Arthur D’Elia (publicado originalmente em 05/01/2019)

“Se escolhermos a posição na vida a qual podemos trabalhar pela humanidade, nenhum encardo irá nos pôr para baixo, pois esses encargos são sacrifícios pelo bem de todos, então não experimentaremos alegria mesquinha, limitada e egoísta, mas nossa felicidade irá pertencer à milhões, viveremos de ações silenciosas mas em constante trabalho, e sobre nossas cinzas serão derramadas quentes lágrimas de pessoas nobres.” (MARX) [1]

Já em um texto de quando tinha apenas  17 anos, é possível constatar a preocupação que o jovem Marx tinha com a humanidade, visando tão somente a generalidade e não alguma forma de particularidade (raça, classe etc). Posteriormente em um outro texto seu, intitulado de ‘A Ideologia Alemã’, o autor ressalta que numa sociedade comunista não 
haveriam distinções de raça, classe, pode-se colocar aqui também o gênero etc [2].

Por conseguinte, em uma carta aos seus filhos, Lamarca demonstra ter apreendido corretamente a ideia:

“Vivo falando de vocês com meus companheiros, eles estão longe dos filhos também e falam nos filhos deles. Um só é o desejo de todos nós, é que nossos filhos sejam revolucionários. O que é um revolucionário? É toda a pessoa que ama todos os povos, ama a Humanidade, tem uma imensa capacidade de amar, ama a justiça, a Igualdade. Mas ele tem de odiar também, odiar os que impedem que o revolucionário ame, porque é uma necessidade amar. Odiar aos que odeiam o povo, a Humanidade, a Justiça social. Odiar aos que dominam e exploram o povo, odiar aos que corrompem, ameaçam e alienam as mentes, aos que degradam a Humanidade, aos injustos, falsos, demagogos, covardes.” (LAMARCA,1969).[3]

Levando em consideração as palavras do revolucionário brasileiro, é notável a sua abdicação de sua própria família (esta é uma forma de particularidade) para servir ao gênero humano ou à humanidade. Importante notar neste fato a tendência à generidade que está para além da particularidade, o “bem comum” colocado acima. Esta relação com a humanidade foi também uma preocupação de um dos maiores filósofos do século XX, chamado Gyorgy Lukács; o húngaro argumenta que o ir para além da mera particularidade constitui plenamente o desenvolvimento de sua personalidade, individualidade, e isso ocorre porque o homem enquanto exemplar do gênero só se realiza justamente neste. Desta forma, singular (um exemplar do gênero, um indivíduo) só se realiza no universal e o universal pelo singular [4].

Isto posto, neste mesmo texto, o renomado filósofo cita aquele que numa outra oportunidade considerou como o grande manifestante do que seria a ética real [5], que é Jesus. Para o húngaro, Jesus compreendeu autenticamente como deve ser a relação do indivíduo com o gênero e inclusive esta consideração era o pressuposto das seitas criadas pelos primeiros cristãos. Para demonstrar isso presente no próprio Cristo:
“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.” [6]

Para efeitos de compreensão: A ética é um complexo valorativo que se refere à relação do indivíduo com a comunidade [7]. Mas não é objetivo deste texto alongar esta problemática, visto que não constitui o seu propósito. Tampouco aqui está se entendendo Jesus como um comunista. Importante afirmar que essa relação entre singular-universal só seria possível ocorrer plenamente numa sociedade sem classes, exploração do homem pelo homem, propriedade e etc. 

Portanto, com base no que fora exposto até então, pode-se considerar monumental e extremamente antológica esta preocupação para com a humanidade e principalmente deixar claro que esta deve e deverá sempre ser a preocupação de todo comunista no decorrer de sua existência enquanto um revolucionário que luta por aquilo que melhor desenvolveria e elevasse o gênero humano, ou seja, o modo de produção comunista, somente nele é possível as individualidades e personalidades se desenvolverem plenamente e à ética real de fato existir. O portador ou sujeito da “essência humana” não é o indivíduo isolado, mas a sociedade humana apreendida na continuidade de sua mudança histórica e desenvolvimento [8].

“Se tu amas sem despertar amor recíproco, isto é, se teu amar, enquanto amar, não produz o amor recíproco, se mediante tua externação de vida como homem amante não te tornas homem amado, então teu amor é impotente, é uma infelicidade” (MARX, 2010, pág. 161)

REFERÊNCIAS:

[1] MARX, Karl. Reflexões de um Jovem sobre a Escolha de uma Profissão. Disponível em:https://www.marxists.org/portugues/marx/1835/08/16.htm
[2] MARX, Karl. A Ideologia Alemã.
[3] LAMARCA, Carlos. Carta para os filhos. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lamarca/1969/07/26-1.htm
[4] LUKÁCS, Gyorgy. Para uma ontologia do ser social II.
[5] LUKÁCS, Gyorgy. Notas para uma ética.
[6] BÍBLIA. João, 15, 12.
[7] LESSA, Sérgio. Ética: uma enorme imprecisão. I simpósio nacional sobre política.
[8] MÁRKUS, Gyorgy. Marxismo e antropologia: O concito de “essência humana” na filosofia de Marx.
[9] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos.

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