Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 13/11/2018)

INTRODUÇÃO

Após anos de imperialismo — ou neocolonialismo –destinado ao desenvolvimento econômico de nações capitalistas, as condições internacionais que propiciaram a Primeira Guerra Mundial foram criadas. E foi aproveitando o cenário de pós-guerra, com um resultado de eliminação de vidas humanas sem precedentes, que os Estados Unidos puderam ascender ao patamar de superpotência. O desgraçamento da Europa tornou-se meio de lucro dos EUA e o estilo de vida americano pôde entrar em voga. O capitalismo parecia que finalmente havia chegado à sua fase madura de prosperidade que duraria para sempre. Todavia, como esperado, tal fase não durou muito, certo que, em 1929, estourou a maior crise da história do capitalismo desde então. Tendo início nos EUA, a crise se alastrou pelo mundo, corroendo as entranhas do capitalismo global. Contudo, em meio aos escombros financeiros, o desenvolvimento soviético persistia, o que não só impressionou o mundo como atraiu uma forte massa migratória composta por trabalhadores insatisfeitos com seus respectivos países capitalistas.

DO IMPERIALISMO À PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: A ANIQUILAÇÃO DE VIDAS HUMANAS COMO COMBUSTÍVEL DO CAPITAL

O capitalismo histórico, desde os seus primórdios, sempre demonstrou ser um sistema de caráter dominador e exploratório. Mesmo antes de vir a ser o modo de produção dominante em nível mundial, a expansão ultramarina do período colonial já dava um prelúdio quanto à acumulação de riquezas em larguíssima escala que viria a ser uma característica do capitalismo em sua fase monopolista posteriormente. Alguns chamam de mito a afirmação de que a história se repete, mas é inegável que ela pelo menos rima. Certo que, no século XIX, deu-se início a um movimento de expansão ultramarina semelhante ao colonialismo de séculos antes. Chamado de imperialismo — ou neocolonialismo –, esse fenômeno caracterizava-se por novas dominações de centros metropolitanos, agora capitalistas, sobre outros territórios. Embora haja divergências sobre como o capitalismo em sua fase monopolista propiciou a emergência do imperialismo, há consenso quanto ao papel crucial da expansão econômica ultramarina para os países capitalistas. Como destaca Eric Hobsbawm em seu livro A Era dos Impérios:

“Não precisamos discutir aqui os mecanismos específicos através dos quais o “capitalismo monopolista” levou ao colonialismo — as opiniões divergem a esse respeito, mesmo entre os marxistas — ou a ampliação mais recente dessa análise numa “teoria da dependência” de alcance mais geral, no fim do século XX. De uma forma ou de outra, todas partem do princípio de que a expansão econômica ultramarina e a exploração do mundo ultramarino foram cruciais para os países capitalistas.” [1]

Isso significa que o imperialismo foi um fenômeno de fortalecimento do modo de produção capitalista e que, portanto, foi algo essencial para a história desse sistema. Ademais as “rivalidades entre as potências capitalistas que levaram a essa divisão também geraram a Primeira Guerra Mundial” [2]. Ou seja, o imperialismo não fortaleceu apenas as potências capitalista, mas também a rivalidade entre elas, sendo esta uma condição importante para que mais tarde eclodisse uma guerra entre vários países. Uma vez que, em meio a vários jogos de disputas expansionistas, surgiram aliados diplomáticos dispostos a se auxiliarem em um contexto de guerra. Era uma constante inflamação do ambiente internacional à espera de uma pequena faísca que causasse o incêndio. E essa faísca veio com o assassinato de Francisco Fernando, o herdeiro do trono austro-húngaro, morto por um nacionalista iugoslavo. O que fez com que a Áustria-Hungria decretasse guerra contra o reino da Sérvia e, consequentemente, com que as alianças diplomáticas se envolvessem no conflito. Dando início à Primeira Guerra Mundial, cuja fórmula de desencadeamento é resumida por Hobsbawm da seguinte maneira: “(…) o desenvolvimento do capitalismo empurrou o mundo inevitavelmente em direção a uma rivalidade entre os Estados, à expansão imperialista, ao conflito e à guerra.” [3]. Sendo assim, o capitalismo, de fato, gerou as condições que fariam a Guerra tomar forma.

Segundo o Centre européen Robert Schuman, o “número total de vítimas militares e civis na Primeira Guerra Mundial foi de cerca de 40 milhões. Foram 20 milhões de mortes e 21 milhões de feridos.” [4]. Vítimas estas que podem ser encaradas como consequência de um jogo de poder de motivação econômica da ordem capitalista global. Contudo, vale destacar que essa destruição não foi mero efeito de motivações capitalistas, mas também causa de outras motivações capitalistas, que ocasionaram, por sua vez, a ascensão americana ao patamar de superpotência durante o pós-guerra. Uma vez que os prejuízos da guerra fizeram as potência europeias voltarem-se aos EUA, que se tornaram “a principal fonte dos recursos necessários para colocar novamente em marcha a engrenagem do comércio internacional” [5]. E, assim, tornou-se a maior exportadora de capital do mundo. Como destaca Rogério Arthmar, em seu artigo “Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra”:

“Estimativas recentes da movimentação financeira internacional à época revelam que, do total de $7,4 bilhões emprestados às nações da Europa entre 1924 e 1930, sendo 60% desse valor provenientes dos Estados Unidos, $3,5 bilhões compreendiam ativos de curto-prazo, dos quais $2,4 bilhões estacionados na Alemanha (Feinstein, Temin e Toniolo, 1997:85-97).” [6]

Inegavelmente, o arruinamento da Europa contribuiu para pôr os Estados Unidos no topo da cadeia alimentar do ambiente econômico internacional. Os interesses econômicos de nações capitalistas primeiro criaram as condições para a Guerra surgir e, após essa mazela, o ambiente de desgraçamento do pós-guerra, cujo resultado foi dezenas de milhões de mortos e feridos, tornou-se o balcão de comércio da burguesia americana.

A CRISE DE 29: A QUEDA DOS ESTADOS UNIDOS E O DESENVOLVIMENTO IMPLACÁVEL DA URSS

Não se entrará aqui em grandes detalhes sobre as causas da Grande Depressão de 1929. Basta ter em mente que foi uma crise do capitalismo na totalidade de seu sistema historicamente contraditório. Afinal, há tanto evidências que apontam para esquemas da iniciativa privada [7] quanto para gerências mal-sucedidas da burocracia capitalista [8] como culpadas pela devastadora crise. Sendo notório que polos econômicos europeus da época também sofreram bastante com a crise financeira, tais como Alemanha, Itália, Reino Unido e França. E foi utilizando números não-oficiais, dado o descrédito aos oficiais atribuídos pelos autores, que Paul R. Gregory e Joel Sailors expuseram uma comparação entre esses países e a URSS no período da Grande Depressão. Como descreve os autores, sob o princípio de desenvolver uma economia autárquica que evitasse os distúrbios internacionais do capitalismo, a URSS buscou elevar sua taxa de poupança doméstica para financiar sua formação de capital sem depender do capital estrangeiro. Exportações eram vistas com maus olhos e eram toleradas apenas em casos estritamente necessários de contrapartidas por meio de importações. Ademais, dado o desinteresse do planejamento em relação a créditos, a economia soviética encontrou-se em um estado de desenvolvimento voltado estritamente para dentro, o que a tornou independente do mercado de capitais mundiais e de suas instabilidades [9]. Dessa forma, “a URSS experimentou uma rápida expansão da produção e do investimento entre 1928 e 1937, enquanto os principais países industrializados registravam produção e investimento real estagnados ou em declínio.” [10].

Como pode ser observado nos gráficos a seguir, em comparação às principais nações capitalistas da época, a URSS apresentou um despontamento singular no que tange o largo aumento do seu PIB e a acelerada evolução do seu índice de formação de capital [11].

Nenhuma descrição de foto disponível.
Índices do PIB: URSS e outro países , 1920-40 (1929 = 100)
Nenhuma descrição de foto disponível.
Índice de formação de capita: URSS e outros países, 1920-40 (1928 = 100)

O mundo via o capitalismo padecer enquanto a URSS mantinha-se firme entre as ruínas financeiras. O otimismo quanto ao modelo soviético era grande. O que fez que uma grande massa de migrantes legais e ilegais adentrasse no país em busca de oportunidades de emprego. Segundo números oficiais de setembro de 32, a URSS, que havia fechado contratos com vários empreendimentos ocidentais — americanos, alemães, franceses etc –, havia empregado 9190 especialistas e 10655 trabalhadores estrangeiros, acompanhados de suas respectivas famílias, contabilizando 17655 membros. Todavia, considerando imigrantes ilegais sub-notificados, presume-se que esse número é bem maior [12].

Diante disso, a propaganda anti-comunista alega que o grande desenvolvimento da URSS teve um alto custo humanitário, apontando para o que chamam de Holodomor, uma grande onda de fome que assolou a Ucrânia, esta que teve como consequência milhões de mortos. Primeiramente, é importante salientar que, ao contrário do que a propaganda anti-comunista veicula, o dito Holodomor não foi um genocídio, enquanto um extermínio deliberado com o objetivo estrito de eliminar um determinado grupo étnico, como foi o Holocausto. Como bem resgata Losurdo, quem criou essa versão foi Robert Conquest, um agente ligado ao serviço secreto britânico, cuja finalidade era influenciar “a radicalização dos ímpetos independentistas da Ucrânia” [13]. Tal onda de fome realmente ocorreu, contudo, não foi um ato deliberado do planejamento soviético com estrita intenção de eliminar o povo ucraniano. Como reconhece Stanislav Kulchytsky, historiador ucraniano e grande crítico do stalinismo que já usou o termo “genocídio” para se referir ao Holodomor, é confuso usar a palavra para se referir a esse episódio, certo que há uma imensa fragilidade na tentativa enquadrá-lo no sentido estritamente legal do conceito de genocídio. Agora, falando em números, em meio a imprecisões de cálculos, a estimativa mais precisa, do historiador Stephen Wheatcroft, baseada em arquivos soviéticos, estima um número entre 3 e 3.5 milhões de mortos na Ucrânia e algo entre 6 e 7 milhões em toda URSS [14]. O que demonstra que a ditadura do proletariado enfrentou sim problemas, isso é necessário reconhecer. Contudo, o grande ônus humanitário em meio ao rápido crescimento econômico não foi algo exclusivo da União Soviética. Pois os críticos parecem esquecer que o rápido desenvolvimento dos EUA durante o pós-guerra foi propiciado por um conflito bélico mundial, cujas condições de origem foram criadas por interesses econômicos de nações capitalistas, que gerou 40 milhões de vítimas, dentre essas 20 milhões de mortos, como já exposto anteriormente. Ademais, considerando o período da Grande Depressão, segundo estimativas do historiador russo Boris Borisov, a fome teria sido a causa da morte de 7 milhões de pessoas nos EUA entre 1932 e 1933, período este em que milhões de agricultores foram expulsos de suas terras por bancos por causa de dívidas [15]. Ainda durante esse período, eram comuns relatos postais sobre a fome enfrentada pela população. Pessoas implorando por comida e outras comendo pedras no café da manhã tornou-se realidade nesse episódio da história americana [16], que, tendo impactado de maneira tão traumática o País, modificou toda a sua cultura de controle de qualidade alimentícia posterior [17] . A experiência soviética não foi perfeita, mas seus críticos devem começar a apontar o dedo para si e reconhecer que a ordem espontânea do Capital também não é. Deveriam fazer como Stalin, que reconheceu que o período de transição do capitalismo para o comunismo não é apenas um período de avanços e vitórias, mas também de recuos e derrotas:

“Portanto, a ditadura do proletariado, a transição do capitalismo para o comunismo, não deve ser considerada como um período fugaz de atos e decretos “super-revolucionários”, mas como uma era histórica inteira, repleta de guerras civis e conflitos externos, com trabalho organizacional persistente e construção econômica, com avanços e recuos, vitórias e derrotas.” [18]

CONCLUSÃO

Diante disso, percebe-se que a URSS, embora tenha tido baixas, também teve conquistas importantes. Seu planejamento baseado nas previsões de Marx quanto à instabilidade do sistema capitalista lhe permitiu desenvolver uma economia independente que não estava suscetível às crises do Capital, tal como a Grande Depressão de 1929. O que, por sua vez, lhe permitiu ter um crescimento econômico incrível nessa mesma época, enquanto os polos capitalistas estagnaram. Isso demonstra como a experiência soviética teve conquistas que podem, com toda certeza, servir de inspiração, tal como os erros devem servir de aprendizado.

REFERÊNCIAS

[1] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 52 p.

[2] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 52 p

[3] HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 250 p

[4] SCHUMAN, Centre Européen Robert. World War I casualties. Disponível em: <http://www.centre-robert-schuman.org/userfiles/files/REPERES%20–%20module%201-1-1%20-%20explanatory%20notes%20–%20World%20War%20I%20casualties%20–%20EN.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[5] ARTHMAR, Rogério. Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2156>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[6] ARTHMAR, Rogério. Os Estados Unidos e a economia mundial no pós-Primeira Guerra. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2156>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[7] Charles E. Persons. Credit Expansion, 1920 to 1929, and its Lessons. The Quarterly Journal of Economics Vol. 45, No. 1 (November 1930). 94-130 p

[8] OHANIAN, Lee E.. What – or Who – Started the Great Depression? Disponível em: <http://www.econ.ucla.edu/people/papers/Ohanian/Ohanian499.pdf?fbclid=IwAR26tUSsJIebLBIwIzTOhETqMNBkoNdyupn6IULZbTd-ZH64FnKR7TY5IWI>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[9] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 199-202 p

[10] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 193 p

[11] BALDERSTON, Theo (Ed.). The World Economy and National Economies in the Interwar Slump. [s. L.]: Palgrave Macmillan Ltd, 2003. 192-193 p

[12] KOSTIAINEN, Auvo. Illegal Emigration to the U.S.S.R. During the Great Depression. Disponível em: <https://www.genealogia.fi/emi/art/article237e.htm>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[13] LOSURDO, Domenico. Stalin: História crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010. 198-200 p

[14] KULCHYTSKY, Stanislav. Was the 1933 Holodomor an act of genocide? Disponível em: <https://day.kyiv.ua/en/article/history-and-i/was-1933-holodomor-act-genocide-0>. Acesso em: 13 nov. 2018.

[15] FAMINE KILLED 7 MILLION PEOPLE IN USA. Rússia, 19 maio 2008. Disponível em: <http://www.pravdareport.com/world/105255-famine/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[16] UYS, Errol Lincoln. THE BOXCAR BOYS AND GIRLS. Disponível em: <http://erroluys.com/greatdepressionarchive3.html&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[17] HOW THE GREAT DEPRESSION STILL SHAPES THE WAY AMERICANS EAT. Estados Unidos, 22 dez. 2016. Disponível em: <https://www.theatlantic.com/business/archive/2016/12/great-depression-eat/511355/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2018.

[18] STALIN, Josef. THE DICTATORSHIP OF THE PROLETARIAT. Disponível em: <https://www2.stetson.edu/~psteeves/classes/stalindictatorship.html>. Acesso em: 13 nov. 2018.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s