária com a estrutura econômica na qual foram originados, a qual é a propriedade privada dos meios de produção e divisão de classes. Porém, como supracitado, o machismo tem suas mediações e processos sociais próprios que motivaram sua origem, e é exatamente sobre essa problemática que o texto irá tratar a seguir.

Na sociedade primitiva, onde não havia propriedade privada, a espécie humana era tão incipiente em seu desenvolvimento que se organizava em tribos e hordas coletoras e caçadoras para manter sua sobrevivência, visto que não era capaz de acumular riquezas para assegurar uma organização social e econômica mais complexa. Segundo estudos publicados na renomada revista “Nature”, nesse período da história humana, os homens e as mulheres viviam sob uma relativa igualdade social, no sentido que, tanto um quanto o outro tinham autoridade para decidirem quais as tarefas que seriam feitas, não sendo, desse modo, estabelecida uma espécie de divisão sexual do trabalho a rigor.

Certamente havia uma certa hierarquia por questões biológicas, porém, em termos gerais, os homens e as mulheres eram responsáveis pela produção social e pelos trabalhos domésticos, não havendo assim uma distinção nítida entre a divisão dos sexos. Além disso, a mulher era considerada mais importante para a sobrevivência humana, visto que a falta de uma mulher em uma tribo ou horda era muito mais impactante, para a taxa de fertilidade da espécie, do que a morte de um homem, na medida em que a mulher exercia e ainda exerce papel mais fundamental para a reprodução biológica.

“Segundo informou o antropólogo que liderou o estudo, Mark Dyble, ao jornal inglês “The Guardian”, a igualdade entre os sexos pode ter surgido como uma vantagem de sobrevivência. “A igualdade entre os sexos foi importante para as mudanças de organização social, incluindo o crescimento do cérebro e o desenvolvimento da linguagem, que distinguem os humanos (…) Os cientistas analisaram dados de duas populações de caçadores e coletores, um no Congo e outro nas Filipinas, que viviam em grupos de 20 pessoas, mudavam de lugar a cada dez dias e viviam de caça, peixe e frutas, vegetais e mel. Nas Filipinas, por exemplo, as mulheres caçavam e eram responsáveis por coletar o mel, e os homens atuavam significativamente no cuidado das crianças.” [1]

No entanto, com o definhamento da sociedade primitiva e passagem da mesma para a sociedade escravista, há uma profunda transformação para a sociedade na questão da diferenciação sexual. A passagem de uma sociedade pra outra foi marcada por muitas guerras, sendo os homens, por serem biologicamente mais fortes, isto é, terem uma estrutura muscular mais resistente, os indivíduos predominantes nessas guerras – como foi citado ao longo do texto, havia sim uma certa hierarquia, no entanto, era biologicamente determinada, não socialmente determinada. Além do mais, não era o suficiente para ser, efetivamente, uma divisão sexual do trabalho radical, tal como vai se deflagrar posteriormente – e isso fez com que, ao final das guerras que constituíram essa transição, os homens tivessem um poder sobre as propriedades muito maior do que as mulheres.

Desse modo, já na sociedade escravista, agora não mais caracterizada pela propriedade coletiva mas sim pela propriedade privada, visto que o patamar social já permitia isso, a totalidade social se organizava de tal forma em que o homem, predominantemente, tinha o poder da propriedade privada e portanto dos aspectos econômicos. Nesse sentido, as mulheres se conectavam á sociedade como subordinadas, sendo uma forma típica dessa subordinação a família monogâmica patriarcal – vale ressaltar que é patriarcal pois a família monogâmica em si não produz o machismo, mas sim ela com um teor patriarcal, isto é, dominada pelo sexo masculino – mas não tão somente ela.

Sendo assim, com a emersão do patriarcado e da família monogâmica compatível com o mesmo, houve uma divisão sexual do trabalho drástica. Isso porque, diferentemente da sociedade primitiva, surge a agricultura e a possibilidade de acumulação de recursos, a qual é protegida pela propriedade privada. Como a dimensão material da sociedade muda, a ideológica também, portanto os homens, detentores da propriedade privada, tinham em mente não apenas produzir o suficiente para o bem comum de toda a coletividade, mas sim, acumular riquezas como uma forma de adquirir cada vez mais poder econômico e político.

Com isso, as mulheres foram rebaixadas a tal ponto que, para o homem, agora munido de ideais egoístas característicos da propriedade privada, ela só servia apenas para gerar o herdeiro que seria responsável pela continuação da acumulação de riquezas. Isso explica porque, durante a história, as pessoas com maior poder aquisitivo e político sempre eram e são os homens, com exceção de rainhas e princesas, que eram privilegiadas, mas ainda assim submetidas às vontades dos homens. A partir disso, a mulher foi restringida de sua liberdade, sendo proibida de estudar, tomar decisões importantes, etc, sendo lançada apenas para os trabalhos domésticos.

Dessa forma, a mulher, que era importante para a reprodução biológica da sociedade primitiva de forma que a atividade coletiva de caça e coleta pudesse ser continuada e, com isso, garantisse o mantimento da espécie, permaneceu sendo importante para a reprodução biológica na sociedade escravista, porém, foi secundarizada porque agora não era mais tão somente a sobrevivência da espécie em jogo, mas também e principalmente a reprodução de riquezas e perpetuação da propriedade privada. Ou seja, a gênese dessa radical divisão sexual, na qual o homem subordina a mulher, está na forma como a sociedade passou a se organizar economicamente e socialmente na sociedade escravista, conforme as novas condições historicamente determinadas.

Com o tempo, o machismo foi se consolidando cada vez mais na consciência social e coletiva, de tal forma que muitas mulheres, mesmo que não todas, passaram a aceitar esse papel determinado á elas, isto é, corroboraram com o próprio machismo. Porém, com o desenvolvimento social, as mulheres através de organizações de luta, conquistaram vários direitos que não possuíam antigamente, mesmo que a subordinação tenha permanecido intensa e prevaleça até hoje, Direitos como votar, estudar, trabalhar onde quiser, não ser obrigada a ter filhos, etc, são exemplos do que a luta feminina pôde proporcionar, porém, a despeito disso, o preconceito contra o sexo feminino ainda é corriqueiro não só na sociedade brasileira, mas no mundo todo, em maiores ou menores proporções de acordo com cada região. Como o machismo não se restringiu a esfera econômica e se disseminou por toda cotidianidade da vida social, se tornou cada vez mais explicito e comum. Na sociedade moderna capitalista o machismo aparece na forma como os homens exigem que as mulheres se vistam, no modo como quer que elas se comportem, no assédio sexual verbal e físico, na desigualdade salarial, no mercado de trabalho em geral, etc. Todas esses atributos machistas têm origem, diametralmente, na economia da sociedade, e portanto, a sua matriz histórica se encontra nesse horizonte.

Nesse sentido, para que o machismo possa ser superado, há a necessidade de superar a propriedade privada e divisão de classes, pois senão, apenas medidas paliativas dentro dessa estrutura podem ser aplicadas, mas nunca em um sentido de erradicação do problema. Devido a isso, a luta pela emancipação da mulher deve ser, necessariamente, a luta pela superação de toda estruturalidade tipicamente classicista, sobretudo, do capitalismo, que é a sua fase histórica mais moderna e a vigente.

Referências:

[1] UOL, Portal. Homens e Mulheres pré-históricos tinham princípios igualitários diz estudo. Disponível em: https://bit.ly/2I6YvME

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/

GALILEU, Revista. Ciência comprova que igualdade de gênero existiu na pré-história. Disponível em: https://glo.bo/2Mh1Eil

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