Análise da obra – Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo (1920)” de Vladimir Ilitch Lênin – e o seu uso errado através dos oportunistas.

Texto original em: Rompendo com Ideias Anticomunistas

1- Introdução
2- O aventureirismo dos socialistas revolucionários
3- A posição de Lênin quanto ao boicote eleitoral e as traições travestidas de “estratégias”.
4- A estratégia de Lênin em nada se assemelha aos oportunistas
5- Boicote Eleitoral: De questão tática para um principio

1- Introdução

“Esquerdismo: Doença infantil do comunismo” pode não estar entre as principais obras de Lênin, mas é de um valor importantíssimo para a estratégia revolucionária. Nessa obra Lênin crítica diferentes tipos de esquerdistas, dos aventureiristas pequeno-burgueses até os seus camaradas bolcheviques.

Essa obra merece ser lida e analisada minunciosamente, pois, mais do que nunca, ela vem sendo invocada como um mantra pelos oportunistas, de forma desconexa e caricata, tergiversando os valorosos ensinamentos de Lênin e acobertando o mais vil cretinismo parlamentar, o qual Lênin combateu indubitavelmente e sem tréguas.

Justificando as mais espúrias alianças com o que há de mais arquireacionário no parlamento burguês brasileiro, vemos essa obra sendo usada pela ala de “esquerda” do PT e principalmente por militantes do PCdoB e, em menor relevância, do PCR, não só contra os Marxistas-Leninistas-Maoistas mas também contra o PCB e PSTU e todos aqueles que ousarem criticar o conluio dessas siglas com latifundiários, banqueiros, empreiteiras etc assim como suas políticas antipovo e vende-pátria. Esses dois últimos citados, PCB e PSTU, por sua vez se juntam aos seus opositores, quando apontados seus desvios de direita, e erguem alto o livro Esquerdismo proferindo bravatas e atacando a linha revolucionária de boicote às eleições burguesas.

Aqui tratarei de evidenciar o pensamento de Lênin em sua essência: o que ele disse, o que disse com ressalvas, o que nunca disse e, inclusive, o que disse e discordamos. Não interessa aqui seguir Lênin em cada vírgula e ponto, não podemos confundir ortodoxia com dogmatismo.

Lênin logo no inicio dessa obra trata de explicitar que a Revolução Russa fundamentou aportes universais que devem ser seguidos por qualquer Partido que almeje alcançar o socialismo, mas que isso difere de táticas e estratégias que vão se criando apenas através da luta de classes e a experimentação e compreensão da vanguarda no decorrer dessa luta:

“Naturalmente, seria o maior dos erros exagerar o alcance dessa verdade, aplicando-a a outros aspectos da nossa revolução além de alguns dos fundamentais. (…) Mas, por outro lado, essas condições não podem surgir de repente. Vão se formando somente através de um trabalho prolongado, de uma dura experiência; sua formação é facilitada por uma acertada teoria revolucionária que, por sua vez, não é um dogma e só se forma de modo definitivo em estreita ligação com a experiência prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário.”

2- O aventureirismo dos socialistas revolucionários

O que é o esquerdismo antes de tudo? Podemos definir como posturas excessivamente radicais ou aparentemente extremas, porém inaptas à revolução. Desde terrorismo individual a posturas inconciliáveis e sectárias que causem o isolamento com as massas.

Muito diferente da postura generalizante dos oportunistas brasileiros, nessa obra Lênin critica diferentes formas do esquerdismo. Alguns são grandes camaradas que ele se refere como “excelentes revolucionários”, que nunca foram inimigos de fato. Lênin sempre colocou como primeiro inimigo, acima de tudo, os direitistas do oportunismo, os chefes de gabinete. Entretanto, havia uma linha esquerdista que Lênin travou incessantes debates na Rússia, aqui falamos dos socialistas-revolucionários.

Os socialistas revolucionários são descritos por Lênin como uma tendência pequena-burguesa que negava completamente o marxismo e flertava com o anarquismo. Eram aventureiristas, praticavam ações terroristas individuais, sem se preocupar em mobilizar as massas para essas ações em conjunto. Ao mesmo tempo em que riam dos oportunistas da II Internacional, aliavam-se com esses para atacar os bolcheviques em sua política agrária e de defesa da ditadura do proletariado.

Como toca perfeitamente Lênin, tal como o anarquismo, os socialistas-revolucionários seguiam uma ideologia pequeno-burguesa, furiosa contra o capitalismo, mas incapaz de compreendê-ló a fundo e construir uma organização sólida e de massas, passando a se atirar em ações de maneira fortuita.

Muitos oportunistas brasileiros qualificam os revolucionários com esse primeiro exemplo de esquerdismo, soltam aos ares “Bando de loucos querem revolução para amanhã!”. Desconhecem ou fingem não conhecer o intenso trabalho de base executado pelos companheiros, de forma constante e não só em período eleitoral. Hoje há uma série de organizações populares e democráticas pelo Brasil que seguem a linha maoista, uma imprensa independente que é referência nacional, trabalho com as massas do campo, movimento de mulheres, movimento estudantil, luta sindical etc, além da forte abnegação a disciplina muitas vezes tachadas de “moralismo” pelos degenerados revisionistas, logo tal comparação não padece.

O esquerdismo dos socialistas-revolucionários é o de pior tipo. É o radical de gritos, espetáculo, egoico, inconsequente, daqueles que falam em transformação, mas são incapazes de se transformar, de buscar a seriedade e disciplina, de buscar estreita ligação com as massas para direciona-lás rumo à revolução, acabam portanto sendo reacionários.

3- A posição de Lênin quanto ao boicote eleitoral e as traições travestidas de “estratégias”

Participar ou não do parlamento? Boicotar ou apoiar? Essas sempre foram questões táticas para Lênin. Em momento algum de sua obra ele vai defender incondicionalmente uma das opções, pelo contrário, ele trata de deixar claro o uso conforme a compreensão de dado momento. Sobre o boicote dos bolcheviques que Lênin definiu como justo ele completou:

“O boicote dos bolcheviques ao “parlamento” em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinação das formas de luta legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares.”

Mas em tempo destacou:

“(…) transportar cegamente, por simples imitação, sem espírito critico, essa experiência a outras condições, a outra situação, é o maior dos erros.”

Podemos, portanto, ter plena convicção da posição tática de Lênin sobre o parlamento, não sendo o boicote necessariamente “esquerdista”. Assim Lênin propunha usar do boicote e o parlamento, trabalho legal e ilegal, conforme servisse ao progresso do Partido. Se o boicote fosse um desvio esquerdista, poderíamos afirmar que a atuação limitada ao parlamentarismo é um desvio direitista e oportunista, e bem, o segundo caso de fato é verdade, quanto ao primeiro irei tratar no final do texto.

Alguns oportunistas, tal como os nossos, diziam que “se Lênin fez tal aliança com os alemães imperialistas tudo é válido”, logo estava liberado todo tipo de aliança espúria com a justificativa de está sendo “tático”, Lênin em seu livro ataca impiedosamente esses senhores:

“(…) os mencheviques e os social-revolucionários na Rússia, os partidários de Scheidemann (e, em grande parte, os kautskistas) na Alemanha, Otto Bauer e Friedrich Adler (sem falar dos Srs. Renner e outros) na Áustria, os Renaudel, Longuet & Cia. na França, os fabianos, os “independentes” e os “trabalhistas” na Inglaterra assumiram, com os bandidos de sua própria burguesia e, às vezes, da burguesia “aliada”, compromissos dirigidos contra o proletariado revolucionário de seu próprio país, esses senhores agiram como cúmplices dos bandidos. (…) O político que queira ser útil ao proletariado revolucionário deve saber distinguir os casos concretos de compromissos que são mesmo inadmissíveis, que são uma expressão de oportunismo e de traição, e dirigir contra esses compromissos concretos toda a força da critica, todo esforço de um desmascaramento implacável e de uma guerra sem quartel, não permitindo aos socialistas, com sua grande experiência de “manobristas”, e aos jesuítas parlamentares que se livrem da responsabilidade através de preleções sobre os compromissos em geral”. Os senhores “chefes” das trade-unions inglesas, assim como os da Sociedade Fabiana e os do Partido Trabalhista “Independente”, pretendem, exatamente desse modo, eximir-se da responsabilidade da traição que cometeram, por haver assumido semelhante compromisso que, na realidade, nada mais é que oportunismo, defecção e traição da pior, espécie. Há compromissos e compromissos.”

Por fim, Lênin fala que, apesar do acordo que fez com os alemães (para se livrar de uma guerra), a prática do Partido em diversas situações são a comprovação de que este sempre esteve ao lado da classe proletária e da revolução socialista. Aqueles que de forma deslavada tentam se equiparar a Lênin com suas práticas sujas de aliança com o imperialismo e o latifúndio, não só traem princípios como nunca fizeram nada pela classe trabalhadora.

4- A estratégia de Lênin em nada se assemelha aos oportunistas

O mesmo autor da celebre obra “O Estado e a Revolução”, que sempre travara incessantes confrontos contra os oportunistas da Social-Democracia encastelados no parlamento burguês, estaria se contradizendo e agora defendendo o uso do Parlamento? Para quem nunca leu a obra e vê víboras citando-a a todo instante pode parecer que sim, mas vejamos qual era a estratégia de Lênin para o parlamento e apoio aos partidos burgueses.

Lênin em momento algum de sua obra usa abstrações despolitizadas e antimaterialistas como “votar no menos pior”, “rouba mas faz” ou “votar em x para barrar o imperialismo”. Lênin ainda mantinha a mesma convicção do fracasso do parlamentarismo burguês e da necessidade de derrubá-lo. E, usando do materialismo histórico e dialético, compreendia que os sindicatos e partidos social-democratas representavam um marco histórico na luta operária, sendo que as primeiras formas de organização da luta trabalhista e socialista reuniam milhares de trabalhadores em seu entorno que acreditavam fielmente nas promessas do reformismo. Como esses partidos ainda estavam galgando espaços para chegar ao poder no parlamento das nações da Europa, havia a necessidade de lançar os partidos burgueses social-democratas e trabalhistas ao poder, para, depois, não seguir ao lado desses em defesa de suas políticas oportunistas, mas evidenciar suas limitações, seu caráter reacionário e ataca-lós devastadoramente.

Aos Comunistas de “esquerda” na Inglaterra Lênin disse-lhes: 

“Pelo contrário, do fato de a maioria dos operários da Inglaterra ainda seguir os Kerenski e os Scheidemann ingleses de não ter passado “ainda pela experiência de um governo formada por esses homens – experiência que foi necessária tanto na Rússia como na Alemanha para que os operários se passassem em massa para o comunismo deduz-se de modo infalível que os comunistas ingleses devem participar do parlamentarismo, devem ajudar a massa operária de dentro do parlamento a ver na prática os efeitos do governo dos Henderson e dos Snowden, devem ajudar os Henderson e Snowden a derrotarem a coalizão de Lloyd George e Churchill. Proceder de outro modo significa dificultar a marcha da revolução, pois se não se produz uma modificação nas opiniões da maioria da classe operária, a revolução torna-se impossível; (…) no caso de, Henderson e Snowden triunfarem sobre Lloyd George e Churchill, a maioria perderá a fé – em seus chefes e apoiará o comunismo (ou, em todo caso, adotará uma atitude de neutralidade e, em sua maioria, de neutralidade simpática em relação aos comunistas).”

O pensamento leninista é de fácil compreensão. Não adiantava os comunistas saberem que o parlamento e os Partidos burgueses eram reacionários, isso nada mudaria se milhares de operários ainda tinham crença nos partidos burgueses. Os partidos tradicionais dos oligarcas já estavam bastante defasados, é verdade, mas por outro lado emergia os social-democratas, vendendo esperanças aos operários. Era necessário evidenciar a inevitabilidade da política reacionária burguesa presente nos social-democratas, revelar sua incapacidade de gerir os anseios das massas populares. Explicar isso de forma marxista seria complexo e ineficaz. Somente através da dolorosa prática se desenvolveria o sensorial das amplas massas para a derrocada do reformismo e o carcomido Estado Burguês. A experiência histórica de um governo social democrata iria pôr em evidência para as massas seu projeto atrasado e engendraria a teoria, no caso, a abertura para o ascenso do comunismo.

Lênin disse:

“(…) em segundo lugar, ajudar a maioria da classe operária a convencer-se por experiência própria de que temos razão, isto é, da incapacidade completa dos Henderson e Snowden, de sua natureza pequeno-burguesa e traidora, da inevitabilidade de sua falência; e, em terceiro lugar, antecipar o momento em que, sobre a base da desilusão produzida pelos Henderson na maioria dos operários, se possa, com grandes probabilidades de êxito, derrubar de golpe o governo dos Henderson.”

Dessa forma a ajuda dos comunistas na verdade consistia em “dar a corda para os reformistas se enforcarem”:

“(…) como também por que eu gostaria de sustentar Henderson com meu voto do mesmo modo que a corda sustenta o enforcado; que a aproximação dos Henderson a um governo formado por eles mesmos demonstrará a minha razão, atrairá as massas para o meu lado e acelerará a morte política dos Henderson e Snowden, exatamente como aconteceu com seus correligionários na Rússia e na Alemanha.”

Somente assim era possível aplastar o movimento reacionário inserido no meio operário para fazer crescer o Partido Comunista. Dessa forma Lênin pregava o apoio tático não como ilusão parlamentar mas para desmascarar os novos eleitos, acelerar a inevitável decomposição do Estado Burguês, aprofundar sua crise que, independe da vontade de um gestor de turno, mas é uma lei natural do capitalismo. Diante do cenário de total descrédito e falência das instituições do Estado, se aprofundaria a agudização da luta de classes e o desencadeamento da revolução proletária:

“(…) a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afete explorados e exploradores) (…) em segundo lugar, é preciso que as classes dirigentes atravessem uma crise governamental que atraia à política inclusive as massas mais atrasadas (o sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação do número de homens aptos para a luta política, homens pertencentes à massa trabalhadora e oprimida, antes apática), que reduza o governo à impotência (…)”

A tática de Lênin em nada se assemelha com aqueles que seguem se iludindo e iludindo as massas. PCdoB, PCR, PCB, PSTU e PCO defenderam o projeto do PT por fé e não estratégia. Nunca tiveram em mente a bancarrota do PT para expor suas contradições e afastar as massas do atraso em apoio à sua politica. Mas para ser justo, o PCB e PSTU foram os únicos partidos que decidiram romper com o apoio ao PT e que, nos últimos anos, têm adotado uma linha acertadamente crítica ao Partidos dos Trabalhadores, declarando voto nulo nas duas últimas candidaturas para presidente, ainda que não faça o menor sentido se aliar e apoiar candidaturas pelo PSOL, pois esse partido sequer goza de grande apoio popular.

5- Boicote Eleitoral: De questão tática para um principio

Quando Lênin escreveu “Esquerdismo…”, em 1920, a Revolução Russa se apresentava imponente como única revolução do mundo no século XX. E era mais do que correto se inspirar em seus aportes e trajetos que se comprovaram acertados. Os bolcheviques eram a vanguarda internacional, o que havia de mais avançado no marxismo e entendimento da luta operária.

Mas os planos da revolução em outras nações da Europa foi frustrado por muito tempo. Após o sucesso dos bolcheviques na Rússia, os burgueses viram todo o potencial do marxismo e tremeram como nunca antes. Os Estados europeus passaram por profunda reacionarização, aumentando o número de repressão e empurrando os revolucionários mais uma vez para a ilegalidade.

Os revolucionários de outras nações demoraram para aprender com a revolução bolchevique de maneira acertada. Foi um processo longo, com zigue-zagues, acertos e muitos erros, levados muitas vezes por uma visão dogmática que tentava transportar a luta de classes na Rússia para outras nações, sem a devida compreensão da realidade local e dos fatos novos criados no cenário internacional com o advento da primeira revolução socialista.

Com o aprendizado, se inicia uma nova fase da revolução proletária e anticolonial pelo mundo. Tendo como base os aportes leninistas do centralismo democrático e da vanguarda revolucionária, vários partidos e organizações, vendo a completa incapacidade de atuação dentro do parlamento para seus fins, lançaram-se em luta pela conquista do poder, preparando as condições para a guerra de guerrilhas e da guerra popular prolongada. Assim os oprimidos de todo mundo ganharam valiosas lições com revoluções eclodindo pelo globo inteiro como foi na China, Coréia, Vietnam, Laos, Camboja, Cuba, Argélia, Moçambique, Angola, Guiné e Cabo Verde.

Experiências amargas como de Salvador Allende que chegou ao poder através do parlamento, mas negando a violência revolucionária, foi perseguido e exterminado pelo imperialismo, serviram de aprendizado. Vários Partidos e organizações inciaram tentando a luta legal no Parlamento, como o PAIGC e os movimentos contra o Aparthaid na África do Sul, mas foram brutalmente reprimidos, e se viram obrigados a se lançar na luta armada, onde conseguiram de fato realizar conquistas contra o colonialismo. Muitas organizações começaram na luta armada, iludiram-se com seus avanços, propuseram negociar acordos de paz e participar do parlamento, sendo liquidadas politicamente e fisicamente. Augusto César Sandino, que dirigia com êxito a guerrilha contra os invasores americanos e o governo títere da Nicarágua, aceitou acordos de paz, entregou as armas e foi assassinado logo depois. A guerrilha do MRTA, no Peru, tentou por várias vezes acordos de paz até que foi liquidado na ditadura Fujimori.

Luís Arce Borja, editor de elDiario Internacional, destaca:

“Entre 1824 a 1994, os Estados Unidos realizaram 73 invasões militares na América Latina, todas elas precedidas de artificiosas negociações de paz. Somente no período que compreende o início dos anos 50 até 1994, as tropas americanas interviram abertamente 14 vezes na América Latina. Para mencionar alguns exemplos, em 1954 invadem a Guatemala para derrotar o governo nacionalista de Jacob Arbenz. Em 1960, os marines desembarcam na Nicarágua para sustentar no poder a dinastia tirânica dos Somoza. Em 1964, é a vez de Cuba (durante a invasão americana a Cuba o governo USA negociava com os russos). Em 1965 é São Domingos. Em 1983 é a pequena ilha de Granada, e em 1989 os americanos executam o plano Just Cause, mediante o qual 28 mil marines invadem o Panamá.”

As experiências das últimas décadas comprovam que a adesão ao parlamento serviu para a completa desarticulação e liquidação politica, onde, ao sentar na mesa de negociações da burguesia, nunca foi conquistada qualquer melhoria qualitativa para as massas. E os grupos que cooptaram se rebaixando ao conluio com os partidos burgueses no parlamento perderam o grande apoio popular que tinham antes, a exemplo do PCB, do Partidos dos Panteras Negras e os vários partidos comunistas pelo mundo que se apequenaram no parlamento e hoje não correspondem aos anseios das massas populares. A Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) de El Salvador que negociou a paz com o Estado dizia que isso traria benéficos para os pobres, entretanto, a capitulação do FMLN não trouxe sequer pequenas reformas e em nada mudou o cenário de miséria do povo de El Salvador. A Unidade Revolucionária Gualtemateca (URNG) seguiu os mesmos passos dos Salvadorenhos, e viu diante de sua inabilidade no parlamento, a perpetuação da exploração e genocídio de seu povo.

O sistema Eleitoral Brasileiro, engendrado da ditadura militar, fincada pelo imperialismo ianque para combater tanto comunistas quanto nacionalistas progressistas, impossibilita candidaturas que rompam minimamente com a hegemonia imperialista, como bem destaca o doutor em economia Adriano Benayon:

“O golpe de 1964 – agora com 50 anos – consolidou o modelo dependente, subordinado ao capital estrangeiro, instituído pelo golpe de 1954 e aprofundado no demagógico quinquênio JK. A falsa democratização radicalizou esse modelo, por meio de governos egressos de “eleições” também manipuladas pela oligarquia financeira mundial. Sob pena de esfacelamento do País, o povo brasileiro não deve mais tolerar as imposições emanadas dessa oligarquia, que controla os poderes da República e demais instituições do Estado. Há 25 anos, repete-se a farsa de “eleições” para presidente, nas quais os eleitores praticamente nada escolhem. Na primeira eleição direta (1989), ainda houve um candidato, Leonel Brizola, fora desses parâmetros. Esse foi barrado no 1º turno, através de expedientes, como impedir os transportes em regiões onde ele teria maioria, e fraudar urnas, a ponto de, em MG, por exemplo, ter ele tido zero voto em seções eleitorais às quais compareceram vários partidários e militantes do PDT.”

O Brasil, muito diferente de nações independentes como Inglaterra, Alemanha e Rússia, foi a inicio uma colonia de Portugal, passando depois para semicolônia inglesa e por fim dos EUA. Essas condições criaram uma classe politica completamente burocrata e entreguista. As massas populares no Brasil desde sempre mostravam repudio pelos “candidatos caô”, sendo que tal situação tem se agravado com as máscaras do oportunismo caindo.

Diferente do cenário nas democracias europeias de 1920, os Partidos burgueses no Brasil se encontram completamente desprestigiados, sem um apoio popular relevante. Muitos dos votos válidos tem sido na base do “menos pior”, no medo do concorrente mais canalha ser eleito, ao invés dos méritos do votado, o que caracteriza uma ilegitimidade dos representantes eleitos ante seus próprios eleitores. As estáticas apresentam o crescente número de abstenções, votos nulos e brancos que já superam o número dos votos legíveis e que só confirmam a decomposição do parlamento burguês, negar a importância desses dados é negar a ciência e se afastar da análise marxista. Não há o que denunciarmos de dentro pois as vísceras do Estado já estão expostas, com suas constantes politicas anti-povo e vende pátria, os conluios em meio aos escândalos de corrupção e sua pugna para saber quais serão os sacrificados da vez, como tentativa de legitimar uma instituição visivelmente falida perante a sociedade.

Como marxistas, estudamos o materialismo histórico e dialético, aprendemos com a história, com a Comuna de Paris e a Revolução Russa. Devemos também aprender com as derrotas da socialdemocracia, com a repressão dos regimes militares, com o sucesso dos vários partidos revolucionários que sequer pisaram no parlamento e com as revoluções atualmente em curso no mundo.

As massas hoje estão desiludidas, porém, dispersas, sem uma vanguarda que as oriente. A tarefa principal dos revolucionários consiste em fundar o Partido Comunista de novo tipo, guiado pelo que há de mais avançado na ciência proletária, o Marxismo-Leninismo-Maoismo, principalmente Maoismo.

«Compreenda-se que a luta contra o imperialismo é uma frase vazia e falsa se não estiver indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo.»
— Lenin

REFERÊNCIAS:

Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo (1920)
https://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/esquerdismo/
O Estado e a Revolução (1918)
https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/08/estadoerevolucao/
Crítica às negociações de paz por Luís Arce Borja, editor de elDiario Internacional
http://anovademocracia.com.br/no-10/1129-o-oportunismo-armado-das-farc
“Eleições” no modelo dependente por Adriano Benayon.
http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/benayon/2014/04/02/eleicoes-no-modelo-dependente/
A crescente de abstenções, votos brancos e nulos.
http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/noticia/2016/10/abstencoes-votos-brancos-e-nulos-somam-326-do-eleitorado-do-pais.html

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