Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 16/10/2018)

Existe um componente essencial ao capitalismo, descrito por Marx em sua economia política, nomeado de exército industrial de reserva. Segundo ele, é essencial ao funcionamento desse modo de produção a existência de uma taxa natural de desemprego que funciona como um estoque de mão obra disponível aos capitalistas, o qual serve como um inibidor de reivindicações por maiores remunerações aos trabalhadores. Certo que sempre é possível haver alguém desempregado disposto a abdicar de parte do tempo de lazer para trabalhar a mesma quantidade de horas por um salário menor. Forçando quem está empregado a ser mais eficiente se quiser preservar seu emprego. Conforme afirma Marx: 

“O excesso de trabalho da parte empregada da classe trabalhadora enche as fileiras da reserva, enquanto, inversamente, a maior pressão que o segundo exerce sobre o primeiro, força-o a submeter-se ao excesso de trabalho e à submissão sob os ditames do capital.” (TRADUÇÃO NOSSA) [1]

Contudo, uma implicação de magnitude mais expressiva dessa taxa natural de desemprego foi demonstrada por Edmund Phelps. Baseado na curva de Phillips, que expressa uma relação de trade-off entre desemprego e inflação, ele demonstrou que existe uma taxa natural de desemprego não-aceleradora de inflação. Ou seja, um ponto de equilíbrio da taxa de desemprego abaixo da qual a inflação aceleraria. Taxa esta composta pelo desemprego voluntário, pessoas que não desejam trabalhar, e pelo desemprego friccional, pessoas que estão em estado de procura por um novo emprego no curto prazo e, portanto, aptas a tomar o lugar de quem se mostre menos eficiente — a fatia disponível pra selvageria do mercado¹. Isso significa que existe um ponto de desempregabilidade abaixo do qual as expectativas inflacionárias dos agentes econômicos aumentam e fazem-os aumentar aceleradamente os preços. Segundo um artigo do The Economist dedicado a comentar essa teoria após ela ter proporcionado o Nobel ao seu autor:

“Em um mercado de trabalho tão apertado, as empresas apaziguam os trabalhadores oferecendo salários mais altos. Eles então repassam o custo na forma de preços mais caros, trapaceando os trabalhadores com um salário real mais alto. Assim, os formuladores de políticas podem engendrar menos desemprego apenas por engano.” [2]

Ou seja, quanto menor o exército de reserva, maior a capacidade de negociação do trabalhador por melhores salários, dada a menor quantidade de mão de obra disponível, o que faz a lei da oferta e da demanda agir pressionado os salários para cima. Contudo, os empregadores trapaceiam repassando esse aumento do salário aos preços dos próprios produtos que chegam no mercado que são consumidos pelos trabalhadores. Isso cria um cenário de conflito que só se equilibra quando a inflação corresponde às expectativas inflacionárias dos trabalhadores. Isto é, quando o exército de reserva está de um tamanho tal que permite que os preços dos salários – determinados pela oferta e demanda – não proporcionem um aumento dos repasses aos preços dos bens de consumo para além das expectativas inflacionárias dos trabalhadores. Permitindo, assim, que a inflação mantenha-se estabilizada. No entanto, ainda conforme o The Economist:

“Mas o equilíbrio não implica, infelizmente, em pleno emprego. Phelps argumentou que a inflação não irá se estabilizar até que o desemprego aumente para sua “taxa natural”, deixando alguns trabalhadores na prateleira.” [3]

Ou seja, o mainstream, de forma pomposa, finalmente reconheceu a existência do que os socialistas vêm tratando desde o século XIX como essencial ao funcionamento do capitalismo, o exército industrial de reserva. Sendo assim, o constrangimento econômico sofrido pelos trabalhadores, que se veem forçados a competirem ferozmente com seus companheiros, é essencial para manter a inflação estabilizada e, assim, preservar o próprio poder de consumo de sua classe. Ou se diminui o constrangimento econômico com mais postos de trabalho, aumentado a taxa de emprego e prejudicando o poder de compra dos próprios trabalhadores, ou se mantém uma inflação estabilizada, tolerando a existência do exército industrial de reserva e entregando os trabalhadores a um maior constrangimento econômico. O famoso “tiro no pé ou na mão” versão capitalismo. 

Eis que o Trump assume o poder da superpotência capitalista e evidencia de forma cristalina essa contradição intrínseca do capitalismo. Após anunciar uma série de desonerações, que trarão um déficit trilionário, os EUA experimentam a menor taxa de desemprego desde dezembro de 1969 (3,7%) [4], em troca do quarto anúncio de aumento de juros só em 2018 [5]. Pois, segundo os dados do próprio FED, a taxa de desemprego está em um patamar menor que o natural (4~5%) [6]. Democraticamente perguntaram se a nação americana queria um tiro no pé ou na mão; e escolheram no pé, porque com a mão ainda podem ser úteis a esse engodo cheio de contradições chamado capitalismo. Cuja modalidade americana expressa fortemente a emergência do precariado, trabalhadores que, na beira do precipício do exército industrial de reserva, encontram-se nas margens desse boom de empregos, em situação precária, sem moradia ou que dependem de ajuda oficial para comer [6]. Disputando entre si as migalhas na borda desse sistema fisiologicamente excludente e constrangedor àqueles que se entregam à alienação do sistema para se manterem produtivos sob a ameaça de caírem à condição de precariado, enquanto outros comemoram essa digníssima condição de emprego por ser um mero engordador de estatísticas. 

Houve espanto quando em 2016 a taxa de juros foi aumentada pela segunda vez em 8 anos, desde a crise de 2008 [7]. Agora, com o anúncio de um quarto aumento só em 2018, a crise explodir é apenas questão tempo. Certo que um ambiente econômico com juros distorcidos por causa de políticas econômicas irresponsáveis é propício à proliferação de investimentos cujo resultado é desconexo com as expectativas de resultado. Sendo notório que crises nos EUA surgiram em períodos de grande crescimento das taxas de juros [8].

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Cada pico das taxas de juros está historicamente relacionado a uma crise; a rumada para uma nova alta das taxas de juros não permite prever algo diferente

Diante desse prelúdio de mais uma crise estrutural do Capital, Marx não pode ser acusado de que não tentou nos avisar. 

NOTAS:

N1: Alguns incluem também o desemprego clássico, aquele desemprego involuntário sem perspectiva de recuperação de algum posto de trabalho no curto prazo. Contudo, dadas as divergências este texto preferiu trabalhar com o que já é objeto de consenso.

REFERÊNCIAS:

[1] 
MARX, Karl. The General Law of Capitalist Accumulation. In: MARX, Karl. Capital. Moscow: Progress Publishers, 1887. Disponível em: <http://hiaw.org/defcon6/works/1867-c1/ch25.html&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[2]  A NATURAL CHOICE. Londres. 12 out. 2006. Disponível em: <https://www.economist.com/finance-and-economics/2006/10/12/a-natural-choice&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[3]  DESEMPREGO NOS EUA CAI PARA 3,7% EM SETEMBRO, MENOR TAXA EM QUASE 50 ANOS. Rio de Janeiro. 05 out. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/10/05/criacao-de-vagas-de-trabalho-nos-eua-desacelera-em-setembro-taxa-de-desemprego-cai-para-37.ghtml&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[4]  NASDAQ DESABA MAIS 5% E TRUMP DIZ QUE O FED “ESTÁ MALUCO” EM SUBIR JUROS. São Paulo. 10 out. 2018. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/7689356/nasdaq-desaba-mais-de-5-e-trump-diz-que-fed-esta-maluco-em-subir-juros&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[5]  RESERVE, Federal. Natural Rate of Unemployment (Long-Term) (NROU). Disponível em: <https://fred.stlouisfed.org/series/NROU&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[6]  DESEMPREGO BAIXO NOS EUA ESCONDE AUMENTO DO NðMERO DE TRABALHADORES QUE VIVEM EM CONDIÇÕES PRECÁRIAS. Rio de Janeiro, 11 jun. 2018. Disponível em: <https://epoca.globo.com/mundo/noticia/2018/06/desemprego-baixo-nos-eua-esconde-aumento-do-numero-de-trabalhadores-que-vivem-em-condicoes-precarias.html&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[7]  O QUE SIGNIFICA O SEGUNDO AUMENTO DE JUROS NOS EUA EM 8 ANOS. São Paulo, 16 dez. 2016. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/12/16/O-que-significa-o-segundo-aumento-de-juros-nos-EUA-em-8-anos&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

[8]  HOW INTEREST RATE HIKES WILL TRIGGER THE NEXT FINANCIAL CRISIS. Estado Unidos, 27 set. 2018. Disponível em: <https://www.forbes.com/sites/jessecolombo/2018/09/27/how-interest-rate-hikes-will-trigger-the-next-financial-crisis/#2b1af3226717&gt;. Acesso em: 16 out. 2018.

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