Tradução de: Cínthia Xavier e Daniel Albuquerque

Texto original aqui

Esse é o primeiro de dois textos publicados originalmente no Medium pela usuária DEO. Todo o conteúdo a ser publicado é creditado a ela, a não ser os enxertos que foram introduzidos em itálico para melhor contextualização da realidade na bolha gamer e nerd brasileira. A tradução é creditada a mim, com revisão de Nelson.

O texto traz bastante informação, portanto é um debate da contemporaneidade ainda em aberto, onde múltiplas chaves ainda estão em uso para tentar compreender esse tipo de fenômeno que ocorre frequentemente nas bolhas gamers e nerd online mundialmente. Na tradução, tento pincelar algumas chaves de entendimento que a autora utiliza quando faz sua análise das comunidades online estrangeiras, provavelmente americanas e européias, para talvez ser de maior compreensão de como tal coisa semelhante acontece na comunidade brasileira, mesmo que com suas devidas variações.

“Por que ninguém quer ser meu amigo?” Amumu, personagem de League of Legends, representando o modus operandi do neonazismo na cultura de internet. Artwork by Kariri.

As comunidades onlines, e principalmente as comunidades nerds online, são um prato cheio para o neonazismo. É onde, literalmente, esses grupos recrutam pessoas. O modus operandi desses grupos se alastra como uma ferida e para prevenir que a sociedade e as subculturas gangrenem conhecer os sinais de alerta, identificá-los cedo e impedir essa disseminação é fundamental. Supremacistas brancos possuem estratégias para vender suas crenças a pessoas desavisadas. Vou discutir algumas estratégias aqui e como essas táticas são especialmente atraentes para os espaços nerds da internet.

Eu caí nesse site simplesmente pesquisando no Google “anime girl base” para desenhar.

Jovens isolados, solitários, inseguros, insatisfeitos e amargurados que sentem que a sociedade em geral os abandonou e que os nega oportunidades são os alvos primários. Os “recrutadores” aproximam-se desses jovens com personalidades instáveis e dizem-lhes que são especiais e que possuem um destino maior. Eles são informados de que todo homem branco carrega esse legado de “superioridade” porque todo homem branco “tem a linhagem de avanços e conquistas de todos os homens brancos ao longo da história”. Que todo homem branco é imbuído por seus antepassados com um grandioso destino para defender a “raça” branca. Assim, o NEET solitário não precisa conseguir nada para conquistar essa posição social natural de poder e supremacia, o feito pelo qual o recrutador o elogia é o de simplesmente fazer parte do grupo social de brancos, do grupo “dominante”.

No Brasil, há variações na disseminação dessa “ideologia branca” pela internet através de fórums alt-right ou de milícias virtuais, mas os reclames desses grupos são quase sempre em torno da figura do “homem conservador”, do “cidadão médio”, ou do “homem branco de classe média” que falhou por x fatores ou não é devidamente reconhecido pela sociedade. Reconhecendo que pode haver, entre essas pessoas, pessoas não-brancas também. Logo, a comparação da realidade das comunidades online americanas com a realidade das comunidades onlines brasileiras pode indicar pequenas ressalvas de como esse modus operandi opera na consciência dos jovens brasileiros, mesmo que a ideologia a ser propagada na maioria das vezes seja sim, de superioridade racial branca. Mesmo que seja de forma subjetiva, nos trazendo a visão de um “homem branco” implícito.

Essas táticas transformam jovens nerds humilhados em orgulhosos guerreiros brancos, tornando-os ferramentas úteis para a promoção e o crescimento da ideologia e agenda da supremacia branca. Os grupos neonazistas sabem que usar a insegurança e a solidão de seus alvos é uma tática eficaz de recrutamento e radicalização, especialmente quando adaptada ao grande público de nerds da internet socialmente desajeitados.

Outra estratégia importante no recrutamento são a criação de comunidades online que recebem “calorosamente” novos membros. Uma vez atraído para tal grupo, o recruta recebe uma onda de apoio, validação e aumento de estima. Os novos membros são informados de que pertencem àquele grupo, de que até podem não se encaixarem em panelinhas sociais da vida real, mas que eles se encaixam nesse grupo e que os outros membros se “importam” com eles. Serão investidas horas na preparação do novo recruta, fazendo amizade e trocando informações. Chats online e fórums são atraentes para aqueles que estão entediados e isolados e só querem algum contato humano, mas têm dificuldade em consegui-lo em outro lugar devido ao constrangimento social.

Moderador de um chan estrangeiro avisando aos usuários do fórum sobre qualquer infração por conteúdo violento.

Grupos da alt-right oferecem um senso de comunidade e pertencimento e lentamente cultivam no recrutamento um senso de lealdade para com o grupo por aqueles que estão sendo iniciados. Para aqueles desesperados por amizade ou para se sentirem incluídos, esta é uma atração incrivelmente potente. Esses grupos também podem ter táticas mais sombrias, com líderes dizendo aos seus membros que não podem sair ou contatar pessoas de fora do grupo. Muitas razões são dadas, mas mais comumente esta incapacidade de sair é colocada como uma resguarda ao “bicho-papão” que há lá fora, como os “SJWs” (ou qualquer outro elemento elencado para ser o problema fundante na vida do frustrado), que acabará por eliminá-los, intimidá-los, condená-los ao ostracismo ou atacá-los. Deixar o grupo é tido para os membros como arruinação da única chance de “lulz”, verdadeira amizade e inclusão. Os membros são informados de que devem permanecer no grupo porque ali é o único lugar seguro para se expressar livremente, que suas opiniões são radicais demais para serem aceitas em outro lugar, ou que sua ‘verdade’ será brutalmente reprimida por estranhos, e dentro do grupo existem as únicas pessoas que irão aceitá-los.

O mundo exterior é identificado como um poder nebuloso ameaçador que só é impedido de prejudicar o membro pela proteção do grupo. Tudo isso forja o medo e a amizade juntos em correntes que prendem as pessoas em espaços de supremacia branca tóxica.

“JQ” é um termo da subcultura neonazi que significa “Questão Judaica”, usado para produzir conspirações sobre o genocídio judeu e assuntos correlatos.

Geralmente esses grupos oferecem respostas simples e atraentes que normalmente permitem que o recruta evite uma compreensão complexa do conjunto de múltiplas forças que operam realidade social e, ao invés disso, acabe por responsabilizar forças inexistentes ou grupos ideologicamente escolhidos para serem seus “inimigos” como causadores de todos os seus fracassos pessoais.

Contudo, não é como se o sistema econômico e social atual não tivesse responsabilidade pela criação dos NEETs e pela interconexão ideológica sendo operada dentro de algumas comunidades gamer e nerd online para aproximá-los da alt-right. Isso não será desenvolvido aqui, mas deixo esse comentário para distingui-lo da análise original.

Sua falta de amizades está nas escolas públicas doutrinando crianças com mentiras liberais, sua falta de uma parceira romântica é culpa do feminismo, sua falta de diploma universitário é devido a leis de igualdade de oportunidades e ação afirmativa, sua falta de emprego é culpa de elites globalistas, sua falta de realização em sua vida é devido à anti-brancura da sociedade, sua infelicidade é culpa de outros empurrando a ‘culpa branca’ sobre ele. A mensagem para novos recrutas será adaptada exatamente ao que eles desejam ouvir, e ao que afeta pessoalmente cada um deles. Utilizando peças para construir lentamente na visão de seus pupilos uma macrovisão onde “toda a culpa” é dos judeus, muçulmanos, pessoas negras, LGBTQ+, comunistas, imigrantes (internos ou externos), etc.

Fórum alt-right brasileiro “desativado” até então devido as investigações recentes a respeito do massacre na escola de Suzano.

Essa tática visa desumanizar os “inimigos” primeiro, para que o recruta não tenha empatia com as pessoas que o grupo de supremacia branca alveja. Afinal, a liberação da frustração pela realidade não ser como você deseja se dá pelo “lulz”. Se alguém está tentando fazer com que você acredite que certos grupos de pessoas são inatamente melhores ou piores do que outros, é importante que reconheçamos isso como o alerta que é, e percebamos isso logo como uma tática desumanizadora. Desumanizar um grupo designado como inimigo é a primeira parte necessária. Uma vez que o recruta acredita que determinados grupos de pessoas são de alguma forma menor ou inferior a eles, fica mais fácil racionalizar possíveis ações violentas contra eles. Táticas comuns que esses grupos de supremacia branca usam para convencer os outros de suas crenças são estatísticas escolhidas a dedo, mitos pseudo-científicos já desmascarados, memes racistas, piadas e mentiras diretas sobre certos grupos de pessoas.

Um exemplo de opiniões pseudo-científicas sendo discutidas em comunidades online.

Os supremacistas brancos freqüentemente retratam a pseudo-ciência como um fato absoluto em uma aposta pela legitimidade em impulsionar suas idéias e agendas. O QI é uma pseudociência a que os supremacistas brancos se apegaram por décadas e está ressurgindo em memes comumente compartilhados. Os “fatos” dessa pseudociência de QI que a maioria desses memes e vídeos do youtube citam são de um livro em particular, The Bell Curve: Intelligence and Class Structure in American Life, de Richard J. Herrnstein e Charles Murray, que coletou grande parte da falsa ciência sobre determinismo biológico e preconceito racista e compilou-a em um texto. O livro, na época de sua publicação, foi elogiado como científico e imparcial. O editor da New Republic, Andrew Sullivan, defendeu a dedicação de uma edição inteira da revista à promoção do livro dizendo que “a noção de que pode haver diferenças étnicas resilientes na inteligência não é, acreditamos, uma crença inerentemente racista.”¹ Outros críticos da época também promoveram o livro como sendo bem solidificado científicamente. No entanto, desde então, a pesquisa e os dados foram desmascarados. Adolph Reed descreveu The Bell Curve assim: “O que realmente impulsiona este livro e reflete o diabolismo da combinação de Murray / Herrnstein é a sua reivindicação em demonstrar a suposta inferioridade intelectual negra. Eles usam a pseudo-justificativa do Q.I. para abater dois objetivos em uma única argumentação: para fazerem oposição às ações afirmativas, substituindo os “negros incompetentes”, e para alegarem de que a pobreza na população negra deriva da existência de uma subclasse negra inatamente inferior. (…) The Bell Curve está embutida no aparato intelectual da direita criptofascista.”²

As alegações de The Bell Curve já haviam sido completamente desmascaradas mais de uma década antes pelo clássico trabalho de Steven Jay Gould sobre a pseudo-ciência por trás da eugenia, The Mismeasure of Man. Mas a fascinação pública de 1994 com The Bell Curve e sua ciência de lixo permanecem, especialmente em círculos supramacistas brancos, onde fragmentos continuam a ser alavancados como fatos para persuardir pessoas. Os dados de pesquisa que Murray e Herrnstein utilizaram para suas afirmações centrais sobre a conexão entre raça e inteligência foram financiados pela Pioneer Fund, descrita pelo London Sunday Telegraph como uma “organização neonazista intimamente integrada com a extrema direita na política americana.”³ A missão da Pioneer Fund é promover a eugenia, uma filosofia que sustenta que indivíduos ou “raças” geneticamente inadequadas são uma ameaça para a sociedade. A pesquisa citada que foi usada no livro é tão questionável quanto seu financiamento. Richard Lynn, fonte de muitos livros sobre QI asiáticos, é descrito por Murray e Herrnstein como “um importante estudioso de diferenças raciais e étnicas.”⁴ Lynn afirmou: “O que se pede aqui não é genocídio, o assassinato da população de culturas incompetentes. Mas precisamos pensar de forma realista em termos da “eliminação gradual” desses povos. Progresso evolutivo significa a extinção dos menos competentes. Pensar de outra forma é mero sentimentalismo.”⁵ Que é uma promoção velada da limpeza étnica. Se houver alguma dúvida, Lynn deixa claro quais “culturas incompetentes” precisam de uma “eliminação gradual” quando ele em 1994 esclareceu em uma entrevista “Quem pode duvidar que os caucasóides e os mongolóides são as duas únicas raças que fizeram contribuições significativas para a civilização?”⁶

Murray e Herrnstein também confiaram pesadamente na pesquisa de J. Philippe Rushton, que é novamente financiada pela mesma Pioneer Fund. O trabalho de Rushton continuou a pseudo-ciência vitoriana da medição craniana como medida de inteligência, mas as medidas de inteligência de Rushton não se limitaram a medir crânios, mas também o tamanho dos seios, nádegas e genitais foram utilizados como medidas da inteligência. Rushton já disse à Rolling Stone que “isso é um conflito de escolhas: mais cérebro ou mais pênis. Você não pode ter tudo.”⁶ Deixando os desvios sexuais de lado, em um artigo de 1986, Rushton alegou que a máquina de guerra nazista devia seu sucesso e força à pureza racial, e afirmou que as mudanças demográficas foram colocando em risco “a nossa civilização ocidental do Norte da Europa”. Rushton é co-autor de outro artigo que argumenta que os negros têm uma propensão genética para contrair a AIDS por causa de sua “estratégia reprodutiva” de sexo promíscuo, um pseudo-argumento científico já desacreditado de que diferentes “raças” usam diferentes estratégias reprodutivas como K e R.⁷ Rushton também foi removido de espaços públicos, como shoppings em várias ocasiões, por gritar com as pessoas sobre o tamanho de seus pênises e por pedir para saber a distância que eles poderiam ejacular, tanto que sua universidade teve que repreendê-lo pelo comportamento contínuo. O ponto é que os dados sobre os quais se baseiam The Bell Curve e outras pseudociências de QI racial têm enormes lacunas de credibilidade.

Grupos neonazistas costumam usar estatísticas para representar uma postura política legítima. Essas estatísticas são, na maioria das vezes, fabricações completas. A imagem acima foi fortemente citada pela propaganda de direita, até mesmo pelo atual presidente, e pode ser rastreada até o outro tweet acima postado por uma conta que o avatar (a que se parece com uma suástica modificada) é na verdade o símbolo do movimento de fé neo-nazista alemã (neo-Nazi German Faith Movement).⁷ De estatísticas de crime que são flagrantemente falsas à fonte citada do “Crime Statistics Bureau”, algo que nem sequer existe ⁹, estatísticas como esta são feitas e compartilhadas on-line o tempo todo para reforçar um falso senso de legitimidade científica para o que é apenas racismo irracional. Essas mentiras devem ser vistas pelo que são e denunciadas, alt-righters fingem que informações falsificadas podem dar-lhes autoridade e legitimidade científica e isso é perigoso porque, para os desinformados, tais mentiras podem ser consideradas verdadeiras e abrirem as portas para uma maior radicalização pelo recrutador ou pela retórica neonazista. São pessoas que os neonazistas buscam por serem “inteligentes”, “informadas”, “racionais” e “científicas” e que acabam mais do que felizes em fabricar falsidades para alimentar esses anseios por aprovação.

Somos uma espécie que possui uma facilidade imagética-visual, as imagens nos chamam a atenção muito mais do que um texto, e ideias simples por imagem se espalham muito mais rápido e de forma muito mais ampla do que as ideias escritas que levam mais tempo para digerir e ler. Os memes são usados por grupos de supremacia branca como materiais de propaganda, criados para disseminação viral e normalização do nacionalismo branco. Para muitos dos que fazem partes de grupos de supremacia branca, os memes são até citados durante o debate, como se fossem artigos de pesquisas. Semelhante a imagens com texto e memes, vídeos do youtube e canais que promovem fatos alternativos também surgiram. Esses vídeos, geralmente sem recursos ou mal-fornecidos, são considerados educativos. Esta não é uma nova tática, é semelhante as fitas VHS como a “Waco: The Big Lie” surgidas em 1993, que promoveram a ideia de conspiração de que as forças de segurança assassinaram o Ramo Davidiano e junto com o acontecimento de Ruby Ridge isso se tornou uma prova para a Nação Ariana de que o Governo estava alvejando os brancos. Essas fitas costumavam ser passadas, espalhadas e enviadas por correio entre as comunidades neonazistas. O Youtube, o Reddit, o Facebook, o Daily Stormer e o Twitter em parte abrigam um ressurgimento moderno desses vídeos e artigos neonazistas. As versões modernas são mais rápidas e mais perigosas do que as antigas fitas trocadas por correspondência que elas substituíram devido à acessibilidade e a facilidade de criação de conteúdo, onde o público-alvo de crianças-adolescentes ou homens jovens profundamente isolados e emocionalmente inseguros são frequentemente os mais vulneráveis a essas táticas e mentiras de manipulação, especialmente quando esses vídeos de propaganda vêm embalados com outras coisas atraentes como videogames e animes. Os especialistas do YouTube vão entreter e alimentar seus espectadores exatamente com o que eles querem ouvir. Especialmente entre os jovens, o Youtube é frequentemente visto como uma fonte primária de notícias.¹⁰ O público e os fãs confiam e defendem suas personalidades favoritas do YouTube e os vídeos feitos são vistos como fontes de notícias alternativas para os eventos atuais. Muitos vídeos são citados como reveladores da verdade que foi suprimida e que estará disponível apenas para seus seguidores inteligentes, com canais permanecendo como referência de informação e desinformação. Os vídeos são rápidos de assistir, fáceis de compartilhar e espalhar, e exigem pouco esforço por parte da pessoa que os usa como material educacional. Um vídeo do Youtube de três minutos sobre Hitler amando animais é muito mais acessível aos jovens do que livros históricos precisos que podem parecer longos, chatos e tediosos.

No grupo que eu observei, os novos membros eram forçados a assistir a uma lista de vídeos do YouTube carregados de racismo e conspiração que os líderes mais antigos haviam escolhido para o seu “red pilling”, sua “abertura” de visão de mundo. Para quem não está familiarizado com o termo “red pilling”, nesses grupos funciona como um termo para doutrinação, programando um novo membro a acreditar que o que o grupo promove é a única verdade real e iluminada e que essas verdades foram mantidas ocultas por forças do mal que controlam a sociedade. O termo foi tornado comum por um grupo misoginista de mesmo nome no Reddit e com a interconexão online de outros grupos misóginos freqüentemente chamados de “manosfera”. The Red Pill afirma que os homens são os únicos verdadeiramente oprimidos, que todos os relacionamentos são puramente vazios e objetificantes, que as mulheres são incapazes de amar, e que os homens são superiores e devem dominar para então devolver a sociedade a uma hierarquia patriarcal dominante onde as mulheres são cidadãos de segunda classe de propriedade de seus pais e maridos. As comunidades on-line de supremacistas brancos e as comunidades na manosfera há muito se fundiram e emprestaram conteúdo umas das outras. Breitbart, agora visto como a mídia-padrão para a alt-right, em seus primeiros dias foi fortemente escrita para e pelos blogueiros da manosfera Red Pill. Esses grupos de ódio on-line convergiram, fundiram-se e promoveram a propaganda uns dos outros.

Piadas são poderosas. As pessoas são muito mais propensas a participar ativamente das comunidades quando a interação do grupo é divertida e humorística. Tais grupos usam o humor como um revestimento para espalhar idéias e semear as sementes de sua ideologia. Eles estão bem cientes de que suas mensagens serão espalhadas e compartilhadas em intervalos muito maiores quando elaboradas de forma apelativa como piadas. Eles sabem que as piadas serão divulgadas organicamente através de grupos de amigos, facilitando muito o trabalho do grupo alt-right atingir maiores audiências. Mascarar a ideologia com humor também permite uma conveniente negação para quando o recrutador for “longe demais” muito cedo, se tornando fácil recuar com “é apenas uma piada” e, mais tarde, quando o guarda do alvo abaixar, retornar a doutrinação. Humor e entretenimentos são silenciosamente armas poderosas desses modismos para alcançar audiências maiores e para segurar a atenção e energia dos atuais membros.

Um post que descreve alguns fundamentos desse crypto-fascismo depois que Heather Heyer foi assassinada em Charlottesville por um nacionalista-identitarista branco.

Esses grupos geralmente têm uma face pública mais acessível e atraente onde pronunciam sua ideologia publicamente através de terminologias crypto-fascistas e mensagens fortemente políticas destinadas a cobrir um certo público em geral, mas que para certos subgrupos contidos essas mensagens subliminares ressonam de forma mais compreensível e radicalizadora (as chamadas dog-whistle politics, apito canino ou para cão em português, por conta de seu efeito supersônico que torna o som audível para cães e não para humanos). Grupos neo-nazistas em espaços online bastante acessíveis utilizam-se de outros termos tímidos para contornar o muito desprezado termo nazista. Muitas vezes eles se chamam de outros termos, porque pouquíssimas pessoas no público se juntariam voluntariamente a um grupo nazista. O grupo se mascara com um conjunto de palavras diferentes enquanto promove a mesma agenda neo-nazista em particular. Freqüentemente, as palavras escolhidas para o mascaramento pretendem invocar coisas que são atraentes para o público, como ciência ou liberdade, mas muitas são apenas formas de evitar a palavra nazista. Alguns termos frequentemente utilizados: nacionalismo branco, supremacia branca, etnoestatismo supremacista, realismo racial, crentes na ciência racial, identitários, isolacionistas raciais, alt-right, ativistas pelo direito dos brancos, fascistas, neofascistas, nacionais-socialistas, segregacionistas, tradicionalistas, nacionalistas, nacionalismo supremacista étnico, nacionalismo demográfico, defensores da biodiversidade humana, preservacionista demográfico, chauvinista ocidental, neoreacionários, nativistas, isolacionistas, América primeiro, anti-multiculturalismo, anti-globalistas, anti-miscigenação, etc.

Um típico meme falando sobre “preservar a biodiversidade humana” através de um repaginamento colorido do apartheid. Também é uma tentativa de utilizar o arcoíris comumente associado a luta LGBTQ+ para confundir parte da militancia LGBTQ+.

Lee Atwater, gerente de campanha de Ronald Reagan, disse certa vez: “Você começa em 1954 podendo dizer “nigger”, “nigger”, “nigger”. Já em 1968, você não pode mais dizer “nigger”— isso te machuca, é errado. Então você começa a dizer coisas como integração racial nas escolas, afirma os direitos e todas essas coisas. E as coisas vão ficando tão abstratas que você começa a falar em cortar impostos, e todas essas coisas sobre as quais você está falando são totalmente econômicas e o subproduto delas é que os negros são mais explorados do que os brancos. E subconscientemente talvez isso seja parte disso.”¹¹ Esse cripto-fascismo é semelhante no sentido de repaginar a antiga ideologia racista sob novos termos mais palatáveis, a fim de persuadir e empurrar o público em geral para os objetivos finais. Breitbart realizou um artigo introduzindo os republicanos a nova alt-right on-line. Nele havia alguns bons exemplos de distorções duplas do criptofascismo.

Um criptofascista argumentará esses pontos comuns de má fé para promover sua ideologia final, afirmando que seu grupo não é racista, mas apenas defendem que:¹²

“Uma preferência pela homogeneidade sobre a diversidade, pela estabilidade sobre a mudança e pela hierarquia e ordem sobre o igualitarismo radical, com sua principal preocupação sendo a preservação de sua própria tribo e sua cultura”.

“Em sua maioria brancos, homens brancos de meia idade radicalizados, que estão adotando, sem remorso, uma nova política de identidade que prioriza os interesses de seu próprio grupo demográfico”.

“Assustados com a perspectiva de deslocamento demográfico representado pela imigração”.

“O igualitarismo cospe na cara de cada pesquisa sobre inteligência hereditária… pedir às pessoas que se vissem como seres humanos, em vez de membros de um grupo demográfico, ignora todas as pesquisas sobre psicologia tribal.”

“Um grupo de blogueiros que entraram ansiosamente no campo minado das diferenças científicas raciais, ajudaram a popularizar o ‘movimento pela biodiversidade humana’”.

Essas são alegações criptofascistas comuns, que tentam normalizar e promover o racismo, a segregação ou a limpeza étnica como sendo naturais ou científicas e benéficas para a sociedade em geral.

O recrutador neonazista alimenta seus recrutas sob este mito que fortalece o recruta como um importante herói antisocietal em uma valente luta pela construção de um novo futuro do mundo onde sua “raça” domine. A utilização de uma linguagem grandiosa e hipérbolica construida durante o recrutamento é importante e necessária. A narrativa fornecida é muito egocêntrica (quase narcisista), colocando o crente em um papel heróico central, sendo os membros do grupo de supremacia branca os nobres poucos que detêm esta profunda revelação pessoal da verdadeira verdade oculta e que estão lutando contra poderosos inimigos do mal que controlam sociedade, lutando em nome das massas ignorantes que devem ser convertidas à causa justa. É como viver toda a vida em uma fanfiction auto-alimentada. Ela preenche os desejos de importância, de valor, de propósito, para ser importante e poderoso, eles podem viver suas vidas em um faz-de-conta como um herói protagonista em um épico de fantasia.

A narrativa compartilhada do mundo como sendo um jogo de sobrevivência entre inatamente fortes e fracos pode ser especialmente atraente para pessoas acostumadas com a moralidade binária de muitos jogos de vídeo (que também, é verdade, podem posssuir um plano de fundo ideológico), onde a função lógica executada primordial é a de eliminar os inimigos do mal ao lado do bem. Os membros se vêem como valentes soldados em uma guerra em andamento, que muitos neonazistas chamam de RaHoWa, que é a abreviação de Guerra Racial Sagrada. Esta guerra conduz a eles um novo objetivo de fazer parte de uma luta maior do que eles próprios. A idéia do branco como uma virtude a ser defendida está longe de ser nova. Em 1929, Wilbur Joseph Cash em seu artigo A Mente do Sul escreveu “[Os brancos] devem proteger o direito de seus filhos na linha legítima, através de todas as gerações futuras, para nascerem da grande herança da raça branca.”¹³ Para membros que antes eram isolados, deprimidos ou que se sentiam impotentes e insatisfeitos, esse novo senso de propósito e convicção é viciante. Eles se sentem empoderados pelo direitismo de suas ações em relação àqueles que se sentem inimigos do movimento neonazista. Os membros racionalizam que esses inimigos, pessoas que o grupo alveja, merecem tal tratamento. Ataques a inimigos designados são impelidos por líderes como extremamente necessários, que neste momento o destino da sociedade ou o futuro da “raça” branca depende das ações do grupo de supremacia branca. Que se o recruta não se juntar e promover ativamente as idéias do grupo a civilização estará condenada. Este mito é fundamental para a ideia perpetuada de “genocídio branco”. O genocídio branco é a ideia neo-nazi de que a imigração e o casamento entre as “raças” acabará por conduzir, no futuro, a que todas as crianças tenham nascido mestiças e acabem assim com a existência da “raça” branca. Há um medo enorme em torno disso, visto que é o verdadeiro horror que deve ser combatido. O juramento de muitos neonazis são as Quatorze Palavras: “Precisamos garantir a existência de nosso povo e um futuro para as crianças brancas”. A idéia do genocídio branco é uma pedra fundamental na racionalização da violência e da eugenia genocida que elimina outros povos. Roger Pearson, outro nacionalista branco que recebe dinheiro da Pioneer Fund, disse ele mesmo: “Se uma nação com um conjunto de genes mais avançado, mais especializado ou de alguma forma superior se misturar com uma tribo inferior, em vez de exterminar, suicídio.”¹⁴ A ideia das pessoas se casarem com quem elas querem e serem livres para se misturarem entre classe e “raça” aterroriza a supremacia branca e, a partir desse medo, elas se sentem justificadas pela violência e assassinato.


O que devemos então fazer sobre isso?

Espero que agora você saiba um pouco mais sobre o que procurar em como identificar essas táticas e um pouco sobre por que a supremacia branca neofascista atrai algumas pessoas. Espero que você não caia nos truques de retórica e armadilhas de recrutamento. Com isso, nós devemos cuidar um dos outros. Se alguém que você conhece começa a adotar esse tipo de ideologia, é importante que ela seja confrontada. Pergunte à pessoa que você conhece por que ela se sente assim, pergunte se ela se sente sozinha ou impotente, pergunte se ela precisa de um amigo, discuta por que desumanizar os outros está errado e se esforce para facilitar a empatia. Parte de salvar nossos amigos e conhecidos que se sentem isolados ou tristes ou irritados de serem assediados por grupos de ódio é o nosso apoio, ao mesmo tempo que condenamos claramente esse tipo de ideologia ou crenças odiosas.


Sobre o autor:

Deo é sindicalista mecânico industrial e membro há 12 anos do Furry Fandom que passou 6 meses se infiltrando em vários grupos alt-right e neonazi online para observar e coletar dados de como se recrutam, se organizam e operam.

Deo pode ser encontrado no Twitter: @DeoTasDevil


Citações:

1. Andrew Sullivan, The New Republic’s Editorial Page. The New Republic, October 31, 1994.

2. Adolph Reed Jr., “Review of The Bell Curve, by Charles Murray and Richard J. Herrnstein.” The Nation, November 28, 1994. https://www.thenation.com/article/looking-backward-2/

3. B. MacIntyre, “The New Eugenics”. London Sunday Telegraph, March 12, 1989. Cited in E.M., Kramer, “The emerging monoculture: assimilation and the “model minority”, 2003. City: Praeger. pp. 118, 302. ISBN0–275–97312–3.

4. “Charles Murray.” Southern Poverty Law Center. https://www.splcenter.org/fighting-hate/extremist-files/individual/charles-murray

5. Richard Lynn, “Review: A New Morality from Science: Beyondism.” by R.B. Cattell. Pergamon Press, New York, 1972. Pages xvii and 482. Irish Journal of Psychology 2 #3 (Winter 1974).

6. Jeffrey Rosen and Charles Lane, “Neo-Nazis!” The New Republic, October 31, 1994.

7. Charles Johnson, “We Found Where Donald Trump’s “Black Crimes” Graphic Came From.” Little Green Footballs, November 22, 2015. http://littlegreenfootballs.com/article/45291_We_Found_Where_Donald_Trumps_Black_Crimes_Graphic_Came_From

8. “2014 Crime in the United States Expanded Homicide Data Table 6.” Criminal Justice Information Services Division of the Federal Bureau of Investigations. https://www.fbi.gov/about-us/cjis/ucr/crime-in-the-u.s/2014/crime-in-the-u.s.-2014/tables/expanded-homicide-data/expanded_homicide_data_table_6_murder_race_and_sex_of_vicitm_by_race_and_sex_of_offender_2014.xls

9. Jon Greenberg, “Trump’s Pants on Fire tweet that blacks killed 81% of white homicide victims.” Politifact, November 23rd, 2015 http://www.politifact.com/truth-o-meter/statements/2015/nov/23/donald-trump/trump-tweet-blacks-white-homicide-victims/

10. Jeffery Gottfried and Elisa Shearer, “News Use Across Social Media Platforms 2016.” Pew Research Center. http://www.journalism.org/2016/05/26/news-use-across-social-media-platforms-2016/

11. Rick Perlstein, “Lee Atwater’s Infamous 1981 Interview on the Southern Strategy.” The Nation, November 13, 2012. https://www.thenation.com/article/exclusive-lee-atwaters-infamous-1981-interview-southern-strategy/

12. Milo Yiannopoulos and Allum Bokhari, “An Establishment Conservative’s Guide To The Alt-Right.” Breitbart, March 29, 2016. http://www.breitbart.com/tech/2016/03/29/an-establishment-conservatives-guide-to-the-alt-right/

13. Wilber Joseph Cash, The Mind of the South (New York: Knopf, 1941), 116.

14. Southern Poverty Law Center, “Roger Pearson.” https://www.splcenter.org/fighting-hate/extremist-files/individual/roger-pearson

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8 comentários »

  1. Tinha que ter caçado em furry fandom, degeneração e lixo do mundo moderno, mesmo… Quanta imbecilidade escrita uma acima da outra, bateu recordes. A indústria de jogos não tem nada relacionado à direita ou apologia ao nazi-fascismo, vocês que problematizam tudo. Aqui tem um trabalhador sindicalizado também, que não concorda com PORRA nenhuma disso que está sendo difundido aqui. A CULTURA GAMER É UMA CULTURA INDEPENDENTE DE VIÉS POLÍTICO E RELIGIOSO, talvez se você falasse da indústria de Hollywood e os intermináveis casos de pedofilia que lá existe, de abuso e exploração sexual, mas né, tem que falar de 4chan e dos infelizes com suas vidas sem sentido que lá costumam buscar.

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  2. Sim, eu já pude observar algumas dessas táticas mascaradas de racismo, recentemente conheci uma página no facebook de um moderador ou, moderadores negros, que defendem a não mistura de raças, dizendo que negro deve acasalar com negras e não com brancas. É mais raro de existir, as existem também afrodescendentes que não querem se misturar com outras raças, seja por serem uma resposta ao racismo que sofrem ou por serem em si próprios, simples racistas. Eu acho até que a mistura de raça é benéfica pra humanidade, pois isso vai ajudar a eliminar o preconceito. Eu só acredito que a única raça que exista é a humana e é patética a ideia de não miscigenação, pois isso tornaria proibido o amor entre um homem de pele clara com uma mulher de pele escura e criaria não só a separação de afrodescendentes num canto vivendo separados dos desbotados do outro lado, mas alimentaria mais ainda a rivalidade e preconceito. E tudo isso para quê? o que tem de importante manter a cor da pele? São um bando de gente oca, sem valor espiritual algum, até mesmo, sem intelectualidade e sabedoria.

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