Gabriel Brasileiro (publicado originalmente em 19/10/2018)

Este texto tem como finalidade analisar relatório da CELAG — Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica – chamado “Argentina: destino incierto para una crisis económica no heredada”, o qual diagnostica a atual crise argentina [1]. Traçando um paralelo com a teoria do imperialismo de Lênin, será também demonstrado como as medidas neoliberais experimentadas na Argentina durante o governo do Macri foram subservientes aos interesses do mercado internacional e como isso foi de grande oneração à classe trabalhadora nacional. 

Antes de mais nada, faz-se necessário destacar como movimentos e portais brasileiros associados ao liberalismo apoiaram com otimismo a eleição do Macri, tais como o MBL e o Spotniks [2][3]. Não havendo em nenhum momento posterior à crise qualquer crítica ao governo neoliberal, apenas silêncio. Isso demonstra o nível de ideologização desses canais, os quais não perdem a oportunidade de apontar os “fracassos do socialismo”, não obstante, são incapazes de fazer uma autocrítica referente aos fracassos da aplicação de seus ideais. Portanto, resta o papel de crítico a nós, a esquerda anti-neoliberal.

Ainda há aqueles que buscam relativizar a responsabilidade do Macri afirmando que a crise foi herdada. De fato, Macri herdou do governo anterior condições indesejáveis de déficit fiscal e de endividamento externo, quadro este que o atual presidente havia prometido reverter com uma atuação de planos neoliberais. Entretanto, a prática de suas propostas, ao contrário do que fora prometido, aprofundou o endividamento argentino. 

Confiando demasiadamente na capacidade do mercado internacional de proporcionar crescimento econômico à Argentina, Macri tomou algumas medidas liberalizantes que abriram o País ao mundo, tais como: abolição de prazo para permanência do capital financeiro no país e liberalização de importações. Além de ter desmantelado o mecanismo de controle de preços do governo anterior, o que provocou aceleração da inflação e, posteriormente, rápida valorização do câmbio argentino, devido aos ajustes cambiais em relação às novas taxas inflacionárias. Diante disso, segundo a Celag:

“Desta forma, durante os primeiros dois anos do governo, uma taxa de câmbio relativamente apreciada foi combinada com o livre comércio, o que resultou em um esquema macroeconômico inconsistente em termos do setor externo.”

A inconsistência macroeconômica apontada pela Celag envolve justamente a ingenuidade do governo quanto à ferocidade do mercado internacional. Sem retenção mais rígida de remessas do capital financeiro, os investidores internacionais não possuíam interesse em manter seu dinheiro dentro do país por muito tempo, incentivando investimentos especulativos de curto prazo que provocaram mais saída a que receita. Com abertura comercial e câmbio apreciado, o emergente mercado argentino não foi páreo para a competição com o exterior. O câmbio valorizado tornou os produtos argentinos caros no mercado internacional e a derrubada de barreiras de importação tornou produtos estrangeiros baratos para o mercado nacional. Isso gerou um déficit na balança corrente do País que o tornou mais dependente da poupança externa para manter o equilíbrio de suas contas. Contudo, sem regras mais rígidas de retenção de capital financeiro no país, o grosso dos lucros dos investimentos internacionais deixaram o País na mão. Isso agravou o endividamento argentino, o qual foi intensificado mais ainda pela diminuição da carga tributária [4]. Sendo este mais um mandamento do credo neoliberal, que provocou maior decaimento da receita do Estado. Dessa forma, a dívida do Estado argentino disparou, pois, para suprir as perdas arrecadatórias, o Estado precisou contrair mais e mais dívidas¹. [5]

Ademais, após o aumento histórico dos juros básicos dos EUA², houve uma forte saída de investidores dos países emergentes em busca de maiores remunerações com títulos da dívida americana [6]. Provocando desvalorização cambial nesses países, cujo maior prejudicado foi a Argentina, que agora sofre com uma inflação galopante e incontrolável [7]. Tendo essa fortíssima evasão de investidores da Argentina, que não foi tão forte em outras economias, sido influenciada pelo desajuste da conta corrente do governo e pela incerteza de sustentabilidade da crescente dívida pública [8]. A excessiva confiança no mercado pegou Macri, novamente, desprevenido. A grande dívida externa contraída devido à confiança no mercado em proporcionar o financiamento das contas do governo é agora motivo para o próprio mercado não ter confiança no governo argentino.

Após perceber o fracasso das ingênuas medidas neoliberais adotadas , Macri anunciou o aumento de impostos para tentar manter a receita [9], o aumento estratosférico de juros para tentar controlar a inflação e manter investimentos no país [10] e, a mais traumática decisão, o retorno aos braços do FMI para manter o financiamento do déficit fiscal que a abertura econômica por si só não foi capaz de suprir [11]. Um empréstimo de 50 bilhões em junho [12] e de mais 7 bilhões em setembro de 2018 [13]. Um novo compromisso que tornará a Argentina mais uma vez submissa ao FMI. Este que, na década de 90, forneceu 38 bilhões ao País sob a exigência da adoção de paridade um peso = um dólar [14], o que beneficiou o mercado internacional em troca da saúde contábil da Argentina [15]. O povo argentino sofre ao ter que retornar às mãos da instituição capitalista que legou um trauma tão grande à nação.

Embora neoliberais preguem a possibilidade de colaboração multilateralmente benéfica entre agentes internacionais, o mundo real nem sempre segue esse script. Sendo o caso da Argentina um bom exemplo disso, esta que confiou de bom grado nas relações com o mercado internacional e teve sua já péssima condição de endividamento piorado por causa dessa ingênua abertura mercantil e financeira. Isso demonstra como o mercado internacional pode ser ferozmente parasitário à economia de países emergentes. Estando isso de acordo com os ensinamentos de Lênin, o qual corrobora que as periferias do mercado mundial são propensas a sofrerem o “parasitismo característico do imperialismo” [16]. O imperialismo é a fase do capitalismo em que há forças econômicas de magnitude mundial cuja competição é inviável para países como a Argentina. Tornando-os, assim, propensos ao parasitismo financeiro e mercantil toda vez que, crédulos no evangelho ideológico neoliberal, decidem aceitar o mercado internacional como seu salvador. Enquanto oferecem a classe trabalhadora, aquela que está se vendo obrigada a saquear supermercados diante dessa crise [17], como sacrifício.

NOTAS:

N1: Após Macri, a dívida externa argentina aumentou em 35%, tendo o FMI previsto um pico da dívida pública de 65% do PIB ainda em 2018

N2: Para entender o motivo do aumento de juros nos EUA, clique aqui

REFERÊNCIAS:

[1] http://www.celag.org/argentina-destino-incierto-crisis-economica-no-heredada/

[2] https://www.facebook.com/mblivre/videos/por-que-a-imprensa-não-quer-que-você-conheça-maurício-macri/337113943079422/

[3] https://spotniks.com/como-a-argentina-de-macri-esta-aplicando-um-7×1-no-brasil-de-dilma/

[4] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/31/internacional/1509483562_041053.html

[5] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/01/internacional/1514832832_626904.html

[6] https://www.terra.com.br/economia/a-onda-de-desvalorizacao-de-moedas-emergentes,ef847e701791cd49b74e834fb024502f9gakmdge.html

[7] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45470709

[8] https://exame.abril.com.br/economia/a-argentina-em-seu-labirinto-fiscal/

[9]https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/internacional/1535977553_350136.html

[10] https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2018/08/30/banco-central-da-argentina-aumenta-taxa-de-juros-de-45-para-60.htm

[11] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44035325

[12] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/06/argentina-assina-acordo-de-us-50-bilhoes-com-fmi.shtml

[13] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/09/argentina-e-fmi-anunciam-acordo-para-emprestimo-de-mais-us-7-bilhoes.shtml

[14] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/08/internacional/1525812410_093182.html

[15] http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-98482006000200003

[16] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/cap8.htm

[17] https://jornalggn.com.br/noticia/resultado-da-politica-economica-de-macri-argentina-sofre-onda-de-saques

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