Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 25/10/2018)

Relações financeiras não são um fenômeno recente na história da humanidade. Contudo, a financeirização em larguíssima escala das relações econômicas ao redor do globo é um fenômeno bastante recente dentro da contemporânea ordem capitalista. Sendo denominado como capitalismo financeiro, portanto, tal fase atual do capitalismo. Certo que este modo de produção, em seu formato recente, apresenta uma dependência cada vez maior do sistema de crédito para financiar a valorização a valorização do Capital. Na fase financeira, o movimento convencional do lucro que exige a intermediação da mercadoria reproduzida pelo capital (D-M-D’), i.e. bem econômico necessário à produção de outros bens e serviços que serão ofertados no mercado, concorre com o movimento generalizado do lucro sem essa intermediação direta do um capital físico. No sistema financeiro, observa-se um movimento que parece mágico, o dinheiro apresenta a capacidade de se valorizar sem a necessidade de mercadoria (D-D’). Obviamente, tal valorização não se deve a um fenômeno de ordem metafísica. Mas sim devido ao preço atribuído ao tempo dentro da ordem capitalista, como atualmente já é consenso. Por exemplo, instituições financeiras lucram emprestando dinheiro cujo crédito a ser pago no futuro rende um excedente devido ao tempo que esse dinheiro ficou à disposição do credor dentro do prazo solicitado. Cotidianamente isso fica mais claro quando nos abstemos de pagar algo à vista no presente para poder pagar apenas no futuro através do cartão de crédito. O juro pago representa o preço do tempo que pudemos ter à nossa disposição para não pagar imediatamente o que compramos no presente. Estando embutida nessa taxa o lucro do fornecedor do crédito, afinal, nem o tempo é de graça. Agora representado por D-D’, o lucro se dá por meio do investimento em títulos, obrigações, certificados ou qualquer outro papel que represente um crédito que pode ser convertido em dinheiro.

Embora Marx não fizesse uso de noções mais sofisticadas de preferência temporal envolvendo o sistema de crédito, já que esse refinamento teórico foi desenvolvido apenas posteriormente, ele já tinha consciência de que tal sistema envolvia a comercialização do dinheiro como uma mercadoria a ser vendida no presente por um preço maior que será pago no futuro, cuja remuneração real, segundo ele, encontra sua gênese na mais-valia [1]. Contudo, sem entrar em mais detalhes envolvendo o debate sobre a natureza dos juros, é imprescindível ao atual contexto de financeirização do capitalismo e de suas sucessivas crises demonstrar o quão profético foi Marx. Sua atualidade em relação ao sistema financeiro é tão forte que Michael Perelman, economista e historiador americano, afirma que o comunista não só antecipou conceitos da teoria da instabilidade financeira do pós-keynesiano Hyman Mysnki como pode ter tido algumas de suas ideias usadas, sem a devida atribuição, por Friedrich Hayek, um dos desenvolvedores da teoria austríaca dos ciclos econômicos, cujo destaque em parte lhe rendeu o Nobel [2]. Em razão disso, mesmo diante de constantes proclamações da morte de Marx, este fantasma parece estar fazendo um excelente trabalho de sussurrador perante os ouvidos da humanidade, nos quais, após toda grande crise financeira, emerge o seu “eu te avisei!” fantasmagórico.

Embora os teóricos do Capital disputem sobre qual entidade econômica é a principal culpada pelas crises financeiras, Estado ou livre-mercado, essa polêmica não possui grande sentido dentro da teoria marxista. Certo que ambas as entidades são componentes de uma entidade maior que os comunistas estão constantemente a denunciar, o capitalismo. A elite burocrática é quem proporciona as condições legais para a elite mercadológica agir, enquanto esta é quem fornece grande parte do poderio econômico para o Estado se manter. No capitalismo, as elites públicas e privadas estão historicamente amalgamadas em uma relação de retro-alimentação mútua. Diante disso, é possível compreender o fenômeno, destacado por Marx, de “na maioria dos países os principais bancos que emitem cédulas bancárias são uma espécie de combinação peculiar de bancos públicos e privados” [3]. Ou seja, o sistema de crédito no capitalismo é constituído tanto pela gerência pública quanto privada. E suas crises possuem responsabilidade compartilhada entre esses dois setores, os quais, em conjunto, concentram o capital monetário apto a ser emprestado [4]:

“Desse ponto de vista, o negócio bancário consiste, em termos gerais, em concentrar nas próprias mãos, em grandes massas, o capital monetário emprestável, de modo que, em vez do prestamista individual, é o banqueiro que aparece como representante de todos os prestamistas de dinheiro diante do capitalista industrial e comercial. Eles se convertem nos administradores gerais do capital monetário.”

Sendo assim, o intervencionista é aquele que superestima a capacidade do poder estatal burguês de agir sem intensificar as contradições do capitalismo, já o livre-mercadista é aquele que superestima a capacidade das forças do mercado de agirem sempre com a responsabilidade que tanto idealizam. Mas, afinal, que movimentos econômicos causam crises financeiras? Para responder essa pergunta, é necessário primeiramente destacar a relevância que o sistema de crédito assume para o financiamento da expansão do Capital. Como expressa Marx, “o crédito acelera o desenvolvimento material das forças produtivas e a instauração do mercado mundial” [5]. Isto é, na fase financeira do capitalismo, as suas forças produtivas tornam-se cada vez mais dependentes do crédito advindo do sistema financeiro para se expandir. Por outro lado, o “crédito acelera ao mesmo tempo as erupções violentas dessa contradição, as crises (…)” [6]. Ou seja, se por um lado o sistema de crédito auxilia o Capital, por outro lado intensifica a rapidez com a qual as crises emergem. 

Como bem observou o comunista, existem momentos de grande prosperidade em que os agentes econômicos passam a confiar com grande segurança no fluxo de crédito na economia, dado que o fluxo real de dinheiro expressa uma quantidade que o fluxo de crédito é capaz de substituir [7]:

“Nesses períodos de prosperidade, o refluxo se dá facilmente, sem atritos. O varejista paga com segurança ao atacadista, que paga ao fabricante, que paga ao importador de matérias-primas etc. Mesmo quando essas condições deixam de existir, a aparência de refluxos rápidos e seguros continua mantendo -se por algum tempo, graças ao crédito posto em movimento, pelo fato de os refluxos baseados no crédito substituírem os refluxos reais.”

Contudo, como Marx chama a atenção: “Os bancos pressentem o perigo assim que os clientes começam a pagar mais com letras de câmbio do que com dinheiro.” [8]. Pois, “o crédito, ao permitir uma separação mais prolongada dos atos de compra e venda, serve de base para a especulação” [9]. Ou seja, a possibilidade de os agentes econômicos poderem arcar com despesas apenas no futuro pode proporcionar a proliferação de especulações de crédito cujos devedores não serão capazes de arcar com suas dívidas. Surgindo, a partir dessa fórmula genérica, as crises financeiras. Certo que o grande choque de confiança nos tempos de prosperidade tendem a levar a economia capitalista a um estado de especulação excessiva, onde o fluxo real de dinheiro, que representa o processo produtivo, não é capaz de acompanhar o comprometimento dos agentes econômicos com os contratos do sistema de crédito que deverão ser pagos no futuro. Ou, nas palavras de Marx, a especulação excede os limites capitalistas do processo de produção [10], estado este denominado de superespeculação [11], a partir do qual as crises financeiras emergem. 

Lyndon LaRouche, honrando suas raízes marxista, no século passado chamou atenção por conceber uma função típica do colapso, no qual ele representa os agregados financeiros, a quantidade de crédito, crescendo em um patamar maior do que os agregados monetários, a quantidade de dinheiro na economia [12]. Demonstrando, assim, a tendência à superespeculação dentro do capitalismo, o qual, historicamente, mostrou-se como factual em episódios como a Crise de 29 e a de 2008. Logo, o capitalismo histórico, longe do capitalismo dos evangelhos, já mostrou possuir essa contradição, concretizada pela ação conjunta das elites financeiras públicas e privadas. Enfrentando o mundo, atualmente, uma montanha de dívidas públicas e privadas jamais vista desde a Segunda Guerra Mundial. O total chega a uma fatura de 164 trilhões de dólares, o equivalente a 225% do PIB mundial. O que corrobora a tendência histórica do capitalismo quanto à acumulação desenfreada de dívidas que ultrapassam ferozmente o fluxo real da economia. Havendo inclusive o próprio FMI advertido que esses grandes níveis de dívida são preocupantes [13]. Uma bomba-relógio capaz de explodir a qualquer momento. Agora basta esperarmos a demanda pela leitura dO Capital voltar a aumentar quando a próxima crise financeira eclodir [14], para assim talvez descobrirem o que há de errado.

REFERÊNCIAS:

[1] O Capital III, Boitempo, p. 465

[2] https://michaelperelman.wordpress.com/2009/01/31/marx-before-minsky/

[3] O Capital III, Boitempo, p. 504

[4] O Capital III, Boitempo, p. 503

[5] O Capital III, Boitempo, p. 551

[6] O Capital III, Boitempo, p. 551

[7] O Capital III, Boitempo, p. 559

[8] O Capital III, Boitempo, p. 559

[9] O Capital III, Boitempo, p. 545

[10] O Capital III, Boitempo, p. 605

[11] O Capital III, Boitempo, p. 649

[12] https://archive.schillerinstitute.com/economy/phys_econ/worldeconomiccrisis.html

[13] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/08/economia/1528478931_493457.html

[14] https://www.dw.com/pt-br/crise-reaquece-interesse-por-obra-de-karl-marx/a-5195662

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