Alice Vianna e Heitor Rodrigues

Atualmente, 35% de todo o conteúdo baixado da internet é relacionado à pornografia (dado de 2018) [1], sendo a maior parte do conteúdo pornográfico explícito concebido, organizado e criado por homens, para ser posteriormente consumido também por homens (indivíduos adultos do sexo masculino são 543% mais propensos a ver pornografia que indivíduos do sexo feminino) [2]. As categorias dos conteúdos acessados nos mais populares sites pornôs têm muito em comum, e revelam um sinistro padrão de infinitos cenários de dominância masculina e subordinação feminina (não ignorando, claro, os casos onde a violência se direciona contra outros homens ou a transsexuais, que, apesar da menor incidência, mostram-se igualmente problemáticos) categorizados por atos específicos, partes do corpo, etnia e idade. Um levantamento referente aos conteúdos mais pesquisados no Brasil, em dois dos sites pornográficos mais populares do mundo – feito com dados datados de 2012 a 2019 – mostra que palavras como “novinha” (que se refere a jovens do sexo feminino que ainda não atingiram a maioridade), “adolescente” e variáveis estão presentes quase que invariavelmente entre os 10 primeiros termos mais pesquisados de cada ano. Outros termos que não variaram muito com o tempo no mesmo ranking foram “brasileirinhas”, “lésbicas” e “anal” [3] [4]. 

Não é necessário um grande conhecimento de teoria cultural para compreender o significado social da diária busca por imagens de mulheres de semblante pueril (comportamento infantilizado, roupas que remetem a atividades tipicamente exercidas por menores de idade [como uniforme escolar] e totalmente sem pelos) sendo repetidamente penetradas em todos os orifícios enquanto escuta-se adjetivos como “vagabunda”, “vadia” e “puta”. Entretanto, pensar além dos discursos da “escolha”, do “empoderamento” e da “liberdade de expressão”, que são repetidamente usados pelos representantes dessa indústria para justificar seu conteúdo, requer boa vontade. 

Tal discurso, mesmo que não intencionalmente, funciona como distrativo aos malefícios da indústria pornográfica. E seus defensores acusam de censores, antiliberais, conservadores e hipócritas aqueles que expõem os danos que esse produto midiático é capaz de causar. A pornografia não funciona simplesmente como um simulacro isolado de nossa realidade – realidade essa onde a violência doméstica e a violência sexual são silenciadas e rotineiras. Muito pelo contrário, bem como qualquer outro produto da indústria cultural, a pornografia tece uma relação de determinação recíproca para/com a realidade. A primeira absorve e reflete a segunda ao mesmo tempo que a segunda absorve e reproduz a primeira, como um ciclo. E uma das coisas nas quais a pornografia é extremamente eficiente é a promoção de um fluxo sem fim de narrativas nas quais mulheres (e homens) são tratados como objetos, violados ou “feitos para o sexo”. 

Já é conclusivo que existe ligação entre o consumo de conteúdo sexual violento e ações violentas. E novos estudos associam o consumo de pornografia a casos de violência sexual [5]. Para se ter uma ideia, em uma meta-análise composta por 46 estudos publicados entre 1962 e 1995, abarcando uma amostra total de 12.323 pessoas, se concluiu que material pornográfico aumenta o risco de um indivíduo desenvolver alguma tendência sexual desviante (parafilia) em 31%, de cometer algum tipo de abuso sexual em 22% e de aceitar/acreditar em falácias sobre estupro também em 31% [6]. 

Como se pode observar, a pornografia afeta, para além do usuário, também suas relações sociais (e dessa forma, a sociedade como um todo). Apesar disso, as mais diretas vítimas da pornografia são seus protagonistas. Um estudo de 2010 que analisou 304 cenas pornográficas descobriu que 88.2% delas continha agressão física, incluindo tapas, espancamentos e engasgos provocados á força; 48.7% continha agressão verbal, sobretudo xingamentos. Os perpetradores eram em sua maioria homens e as vítimas, mulheres.  

“Acerca da indústria pornográfica, [sobre as atrizes pornô] elas têm altos índices de abuso de substâncias, típicamente álcool e cocaína; depressão, desordem de personalidade limítrofe […] A experiência mais comum entre as “performers” é ter que estar bêbadas, drogadas ou em estado elevado de dissociação simplesmente para aguentarem fazer as cenas. Seu ambiente de trabalho é particularmente nocivo […] A terrível jornada de trabalho dentro da pornografia é comumente subseguida por uma igualmente terrível vida familiar/vida em casa.” [7]

Atores e atrizes pornôs estão mais predispostos que a população em geral a contraírem DSTs, não só por causa do número elevado de parceiros, mas também pela falta de uso de proteção básica (camisinha). Em 2004, por exemplo, apenas 2 das 200 produtoras de conteúdo adulto entrevistadas pela Pink Cross Foundation requeria o uso de camisinha [5]. Eles também são mais propensos ao abuso de drogas: em um levantamento de 2010 foram entrevistadas 177 atrizes pornôs e 79% delas revelaram já terem consumido maconha; 39% consumido alucinógenos; 50%, ecstasy; 44% cocaína; 27% metanfetamina; 26% tranquilizantes e 10% heroína. Em uma entrevista a performer Tanya Burleson revelou: “As atrizes usam drogas por que não conseguem lidar com a maneira com que são tratadas/desumanizadas” [8]. 

Aqueles que se submetem a esse tipo de trabalho sexual e também à prostituição – embora seja comum considerar a atuação em filmes pornô um tipo de prostituição – geralmente são indivíduos socialmente excluídos. Sendo considerados “socialmente excluídos” pessoas em situação de vulnerabilidade social, ou seja, vítimas de violência severa, vício em drogas, problemas mentais, discriminação, problemas familiares e principalmente: em condição de pobreza ou extrema pobreza [9]. 

E é aí que justificação ética de que a indústria pornográfica é válida simplesmente pelo suposto consentimento dos indivíduos que dela participam cai por terra. Esse discurso é absurdo na medida que pouco reflete a realidade social. As pessoas que “aceitam” vender seus próprios corpos não estão se utilizando de sua verdadeira liberdade, estão completamente afetadas por patologias sociais. Dessa forma, tornam-se incapazes de realizar escolhas de maneira plena, isto é, incapazes de realizar escolhas movidas apenas por suas próprias forças de vontade, sem afetação de constrangimentos. Aliás, mesmo do ponto de vista utilitário, já foi demostrado aqui como a pornografia é profundamente negativa para sociedade de todos os pontos de vista. 

REFERÊNCIAS

[1] WEBROOT. Internet Pornography by the Numbers; A Significant Threat to Society. Disponível em: <https://www.webroot.com/za/en/resources/tips-articles/internet-pornography-by-the-numbers?fbclid=IwAR3orzEyGFnPp3MWli7T1vDH9cj0On-2TNDLOJF0ML3iz1B2oxGH4O3MXss&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

[2] COVENANTEYES. Pornography Statistics. Disponível em: <http://www.covenanteyes.com/pornstats/?fbclid=IwAR3PD-pS3i6ehwzrshoAq-gwSWzg4huR8GyY-yWMARyr-Xj_cTPLrYChHxs&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

[3] PORNMD. Global Internet Porn Habits Infographic. Disponível em: <https://www.pornmd.com/sex-search?fbclid=iwar01z6xoaopnrxaykhfn-svybvjweuj3jhqcc9vynah9h0a5hwhcj3zjqri&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

[4] PORNHUB. 2018 Year in Review. Disponível em: <https://www.pornhub.com/insights/?s=year+in+review&fbclid=IwAR1ttlo6_UJkHpmcir4YOJDD6b0vsU-oKyuYhUYAeCwYVdqjOThNb_Sh8bA&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

[5] HORVATH, Miranda A.h.; ALYS, Llian; MASSEY, Kristina. A Rapid Evidence Assessment on the Effects that Access and Exposure to Pornography has on Children and Young People. Disponível em: <http://eprints.mdx.ac.uk/10692/1/BasicallyporniseverywhereReport.pdf?fbclid=IwAR0r2vQjp4rcQH8JT1XboPftIGKrW9l-QPnKphwp4MPDcwuPR9py6ydy8rk&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

[6] COVENANTEYES. Pornography Statistics. Disponível em: <http://www.covenanteyes.com/pornstats/?fbclid=IwAR3PD-pS3i6ehwzrshoAq-gwSWzg4huR8GyY-yWMARyr-Xj_cTPLrYChHxs&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

[9] EQUITY, Ucl Institute Of Health. A Review of the Literature on Sex Workers and Social Exclusion. Disponível em: <https://assets.publishing.service.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/303927/A_Review_of_the_Literature_on_sex_workers_and_social_exclusion.pdf?fbclid=IwAR1gyTWAd53BClElogfwLpciqOl52mkYgCgaa2nseQJzGDIeuf0_2yFut1c&gt;. Acesso em: 19 fev. 2019.

2 comentários »

  1. tá, mais então o que fazer quando você e uma pessoa frustrada em todos os níveis que se possa imaginar. E a pornografia e um das poucas formas de não se sentir um completo fracassado por uns 20 minutos de um pouco de satisfação?

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