Como o racismo americano influenciou Hitler

As raízes internas e externas do nazismo e de seu líder supremo.

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Por Alex Ross, na New Yorker. Tradução de Renato Pincelli.

Adolf Hitler por volta de 1923. Poucos anos mais tarde ele notaria, em tom de aprovação, que os americanos brancos haviam “massacrado (…) milhões de peles-vermelha.” Esse não foi o único caso de sua admiração pela cultura racista norte-americana.

A HISTÓRIA ENSINA MAS NÃO TEM ALUNOS, escreveu o filósofo marxista Antonio Gramsci. Essa frase me vem à cabeça sempre que passo pela seção de História de uma livraria. Dizem alguns no mundo editorial que você nunca vai fracassar com livros sobre Lincoln, Hitler e cachorros; outros falam o mesmo sobre golfe, nazistas e gatos. Na Alemanha, é lugar-comum esperar que as capas de revista sempre mostrem algo sobre Hitler ou sexo. Seja como for, Hitler e o nazismo dão uma força ao mercado editorial: todo ano aparecem centenas de títulos e o total passa bastante das dezenas de milhares.

Nas prateleiras das lojas, eles nos olham às dúzias, com lombadas rubro-branco-negras inspiradas na bandeira nazista, títulos latindo em fontes góticas e capas saturadas com suásticas. No catálogo, encontram-se “Fui Piloto de Hitler”, “Fui Chofer de Hitler”, “Fui Médico de Hitler”, “Meu Vizinho, Hitler”, “Hitler era meu amigo” ou “…meu chefe” e “Hitler não é Bobo”. Escrevem-se livros sobre a juventude de Hitler, seus anos em Viena e Munique, sua participação na I Guerra Mundial, sua chegada ao poder, sua biblioteca, seus gostos artísticos, seu amor pelo cinema, suas relações com mulheres e até suas preferências em decoração (“Hitler em Casa”).

Por que esses livros se acumulam em quantidades ilegíveis? Pode parecer uma pergunta perversa. O Holocausto é o maior crime da História, algo que as pessoas continuam tentando entender desesperadamente. O mergulho da Alemanha, do ápice da civilização às profundidades da barbárie, é um choque duradouro. Ainda assim, o negócio das capas “ensuasticadas” mostra bem claramente o inegável talento de Hitler para o design gráfico — a bandeira nazista foi, aparentemente, criação dele, após “inúmeras tentativas”, segundo o “Mein Kampf”.

No ensaio “Fascismo Fascinante” (1975), Susan Sontag afirma que o apelo da iconografia nazista tornou-se erótico, não apenas nos círculos de S & M [sado-masoquismo] mas também na cultura em geral. Isso foi, conforme Sontag, uma “resposta a uma liberdade opressiva de escolha no sexo (e possivelmente em outras matérias), a um certo grau insuportável de individualidade”. É quase certo que os movimentos neo-nazi ajudaram a perpetuar a mística negativa de Hitler.

Os americanos parecem ter um apetite aparentemente insaciável por livros, filmes, programas de TV, documentários, games e quadrinhos com temática nazista. As estórias sobre a II Guerra os consolam com lembranças dos dias anteriores ao Vietnã, ao Camboja, ao Iraque, quando os Estados Unidos eram a super-potência de bom coração, correndo ao resgate de uma Europa paralisada pelo totalitarismo e apaziguamento. Entretanto, numa continuidade sombria, cientistas alemães foram importados para a América e passaram a trabalhar para seus ex-inimigos, criando tecnologias de destruição em massa muito além da imaginação de Hitler.

Os nazistas idolatravam muitos aspectos da sociedade americana: a cultura do esporte, os valores das produções de Hollywood, a mitologia da fronteira. Desde a infância, Hitler devorava os westerns de Karl May, um popular novelista alemão. Em 1928, Hitler notou, com aprovação, que os colonos brancos dos EUA haviam “massacrado os peles-vermelhas, de milhões para algumas centenas de milhares”. Quando falava do Lebensraum, a necessidade alemã de “espaço vital” no Leste Europeu, ele costumava ter em mente os EUA.

Entre as obras recentes sobre o nazismo, o que mais provoca desconforto ao leitores americanos é de James Q. Whitman: Hitler’s American Model: The United States and the Making of Nazi Race Law [O Modelo Americano de Hitler: os Estados Unidos e a Criação da Lei Racial Nazista], editora Princeton. Na capa, a indefectível suástica é ladeada por duas estrelas vermelhas. No miolo, Whitman explora como os nazistas buscaram inspiração no racismo americano da virada do século XIX para o XX. O autor ressalta que, em “Mein Kampf”, Hitler elogia os EUA como o único país que fez progresso no sentido de uma concepção basicamente racial da cidadania, por “excluir certas raças da naturalização”.

Whitman escreve que a discussão de influências como essa é quase um tabu, pois os crimes do Terceiro Reich costumam ser definidos como “o nefandum, a decadência inefável no que geralmente chamamos de ‘mal radical’”. Mas o tipo de ódio genocida que apareceu na Alemanha já havia sido visto ates e já foi visto depois. Só ao despi-lo de suas regalias nacionais e compreendendo sua forma humana essencial é que temos alguma esperança de derrotá-lo.


A VASTA LITERATURA sobre Hitler e o nazismo está sempre rodeando algumas questões duradouras. A primeira é biográfica: como um aquarelista austríaco transformado em militar emergiu como agitador da extrema-direita alemã após a Primeira Guerra Mundial? A segunda é sociopolítica: como uma sociedade civilizada acabou por abraçar as ideias extremistas de Hitler? A terceira tem a ver com a intersecção entre o homem e o regime: até que ponto Hitler tinha controle sobre a máquina do Terceiro Reich? Todas essas questões miram no enigma central do Holocausto, que tem sido interpretado diversamente, ora como ação premeditada, ora como improviso bárbaro. Em nossos tempos de racismo descarado e ressurgência do autoritarismo, a mecânica da ascensão de Hitler é um tema particularmente importante. Para os demolidores da democracia, não existe exemplo melhor.

Desde 1945, a historiografia do nazismo passou por várias transformações amplas, que refletem pressões políticas vindas tanto de dentro quanto de fora da Alemanha. Nos primórdios da Guerra Fria, o surgimento da Alemanha Ocidental como um bastião contra a ameaça soviética desencorajava uma interrogação profunda dos valores culturais alemães. A primeira grande biografia de Hitler no pós-guerra, publicada em 1952 pelo historiador britânico Allan Bullock o retrata como um charlatão, um manipulador, um “um oportunista inteiramente desprovido de princípios”. Os pensadores alemães tendiam a deixar Hitler de lado, partindo para explicações mais sistêmicas. As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt, indicam que as energias ditatoriais são formadas a partir da solidão do sujeito moderno.

Nos anos 1960 e 1970, conforme a Realpolitik da Guerra Fria perdeu força e do horror do Holocausto foi compreendido, muitos historiadores adotaram o que ficou conhecido como tese Sonderweg — a ideia de que a Alemanha percorreu um “caminho especial” nos séculos XIX e XX, distinto dos demais países ocidentais. Desse ponto de vista, a Alemanha do Período Guilhermino [i.e., do reinado de Guilherme II, entre 1888 e 1918] falhou no desenvolvimento de linhas liberal-democráticas saudáveis e a incapacidade de se modernizar politicamente abriu terreno para o Nazismo.

Na Alemanha, estudiosos de linha esquerdista, como Hans Mommsen, usaram esse conceito para clamar por um grau mais elevado de responsabilidade coletiva. Focar em Hitler, segundo o argumento, seria uma evasão, implicando que o Nazismo teria sido algo que ele impôs ao nós. Mommsen delineou uma “radicalização cumulativa” do Estado nazista, onde Hitler funciona como um “ditador fraco”, cedendo a tomada de decisões para agências burocráticas concorrentes.

Externamente, a teoria Sonderweg foi mais para o lado punitivo, condenando a História e a cultura da Alemanha como um todo. William Manchester fecha The Arms of Krupp [As Armas de Krupp], seu livro de 1968, com uma imagem lúgubre: “o primeiro selvagem ariano, de cócoras em seu traje de peles soltas, equilibrando um dardo rudimentar, tenso, alerta, escondido pela noite e a neblina, estava pronto, esperando e esperando.”

O argumento Sonderweg foi atacado em múltiplas frentes. No que ficou conhecido como Historikerstreit [Disputa de Historiadores], acadêmicos de direita alemães propuseram o fim do ritual de autoflagelação nacional: eles colocaram o Nazismo como reação ao Bolchevismo e classificaram o Holocausto como um genocídio entre muitos outros. Joachim Fest, que publicou a primeira grande biografia em alemão de Hitler, também se afastou da escola Sonderweg. Ao retratar Hitler como uma figura todo-poderosa, quase demoníaca, Fest praticamente deixa de culpar os conservadores da República de Weimar que colocaram Hitler em seu cargo. Interpretações mais dúbias apresentam o Hitlerismo como um experimento que modernizou a Alemanha mas perdeu o controle. Tais ideias perderam terreno na Alemanha, ao menos por enquanto: lá, no discurso mainstream, a aceitação da responsabilidade pelo terror nazista é axiomática.

Fora da Alemanha, muitas críticas ao Sonderweg partiram da esquerda. Os pesquisadores britânicos Geoff Eley e David Blackbourn questionam, em The Peculiarities of German History [As Peculiaridades da História Alemã], de 1984, a “tirania da retrospectiva” — uma perspectiva altiva, que reduz uma sequência de eventos complexos e contingentes a uma progressão irreversível. No suposto Kaiserreich retrógrado, Eley e Blackbourn identificam várias forças liberalizantes em ação: reformas habitacionais, iniciativas de saúde pública, uma imprensa empoderada. Era uma sociedade manchada pelo antissemitismo, mas não viu nenhuma agitação na escala do Caso Dreyfus ou do sangrento Tiszaeszlár da Hungria. Os dois autores também questionam se a Grã-Bretanha elitista e imperialista deveria ser considerada modelo de modernidade. A narrativa Sonderweg pode se tornar um conto-de-fadas exculpatório para outras nações: nós podemos ter errado, mas nunca seremos tão terríveis como os alemães.

Em sua monumental biografia em dois volumes (1998–2000), Ian Kershaw encontra um meio-termo plausível entre as imagens de Hitler como “forte” ou “fraco” no poder. Com uma agenda notura, desinteresse pela papelada e aversão ao diálogo, Hitler seria, para dizer o mínimo, um executivo excêntrico. Para dar sentido a uma ditadura com um ditador intermitente e ausente, Kershaw expõe o conceito de “trabalhar no sentido do Führer”: quando não havia orientação explícita de Hitler, os funcionários nazistas adivinhavam o que ele queria, muitas vezes radicalizando suas políticas.

Ainda que os debates sobre a natureza da liderança de Hitler andem para lá e para cá, os estudiosos concordam que sua ideologia já estava mais ou menos fixa em meados dos anos 1920. Suas duas obsessões permanentes eram o antissemitismo violento e o Lebensraum. Já em 1921 ele falava em confinar os judeus em campos de concentração e, em 1923, contemplava a ideia de matar toda a população judaica — ideia rejeitada momentaneamente. O Holocausto foi resultado de um silogismo cruel: se a Alemanha precisava se expandir para o Leste, onde viviam milhões de judeus, eles precisariam ser extintos porque os alemães não poderiam coexistir com eles.


AS PESSOAS TENTAM sondar a psique de Hitler há quase um século. Em Explaining Hitler [Explicando Hitler, 1998], Ron Rosembaum faz uma turnê por outras teorias mais extraordinárias. Entre outras coisas, foram feitas sugestões de que a chave para entender Hitler seria o fato de que: ele teve um pai abusivo ou que era apegado demais à mãe ou que teve um avô judeu; que foi portador de encefalite ou contraiu sífilis de uma prostituta judia; que botava a culpa num médico judeu pela morte da mãe; que tinha um testículo a menos ou foi submetido a um tratamento de hipnose descontrolado; que era gay ou que mantinha fantasias coprofílicas em relação à sobrinha; que foi apodrecido pelas drogas ou — meu favorito — que seu antissemitismo foi despertado depois de frequentar brevemente a escola com Ludwig Wittgentein em Linz. Na raiz dessa mania especulativa está o que Rosenbaum chama de mentalidade da “caixa-preta perdida”: basta uma investigação detetivesca e o mistério pode se resolver com um golpe sherlockiano.

Os historiadores acadêmicos, porém, costumam retratar Hitler como uma cifra, como um ninguém. Kershaw o considerou um “homem sem qualidades”. Volker Ullrich, escritor e jornalista alemão, há muito associado ao semanário Die Zeit, sentia a necessidade de uma biografia mais voltada para a vida privada de Hitler. O primeiro volume de Ullrich, Hitler: Ascent 1889–1939 foi publicado pela Knopf em 2016, numa tradução fluida [para o inglês] de Jefferson Chase. O Hitler de Ullrich não é nenhum feiticeiro tirânico que captura uma Alemanha inocente. Ao contrário, ele é um camaleão, bem consciente da imagem que projeta. “O suposto vazio”, escreve Ullrich, “era parte da persona de Hitler, um meio de ocultar sua vida pessoal e apresentar-se como um político inteiramente identificado com seu papel de líder.”

Assim, Hitler podia posar como um cavalheiro culto nos salões de Munique, como um pistoleiro numa cervejaria e como um boêmio em companhia de cantores e artistas. Sua memória excepcional lhe permitia assumir um ar de mistério superficial. Sua segurança, porém, falhava na presença de mulheres: Ullrich mostra a vida amorosa de Hitler como uma série de fixações praticamente irrealizadas. Nem é necessário dizer que ele era um narcisista extremo, sem qualquer empatia. Muito se fala de seu amor aos cachorros, mas ele era cruel com eles.

Desde a adolescência, Hitler era um sonhador e um solitário. Avesso a participar de grupos e ainda menos inclinado em liderá-los, ele mergulhava em livros, músicas, arte. Sua ambição de tornar-se pintor foi dificultada pela técnica limitada e por uma reveladora falta de habilidade para figuras humanas. Quando se mudou para Viena, em 1908, escorregou para as margens da sociedade, residindo brevemente num abrigo para sem-tetos e numa pensão para homens. Em Munique, entretanto, para onde foi em 1913, ele cavou uma vida de artista, passando os dias no museu e as noites na ópera. Entrou em contato com Wagner, mas parece ter tido pouco entendimento das complicações e ambiguidades psicológicas do compositor.

Um retrato nítido do jovem Hitler pode ser encontrado no surpreende ensaio “Bruder Hitler”, de Thomas Mann, cuja versão em inglês apareceu na Esquire em 1939 sob o título “Aquele Homem é Meu Irmão”. Traçando um paralelo entre suas próprias experiências e as de Hitler, Mann escreve sobre uma “arrogância básica, aquele sentimento de ser bom demais para qualquer atividade honrosa e razoável — com base em quê? Numa vaga noção de estar reservado para alguma outra coisa, algo bem indeterminado — que, se fosse mencionado, levaria as pessoas ao riso.”

Apesar das alegações do “Mein Kampf”, não existe evidência clara de que Hitler nutria uma visão intensamente antissemita na juventude ou no começo da vida adulta. Aliás, ele parece ter tido relações amistosas com vários judeus em Viena e Munique. Isso não significa que ele estava livre do lugar-comum do antissemitismo. Ele era, sem dúvida, um fervente nacionalista alemão: quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914, ele se alistou ao Exército alemão e se saiu bem como soldado. Durante a maior parte da guerra, serviu como mensageiro dos comandantes de seu regimento. O primeiro sinal de guinada à direita aparece numa carta de 1915, onde Hitler expressa a esperança de que a guerra levaria ao fim o “internacionalismo de dentro” da Alemanha.

Thomas Weber, historiador que descreveu os anos do soldado Hitler em Hitler’s First War [A Primeira Guerra de Hitler, 2010], escreveu recentemente Becoming Hitler: The Making of a Nazi [Tornando-se Hitler: a criação de um nazi], onde estuda sua metamorfose pós-guerra. É importante notar que Hitler permaneceu no Exército após o Armistício e os soldados nacionalistas insatisfeitos tendiam a se juntar em grupos paramilitares. Como os partidos sociais-democratas foram as forças dominantes na fundação da República de Weimar, Hitler estava tecnicamente representando um governo de esquerda — e até serviu sob a efêmera República Soviética da Bavária. Entretanto, é dúbio acreditar que ele tinha simpatias pela esquerda. Ele provavelmente ficou no Exército porque, como escreve Weber, ele “dava uma razão de ser à sua existência”. Até seu trigésimo aniversário, em abril de 1919, não havia qualquer sinal do futuro Führer.

A anarquia sem precedentes na Bavária pós-guerra explica o que aconteceu em seguida. Chacinas tornaram-se rotina e políticos eram assassinados quase toda semana. A esquerda era apontada como culpada pelo caos e o antissemitismo cresceu pelo mesmo motivo: muitos líderes proeminentes da esquerda eram judeus. Depois, veio o Tratado de Versalhes, assinado em junho de 1919.

Em The Vanquished: Why the First World War Failed to End [Os Derrotados: por que a Primeira Guerra não Acabou] Robert Gerwarth enfatiza o efeito de tiro pela culatra que o tratado teve sobre as potências centrais derrotadas. Segundo ele, os políticos alemães e austríacos acreditavam ter “rompido com as tradições autocráticas do passado, cumprindo assim um critério fundamental dos Quatorze Pontos de Wilson para uma ‘paz justa’.” A severidade dos termos de Versalhes atropelou essa retórica idealista.

No dia seguinte à ratificação do tratado pela Alemanha, Hitler começou a frequentar aulas de propaganda voltadas à repressão de tendências revolucionárias. Elas o incensaram com ideias extremas, anticapitalistas e antissemitas. O oficial responsável pelo programa era uma figura trágica: Karl Mayr, que mais tarde deixou a direita pela esquerda e morreu no campo de concentração de Buchenwald, em 1945.

Mayr descreveu Hitler como um “cachorro de rua cansado e à procura de um dono”. Ao notar o dom discursivo de Hitler, Mayr fez dele um palestrante e mandou-o para Munique como observador de atividades políticas. Ali, em setembro de 1919, Hitler entrou em contato com o Partido dos Trabalhadores Alemães, uma facção política minúscula e marginal. Ele discursou em uma reunião e juntou-se ao partido. Em questão de meses, ele tornou-se o principal orador do grupo, que foi rebatizado como Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.


SE A RADICALIZAÇÃO de Hitler aconteceu assim tão rápido — e nem todos os historiadores concordam nesse ponto — , esse progressão tem semelhança assustadora com as histórias que lemos rotineiramente nos noticiários de hoje: o rapaz suburbano, amante de gatinhos e de ar inofensivo que assiste vídeos de supremacistas brancos no YouTube e depois se junta a um grupo Neonazi no Facebook. Mas o que é historicamente importante não é tanto o abraço de Hitler ao nacionalismo beligerante e ao antissemitismo assassino e sim o dom que ele tinha para injetar esse retórica no discurso mainstream.

Hitler: Biographie— um calhamaço de 1300 páginas escrito por Peter Longerich e publicado na Alemanha em 2015 — apresenta uma imagem potente das habilidades de Hitler como orador, organizador e propagandista. Mesmo os que achavam suas palavras repulsivas foram hipnotizados por ele, que começava quieto, quase hesitante e testava sua audiência criando suspense. Ele divertia a multidão com comentários sardônicos e imitações dramáticas. Em termos de estrutura musical, era como um crescendo rumo a uma raiva triunfante. Como nota Longerich, “era um estilo excêntrico, quase ridículo, descontrolado, obviamente sem treinamento e, ao mesmo tempo, extático e sublime, que evidentemente passava à audiência a ideia de singularidade e autenticidade.”

Acima de tudo, Hitler sabia como se projetar pelas mídias de massa, afiando suas mensagens para fazê-las penetrar no ruído branco da política. Ele incentivou a produção de cartazes, pôsteres e slogans cativantes e, em pouco tempo, aprendeu a lidar com o rádio e o cinema. Simultaneamente, os esquadrões de Camisas-Pardas brutalizavam e assassinavam seus oponentes, intensificando a mesma desordem que Hitler prometia curar. Sua maior façanha veio depois do fracasso do Golpe da Cervejaria, em 1923, que deveria ter enterrado sua carreira política. No julgamento subsequente, Hitler poliu sua narrativa pessoal, colocando-se como mero soldado que havia ouvido o chamado do destino. Na prisão, escreveu a primeira parte do “Mein Kampf”, em que concluiu a construção de sua visão de mundo.

Nos anos 1920, muitos liberais viam Hitler como uma figura assustadora porém ridícula, que não representava uma ameaça séria. Ao longo da década, a República de Weimar meio que se estabilizou e a porcentagem dos votos nazistas declinou para índices de um dígito. Foi a miséria econômica da virada dos anos 20 para os 30 que abriu uma nova oportunidade, aproveitada por Hitler.

Com destreza, Benjamin Carter Hett sumariza esse período medonho em The Death of Democracy: Hitler’s Rise to Power and the Downfall of the Weimar Republic [A Morte da Democracia: ascensão de Hitler ao poder e queda da República de Weimar]. Os conservadores, segundo o autor, cometeram o erro grotesco de ver em Hitler apenas uma ferramenta para agitar as massas. Eles também minaram a democracia parlamentar, enfraqueceram governos regionais e assim montaram o palco para o Estado nazista.

A esquerda, por outro lado, estava dividida internamente. Por pressão de Stalin, muitos comunistas viam os sociais-democratas, e não os nazistas, como o verdadeiro inimigo — os “social-fascistas”, como se dizia. A mídia estava ocupada em distrações da cultura pop, enquanto os jornais de tradição liberal perdiam circulação. Jornalistas corajosos, como Konrad Heiden, tentaram conter a enxurrada de propaganda nazista, mas sentiram que o esforço era inútil. Como escreveu Heiden, “a refutação seria ouvida, talvez entendida, mas logo esquecida definitivamente”.

Contido, Hett evita indicar ao leitor os muitos paralelos óbvios com o mundo contemporâneo, mas ele sabia o que fazia ao deixar de fora do título o adjetivo “alemão”. Nas páginas finais do livro, ele põe suas cartas na mesa:

Pensar no fim da democracia de Weimar desse modo — como resultado de um grande movimento de protesto colidindo com os padrões complexos de auto-interesse elitista, numa cultura cada vez mais inclinada à irracionalidade e à mitologia agressiva — retira qualquer ar de exotismo estrangeiro de bandeiras com suásticas e stormtroopers marchantes. De repente, a coisa toda parece íntima e familiar.

Sim, parece mesmo.

O que diferencia Hitler da maioria das figuras históricas autoritárias era o modo como ele se via, considerando-se um artista-gênio, que usava a política como suporte. É um engano chamá-lo de artista fracassado pois, para ele, a política e a guerra eram a continuação da arte por outros meios. Esse é o foco de Hitler: Der Künstler als Politiker und Feldherr [O Artista como Político e Comandante], livro de Wofram Pyta que é uma das mais notáveis adições recentes à literatura sobre o tema.

Embora a estetização da política não seja exatamente um tópico novo — Walter Benjamin já discutiu isso nos anos 1930, bem como Mann — Pyta trata do tema com uma profundidade magistral, demonstrando como Hitler corrompeu o culto romântico ao gênio para se reincarnar como um líder transcendente, que paira acima de tudo e todos. A propaganda de Goebbels estava toda ancorada nessa premissa e seus diários indicam que ele acreditava nisso: “Adolf Hitler, eu te amo porque você é ao mesmo tempo grande e simples”.

O verdadeiro artista não se compromete. Desafia os céticos e os zombadores, imaginando o impossível. Esse é o tom da infame “profecia” de Hitler sobre a destruição dos judeus europeus, em 1939:

Muitas vezes tenho sido um profeta, e geralmente têm rido de mim… Eu acredito que o riso outrora retumbante da judiaria na Alemanha agora ficará preso em suas gargantas. Hoje, quero ser profeta de novo — se os financistas judeus internacionais dentro e fora da Europa tiverem sucesso em mais uma vez empurrar as nações para uma guerra mundial, então o resultado será não a bolchevização da Terra e vitória da judiaria, mas a aniquilação da raça judaica na Europa.

Há muito que os acadêmicos discutem sobre quando foi tomada a decisão de executar a Solução Final. A maioria, hoje, acredita que o Holocausto foi uma escalada de ações, impulsionadas tanto por pressões vindas tanto de baixo quanto de cima. Entretanto, não foi necessária nenhuma ordem. A “profecia” de Hitler era, em si, uma ordem velada. No verão de 1941, quando centenas de milhares de judeus e eslavos eram mortos durante a invasão da União Soviética, Goebbels notou que Hitler falava em como a profecia estava sendo cumprida de modo “quase fantástico”. Parecem os termos de um connoisseur admirando uma obra-prima e foram essas e outras atrocidades intelectuais que levaram Theodor Adorno a declarar que, depois de Auschwitz, escrever poesia seria uma barbaridade.


HITLER E GOEBBELS foram os primeiros a relativizar o Holocausto, os primeiros a fazer falsas equivalências. “Os campos de concentração não foram inventados na Alemanha”, disse Hitler em 1941. “Foram os ingleses que o inventaram, usando essa instituição para quebrar gradualmente as costas de outras nações.” Os britânicos, destacavam os nazistas, operavam campos na África do Sul. Similarmente, os propagandistas do partido ressaltavam os sofrimentos dos nativos americanos e os massacres de Stalin na União Soviética. Em 1943, Goebbels transmitiu com ar triunfante as notícias do Massacre da Floresta de Katyn, no qual a polícia secreta soviética matou mais de 20 mil poloneses — Goebbels queria até mostrar filmagens das valas comuns, mas os generais o impediram. Os neonazistas mantêm este projeto até hoje, ora negando o Holocausto, ora buscando justificá-lo.

A magnitude desta abominação quase proíbe que ela seja mencionada na mesma frase que qualquer outro horror. E, no entanto, o Holocausto teve dimensões inevitavelmente internacionais, com linhas de influência, círculos de cumplicidade e momentos de congruência. O “antissemitismo científico”, como Hitler gostava de dizer, ecoava Arthur de Gobineau, teórico racista francês e os intelectuais antissemitas que normalizaram sua linguagem venenosa durante o Caso Dreyfus. O Império Britânico era o ideal de Hitler de uma raça superior em repouso dominante. Os “Protocolos dos Sábios de Sião”, farsa russa feita por volta de 1900, abasteceram a paranoia nazista.

Genocídio Armênio (1915–16) encorajou a crença de que a comunidade internacional pouco se importaria com o destino dos judeus. Pouco antes do estouro da II Guerra Mundial, Hitler falou sobre os planos de assassinato em massa de poloneses e perguntou: “quem, hoje em dia, ainda fala sobre a destruição dos armênios?”

Em quase todo lugar que invadiram, os nazistas encontraram colaboradores. Numa cidadezinha da Lituânia, uma multidão festejava enquanto um morador local espancava dezenas de judeus até a morte. Depois, ele subiu em cima dos corpos dos mortos e tocou o hino nacional lituano num acordeão. Enquanto isso, os soldados alemães só olhavam e tiravam fotos.

As matanças realizadas por Hitler e Stalin existiam quase que simbioticamente, uma dando licença à outra, em ciclos de vingança sem qualquer remorso. As deportações dos alemães do Volga por Stalin eram seguidas por deportações em larga escala de judeus dos países do Terceiro Reich. Reinhard Heydrich, um dos arquitetos do Holocausto, pensava que, assim que a URSS fosse derrotada, os judeus da Europa poderiam ser deixados à morte nos gulags.

A alegação mais perigosa feita por historiadores direitistas é que o terror nazi seria uma resposta ao terror bolchevique e, portanto, seria desculpável até certo ponto. Entretanto, é possível ter em vista um panorama inteiramente monstruoso sem minimizar a responsabilidade dos perpetradores de cada lado. Esse é o feito de Timothy Snyder no profundo e perturbador Bloodlands [Terras de Sangue, 2010], onde ele parece fixar câmeras em vários pontos da Europa Oriental, registrando ondas e mais ondas de massacres.

A relação de Hitler com os EUA vai bem além de suspeitos óbvios, como Henry Ford e Charles Lindbergh. Em Hitler’s American Model [O Modelo Americano de Hitler], Whitman faz uma análise comparativa das leis raciais nazistas e estadunidenses e complementa estudos anteriores, comoThe American West and the Nazi East [O Oeste Americano e o Leste Nazi], de Kakel — uma discussão entre os paralelos do Destino Manifesto e do Lebensraum — eThe Nazi Connection [A Conexão Nazista], de Stefan Kühl — que descreve o impacto do movimento eugenista americano no pensamento nazista. Essas leituras são provocadoras no tom e, às vezes, tendenciosas, mas são um exercício necessário de auto-exame, do tipo que a Alemanha moderna faz de modo exemplar.

Os nazistas não estavam errados em citar os precedentes norte-americanos. A escravização dos afro-americanos foi inscrita na Constituição dos EUA. Thomas Jefferson falava da necessidade de “eliminar” ou “extirpar” os nativos americanos. Em 1856, um assentado no Oregon escreveu: “Extermínio, por mais que pareça anticristão, parece ser o último recurso que resta à proteção da vida e da propriedade.” O general Philip Sheridan também falava de “aniquilação, obliteração e completa destruição” dos índios.

É verdade que muitos outros promoviam políticas mais pacíficas — mas ainda repressivas. O historiador Edward B. Westerman conclui, em Hitler’s Ostkrieg and the Indian Wars [A Ostkrieg de Hitler e as Guerra Indígenas], que como a política federal nunca ordenou oficialmente “a aniquilação das populações nativas com base em raça ou suas características”, esse não seria um genocídio da ordem da Shoah. O fato é que, entre 1500 e 1900, a população nativa nos territórios dos EUA despencou de vários milhões para cerca de 200 mil.

A facilidade dos americanos em manter um ar de inocência robusta diante do genocídio foi vista por Hitler como exemplo a ser seguido. Ele fez menções frequentes ao Oeste americano nos primeiros meses da invasão soviética: o Volga, dizia, seria “nosso Mississippi”. “A Europa — e não a América — é que será a terra das oportunidades ilimitadas”. Polônia, Belarus e Ucrânia seriam povoadas por famílias de pioneiros, soldados-fazendeiros. Os campos de grãos seriam atravessador por autobahns. Os habitantes daquelas terras — dezenas de milhões — seriam deixados à míngua, para morrer de fome. Ao mesmo tempo, e sem qualquer sinal de contradição, os nazistas prosseguiram com a velha romantização alemã dos ameríndios. Um dos esquemas mais obscuros de Goebbels era dar status de arianos honorários às tribos norte-americanas, na esperança de que elas se levantassem contra seus opressores.

Em termos legislativos, as leis de segregação no sul dos EUA serviam de precedentes. Estudiosos sempre souberam que o regime hitlerista expressava admiração pelas leis raciais norte-americanas, mas eles tendiam a ver isso como uma estratégia de relações-públicas — uma justificativa do tipo “todo mundo faz isso” para as políticas nazistas. Entretanto, como nota Whitman, se essas comparações fossem feitas apenas para uma audiência estrangeira, elas não teriam sido enterradas em volumosos tomos impressos em tipos góticos.

“A Lei Racial nos Estados Unidos”, um estudo de 1936 feito pelo advogado alemão Heinrich Krieger, tenta entender as inconsistências no status legal dos americanos não-brancos. Krieger conclui que todo o aparato jurídico sobre o tema é incorrigivelmente opaco, escondendo objetivos racistas por trás de contorcionismos legais. Por que não dizem logo o que querem dizer? Essa era uma grande diferença entre os racismos alemão e americano.

Os eugenistas americanos, por outro lado, não escondiam seus objetivos racistas e suas ideias eram tão prevalentes que F. Scott Fitzgerald as menciona em The Great Gatsby — onde o rude Tom Buchanan, que parece ter lidoThe Rising Tide of Color Against White World-Supremacy [A Maré das Pessoas de Cor contra a Supremacia Mundial Branca], tratado de Lothrop Stoddard de 1920, declara: “A ideia é que, se baixarmos a guarda, a raça branca vai ser — será definitivamente afogada”.

A Lei de Esterilização de Hitler (1934) foi diretamente inspirada no programa de esterilização da Califórnia. Também existem semelhanças sinistras, ainda que sejam coincidências, entre as máquinas de morte americanas e alemãs. A primeira execução por câmara de gás foi realizada em Nevada, em 1924. Ao tratar da história da câmara de gás americana, Scott Christianson lembra que o gás Zyklon-B foi licenciado à companhia American Cyanamid pela empresa alemã I. G. Farben. Os americanos consideraram a substância letal, mas imprática. Porém, o Zyklon-B seria usado para desinfetar imigrantes que cruzavam a fronteira em El Paso — um uso que não passou em branco para Gerhard Peters, químico que forneceu uma versão modificada do Zyklon-B para Auschwitz.

Mais tarde, as câmaras de gás americanas seriam aperfeiçoadas com um alçapão de onde caíam as pastilhas de veneno. Como explicou Earl Liston, inventor do dispositivo, “puxar uma alavanca para matar um homem é trabalho duro. Derramar ácido por uma tubulação é mais simples para os nervos, mais parecido com regar flores.” Praticamente o mesmo método foi introduzido em Auschwitz para aliviar o estresse dos guardas da SS.

Quando elogiava as restrições americanas à naturalização, Hitler tinha em mente a Lei de Imigração de 1924, que impôs cotas por nacionalidade e barrou a maioria dos povos asiáticos. Para observadores nazistas, era uma evidência de que, apesar de sua retórica sobre igualdade, os EUA estavam no caminho certo. A Lei de Imigração americana também teve um papel em facilitar o Holocausto, pois suas cotas impediram que milhares de judeus — inclusive Anne Frank e sua família — chegassem aos Estados Unidos.

Em 1938, o presidente Franklin Roosevelt convocou uma conferência internacional sobre os refugiados europeus. O evento, realizado em Évian-les-Bains, França, não teve nenhum resultado significativo. O Ministério das Relações Exteriores alemão, numa resposta ácida, considerou “surpreendente” que outros países condenassem o tratamento dado aos judeus na Alemanha e depois se negavam a recebê-los.

Centenas de milhares de americanos morreram ao combater a Alemanha nazista. Mesmo assim, o desprezo aos judeus persistiu, inclusive contra sobreviventes do Holocausto. O general George Patton criticava os bom-samaritanos, gente que “acredita que o Desalojado é um ser humano, o que não é, e isso se aplica particularmente aos judeus, que estão abaixo dos animais.” Os cientistas nazistas, entretanto, se deram bem.

A sombria história de Wernher von Braun e seus colegas do programa V-2 é revista por Brian Crim em Our Germans: Project Paperclip and the National Security State [Nossos Alemães: o Projeto Clipe de Papel e o Estado de Segurança Nacional]. Ao ser capturado, em 1945, von Braun percebeu que os soviéticos seriam os arqui-inimigos do complexo militar-industrial americano. Astuto, ele promoveu a ideia de que um programa de armas de alta tecnologia iria varrer a ameaça bolchevique.

Assim, exceto pelo trabalho escravo, ele foi capaz de reconstruir quase toda sua operação Stateside. Seus antecedentes foram amaciados, seu processo de desnazificação foi acelerado (por ser considerado “desmoralizante”) e sua imigração foi quase imediata. J. Edgar Hoover [fundador do recém-criado FBI] ficou preocupado com obstrucionistas do Departamento de Estado, que estariam fazendo perguntas demais sobre o histórico dos cientistas [alemães]. O senador Styler Bridges chegou a propor que o Departamento de Estado precisava de um “cargo de fumigação de cianeto de primeira linha”.


TODOS ESSES deprimentes pontos de contato são pouco mais do que notas de rodapé na História do Nazismo, mas nos revelam alguma coisa sobre a América moderna. Como um contraste injetado na corrente sanguínea, eles expõem os pontos fracos da consciência nacional. A disseminação de propaganda de supremacia branca na internet é o capítulo mais recente. Como observou recentemente a escritora Zeynep Tufekci no [New YorkTimes, o YouTube é um veículo imbatível para a circulação desse tipo de conteúdo, com algoritmos que guiam o usuário para material cada vez mais inflamatório. Segundo ela, “dados os seus bilhões de usuários, o YouTube deve ser um dos mais potentes instrumentos de radicalização do século XXI”.

Outro dia, fiz uma busca por Hitler no YouTube e o primeiro vídeo que apareceu era intitulado “Best Hitler Documentary in COLOR!” — tratava-se da produção britânica Hitler in Color. No topo dos comentários, destacava-se um comentário pró-Hitler e, graças ao Autoplay, logo passei a ver contribuições de usuários como CelticAngloPress e SoldatdesReiches.

Numa reportagem de 1990, a Vanity Fair afirmou que Donald Trump tinha um livro com discursos de Hitler em sua cabeceira. Quando foi questionado sobre isso, Trump respondeu que “se tivesse esses discursos, e digo que não tenho, nunca leria eles”. Desde que entrou para a política, Trump tem sido comparado a Hitler e não só pelos neonazistas. Embora possam ser vistas algumas semelhanças — às vezes Trump parece imitar a estratégia hitlerista de cultivar rivalidades entre seus subordinados e seus comícios são rituais catárticos de racismo, xenofobia e auto-elogio — as diferenças são bem claras.

Para começar, Hitler tinha mais disciplina. Mais válido é considerar como a habilidade de demagogia maligna de Hitler exploraria com eficácia as falhas na democracia americana. Ele certamente teria ao seu dispor políticos direitistas covardes, herdeiros dignos de HindenburgBrüningvon Papen e Schleicher. Ele também teria milhões de cidadãos dispostos a aceitar as redes incrivelmente poderosas de controle e vigilância corporativa.

O político-artista do futuro não vai se aninhar na aura antiquada de Wagner e Nietzsche. É mais provável que ele busque inspiração nos mitos recém-criados da cultura popular. O arquétipo da criança ordinária que descobre ter poderes extraordinários é conhecido dos quadrinhos e filmes de super-herói e brinca com o sentimento adolescente de algo está profundamente errado com o mundo e basta uma arma mágica para quebrar o encanto. Com um só golpe, o outsider invisível assume uma posição de supremacia numa batalha de puro bem contra puro mal. Para a maioria das pessoas, essas histórias são só fantasia, só um meio de embelezar a vida cotidiana. Mas pode ser que, um dia, um sonhador insensível, um solitário com uma “vaga noção de estar reservado para algo melhor” pode tentar transformar a metáfora em realidade. Ele pode estar por aí agora mesmo, encapuzado pela luz azulada de uma tela de computador, esperando, pronto para começar.

Embora seja rítico musical da revista The New Yorker desde 1996, ALEX ROSS não escreve sobre música clássica e não sobre a cultura por trás da ascensão do nazismo. Ele é autor de dois livros: The Rest is Noise, uma história cultural da música do século XX e Listen to This, coletânea de seus ensaios sobre música. Jornalista cultural premiado várias vezes, Ross está trabalhando em Wagnerism, obra que vai investigar o impacto cultural do compositor alemão Richard Wagner.

Ditadura Militar: corrupção e falso moralismo

Um dos maiores mitos contados pelos falsos moralistas da direita brasileira é de que na época da ditadura militar-empresarial não havia corrupção, pois supostamente a educação rígida do militarismo impedia esse mal e vários outros que atentavam contra a “moral e os bons costumes“. 

A Comissão Geral de Investigações (CGI) foi o principal órgão de combate a corrupção na época da ditadura [1]. Ela foi criada durante o governo do Castelo Branco visando combater esse tipo de ato ilícito, que, segundo ele, era pior e mais grave do que a subversão revolucionária. No entanto, apesar de tal órgão ter sido criado e endurecido com O AI-5, devemos sempre lembrar que, dentro de uma sociedade dividida em classes, seja ela militar ou civil, determinados interesses são priorizados pelos grupos da classe dominante. Na época da ditadura militar brasileira não foi diferente. Nesse sentido, a CGI era extremamente seletiva com relação a quem investigava e culpava. 

Processos contra Antonio Carlos Magalhães e José Sarney, por exemplo, foram arquivados sem sequer serem investigados; no entanto, no processo contra Brizola houve uma extensa quebra de privacidade do mesmo, que teve suas declarações de bens investigadas desde 1959, além de ter seu sigilo bancário revogado e seus imóveis verificados [2]. Apesar disso, não foi encontrado nada contra ele. As suspeitas de ilicitudes com relação aos militares sequer eram encaminhadas para o CGI, mas sim para comissões próprias de investigação das forças armadas, que não permitia o acesso do andamento das investigações e de suas respectivas conclusões.

Apesar disso, vários casos de corrupção e irregularidades são verificáveis na época da ditadura. O superfaturamento da ferrovia do aço [3] e os desvios de dinheiro público para a construção da rodovia transamazônica [4] são exemplos, mas também podem ser citadas as diversas vantagens que as empreiteiras da época recebiam ao concederem favorecimentos aos governantes (isso não é algo próprio dos escândalos dos últimos anos, é bem mais antigo do que se costuma divulgar).

O historiador Pedro Henrique Pedreira possui um livro direcionado especificamente para a relação entre as empreiteiras e o regime militar, o qual se chama “Estranhas Catedrais – As Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar“. Empreiteiras como a Andrade Gutierres, Odebretch, dentre outras, foram extremamente beneficiadas principalmente durante os anos 70, época em que elas mais cresceram e se tornaram potencias nacionais [5]. Os mecanismos de fiscalização e divulgação eram extremamente frágeis e, portanto, essa dinâmica ilícita pouco foi denunciada na época.

Esses e diversos outros casos, que podem ser conferidos nas referências, eram ocultados em função da autocracia inerente ao regime. Foi por conta dela que juízes corrompidos legitimaram processos bizarros e perícias mentirosas, que médicos fraudaram autopsias e faziam vistas grossas para sinais de torturas, que militares como o Delegado Fleury e o Capitão Aílton Guimarães Jorge [6], dentre diversos outros, agiam criminalmente e não eram punidos, bem como é em virtude da autocracia referida que não havia liberdade para investigar, denunciar e divulgar todas as sujeiras da época.

Referências:

[1] Comissão Geral de Investigações. Disponível em: http://dibrarq.arquivonacional.gov.br/index.php/comissao-geral-de-investigacoes

[2] Revista ABRIL. Mito: “na época da Ditadura Militar, não tinha corrupção”. Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/mito-na-epoca-da-ditadura-militar-nao-tinha-corrupcao/

[3] EM. Ferrovia do Aço é símbolo do desperdício e das obras inacabadas em Minas. Disponível: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/02/25/interna_politica,352743/ferrovia-do-aco-e-simbolo-do-desperdicio-e-das-obras-inacabadas-em-minas.shtml

[4] Globo News. Projeto polêmico, Transamazônica faz 40 anos sem ter sido concluída. Disponível em: http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2014/02/projeto-polemico-transamazonica-faz-40-anos-sem-nunca-ter-sido-concluida.html

[5] Revista ABRIL. Ditadura militar enriqueceu grandes empreiteiras. Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/ditadura-militar-enriqueceu-grandes-empreiteiras/

[6] Portal UOL. Conheça das histórias de corrupção durante a ditadura militar. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm

Sobre verdades relativas e absolutas

Muito se pergunta: “Existem verdades absolutas?” E esse questionamento abre a possibilidade de diversas respostas com variadas formas de interpretação da realidade. Aqui, apresentaremos essa questão partindo do ponto de vista materialista marxista.

Primeiro devemos compreender o que é ‘verdade’. Verdade é simplesmente aquilo que é real, ou seja, que existe enquanto tal, tem sua própria quantidade de presença na existência. Uma cadeira é real, não à toa que podemos experienciá-la com nossas sensações. Desse modo, o primeiro pilar da verdade é que ela não pode ser um conceito vazio, não pode ser “verdade” por si só enquanto uma palavra constituída por símbolos linguísticos e que pode ser proferida verbalmente. A verdade sempre é “a verdade de”, como “a verdade da cadeira”, “a verdade do livro”, “a verdade da casa” etc. E, portanto, nada mais é do que uma definição para indicar algo que existe.

Muitos acreditam que a verdade absoluta não existe e que toda verdade é relativa. O grande problema não é considerar a verdade como relativa, mas sim confundi-la com relativismo, tal como os sofistas acreditavam, ao submeterem a constatação daquilo que é verdadeiro à um mero jogo de palavras — no sentido de que o convencimento através da retórica é a única verdade que pode de fato existir. Porém, a verdade não pode ser reduzida ao relativismo, pois como mostrado, ela existe por si só. A diferença entre o relativismo e a verdade relativa é que o primeiro não reconhece a objetividade das coisas, enquanto a segunda reconhece; ou seja, todo o peso ontológico da verdade (isto é, da verdade em si) é rechaçado e a mesma se torna uma simples abstração da mente dos indivíduos, o que revoga “a verdade de” e se transforma na subjetiva e vazia “verdade”. Mas afinal, o que exatamente é verdade relativa?

A verdade relativa nada mais é do que aquela verdade que é relativa a algo. Ou seja, algo só pode ser tomado como verdade em determinadas condições bem estabelecidas que possibilitam a existência daquilo que é verdade. Podemos afirmar, usando a etiologia aristotélica (isto é, do estudo das causas), que a cadeira é verdade, por exemplo, relativa às suas quatro causas (causa material, causa formal, causa eficiente e causa final), ou seja, sem que exista a matéria que a constitui, a forma que recebe, o objetivo pela qual foi feita e a entidade que a fez, ela não poderia ser como é, pois jamais existiriam as causas de sua existência, que nada mais é do que o resultado dos efeitos gerados pelas mesmas. Dessa forma, a concepção de causalidade é fundamental para dar uma relatividade à verdade, sem incorrer num relativismo, e para ainda assim constatar sua objetividade própria.

No entanto, pode-se pensar “Ora, mas e a verdade absoluta? Você até agora só explicou o que é e o que não é a verdade relativa“. De fato, sobre a relatividade da verdade há um consenso, mesmo que consideremos a definição que os relativistas dão. Nesse sentido, a verdade absoluta existe? A resposta pode parecer mais simples do que parece. Ora, se foi afirmado que a relatividade da verdade não é o mesmo que relativismo justamente porque ela se refere a uma objetividade própria e particular, então evidentemente que ela existe. A verdade absoluta nada mais é do que o caráter próprio que cada coisa do real assume tendo como base nas quatro causas. O problema é que assim como se confunde relativismo com relativo a algo, se confunde também algo absoluto com algo imutável. De fato, dependendo do ponto de vista, podemos igualar algo que é absoluto com algo que é imutável, pois o absoluto também pode concernir ao eterno, ao que não é transitório, como seria Deus. No entanto, é muito superficial visualizar apenas dessa forma, pois absoluto também é algo completo, acabado, pleno. O “completo” não quer dizer sem movimento ou eterno, mas sim simplesmente que, para aquilo ser o que é, objetividade que esse algo possui, engendrada pelas quatro causas, é o suficiente para isso. A cadeira, por exemplo, pode ser destruída, pode ser reestruturada em outro objeto alterando certas condições que constituem a mesma e o simples processo de deterioração inerente ao movimento temporal irá mudá-la gradativamente, no entanto ela jamais deixará de ser cadeira por causa disso, pois se ela receber os mesmos elementos essenciais que a faz ser chamada de “cadeira”, não de “banco”, “madeira”, ou qualquer outra coisa, poderá ser novamente cadeira, mesmo que isso implique na construção de outros “objetos-cadeiras”.

Nesse sentido, a verdade absoluta não só existe, como ela deve se interconectar numa relação irrevogável com a verdade relativa, pois ambas fazem parte de um mesmo universo, apenas se distinguem pelos processos que representam dentro de cada objeto. Se, por um lado, toda verdade relativa sempre tem de resultar em algo, já que a relatividade é sempre relatividade de algo, toda verdade absoluta sempre tem de ser relativa a algo. Nesse sentido, a existência não faria nenhum sentido se houvessem apenas as condições, apenas aquilo que constitui, sem que aquilo que fosse constituído existisse. É inconcebível acreditar que podemos alterar a realidade com as quatro causas sem que ela adquira alguma objetividade específica, mesmo que esta não seja nomeada especificamente e seja chamada de “informe”, até porque o próprio informe é o que é por não ser nada em específico, ou seja, existem condições que o torna desse modo, caótico em sua essência. Por outro lado, também é igualmente inconcebível pensar em algo já existente, em seu modo de ser específico, sem que consideremos as condições que a torna tal como é, como o próprio “informe” que é como é por não ser algo específico nomeado por nós, ser simplesmente caos sem forma.

É por isso que Lukács faz questão de definir a realidade como “complexo de complexos”, ou seja, constituída por complexos globais e parciais de diferentes naturezas e ocupando diversas posições hierárquicas dentro dos complexos. Ela não pode ser reduzida nem à verdades relativas e nem à verdades absolutas, mas, sim, só pode ser compreendida profundamente quando entendemos a unidade entre ambas e no modo como se manifestam e se articulam nos vários objetos da existência.

A doença quântica da modernidade

A física quântica, ao surgir dentro do espaço científico, abriu novas possibilidades não só para a compreensão da realidade, mas para a transformação da mesma. Entretanto, como ela não está desarticulada das relações sociais capitalistas e, portanto, é permeada pelos condicionamentos correspondentes às mesmas, é muito utilizada para fins diferentes de sua importância e magnitude enquanto a parte da física que estuda o mundo atômico e subatômico.

É bem comum encontrarmos links na internet de livros, palestras etc tentando, de alguma forma, relacionar a física quântica aos mais diversos assuntos, como dinheiro, felicidade, sucesso, dentre outros elementos associados ao conceito de prosperidade. Daí surgem os “coachs quânticos“, que apresentam fórmulas que prometem a realização pessoal, os “terapeutas quânticos”, com seus métodos psicológicos de harmonização com o universo, e outras formas que manifestam o modo como a física quântica é considerada em nossa sociedade hoje. Porém, por que algo tão revolucionário e inovador está sendo utilizado de uma forma tão vulgar e arbitrária? Partindo dessa pergunta, dois componentes são fundamentais para entender como isso acontece: (1) A tendência do ser humano em criar concepções misticas e metafísicas para aquilo que não pode explicar e (2) o núcleo que rege a sociedade capitalista, que é o lucro.

(1) Sobre a tendência humana dita acima, ela pode ser conferida desde os primórdios da humanidade. É interessante observar que, a medida em que o homem conhece mais e detém um poder transformador maior sobre a realidade, as concepções dessa natureza se tornam menos presentes e estranhas. Basta lembrarmos do conteúdo das mitologias da antiguidade e do modo como eram concebidas a partir de formulações fantasiosas e que refletiam a criatividade humana para criar história e personagens, e da mudança radical que houve quando surge a filosofia que, apesar de ainda ter mantido diversos elementos da mitologia (como o platonismo, que comporta elementos do orfismo), se tornou um conhecimento rigorosamente mais racional e voltado para os aspectos próprios da realidade, incluindo do próprio ser humano. É algo que foi se tornando cada vez mais lógico, científico e sistemático ao longo da história. No período greco-medieval, que compreende desde os pré-socráticos até os filósofos da baixa idade média, houve um predomínio notável das concepções metafísicas sobre a própria razão, apesar da segunda, obviamente, ter sido um instrumento muito importante para as construções dos sistemas de tais filósofos. Com o surgimento da idade moderna, com as revoluções industrias, renascimento, revolução francesa, iluminismo etc, a razão humana se torna mais valorizada do que os construtos transcendentais, e então a ciência passa a exercer papel mais dominante no conhecimento humano. Porém, as concepções de teor metafísico não cessaram de existir no mundo, pois ainda existem muitas coisas do universo que o ser humano não explica. Com base nisso, a física quântica, sendo uma nova acepção de mundo que abarca diversos aspectos que estão para além da física clássica, foi apropriada pelos representantes do misticismo ainda existente, só que agora, em função das novas condições históricas, o mesmo se traveste de “ciência” justamente por usar de forma oportunista a “nova física”, se aproveitando dela por revelar uma dimensão ainda pouco explorada da realidade (o mundo quântico) e portanto pouco conhecida pela sociedade em geral. Por isso é muito mais fácil de ver os misticistas usando Heisenberg e Schrödinger para tentarem justificar o irracionalismo de suas construções, em vez de Darwin (que apesar de não ser físico, se encaixa no contexto) e Newton, por exemplo.

(2) Nesse sentido, chegamos ao segundo componente, que é o fato da sociedade contemporânea se basear no lucro. Como foi mostrado, o ser humano tende a imaginar criativamente sobre aquilo que não conhece enquanto tal, porém, há também esse imaginário no contexto das próprias dinâmicas da sociedade em que os indivíduos vivem, nesse caso, o capitalismo. Por conta de seu modus operandi, isto é, seu modo de funcionamento, ser direcionado para a acumulação do capital, através da desigualdade e da exploração, muitas pessoas se sentem impotentes frente a sua própria condição social dentro dessa sociedade e, por conta disso, transferem sua confiança à forças misticistas na esperança de que vão ascender socialmente porque estão pensando positivo, com boas vibrações etc.

Assim, em virtude dessa procura pela ascensão social, emergem diversos oportunistas disfarçados de “salvadores”, oferecendo os mais diversos métodos para o alcance da prosperidade. Utilizam principalmente da física quântica para legitimarem suas criações fantásticas como “científicas”. Com base nisso, atraem muitas pessoas cativadas pela retórica convincente de que possuem e ganham muito dinheiro com isso, justamente pela demanda da prosperidade ser muito alta e ser inalcançável para todos, já que, como sabemos, não há como todos serem ricos em uma sociedade. A riqueza exacerbada de uma pessoa significa a miséria de muitos, pois a mesma sempre é obtida através da exploração das camadas oprimidas. Surgem assim os “terapeutas quânticos”, os “coachs quânticos”, dentre outras terminologias criadas por indivíduos que se realizam pessoalmente se fundamentando na própria procura de realização pessoal de outras milhares de pessoas.

A partir dessas duas bases é que se funda o moderno misticismo, que por sua vez só pode se sustentar porque o próprio capitalismo é misticista, isto é, que possui mecanismos ideológicos e culturais para a ocultação e inversão da realidade, de modo que a ordem do capital possa ser perpetuada e desenvolvida. Por essas razões que mesmo os físicos, que possuem autoridade o suficiente para esclarecerem o quão errada é a interpretação misticista referente à física quântica, não conseguem reverter esse processo, pois está enraizado estruturalmente no interior do edifício social contemporâneo.

Mostra análise estatística: Não há evidência de fraude ou irregularidade nas eleições bolivianas

Matéria original aqui

Washington, DC – A análise estatística dos retornos e folhas de registro das eleições das eleições da Bolívia em 20 de outubro não mostra evidências de que irregularidades ou fraudes tenham afetado o resultado oficial que deu ao Presidente Evo Morales é uma vitória da primeira rodada, dizem pesquisadores e analistas do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR). Ao contrário de uma narrativa pós-eleitoral que foi apoiada, sem evidências, pela Missão de Observação Eleitoral da OEA, a análise estatística mostra que era previsível que Morales obteria uma vitória no primeiro turno, com base nos resultados dos primeiros 83,85 por cento dos votos em uma rápida votação. contagem que mostrou Morales liderando o vice-campeão Carlos Mesa por menos de 10 pontos.

O novo artigo, “ O que aconteceu na contagem de votos da Bolívia em 2019? O papel da missão de observação eleitoral da OEA ”apresenta um detalhamento passo a passo do que aconteceu com a contagem de votos da Bolívia (tanto a contagem rápida não oficial quanto a contagem oficial mais lenta), buscando dissipar a confusão sobre o processo. O relatório inclui os resultados de 500 simulações que mostram que a vitória de Morales no primeiro turno não era apenas possível, mas provável, com base nos resultados dos 83,85% dos votos iniciais na contagem rápida.

“Simplesmente não há base estatística ou probatória para contestar os resultados da contagem de votos, mostrando que Evo Morales venceu no primeiro turno”, analista sênior de política do CEPR e co-autor do artigo, Guillaume Longdisse. “No final, a contagem oficial, juridicamente vinculativa e completamente transparente, com as fichas de registro disponíveis on-line, coincidiu com os resultados da contagem rápida.”

Mark Weisbrot , co-diretor do CEPR, observou que era muito incomum e altamente questionável, para a OEA emitir uma declaração à imprensa questionando os resultados das eleições sem fornecer nenhuma evidência para fazê-lo. Ele observou que o relatório preliminar da OEA sobre as eleições também não forneceu evidências de que havia algo errado com a contagem de votos.

“O comunicado de imprensa da OEA de 21 de outubro e seu relatório preliminar sobre as eleições bolivianas levantam questões perturbadoras sobre o compromisso da organização com observação eleitoral imparcial, profissional e”, disse Weisbrot. “A OEA deve investigar para descobrir como essas declarações, que podem ter contribuído para o conflito político na Bolívia, foram feitas sem nenhuma evidência.”

O artigo verifica que as tendências históricas de votação a favor de Morales nas áreas de pesquisas posteriores explicam por que a diferença entre Morales e Mesa aumentaram com a contagem dos votos, terminando com um resultado oficial que colocou Morales à frente de Mesa em 10,57 pontos.

O documento também mostra que as respectivas tendências de votação para Morales e Mesa eram consistentes, contrariamente às declarações anteriores da OEA após a eleição: “Nem a contagem rápida nem a contagem oficial exibem mudanças repentinas nas tendências nos resultados finais, e a mesma tendência bem conhecida , explicável pela geografia, é evidente em ambos os aspectos. ”

“ Encorajamos qualquer pessoa interessada no que aconteceu nas eleições da Bolívia a fazer seu próprio exame das folhas de registro e sua própria análise estatística ”, disse Long. “Espero que a missão eleitoral da OEA faça isso. Mas também precisamos lembrar que uma missão eleitoral da OEA derrubou os resultados das eleições no Haiti em 2011 sem nenhuma base estatística ou outra para fazê-lo. ”

Lula foi solto: e agora?

O ex-presidente Lula, que estava preso por conta do caso do Triplex, teve seu alvará de soltura expedido hoje, por conta de uma decisão do STF em considerar culpados apenas aqueles que estão na fase “Trânsito Em Julgado“, que é quando não cabe mais recursos.

Nesse sentido, emergiu em massa uma grande euforia e entusiasmo por parte da esquerda porque a pauta “Lula Livre” foi concretizada (pelo menos por enquanto). No entanto, a pergunta principal é: Com Lula solto, como o cenário do país irá se desenrolar daqui pra frente? A resposta para isso, de acordo com uma perspectiva marxista, pode ser decepcionante para muitos, mas também uma tendência inegável para outros. A questão principal é compreender que a soltura de Lula, diferente das expectativas que estão sendo impostas, não irá resolver os problemas do país com relação ao domínio do conservadorismo e neoliberalismo. Isso porque — apesar de Lula estar indicando que o objetivo principal dele é uma reestruturação na oposição — caso não haja uma autocrítica radical e uma mudança na organização e programática do PT dessa mesma natureza (o que dificilmente vai acontecer), os mesmos erros serão cometidos e o máximo que pode ocorrer é um enfraquecimento parcial do governo Bolsonaro, mas nada que concretize algo realmente significativo para o futuro do Brasil.

É bom acentuar que sua soltura, primeiramente, foi determinada pelo próprio poder judiciário, por um setor do Estado Burguês. Isso mostra que a burguesia não é um todo uniformizado que tem os mesmos interesses, mas que dentro de si própria pode ser conflituosa em função de interesses distintos mais imediatos e diretos, apesar do objetivo principal ser o mesmo, que é o de fazer a manutenção do lucro para a conservação da ordem capitalista. Assim sendo, não foi a pressão da base popular que levou a libertação de Lula, pois se realmente fosse, o que permitiu a soltura dele não abriria precedentes para a soltura de outros diversos elementos, vários deles extremamente corruptos. É por esse motivo que a saída dele propriamente dita não representou nada de extraordinário, apenas uma mudança de mecanismo na forma de lidar com certos processos penais da justiça burguesa. Isso ocorreu porque as circunstâncias que a totalidade da classe dominante tinha de se defrontar desapareceu, isto é, uma possível eleição de Lula em 2018, que, caso acontecesse, dificilmente permitiria que o entreguismo neoliberal do governo atual fosse da intensidade que os grupos dominantes desejam.

O que com toda certeza irá ocorrer é um aguçamento dos conflitos entre a “direita” e a “esquerda”, pois esse fato terá uma grande repercussão ideológica e consequentemente prática, o que evidentemente causará (e já está causando) um abalo muito grande tanto naqueles que estava sendo sufocados organizacionalmente com a prisão do Lula, quanto naqueles que são anti-petistas e estavam se regojizando com o fato do mesmo estar preso. No entanto, como não podemos nos limitar apenas a isso, devemos considerar o cenário global e não apenas o nacional, isto é, a crise que permeia o sistema global do capital, não apenas o que ocorre aqui dentro. Tal como explica Mészáros, o capital entrou na sua fase de maturação (tal como o escravismo e o feudalismo também entraram em determinado período) e portanto ativou seus limites máximos. Nesse sentido, os problemas como o desemprego, a informalidade, a superprodução, o aumento da extrema pobreza, dentre outros fatores, são uma tendência não apenas no Brasil, mas no mundo todo.

Sendo assim, a qualidade dessa crise vai para muito além do que o Lula pode fazer dentro do que ele já mostrou ideologicamente. É uma ilusão ter a esperança de que o ex-presidente, com uma mesma dinâmica governamental que teve nos seus dois mandatos, baseadas em políticas compensatórias para os trabalhadores e na manutenção do exorbitante lucro para a burguesia, será capaz de “salvar a pátria”. Porém, isso é ir muito longe, só que indo a fundo no que está dentro das possibilidades dele atualmente, isto é, uma reorganização da esquerda no sentido de fortificá-la para combater o reacionarismo vigente, ainda assim podemos observar uma mesma perspectiva ilusória por parte dos reformistas, que pelo saudosismo e emocionalismo, estão considerando ainda em suas bases uma programática neodesenvolvimentista para tentar superar os problemas da crise brasileira.

A questão fundamental, desse modo, não é negar que Lula foi preso injustamente ou que o governo dele trouxe benefícios para a classe trabalhadora, mas sim lembrar de que o cenário daquela época não é o mesmo da atualidade e que, mesmo com os “pontos positivos” do governo dele, muitas questões típicas de uma nação capitalista semi-colonial e periférica (ausência de reforma agrária, beneficiamento dos banqueiros e latifundiários, falta de desenvolvimento de uma indústria nacional de alto valor agregado, domínio das multinacionais etc) ficaram completamente intocadas.

O “toque” que esse texto quer dar é para que não haja uma uma grande expectativa sobre o que Lula e o reformismo podem fazer para o país, pois independente do que seja, se estiver no interior desses limites, será ineficiente e estará longe de derrubar as condições negativas e contraditórias que são parte constitutiva da crise brasileira e da estagnação global.

O cinismo de Paulo Guedes e o pecado original

Por Kayque Souza

Quando Marx decide mostrar o capitalismo surgindo na história a partir de um processo de acumulação primitiva no qual expropria camponeses, servos, a igreja, etc, além de passar a limpo a ideia de um progresso na história ou de uma universalidade de interesses humanos que teriam um “acordo comum”, ele também passa a limpo a versão abstrata e quase mítica do pecado original, só que não do ponto de vista da teologia, mas da economia, não tendo a origem da corrupção, mas da pobreza. A alegoria se desenvolve mais ou menos assim:

Se na teologia Adão comeu o fruto proibido e por isso o homem foi condenado a viver do próprio suor para se alimentar, na economia algo parecido acontece. O bom burguês, ou a elite laboriosa, absteve-se do consumo imediato, guardou ou poupou parte do que rendia em seu trabalho e como prêmio acabou acumulando cada vez mais e, por essa acumulação, a sua riqueza aparece a ponto de não necessitar tanto trabalho ou trabalho algum diante do tanto acumulado, havendo a possibilidade de delegar estas tarefas a outros; esses outros, as quais as tarefas são delegadas, são pressupostos como sujeitos que não têm possibilidade alguma de sobreviver a não ser se vendendo enquanto força de trabalho.

Mas, para que cheguem a essa condição, algo foi necessário ocorrer. Este algo que a versão econômica do pecado original conta é que estes outros, ou “súcia de vagabundos”, como diz Marx, de forma mais escrachada a despeito de tradução ou edição, não se torna despossuída por razão nenhuma a não ser pelo fato de ter consumido tudo de maneira desenfreada, da forma mais animalesca possível até esgotar tudo. O pecado deste é uma radicalização da versão bíblica. Se por um lado comer do fruto proibido condenou Adão e os homens, por outro, o consumo desenfreado reduziu os produtos dos seus trabalhos a nada, e os condenou a miséria a não ser que se vendessem aos heróis burgueses que se deram ao trabalho de poupar seu consumo.

Assim o cenário está pintado. O dono do capital só é dono do capital porque ao invés de consumir, capitalizou; e o trabalhador consumiu tudo e por isso não enriqueceu. Ou como diria nosso excelentíssimo ministro e açougueiro: ‘‘Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo”. Toda a história da economia-política se desenvolve em cima deste mito. Mas Marx, fazendo o papel do historiador que nada contra a corrente, escova a história a contrapelo, mostra que não é este conto da teologia adaptado ao mundo dos homens ou as escolhas de vida mal feitas que deixaram ao trabalhador essa condição de mero consumo desenfreado. Foi a pilhagem, os assassinatos, as expropriações e o horror que tiveram um papel fundamental. O trabalhador torna-se trabalhador pois ele é literalmente forçado a isso, saqueado, despossuído, liberto de tudo a não ser da própria pele para ser vendida enquanto força de trabalho.

A sua força de trabalho é sua sobrevivência e o salário é a verdade disso e, segundo sua lógica, somente paga a própria sobrevivência. Não é de assustar que o trabalhador consuma tudo, já que o seu ganho é justamente para sobreviver e, no dia seguinte, repetir o maçante processo de trabalho. A poupança torna-se impossível e toda a vida torna-se um jogo de cartas marcadas. O que nos causa revolta, porém, é que a versão fantasiada revisitada da religião, passada para a economia-política do pecado original se repete como a farsa do capitalismo que, na figura do capitalista, acumula de forma cega e, por isso, não enxerga os limites.

Nós sabemos que o horror do trabalhador e de quem é oprimido todos os dias é na verdade a própria realidade deste, a sua expropriação, o seu assassinato, o seu saqueamento. Essas palavras tornam-se o belo discurso na boca de Guedes e retornam no nosso tempo, pois a Ideologia se radicaliza tanto a ponto de perder a mão no cinismo que lhe acompanha, e o choque no qual este horror causa aos trabalhadores torna-os uma massa desorientada enquanto o rolo compressor os esmaga. Estas palavras só podem ser repetidas como farsa sob esta condição, a da naturalização do cinismo vindo da ideologia radical de um capitalismo que não enxerga limite algum.

Ao mesmo tempo em que reproduz a sua própria (des)ordem, a convulsão do próprio sistema é criada a partir dele mesmo e, como diria Marx: A hora derradeira da propriedade privada capitalista chega onde os expropriadores serão expropriados e os propagadores do horror estarão horrorizados com a sua queda produzida vinda de si mesmo. O convite está aberto e anuncia-se o tempo todo. E esta é a urgência do nosso tempo que nos berra dia após dia, mas não exigindo uma liberação de pura negatividade, mas a objetividade dos anseios por uma libertação que se possibilita todo tempo e a cada disparate destes senhores, que por ter o monopólio do horror julgam-se inatingíveis, mas mal sabem que dão a possibilidade da sua derrocada que precisa ganhar forma, já que seu potencial negativo está aí.

O Pacifismo é anti-pacífico: e mata

O título do texto pode parecer estranho e, a primeira vista, a afirmação parece logicamente impossível, já que defender o pacifismo supostamente significa ser a favor de um mundo pacífico. Nesse sentido, é necessário esclarecer qual o real sentido da afirmação em questão.

O pacifismo é, antes de mais nada, um moralismo. Mas o quê exatamente é “Moralismo”? Em geral, a ideia comum com relação a tal conceito é de que ele é essencialmente conservador (no sentido de que remete à valores religiosos, da família tradicional ou que defende o passado num quadro geral), entretanto, o moralismo também pode ser considerado progressista, que é uma tendência mais à esquerda do reformismo e pós-modernismo. Porém, o moralismo em si significa uma formação moral exercida por indivíduos (os moralistas) que têm um viés irrefletido e abstrato. Isso quer dizer que “O moralista é uma pessoa que segue cegamente (e discursivamente) a moral e exige que todas as pessoas sigam os mesmos passos” [1], o que o torna dogmático.

Assim, o pacifismo é um moralismo porque é uma concepção que prega a pacificidade acima de tudo e que normalmente ignora as complexidades das circunstâncias historicamente determinadas. No interior do moralismo, inclusive do pacifismo, a frase “os fins justificam os meios” faz pouco sentido, apenas em casos bastante excepcionais e geralmente de teor individual. No caso do pacifismo, isso poderia ser exemplificado em uma reação violenta à um assalto para salvar alguém ou para o próprio indivíduo que reagiu se salvar. Porém, a tendência universal é a de construir princípios fundamentados em si mesmos, que pairam no ar como valores incontestáveis e que, na visão do moralista, devem ser aplicados por todos e em tudo.

A redescoberta marxiana da primazia ontológica na ordem do conhecimento e da existência (sim, essa parte parece difícil, de forma simplificada quer dizer: onde o objeto conhecido/transformado tem prioridade sobre o indivíduo que o conhece/transforma, porque existe antes dele e tem características próprias, que independem do indivíduo) afasta qualquer possibilidade do marxismo criar preconceitos moralistas, que por sua vez rechaçam as condições históricas e muitas vezes se pautam em fundamentações metafísicas (como as ideias religiosas, por exemplo). Sendo o marxismo autêntico rigorosamente materialista em suas análises sociais, nenhum juízo de valor pode ser precedido por um exame prévio das condições históricas. Isso não quer dizer que temos que começar do zero todas as análises, mas sim que, de acordo com as tendências universais já elucidadas por autores marxistas, há a necessidade de captar as especificidades próprias de cada contexto histórico. Essas “universalidades”, aliás, também são rigorosamente materialistas, ou seja, foram apreendidas não a partir de valores prescindidos de adequação histórica, mas sim em acordo com a própria essência da estrutura que gera essas universalidades.

Com o arcabouço estabelecido por esses autores, sobretudo por Marx e Engels, foram reveladas leis tendenciais não apenas da sociedade burguesa, que é a mais contemporânea e totalizante, mas da humanidade em geral. Uma dessas “leis” é a da revolução social. A revolução social deriva necessariamente de conflitos estabelecidos por grupos sociais antagônicos, sendo os principais deles as classes sociais. Desde o fim da era primitiva e com a deflagração das sociedades divididas em classes, sempre existiu o antagonismo entre classes opressoras e classes oprimidas, e como os interesses são distintos, lutas são realizadas até que haja a chegada de uma revolução social e que a mesma conduza para uma nova forma de sociedade. Isso comumente ocorreu tendo como base a transição de uma sociedade de classes para outra (como do feudalismo para o capitalismo), mas no caso da proposta de Marx, é fundamental que haja uma revolução social que conduza a humanidade para a supressão completa das classes sociais e de todas as contradições geradas por elas. Seria, desse modo, uma sociedade harmônica e onde os problemas atuais não existiriam, o que não quer dizer que esse seria o ponto máximo de evolução da humanidade e nem que eventuais problemas não pudessem surgir.

Dessa forma, o objetivo do marxismo é a construção de uma sociedade pacífica, mas o meio para isso é baseado nas revoluções, que são essencialmente violentas, como diz Marx:

“A revolução não é só necessária porque a classe dominante de nenhum outro modo pode ser derrubada, mas também porque a classe que a derruba só numa revolução consegue sacudir dos ombros toda a velha porcaria e tornar-se capaz de uma nova fundação da sociedade”. [2]

Aí que há uma diferença clara entre o pacifismo e uma sociedade pacífica. Os moralistas pacifistas negam veemente meios assim para a progressão social, pois os mesmos contradizem seus valores a-históricos e generalizados, e é por isso que desejam conservar a ordem vigente e apenas emendar certos aspectos aqui e ali. O principal erro dos que defendem isso deriva do a-historicismo que procede do moralismo, ou seja, são incapazes não só de compreenderem que julgamentos morais não podem vir antes de análises históricas, como também não compreendem que mudanças qualitativas e “radicais” são necessárias na história humana. A partir disso, se prendem na ilusão de que dá para manter o capitalismo para o futuro, bastando apenas torná-lo menos contraditório (daí saem bizarrices como “capitalismo ambientalista”, “consumo ético”, dentre outras concepções que visam resolver problemas sociais sem erradicar a estrutura que os mantém).

Para não tornar o texto mais longo ou cansativo, não haverá uma fundamentação mais minuciosa do porquê o capitalismo precisa ser suprimido, até porque a própria CPL tem diversos textos sobre isso e muitos leitores sabem que isso é necessário (apesar de muitos não quererem admitir). Porém, pelas próprias lições históricas e pela situação atual do mundo, já fica claro que uma revolução popular de caráter emancipatório se faz fundamental para a própria sobrevivência da espécie humana. Quantas crises financeiras ainda mais catastróficas do que a de 2008 precisarão para que os pacifistas compreendam isso? Quanta exploração ainda será promovida pelos países centrais nos países periféricos? Quantas florestas terão de ser queimadas e mares poluídos? Quantos terão de sofrer e morrer pela criminalidade, problemas mentais, opressão estatal e privada, dentre outros fenômenos típicos dessa sociedade doente e macabra, que objetifica e aliena o homem, fazendo dele uma máquina miserável e destinada para a manutenção do lucro? Por isso que a luz da teoria revolucionária e científica deve ser preconizada para que a humanidade sobreviva e evolua.

A força revolucionária não é um fim em si mesmo, como se houvesse o uso da violência gratuita e voltada para interesses egoístas; muito pelo contrário, ela apenas é o impulso necessário para que uma nova sociedade seja erguida. E é necessário porque os responsáveis pela sociedade contemporânea, que mantém a mesma funcionando, não iriam ceder as condições certas para tal objetivo, e portanto eles são o motivo principal que impede uma nova sociedade. Por isso o que deve mover o comunista não é um sentimento maquiavélico de destruição, mas sim uma consciência daquilo que é preciso para que o capital seja superado, o que infelizmente implica na destruição. Um exemplo claro disso na atualidade é o Chile, que apesar de não estar efetivamente num processo revolucionário, se encontra em um estado subversivo das massas populares, que lutam por seus direitos e contra a irracionalidade neoliberal. Sem as ações violentas que estão ocorrendo por lá, a mera pacificidade não iria resolver absolutamente nada.

Em resumo, o pacifismo é uma forma de legitimação mais sútil da estrutura em que nós estamos inseridos, e portanto  sua influência mistificadora é muito poderosa na totalidade social. Em aparência está de acordo com o progresso humano, mas em essência é só mais um dos fatores que impedem que isso ocorra. O pacifismo é supérfluo e inofensivo. Apenas o poder revolucionário, consciente e científico, pode conduzir a humanidade para um mundo verdadeiramente pacífico e desprovido das mazelas que existem.

Referências:

[1] VIANA, Nildo. Crítica ao Moralismo.

[2] MARX, Karl. A Ideologia Alemã.

Produção Humana: por um trabalho não-alienado

Por Pedro Nogarolli

[Este texto é a continuação/resolução do texto Propriedade privada e alienação]

Marx, em seus manuscritos de Paris, no capítulo “produção humana” faz a seguinte hipótese: suponha que produzíssemos como seres humanos, isto é, produzíssemos de forma não-alienada. Como isso seria? Em homologia direta ao trabalho alienado, partiremos para três aspectos desse trabalho não alienado:

• A relação do trabalhador com sua atividade.
• A relação do trabalhador com os frutos de seu trabalho.
• A relação do trabalhador consigo e com o outro.

1) Na minha produção, ao contemplar minhas criações, confirmaria minha própria personalidade como um poder real. Isso é, sentiria a felicidade de provar minha própria individualidade, ou aquilo que me faz especial no mundo.

2) No consumo do meu produto por outro, sentiria a alegria espiritual espontânea de saciar uma necessidade humana, de fornecer a outro aquilo que ele precisa.

3) Por último, eu seria reconhecido como complemento do seu ser, uma parte necessária da sua vida, portanto realizaria a mediação entre os indivíduos e o próprio gênero humano. Sintetizando tudo, temos: na manifestação da minha individualidade, me contemplando naquilo que me torna especial, ao mesmo tempo também me alegro por satisfazer uma necessidade humana e sirvo de realização da sua vida.

“Nossas produções seriam como que tantos espelhos que irradiariam a nossa essência entre nós”.

• Mas, sob a propriedade privada, o trabalho é alienação das nossas vidas, é um borrão nesses espelhos, pois o trabalho serve apenas de um meio para viver, e não como realização de nossas vidas. Meu trabalho não é minha vida. Além disso, o trabalho se tornou tão alienado que minha produção é detestável, uma causa de sofrimento, que me é imposta a força por uma casualidade, um constrangimento desnecessário. Meu trabalho sob a propriedade privada é a perda de mim mesmo.

Referência:

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm

RAP e Consciência de Classe

O rap, historicamente, é um estilo musical muito voltado para a crítica aos problemas sociais, como desigualdade, racismo, criminalidade etc. De fato, no início, ele foi criado para animar festas em bairros jamaicanos, contudo, já nessa mesma época, os chamados “toasters” (mestres de cerimônia dessas festas) já abordavam assuntos relacionados a problemas sociais.

Após a emigração de muitos jamaicanos para os EUA, devido a uma grave crise econômica e social que atingiu a Jamaica, o rap começou a se propagar nos EUA, e foi aí que os temas relacionados à pobreza e problemas sociais em geral se tornaram maioria dentre os compositores.

Como se sabe, o mundo está imerso em uma ordem societária extremamente exploratória e desigual, e, portanto, o rap nada mais é do que o reflexo dessa sociedade. Marx e outros autores comunistas já falavam que as ideias, de uma forma bem genérica, são reflexo das relações materiais existentes nas quais os indivíduos estão inseridos. Ou seja, as condições materiais da sociedade condicionam os indivíduos a pensarem e agirem de determinadas formas. E, incluso em uma dessas formas de pensar e agir, dentre outras várias espalhadas pela literatura, música, arte, e da cultura de uma forma geral, está o rap, que passa a ser a simbolização abstrata dessa sociedade no sentido crítico, isto é, passa a ser uma espécie de instrumento cultural e musical que relata o que há de pior na sociedade regida pela lógica reprodutiva do capital, mergulhada em contradições sociais.

Nos EUA, grupos e artistas autônomos de rap representavam nos anos 80/90 e representam até hoje essa manifestação muito bem, como Public Enemy, NWA, Wu Tang Clan etc. No resto do mundo também existem muitos artistas com conteúdos líricos voltados para problemas sociais, como Keny Arkana na França, Valete em Portugal, entre outros. De fato, há outros temas tratados no rap, porém, o que domina é o relacionado às mazelas sociais. No Brasil, também há muitos rappers e grupos que compõe letras associadas à violência, tráfico, pobreza etc, sendo o mais notório deles o Racionais MC’s, mas tendo também Facção Central, A286, RZO, Atitude Consciente, MPC 288, dentre vários outros.

Eduardo Taddeo (ex-Facção Central) e Mano Brown (Racionais MC’s)

Alguns desses grupos são extremamente “cruéis” e realistas em suas respectivas letras, como é o caso do grupo “Facção Central”, que chegou a ter o clipe “Isso aqui é uma Guerra” censurado há alguns anos atrás, acusado de fazer apologia ao crime, sendo que apenas mostrava artisticamente a sociedade tal como ela é nas favelas e em outras regiões onde impera a pobreza, fome e a falta de saúde e educação de qualidade. Um ex-integrante do grupo, Eduardo Taddeo, ao ser questionado em uma entrevista sobre o pouco investimento que há no rap periférico brasileiro, respondeu: “Representamos o perigo para o sistema. Nós estamos falando justamente aquilo que a sociedade não quer ouvir”. Ele também possui dois livros, “A Guerra Não Declarada Na Visão De Um Favelado” parte 1 e parte 2.

É evidente que esses rappers e grupos de rap não possuem muita notoriedade no campo midiático, visto que a mídia se configura como um dos principais instrumentos burgueses de dominação ideológica, já que para a burguesia manter sua ordem sócio-econômica e sua dominação de classe sobre os trabalhadores, precisa criar concepções de mundo que correspondam a tal mantimento, de modo que mistifique a realidade social e faça com que a população explorada fique anestesiada e inerte perante a sua própria exploração. Por conta disso músicas com letras vulgares e superficiais (não há a necessidade de citação de estilos musicais, já que isso é relativo, uma vez que praticamente todos os estilos, inclusive o rap, possuem músicas do tipo) são bem mais divulgadas do que letras críticas e profundas sobre a situação que o Brasil e o mundo se encontram há décadas.

Um exemplo disso é visto no interior do próprio rap. Nos últimos tempos se tornou um estilo musical mais conhecido simplesmente por ser constituído por rimas (que muitas vezes são vazias), flow e beat, como se congregar palavras semelhantes de diferentes significados, em uma música completamente desprovida de nexo e descontextualizada, representasse o que o rap é em sua essência. Ou seja, o rap, na maioria, apesar de ainda haver muitos rappers da época mais antiga, se tornou justamente um estilo musical que condiz com os interesses burgueses, no sentido de que não procura demonstrar através da música uma perspectiva crítica da sociedade regida pelos interesses dos grandes capitalistas, mesmo que indiretamente.

Atualmente muitos grupos de rap, com músicas extremamente realistas, são desconhecidos entre a população, mesmo que relatem de forma precisa e crítica a realidade social produto da lógica do capital. As mulheres também estão intensivamente presentes nesse gênero de rap, como o grupo “Atitude Feminina”, a “Karol Colombiana”, ex integrante do grupo “Realidade Cruel”, a já falecida “Dina Di”, considerada a maior rapper brasileira que já existiu, dentre várias outras. Infelizmente, também são igualmente ignoradas no cenário midiático, que é repleto de músicas que mais parecem uma espécie de patologia cultural.

Assim como há essas manifestações críticas da realidade social, há também aqueles que, além de serem críticos, possuem uma consciência de classe mais avançada, e propagam a superação do capitalismo, como no caso de Pablo Hasel, um rapper comunista espanhol que há alguns anos foi condenado a vários anos de prisão, acusado de enaltecer o terrorismo e fazer injúrias e calúnias contra as instituições burguesas. No Brasil, grupos como Gíria Vermelha, Ameaça Vermelha, Liberdade e Revolução etc, são exemplos de casos constituídos por marxistas conscientes do funcionamento da sociedade brasileira e do capital de uma forma geral. Obviamente, como foi comentado acima, poucas pessoas conhecem esse tipo de manifestação artística e artistas associados a mesma, visto que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. Assim, como o rap com essa qualidade musical expressa justamente o oposto dos interesses burgueses, acabam não sendo tão divulgados, pelo contrário, até combatidos.

Dessa maneira, o rap que exprime esse conteúdo lírico deve ser considerado um instrumento crítico e verdadeiro da realidade. Da mesma forma, deve ser visto como um conscientizador das massas oprimidas, contrapondo assim as concepções mistificadas das ideias burgueses, que sempre têm como objetivo último mascarar a luta de classes e a exploração inerente para a acumulação do capital por parte da classe reacionária dominante. Por fim, deixamos aqui algumas sugestões de músicas de grupos e rappers autônomos que demonstram a união de Rap e Consciência de Classe.

Arma da Crítica — Amarildos:
https://m.youtube.com/watch?v=n9pAZFVE1ZA

A286 — Enquanto houver motivo:
https://www.youtube.com/watch?v=qYvEwoBR64Q

Atitude Feminina — Dia de Finados:
https://www.youtube.com/watch?v=P4CddSfBNmI

MV Bill — Brado Retumbante:
https://www.youtube.com/watch?v=tM9vFzz8TI0

Liberdade e Revolução — Fim de Festa:
https://www.youtube.com/watch?v=PNLq5zmmMx0

Ameaça Vermelha — Resposta à Chacina de Pau D’Arco:
https://www.youtube.com/watch?v=z5e7muLMQPA

Gíria Vermelha — Não mais:
https://www.youtube.com/watch?v=mJFHTz1LY3Q

Eduardo — Substância Venenosa:
https://www.youtube.com/watch?v=CAE-_DPaG0E

Facção Central — Isso aqui é uma Guerra:
https://www.youtube.com/watch?v=dXbpOiEHQhA

Total Drama — Rato Cinza:
https://www.youtube.com/watch?v=DtLnayD1Q9g

Realidade Cruel — Censuras:
https://www.youtube.com/watch?v=0gpw-OOWGJA

Thiagão part. Atitude Consciente — Perigo Constante:
https://www.youtube.com/watch?v=4vDZAH9Ko2A