Após o fim do poder moderador, houve um vácuo de poder que historicamente foi preenchido pelas forças armadas. Ora, sempre que há abalo institucional, o exército entra em cena com o objetivo de pôr “ordem na casa”. Essa era a função de D. Pedro II, que toda vez que se via diante de alguma instabilidade parlamentar, fechava o parlamento e convocava novas eleições. Assim, governou o imperador por mais de meia década no período de maior estabilidade política de nossa história. E, inegavelmente, o exército tomou essa função para si. É o que vemos na história nos sucessivos episódios de intervenções militares na política brasileira. A chegada de Vargas ao poder em 1930, a fundação do Estado Novo em 1937, a deposição de Vargas em 1945 e o golpe de 1964 seguido do regime que se estendeu até 1985 foram todos frutos de ações militares. Além da provocação do suicídio de um presidente, Vargas, e da renúncia de outro, Jânio. Nas sombras, o exército age como um quarto poder. Atribuem a si a missão de moderadores supra-institucionais do poder, E, agora, após um período conturbado politicamente, com afastamento e prisão de presidente e ex-presidente, o exército está de volta. Agora operando institucionalmente, porém, com a mesma astúcia que agia século passado. Voltaram ao poder escondidos no nacionalista iludido que hoje é chamado de presidente. O que vocês precisam enxergar primeiramente é isso: O exército já está no poder, com suas hierarquias bem estruturadas. E está cada vez mais penetrando. Aqui mora o perigo.

Uma vítima inesperada foi o guru da Virgínia. Olavo de Carvalho se afastou ideologicamente do governo por causa da resistência do exército, que o isolou. Vejam só. Seus alunos ministros mostravam-se favoráveis a coisas como intervenções na Venezuela e à transferência da embaixada de Israel para Jerusalém. O exército se opôs e hoje estamos vendo sua intriga com os olavistas. E eles ganharam. Conseguiram manter o Olavo distante. Não só isso como ganharam super-poderes dentro do executivo, na pessoa do general Santa Cruz, o ministro da Secretaria do Governo. Uma vez que o decreto 9794 assinado por Bolsonaro concede uma concentração absurda de poderes nas mãos do general, que agora pode vetar nomeações para agências reguladoras, autarquias, dirigentes, reitores de universidade federais, embaixadores. Pode vetar até mesmo nomeação para diretor e presidente do Banco Central. Ou seja, a nomeação de cargos importantíssimos dependem agora do exército. É um poder similar ao que o exército tinha em qualquer regime militar implantado no Brasil, só que agora conquistado por vias legais. Golpe sem golpe. Motivo de preocupação.

Diante de tudo isso temos ainda a carta compartilhada pelo Bolsonaro no What’sApp, falando de país ingovernável e de uma possível queda do presidente. Insinuação de uma possível renúncia? É possível. Tão possível quanto uma queda por outros meios. Afinal, a mídia está expondo que a família Bolsonaro não é honesta como afirmava ser. Estão ficando cada vez mais evidentes os esquemas de desvio de verba pública por meio de funcionários fantasmas, de lavagem de dinheiro através da venda casas e a possível associação com milicianos. Uma queda do Bolsonaro é possível. E seria isso o que faltaria para o exército tomar o executivo de vez, com o Mourão na linha sucessória. Estamos diante de um momento grave para o País. De um lado há um presidente desastrado e do outro um progressivo emparelhamento do exército. Uma malha fina. O meio político é inviável para dar conta do país. Como combater essas forças?

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